Coleção pessoal de michelfm

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[Une Chanson Pour la Fille]


Algo lhe disse,
Amanheceu pensamentos,
Habitou cromossomos
Por muitos períodos,
Temporadas inteiras.


Discursou sobre razões
Quando não possuía nenhuma,
Justificou-se, jorrando pretextos,
Argumentou dissertando,
Manuseando inquietudes.


Quis estabelecer parâmetros
Para o intangível,
Exaltando esquisitices peculiares,
Compreendia explicitamente
Interrogações que confundiriam
A maioria.


Une chanson pour la fille,
Le jardin des papillons,
La maison des papillons,
Les papillons et la fille.


Perspicaz ao portar um amontoado
De sensibilidades,
Alienava-se propositalmente,


Aliás, tua consciência,
Apresentava uma consistência
Autônoma, imune aos desvalores,
Isenta de desvalias.


Talvez e tão somente com tal incerteza,
Possa assegurar, não presenciei,
Nesta encarnação ao menos,


Alguém mais autossuficiente,
Rigorosamente verídica,
Autêntica, genuína.


Une chanson pour la fille,
Le jardin des papillons,
La maison des papillons,
Les papillons et la fille.


(Michel F.M. - Linha (Tênue) Rompida - Esplêndida Face Magnífica - 2013)

[Mensagem Fora da Garrafa]


O que é meu é para mim
e do teu quero um pouco,
vida estreita num segundo.


Ela se apresenta assim,
feita para alguém
e dedicada à todo mundo.


O que é seu é para ti
e do meu defeito louco,
a rudeza em tom imundo.


Invejo profundamente
pessoas que conseguem escrever
sobre a paz, em tempos de guerra,
Eu só consigo escrever
sobre a guerra,
mesmo em tempos de paz.


Tudo que se ganha é de grátis ?!
Não se engane,
o MUNDO está acabando,
Desde o princípio.


da pétala ao cabo,
só quero ser efêmero
como a flor,
porque ela pode acabar
e eu não ?!


Mas seja como for,
sei que um dia ainda me acabo,
Por aí.


O que é seu é para mim
e do teu não quero pouco,
há pureza num tom profundo.


O que é meu é para ti,
eis nosso defeito louco,
VIDA estreita num segundo.


Feita para alguém,
Ela se apresenta assim,
Dedicada à todo mundo.


(Michel F.M. - Pacífico em Brasas - Trilogia Mestre dos Pretextos - 2017)

[Ingrid, a Poderosa em Moletom]


Eletrificou-me a feição,
Feito as flechas furiosas
Que descendem dos céus,
Nas tempestades calorosas de verão.


No penteado, satisfação,
Musculatura facial num ar severo,
Descreveram historíolas,
Deixando o próprio Homero, no chinelo.


Ingrid,
Sucumbiu os pilares do paraíso,
Explodiu as aéreas quimeras etéreas,
Afundou-me nas garras do teu sorriso.


Hesitante, Zeus se prostra,
O mais sábio dentre os deuses,
Nada sabe; nesta mostra,
Está indeciso.


Hades abre com cautela,
Os portões do submundo,
Só pra vê-la desfilando,
Ao portar teus absurdos...


Aportando sem suspense,
A poderosa em moletom,
Enlouqueceria, o próprio,
Poseidon.


Ares, o pacifista,
Abandonou as estratégias,
Substituiu por ela,
O frenesi, na arte da guerra.


Ingrid,
Do paraíso extraiu os pilares,
Expandiu as etéreas manobras aéreas,
Arrebatou elogios aos milhares.


(Michel F.M. - Pacífico em Brasas - Trilogia Mestre dos Pretextos - 2017)

[Tinta que Fere em Frases Avulsas]


Apinhadas de impropriedades,
Minhas poucas impressões,
São expressamente inapropriadas.


Nada nos pertence, pertenceu, pertencerá,
Tudo ficará suspenso, sem receio dos divórcios,
Quando formos embora, de novo.


Só há o cheiro do mato cortado,
A garoa que bate na terra e molha,
Lavando a poeira sufocante que cega,
Deixando o mormaço que aquece as folhas.


Suor dos teus poros, borrando a escrita,
A Tinta que Fere em Frases Avulsas.


Tua dedicação afogada em pântano,
A lamuria insistente teu único canto.
E último.


Nessa persistente desistência,
Desistente persistência, desistiu de nós,
Ou será que nós desistimos dela.


Não há mais a quem recorrer,
Afinal, somos nós a decorrência.
E a isso se referia,
A estúpida e sábia profecia.


Suor dos teus poros borrando a escrita,
A Tinta que Fere em Frases Avulsas,
Histéricas, concretas, poéticas, precisas.


(Michel F.M. - Delírio Absoluto da Multidão Atônita - Trilogia Mestre dos Pretextos - 2016)

Manual Supérfluo
dos Conselhos (inúteis)
Indispensáveis

Às vésperas do outono
Só nos resta esperar,
Pelo inverno rigoroso
Que se impõe sem hesitar.

Às vésperas dos sonhos
Mirabolantes, irreais,
Pulsando vigorosos,
Irresistíveis e nada mais.

Às vésperas do encontro
Ansiedade a escancarar,
Dos teus lábios saborosos
Um labor que nos enlaça.

Às vésperas de tudo
Quando tudo conflitar,
Só declame poesias,
Para alguém e doe graça.

Dos teus lábios saborosos
Um labor que nos enlaça,
Só declame poesias
Para alguém e doe graça.

(Michel F.M. - Pacífico em Brasas - Trilogia Mestre dos Pretextos - 2017)

[Mechas de uma Gueixa]


Uma garota me foi comovente,
Era da terra do Sol Nascente,
Herdeira de um trono desde criança,
Hoje mulher renegava a herança,


Inconformada com tanta tristeza,
Ajudava os mais fracos, verdadeira nobreza.
Deixou o seu lar o Vale dos Samurais,
Mas levou em seus atos o amor de seus pais,


E nos campos rasteiros das tulipas puras,
Me envolvi com a gueixa das mechas escuras,


As lembranças que ela me deixa,
São as mechas de uma gueixa,
As lembranças que ela me deixa,
São suas mechas minha gueixa.


As colinas azuis não esquecerei,
O código de honra eu cumprirei,
Os riachos gelados me fortificaram,
As folhas secas me aqueceram,


Os olhos da gueixa me enfeitiçaram,
Seu sorriso e sua boca me converteram.
Os fogos das festas desenham no ar,
No Oriente pretendo estar,


Mas uma lacuna cresce dentro de mim,
O medo da gueixa nunca mais me encontrar.


As lembranças que ela me deixa,
São as mechas de uma gueixa,
As lembranças que ela me deixa,
São suas mechas minha gueixa.


Ela me levou até os confins,
Desde a muralha aos pequenos capins,
Ela me mostrou a força dos anciãos,


E jovens budistas ensinando cristãos,
Tanto as regras quanto as tradições,
Me ensinou a amar, transcender emoções.


As lembranças que ela me deixa,
São as mechas de uma gueixa,
As lembranças que ela me deixa,
São suas mechas minha gueixa.


(Michel F.M. - Áspera Seda: Volume Único - 2012)

[Entre Aliens e Unicórnios]


Surgimos de baixo da cama,
Por meio de lençóis e colchas,
Para além dos edredons,
Dos portais fabulantes,


De trás para frente,
De ponta cabeça, enfim,
Comece de novo,
Só comece novamente.


Remoendo a massada das rimas,
Bote o todo na betoneira dos poemas.


Você não quer que todo mundo entenda, não é ?!
Imagine como seria tedioso
Se todo mundo entendesse.
Mas não se aflija, pois não vão.


Para cá desta murada,
Não se vê tumulto, flagelos,
Nem filas ou reclamações,
As únicas interações são nossas
E para conosco,


Quando as nuvens do incômodo se aglutinam,
Despenca o toró, a torrente do alvoroço
E a alvorada nos enlaça saudosa.


Disseste que teu nome
Era diminutivo de lua,
Como recompensa te dedico
Esta soma empanada de estrofes.


Indissociável como estrógeno e progesterona,
Luara, o motivo inicial desta composição
Foi um tanto desvirtuado,


Mas considere o fato que registros efetuados
Tem como prêmio a posteridade,


Ficando assim estampado
Senão nas memórias pueris,
Ao menos em nossa comoção,
Deixemos todas as condições
E os bem feitos, serem como são.


Abandonados nos trópicos
Entre câncer e capricórnio,
Um humor sulfúrico para ti,
Vossa graciosidade se revela a sós.


Entre Aliens e Unicórnios,
Existem tantas teorias
Que não existem, por aí,
Mas que existem, para nós.


Ao menos em nossa comoção,
Deixemos todas as condições
E os bem feitos serem como são.


Serem
Como são,
Em nossa comoção.


(Michel F.M. - Pacífico em Brasas - Trilogia Mestre dos Pretextos - 2020)

Rima sobre Rima
(ou a Monografia Senil
de um Inovador Ultrapassado)


Do barulho infernal,
Ao brilho cegante,
Energia estridente,
Dissipada em instantes.


Nós somos as massas
E as minorias,
Saboreamos o bônus
E as consequências.


Fomos barbárie em harmonia,
Trouxemos uniformidade e conflitância.
Regamos os buquês floridos da melancolia,
Eufóricos desenfreados, anatomistas.


Portamos as causas e as epifanias.
Éforos da argumentação,
Baboseiras intimistas,
Infinitas.


Estratagemas, pilherias,
Ardis e trapaças,
Emboscadas, astucias,
Arapucas, ciladas.


Não fazemos ideia
Dos porquês,
Ocupamo-nos
Apenas, do aroma dos buquês.


Que restem penas,
Cheiros, perfumes, odores,
Penachos, farroupilhas.


Que restem arenas,
Termas, gladiadores,
Pomares, pantomimas.


Que seja esta nossa sina.
Que reste apenas,
Rima sobre Rima.


(Michel F.M. - Delírio Absoluto da Multidão Atônita - Trilogia Mestre dos Pretextos)

[Páginas Restritas]


Mofando num arquivo,
Mandamentos esboçados,
Teu altruísmo destrutivo,
Afastando os ajuntados.


O costume prejudicial,
Foi meu único aliado,
Neste impasse desigual,
Sou um ogro e seu cajado.


Ficaste com o todo,
E com as docilidades,
Sei que sou escroto,
Tu és a polpa das beldades.


As Páginas Restritas,
Nas quais te fixei,
São feitas de Renúncias,
Incontáveis que enfrentei.


Foste minha seiva,
Nutrindo o entusiasmo,
Até escoar num ralo,
Fétido de espasmos.


Pra mim restaram labaredas,
Poeira e carvão. E fui reduzido
Ao refrão de uma composição.


Eu fui os teus gravetos,
Foste meu combustível,
Queimamos o recato,
Na fogueira indefinível.


As Páginas Restritas,
Nas quais te fixei,
São feitas de Recusas,
Incontáveis que enfrentei.


Enfrento e enfrentaria,
Tudo o que enfrentei,
Pra ter as páginas restritas,
Nas quais te fixei.


(Michel F.M. - Conectatum - Esplêndida Face Magnífica)

[Cantigas para Ninar Lenhadores]


Salgada esperança,
Posta para secar,
As entranhas pra fora,
Embaladas nos cantos
Da cruel inocência.


Para ser proposital
Exigiria muito treino e precisão,
Mas a incisão que fizeste em minha alma,
Veio calma e causou frustração hemorrágica.


Lenhador distraído,
Sem machado ou madeira,
Não sei mais distinguir
Entre a presa e a teia.


Minha atitude enérgica
Diante de tua presença e expressão,
Se findou, afogando-se em teus afagos
Apertados, desonestos, ensaiados num tom ártico.


As entranhas pra fora,
Embaladas nos cantos
Da cruel inocência.
Posta para secar,
Vem salgada a esperança.


Lenhador decidido,
Sou machado em madeira,
Eu sou água do mar
Em teu castelo de areia.


(Michel F.M. - Pacífico em Brasas - Trilogia Mestre dos Pretextos - 2017)

[Discurso de Posse da Espécie Dominante]


Dedico esta Obra
A Raça humana.
E aos descendentes,
Que serão inocentes,
Até deixarem de ser.


(Michel F.M. - O Último Registro da Raça Humana)

[Grazi e os Paraísos Despedaçados]


Daquela parede anil,
Nos tons dum outro azul,
Qualquer que seja o som,
Me faz sentir você.


Tomadas desencapadas
Nos cômodos vazios,
Transtornos noite a fora
Fazem lembrar porquê.


Tomando decisões
Sem nenhum significado,
Tomara que saibamos
As consequências de saber.


Sacolas empilhadas,
Uma garrafa d'água
E a maçã caída.


A despreocupação
Foi sempre uma aliada,
À quem me aliei.


Teu óculos espelhado
Refletindo nosso totem,
A tua marcha atlética
Espalhando aquele pólen.


Grazi, nada foi planejado,
Paraísos despedaçados,
Eis aqui o nosso Éden.


(Michel F.M. - Pacífico em Brasas - Trilogia Mestre dos Pretextos - 2017)

[Habitantes do Ventrículo Esquerdo e o Manjar Diminuto em Banquete Gelado]


Como poeta era um ótimo filósofo
E como filósofo um ótimo poeta.
Isso significa dizer que nunca foi bom
Em nenhuma das duas coisas.


Mas a questão nunca foi ser bom
Em alguma coisa, a única questão
Que realmente importava, era ser.


Somente um rimante inescrupuloso
Pode especular estrofes
Sem receio de cair em prosa;


Um artífice premeditado da palavra,
Ou pós-ditado, aquele que diz,
Eis o ditador, um versenário,
Vil a cada oração;


Um expoeta que despétala, em camuflagem
Sorrateira, até ser lido e desferir o bote, certeiro,
Inflamado, fatal, injetando antídoto;


Um mero ente, alterado,
Que em algum súbito relance, havia tido o todo.


Então ele constata:
Um milhão e meio de razões para ir
Talvez uma ou meia motivações pra ficar.


Só tenho uma coisa a perder, a inspiração.
E se eu permanecer, ela se vai. Portanto,
Me vou, para que ela fique.


Espero um dia conseguir suportar a mim
E quem sabe muito esperançoso,
Conviver comigo mesmo.


Não precisa ser Esplêndido, mas às vezes é.
Não precisa ser Formidável e Magnífico, às vezes é.


Nossa ecolocalização capta
Os cardumes fartos em espiral
E o esquadrãovagalume
Inda pulsa estridente.


Ela era do tipo persistente insistente,
Não deixaria que nada a deixasse esfriar,
Ela era tipo encrenqueira valente,
Ficaria com tudo ou nada iria bastar.


(Michel F.M. - Pacífico em Brasas - Trilogia Mestre dos Pretextos - 2017)

[Guia resumido para Trolls das Cavernas]


Unindo inútil e desagradável,
Comunicamos que estamos
Sob nova dimensão.


Salve o pegajoso e apalpável.
Aqui, vende-se luz
em troca de Iluminação.


No andar mais alto
Da torre mais alta,
Ela subiu, para salvar o Dragão.


Troco likes e compartilhamentos,
Por momentos sinceros e um toque
De envolvimento emocional,


Ou ao menos,
Uma chance de estabelecer,
Ainda que tolo,
Um compromisso existencial.


Mantenha o contato visual
Enquanto toco, em troca de discrição,
Entre o que não sente e o que se diz.


Ninguém foi mais triste
que o poeta nesta vida,
e ninguém, foi mais feliz.


Um mero e reles
Embromão.
Ignore os dilemas
Das farsas eternas,


Estás a contemplar
O definitivamente extinto,
Cara durão.


No andar mais alto
Da torre mais alta,
Ela subiu, para se jogar
Aos braços do Dragão.


Nem cultura ou tradições foram páreo,
Rompendo traduções
Literais e suas amarras,


Ela simplesmente incendiou
Abóboras, vestidos, armário
E o Dragão se atirou em suas garras.


No andar mais alto
Da torre mais alta,
Ela subiu, para salvar o Dragão.


(Michel F.M. - Pacífico em Brasas - Trilogia Mestre dos Pretextos - 2017)

Para Michel F.M., o fogo e o sangue não são apenas figuras retóricas; são elementos de uma alquimia existencial. Na trilogia Flores do Pântano, essas metáforas funcionam como o motor da criação.


Aqui está como esses elementos se manifestam na obra do autor:


1. O Fogo: A Transmutação da Dor
Na obra de Michel, o fogo cumpre dois papéis contraditórios e simultâneos: destruição e iluminação.
Autocombustão: Como visto no poema, o artista "incendeia o próprio coração". Na trilogia, isso representa a ideia de que, para aquecer (ou despertar) o mundo, o poeta deve aceitar o seu próprio consumo. A poesia é o resíduo desse incêndio.
A Forja: O fogo é o que transforma o "lodo" do pântano em "flor". Não há beleza gratuita; ela é forjada na alta temperatura de uma vida intensamente sentida.


2. O Sangue e o Miocárdio: A Poesia como Biologia
Diferente de poetas que buscam o "espiritual" ou o "abstrato", Michel F.M. ancora sua obra no corpo. O uso de termos como "miocárdio" ou "pulsação" revela:
O Sangue como Tinta: Escrever não é um ato intelectual, é uma hemorragia controlada. O sangue simboliza a herança, a ancestralidade e, principalmente, a vitalidade que o artista sacrifica para que o leitor sinta algo.
O Ritmo Cardíaco: A estrutura de seus textos muitas vezes emula a pulsação: frases curtas, cortes secos e uma urgência que parece vir de uma pressão arterial elevada. É a "anatomia do impulso".


3. A Dialética do "Pulsar"
O objetivo final dessa queima e desse derramamento é o mundo continuar pulsando.
Para o autor, a sociedade vive em um estado de "anemia emocional" ou "entorpecimento". O artista, então, atua como um desfibrilador: ele toma o choque para si para que o coração coletivo (a humanidade) não pare de bater.


Essa visão transforma o poeta em uma figura quase messiânica, mas desprovida de glória — ele é um "operário da dor".

A trilogia "Flores do Pântano", de Michel F.M. (pseudônimo de Bruno Michel Ferraz Margoni) que inclui o título Coleção de Gravetos, aprofunda exatamente a dualidade presente no poema: a beleza que nasce do que é lamoso, denso e doloroso.

Ao conectar o poema à trilogia, percebemos que:

1. A Estética do Lodo

Assim como a "Flor do Pântano" precisa da lama para florescer, o "Santo-Anjo-Maldito" precisa do autoinpacto e do "miocárdio dilacerado" para criar. Na trilogia, Michel F.M. sugere que a arte não vem da alegria pura, mas da capacidade de transmutar o "pântano" da existência em algo que faça o mundo continuar pulsando.

2. O Artista como Colecionador de "Gravetos"

O título de um dos livros, Coleção de Gravetos, dialoga com a ideia de que o poeta não é um ser iluminado e intocável, mas alguém que junta os restos (os gravetos, as sobras, os sustos do palhaço) para acender o fogo que incendeia o próprio coração. A poesia aqui é um trabalho de catador de entulhos emocionais.

3. Anatomia e Pulsação

A trilogia reforça a linguagem biológica do autor. Se no poema ele fala em "miocárdio", em seus livros ele explora a "anatomia do impulso". O artista de Michel F.M. é um ser visceral: ele não observa a vida de longe; ele a sente nas vísceras e a devolve como arte, pagando o preço com a própria exaustão vital.

4. A Condenação e a Salvação

O termo "maldito" no poema ecoa a tradição dos poetas baudelairianos (frequentemente referenciados indiretamente em obras que usam a metáfora das "Flores"). A trilogia apresenta o pântano (a dor, o isolamento, a incompreensão) não como um lugar de onde se foge, mas como o único solo fértil para a verdadeira poesia.

[Translações]


Dentre trezentos e sessenta e tantos dias,
Que compõem os anos,
Foi este que escolhemos,
Foi neste que estreamos,
Juntos.


Entre presentes e vestimentas finas,
Roupas íntimas e trajes estranhos,
Nos trajamos na nudez,
Viemos da raiz aos ramos,
Juntos.


Hedonista convicto,
Extremista libertário,
Pretendente insensato,
Contra-o-verso persistente.


Trezentos e sessenta e tantos dias,
Uma volta completa, nossa intersecção.
Ângulos retos, agudos, completos,
Juntos e obtusos, radianos ou não.


Um aspirante a aprendiz,
Vitorioso em fracassos,
Submetido a tuas normas,
De anormais embaraços.


Recolhendo estilhaços,
Contorcionista teu,
Teu trapezista hilário,
Teu tristonho palhaço.


Na linha horizontal somos pontos de fuga,
Irradiamos proporções em plena vertical,
Desequilíbrio, assimetria e relatividade,
Nossa constituição é desproporcional.


Contorcionista teu,
Recolhendo estilhaços,
Teu trapezista hilário,
Teu tristonho palhaço.


Na linha horizontal somos pontos de fuga,
Nossa constituição é desproporcional.


Abrimos mão do consenso
Sobre a resposta correta,
Trezentos e sessenta e tantos dias
Ou uma volta completa.


(Michel F.M. - Delírio Absoluto da Multidão Atônita - Trilogia Mestre dos Pretextos - 2016)

[Ingredientes Súbitos
de uma Receita Improvisada]


Neste molho encorpado, as essências,
Cumprem ardentes, tua tarefa insistente,
Para com o paladar.


Salpicados destemperos minúsculos,
Num vasto cardápio variado.


Eu não entendo nada de balanços,
Só sei que a medida de nós,
Resultará num montante adequado,
Compenetrante, descalibrado.


Suculentos aperitivos flambados,
Sempre engolidos, jamais degustados.


Servidos assim de repente,
Um banquete em louças prateadas,
Ingredientes súbitos
De uma receita improvisada.


Cristais luminosos, castiçais,
Toalhas em fibras douradas,
Mesa de mogno, brasões entalhados,
Deixados de herança às criaturas noturnas,
Que coabitavam a construção desolada.


A sarjeta não discrimina,
Nos acolhe, nos apadrinha,
Igualmente materna e azinhavrada,
Para com repulsivos, escorraçados.


Somos suntuosos borrões,
Corajosos apavorados,
Expostos assim de repente,
Na vitrine um vapor dispersado.


(Michel F.M. - Delírio Absoluto da Multidão Atônita - Trilogia Mestre dos Pretextos - 2016)

[O Colecionador de Vácuos]


Quando tivermos deixado a Terra,
Um último olhar para esfera azul,
Um último sopro do vento na face,
Tesouro selado que deixa o baú.


Quando tivermos deixado a galáxia,
Se encerra o sorriso estampado no rosto.
Realizados feitos fantásticos,
Sabores longínquos para todos os gostos.


Quando varrido o universo tivermos,
Todos segredos estarão revelados,
Todas perguntas enfim respondidas,
Missão concluída, sonhos realizados.


Daí saberemos, que nada mudou.
Assim saberemos, que nada mudou.
O tédio infinito que rasga o cosmos,
Vazio incontável, buraco sem fim.


(Michel F.M. - Revolesia: Volume Único - 2023)

[Allana]


Destoava suplicante
Na saleta dos excluídos,
Ali, jaziam fustigantes
Os descartáveis, defeituosos,


Espaço do refugo,
Destinado aos inferiores;
Na xepa,
Somente o que é abaixo da média,
Teria a descuidada intenção.


Entretudo, Allana adivinha
De terras longínquas,
Concebida no velho mundo


Descendia das clássicas,
Entre Ilíadas-e-lusíadas,


Os argumentos irrefutáveis
E a caligrafia ilegível,
Em última instância,
Épica epopeia inexprimível.


Tua impaciência como qualidade
Beirava o descuido espatifante,
Dum equilíbrio fino, sem igual,
Na desconcertante lateralidade do bambolê.


Conheci Allana na segunda ou na quarta,
Não me lembro ao certo do dia,
O fato é que na sexta,
Allana já era poesia.


Quando ela compreendeu
Que poderia ser o que quisesse,
Ela se tornou
Tudo o que podia.


Allana, em última instância,
Épica epopeia inexprimível,
Os argumentos irrefutáveis
E a caligrafia ilegível.


(Michel F.M. - Pacífico em Brasas - Trilogia Mestre dos Pretextos - 2017)