Coleção pessoal de Jorgeanesquivel
Tem coisa em você que surge na minha cabeça sem pedir licença. Quando percebo, já se espalhou pelos pensamentos, feito presença que chega sem avisar e decide ficar.
Hoje o coração ficou quieto demais.
E quando ele fica assim, não é porque não tem o que dizer. É porque sentiu além das palavras, atravessou emoções que não couberam em nenhuma conversa e guardou em silêncio aquilo que ainda não conseguiu traduzir.
Há sentimentos que não gritam, não pedem atenção, não fazem alarde. Apenas se recolhem para dentro de nós e permanecem ali, ocupando espaço, pedindo tempo para serem compreendidos.
Hoje o coração ficou quieto demais.
E talvez esse silêncio seja apenas a forma que ele encontrou de acolher tudo o que sentiu.
22 de junho 2026
A distância entre duas pessoas não se mede apenas em quilômetros. Mede-se também pelas pontes que cada um pode construir, pelos obstáculos que precisa atravessar e pela vontade que tem de chegar.
Por isso, dizer que "o direito de um ir é o mesmo do outro vir" pode ser justo em teoria, mas a realidade nem sempre oferece as mesmas condições para ambos. Quando existem atalhos para um e barreiras para o outro, a distância deixa de ser igual, ainda que o mapa insista em dizer que é.
No fim, talvez o mais importante não seja quem vai ou quem vem, mas o quanto cada um está disposto a percorrer do próprio caminho para que o encontro aconteça.
Porque quando existe vontade, não se contabilizam apenas os passos dados;reconhecem-se também os obstáculos vencidos.
Bom domingo.
Que o dia seja leve, mas que também nos ensine aquilo que o coração, às vezes, demora a compreender: a importância da reciprocidade.
Porque não há paz em insistir onde só um lado se doa. Não há descanso em carregar sozinho o peso de uma relação, de uma amizade ou de um sentimento. Tudo o que é verdadeiro encontra caminho de volta. Tudo o que é sincero ecoa no outro de alguma forma.
Que neste domingo Deus nos dê sabedoria para reconhecer quem caminha ao nosso lado com a mesma disposição, o mesmo cuidado e a mesma verdade. E que nos dê serenidade para soltar aquilo que exige de nós um esforço constante, sem nunca oferecer abrigo.
Que o amor, o respeito, a presença e o carinho encontrem morada onde também sejam acolhidos.
A reciprocidade não é sobre receber exatamente o que se entrega, mas sobre não ser o único a entregar.
Abençoado domingo.
Dom, 21 de junho de 2026
Mantenha-me quente, acesa.
Não sirvo fria. Mas também não me mantenha morna, guardada para um momento oportuno, para um "quem sabe", um "talvez".
Ou me aqueça por inteiro e me prove quente, ou permita que eu esfrie.
Porque a mornidão é espera demais para quem nasceu intensidade. E eu não sirvo morna.
Houve um tempo em que o amor atravessava estradas de terra, mares e continentes dentro de um envelope.
As palavras eram escritas à mão, carregando a inclinação da letra, a força do traço, as pausas do pensamento. Algumas cartas levavam perfume. Outras, uma flor prensada entre as páginas. Quase todas levavam saudade.
Quem escrevia não tinha a certeza da resposta. Esperava dias, semanas, às vezes meses. E, ainda assim, escrevia.
Talvez porque o sentimento viesse antes da comunicação.
Hoje, carregamos o mundo inteiro na palma da mão. Uma mensagem atravessa oceanos em segundos. Vemos quando a pessoa está online, quando digitou, quando visualizou. Nunca foi tão fácil chegar até alguém.
E, no entanto, nunca pareceu tão difícil alcançar uma alma.
Falamos com muitas pessoas ao mesmo tempo, mas raramente permanecemos em alguma conversa tempo suficiente para que ela crie raízes. Colecionamos contatos, curtidas, notificações e distrações. Estamos conectados por sinais invisíveis, mas separados por muralhas emocionais cada vez mais altas.
Vivemos uma época estranha, onde demonstrar interesse pode parecer excesso. Onde responder rápido pode ser interpretado como carência. Onde sentir muito assusta. Onde a sinceridade, tantas vezes, é substituída por estratégias.
Chamam de maturidade emocional aquilo que, por vezes, é apenas medo de se entregar.
Então me pergunto: o que movia aquelas cartas?
Não era o papel.
Não era a tinta.
Não era o perfume.
Era o sentimento que transbordava antes de se tornar manuscrito.
As palavras apenas encontravam uma forma de existir.
Hoje, para onde vai esse transbordamento?
Para onde vai o amor de quem deseja conversar sem calcular o tempo da resposta? De quem sente saudade sem orgulho? De quem gostaria de dizer "gosto de você" sem receio de parecer demais?
Talvez o problema não seja a tecnologia.
Talvez o problema seja que aprendemos a nos proteger tão bem que esquecemos como nos revelar.
E, enquanto inventamos jogos para não parecer interessados, acabamos perdendo justamente aquilo que mais procuramos: alguém diante de quem não seja necessário jogar.
Não acredito que este seja o fim das relações verdadeiras.
Mas acredito que elas se tornaram um ato de coragem.
Porque, em um mundo que ensina a esconder sentimentos, amar continua sendo a arte de deixá-los aparecer.
Há olhares que percorrem paisagens, atravessam rostos e encontram beleza nas coisas mais simples. Mas existe um olhar ainda mais difícil: aquele que se volta para dentro.
Nem sempre temos coragem de sustentá-lo.
É mais fácil observar o mundo do que visitar os cômodos esquecidos da própria alma. Mais fácil apontar imperfeições ao redor do que reconhecer aquelas que silenciosamente habitam em nós.
Olhar para dentro exige silêncio.
Exige fechar os olhos para tudo o que distrai e sentir. Sentir o que dói, o que constrange, o que precisa partir e também aquilo que precisa permanecer.
É nesse encontro que descobrimos nossas falhas, mas também nossas virtudes. Nossos excessos, mas também nossas ausências. As feridas que pedem cura e os sonhos que ainda esperam coragem para florescer.
Quem nunca olha para dentro corre o risco de viver distante de si mesmo.
Mas quem se permite esse mergulho encontra mais do que imperfeições. Encontra verdades.
E são elas que nos transformam.
Porque todo recomeço nasce primeiro de um olhar sincero lançado para dentro de nós mesmos.
Orações Escritas | Cartas aos Céus
Quem sou eu, Senhor?
Sem Tua presença, sou apenas pó que se esquece de onde veio. Sou falha, limitada, tantas vezes tomada por dúvidas que me fazem questionar minha própria capacidade, meu valor e até aquilo que um dia sonhei alcançar.
Quem somos nós sem a Tua misericórdia? O que haveria de bom em nossos corações se não fosse a Tua graça nos alcançando todos os dias, nos chamando filhos mesmo quando falhamos, nos vestindo de dignidade quando tudo em nós parece ruína?
E ainda assim, com amor, Tu nos levantas. Não nos defines pelos nossos erros. Apenas nos estendes a mão e nos convidas a recomeçar.
Por isso venho a Ti. Não com méritos para apresentar, nem com certezas para oferecer, mas com o coração aberto, necessitado da Tua presença.
Faz-me nova criatura, Senhor.
Reveste-me da Tua bondade. Constrange-me com o Teu amor. Corrige em mim o que precisa ser corrigido e fortalece o que em mim ainda é frágil.
Ensina-me a confiar quando eu quiser desistir. Ensina-me a permanecer quando o medo tentar me fazer recuar.
E dá-me a ousadia de sonhar os sonhos que colocaste dentro de mim. Não para a minha glória, mas para que eu veja Tuas promessas florescerem no tempo certo.
Eis-me aqui, Senhor. Com minhas imperfeições, minhas dúvidas e minhas esperanças. Inteira diante de Ti, porque sei que é nas Tuas mãos que tudo em mim encontra sentido.
Há dias em que a saudade chega sem aviso.
Não faz barulho. Não bate à porta. Apenas ocupa os espaços, senta-se ao meu lado e me acompanha em silêncio.
Nesses dias, tudo continua igual por fora. O mundo segue seu ritmo, as pessoas seguem seus caminhos, os compromissos continuam existindo. Mas por dentro, algo caminha mais devagar.
Sinto falta de presenças que nem sempre estiveram perto, mas que encontraram morada em mim.
E é estranho como algumas pessoas conseguem permanecer mesmo quando estão ausentes.
Talvez a solidão não seja a falta de companhia. Talvez seja a distância entre aquilo que sentimos e aquilo que conseguimos dizer.
Por isso me recolho.
Não porque queira me afastar do mundo, mas porque existem sentimentos que precisam ser ouvidos antes de serem explicados.
E enquanto escuto o que meu coração tenta me contar, sigo.
Com saudade, com esperança, com dúvidas às vezes.
Mas sigo.
Porque algumas ausências doem, é verdade.
Mas também revelam o tamanho daquilo que um dia tocou a alma e decidiu permanecer.
Sempre me intrigaram os olhares.
Não aqueles que passam por nós distraídos, mas os que permanecem.
Os que pousam devagar sobre a nossa existência e parecem recolher fragmentos que nem sabíamos ter deixado expostos.
Há quem olhe para um rosto e veja apenas traços. Há quem olhe para uma fotografia e veja apenas uma imagem. Mas existem aqueles raros olhares que atravessam a moldura, a pele, as palavras e alcançam aquilo que não foi dito.
Talvez seja por isso que me encanto tanto pelos detalhes.
Porque a alma dificilmente se apresenta inteira. Ela se revela aos poucos: em um silêncio prolongado, em um sorriso que vacila antes de nascer, em uma saudade escondida atrás de uma frase comum. E é preciso sensibilidade para perceber.
Quem enxerga por dentro compreende que cada pessoa é um universo guardado sob aparências. E que reconhecer alguém é mais do que vê-lo; é acolher sua história sem precisar conhecê-la por completo.
Também acredito que todo olhar é uma espécie de espelho.
Aquilo que conseguimos reconhecer no outro fala, de alguma forma, sobre aquilo que habita em nós. Talvez seja por isso que certas pessoas nos alcançam tão profundamente. Não porque nos revelam algo novo, mas porque iluminam algo que já existia e permanecia adormecido.
No fim, penso que a vida é feita desses raros reconhecimentos.
Instantes em que alguém nos vê para além do que mostramos. Instantes em que nos sentimos encontrados sem termos pedido para ser procurados.
E talvez seja esse o maior desejo da alma: não ser admirada, nem compreendida por completo.
Apenas ser vista.
Quem olha e enxerga por dentro, reconhece.
Não porque sabe tudo sobre o outro, mas porque percebe aquilo que nem sempre é dito. Enxerga as marcas escondidas atrás dos sorrisos, os silêncios que carregam significados e as verdades que não cabem nas palavras.
Quem enxerga por dentro não se detém apenas na aparência das coisas. Vai além da superfície, atravessa as camadas que costumamos mostrar ao mundo e alcança aquilo que permanece quando todas as máscaras caem.
Talvez por isso o verdadeiro reconhecimento seja tão raro.
Porque reconhecer alguém não é apenas identificá-lo. É perceber sua essência. É enxergar a beleza que não se exibe, as dores que não se anunciam e a força que muitas vezes nem a própria pessoa sabe que possui.
E há algo ainda mais profundo nesse encontro.
Quem enxerga o outro com verdade acaba, inevitavelmente, encontrando a si mesmo pelo caminho. Porque cada alma reconhecida desperta um reflexo. Cada profundidade acolhida revela uma profundidade que também habita em nós.
Os olhares mais sensíveis carregam esse dom. Não apenas observam; compreendem. Não apenas percebem; acolhem.
E quando dois olhares capazes de enxergar por dentro se encontram, acontece algo raro: deixam de procurar explicações e passam apenas a reconhecer.
Como quem finalmente encontra, no olhar do outro, uma parte esquecida de si.
Ainda sobre olhar e olhares...
Existem olhos que apenas olham, e existem olhares que verdadeiramente enxergam.
Olhares que transcendem a superfície e alcançam lugares que as palavras nem sempre conseguem tocar. Olhares que acolhem a alma sem interrogá-la, que compreendem sem exigir explicações e que permanecem atentos aos detalhes que quase todos deixam escapar.
São olhares que registram mais do que imagens. Registram silêncios, ausências, cicatrizes, alegrias discretas e sentimentos que não encontram voz. Não se limitam ao que está diante deles; percebem o que habita por trás dos gestos, entre as pausas e dentro das emoções.
Mas também existem olhos que olham e não veem. Que atravessam pessoas, histórias e sentimentos sem realmente encontrá-los. Olhos que se detêm na aparência, mas não alcançam a essência. Que observam a forma, mas desconhecem a profundidade.
Talvez porque enxergar seja mais do que um ato da visão. Enxergar exige presença. Exige sensibilidade. Exige disposição para encontrar no outro algo além daquilo que está exposto.
Os olhares são espelhos e portais da alma. Espelhos porque revelam aquilo que carregamos dentro de nós. Portais porque permitem acessar mundos que não podem ser tocados pelas mãos.
E há uma beleza rara nos olhares que permanecem. Naqueles que não apenas veem quem somos, mas nos fazem sentir vistos. Porque, às vezes, o maior encontro entre duas almas acontece em silêncio, no breve instante em que um olhar reconhece o outro e decide ficar.
Que Deus me proteja daquilo que entra pelos meus olhos e, silenciosamente, encontra abrigo em meu coração.
Há olhares que parecem inocentes, mas carregam tempestades. Há imagens, palavras, gestos e presenças que atravessam a pele sem pedir licença e, quando percebemos, já criaram raízes dentro de nós.
Que Deus me guarde daquilo que encanta apenas os meus olhos, mas não alcança a minha alma. Daquilo que desperta desejos sem propósito, expectativas sem fundamento e sentimentos que me afastam de quem sou.
Que Ele me conceda discernimento para enxergar além da beleza, além da aparência, além daquilo que reluz por um instante e desaparece com a mesma rapidez com que chegou.
Que eu tenha sabedoria para filtrar o que vejo, porque nem tudo o que toca o olhar merece morar no coração.
E, se algo houver de permanecer em mim, que seja leve. Que seja verdadeiro. Que carregue paz, e não confusão. Que aproxime, e não afaste. Que floresça como propósito, e não como ilusão.
Que Deus proteja os meus olhos, porque eles são janelas abertas para a alma. E que proteja ainda mais o meu coração, porque tudo aquilo que ele acolhe acaba, de alguma forma, tornando-se parte de quem eu sou.
Hoje resolvi revisitar uma versão de mim que ficou guardada entre anotações antigas.
Abri o bloco de notas sem procurar nada específico e encontrei pensamentos que escrevi há algum tempo. Reflexões sobre espera, propósito, conexões, desejos e sobre a forma como eu enxergava certas escolhas que estava fazendo naquele período da minha vida.
Enquanto lia, percebi que não estava apenas relendo palavras.
Estava reencontrando uma mulher.
Uma mulher que ainda tentava compreender algumas ausências, que fazia perguntas silenciosas a Deus e que buscava permanecer fiel às próprias convicções, mesmo quando elas pareciam caminhar na direção oposta à do mundo.
Foi curioso perceber que o tempo passou, mas muitas daquelas reflexões ainda fazem sentido para mim.
Outras ganharam novos contornos.
Algumas amadureceram junto comigo.
Mas todas carregam a sinceridade de quem estava tentando ouvir a própria alma em meio ao ruído das opiniões, dos conselhos e das expectativas alheias.
Talvez por isso eu tenha decidido publicar este registro.
Não porque eu pense exatamente da mesma forma sobre tudo... más, algumas não mudaram.
Acredito que existe beleza em reconhecer os caminhos que nos trouxeram até aqui.
E, ao reler essas anotações, encontrei algo que continua merecendo espaço: a honestidade com que eu escrevia sobre aquilo que habitava meu coração naquele tempo, e resolvi trazer a luz.
14 de junho de 2026
14 de junho de 2026
Há escolhas que o mundo não compreende porque foram feitas em silêncio.
Ninguém vê as conversas que tivemos com nós mesmos. Ninguém presencia as renúncias que acontecem longe dos olhos alheios. As pessoas enxergam apenas o resultado e, muitas vezes, o confundem com ausência, quando na verdade é presença.
Eu não me afastei daquilo que desejo.
Eu apenas aprendi a honrá-lo.
Porque existem encontros que não cabem na pressa. Existem entregas que não suportam superficialidades. E existe uma parte de mim que acredita que algumas experiências da vida carregam peso demais para serem vividas sem significado.
Talvez por isso eu tenha escolhido caminhar devagar.
Não por medo de sentir, mas porque sinto profundamente.
Não por falta de coragem, mas porque compreendi o valor daquilo que ofereço quando permito que alguém se aproxime.
O tempo me ensinou que afinidades não são raras. O que é raro é encontrar alguém disposto a permanecer depois que os encantos imediatos passam. Alguém interessado em conhecer os territórios que existem para além da aparência, para além das conveniências, para além das expectativas que costumamos projetar uns nos outros.
É isso que espero.
Não uma pessoa para ocupar espaços vazios.
Mas uma presença capaz de compartilhar espaços já preenchidos.
Alguém que compreenda que intimidade não começa quando as distâncias físicas desaparecem. Ela começa muito antes, quando duas pessoas deixam de se esconder atrás das versões que mostram ao mundo e se apresentam como realmente são.
Eu poderia viver muitas histórias.
Mas escolhi preservar a possibilidade de viver uma que faça sentido.
E essa escolha nunca significou ausência de desejo. Pelo contrário. Quanto mais consciente me tornei de quem sou, mais compreendi a profundidade dos meus anseios. Eles não desapareceram. Apenas deixaram de conduzir minhas decisões.
Hoje, aquilo que busco não pode ser medido pela intensidade de um instante, mas pela capacidade de sustentar o que vem depois dele.
Porque existem conexões que passam.
E existem conexões que transformam.
São essas que espero reconhecer quando chegarem.
E até lá, sigo cuidando daquilo que um dia pretendo entregar: minha verdade, minha inteireza e a capacidade de amar sem me abandonar no caminho.
Desejos Impossíveis
Há desejos que não batem à porta. Eles entram silenciosamente, ocupam um canto da alma e aprendem a morar ali.
Tentamos ignorá-los. Mudamos os caminhos, desviamos os pensamentos, ocupamos as horas com outras urgências. Dizemos a nós mesmos que já passou, que não faz sentido, que é melhor seguir adiante. Mas alguns desejos conhecem atalhos que desconhecemos.
Eles atravessam o tempo escondidos em uma lembrança, reaparecem no perfume que o vento traz, em uma música esquecida, em um instante qualquer entre a distração e o silêncio.
Quanto mais fugimos, mais percebemos que a distância nem sempre é capaz de desfazer o que criou raízes.
E assim o desejo caminha.
Não apressa os passos, não exige explicações. Apenas permanece, percorrendo os corredores mais secretos do coração, esperando o dia em que será acolhido, transformado ou, quem sabe, compreendido.
Porque há desejos que não nasceram para ser esquecidos. Apenas seguem existindo, atravessando estações, sobrevivendo às ausências e encontrando maneiras de nos lembrar que algumas partes de nós continuam vivas, mesmo quando tentamos convencê-las do contrário.
Enquanto algo ainda tocar o nosso coração, a vida continua encontrando maneiras de nos lembrar que não é o fim. Existem recomeços, caminhos que ainda não foram percorridos, encontros que ainda não aconteceram e sonhos que ainda não encontraram seu tempo.
Enquanto houver sensibilidade para sentir, haverá razões para continuar acreditando que a vida ainda guarda coisas boas. 🌷
Eu não tenho outro além de Ti.
Eu não tenho lugar mais seguro senão junto a Ti.
Ó Deus de graça, bondade e misericórdia, eu sei que não sou nada sem a Tua presença.
Quantas vezes eu erro tentando acertar?
Quantas vezes me confundo tentando fazer o que acredito ser o melhor?
Quantas vezes me afasto da Tua vontade sem sequer perceber?
Mas existe uma coisa que eu sei, Pai: todas as vezes que algo aflige meu coração, é para Ti que eu corro.
Todas as vezes que as dúvidas me cercam, é diante de Ti que eu me ajoelho.
Todas as vezes que sonho, planejo, desejo e espero, é em Tuas mãos que eu deposito aquilo que não consigo controlar.
E mesmo assim eu falho.
Por isso, às vezes eu fico imaginando, Senhor...
se já é tão difícil tendo a Tua presença, tendo a Tua direção e a minha fé depositada em Ti, como seria se eu estivesse sozinha?
Tem misericórdia de mim.
Olha para Tua filha.
Olha para a menina dos Teus olhos.
Aquela que o Senhor já livrou tantas vezes sem que percebesse.
Aquela que o Senhor sustentou quando ninguém mais viu suas lágrimas.
Aquela que o Senhor carregou nos dias em que ela já não tinha forças para caminhar.
Mas ainda assim, Pai, eu caio.
Eu choro.
Eu me assusto.
Eu me desespero.
Então me acolhe.
Eu não estou bem.
Olha para todas as áreas da minha vida.
Olha para os sonhos que ainda não floresceram.
Olha para os projetos que parecem parados.
Olha para as dores que eu escondo para não preocupar quem amo.
Olha para a solidão dos dias em que eu pareço forte por fora, mas por dentro estou apenas tentando sobreviver.
Pai, eu não tenho com quem conversar da forma que converso contigo.
Não tenho quem me ouça até os pensamentos que não consigo colocar em palavras.
Eu olho para um lado e para o outro procurando respostas, mas sei que o meu socorro vem de Ti.
Só o Senhor pode mover aquilo que minhas mãos não alcançam.
Só o Senhor pode abrir portas que ninguém consegue abrir.
Só o Senhor pode quebrantar corações, alinhar propósitos, restaurar esperanças e transformar desertos em caminhos.
Pai, eu estou aqui.
Orando.
Jejuando.
Esperando.
Tentando permanecer fiel mesmo quando minhas emoções oscilam.
Mas eu confesso que às vezes o desânimo bate à porta.
Às vezes eu me pergunto quanto tempo mais preciso esperar.
Às vezes eu me pergunto se estou ouvindo corretamente a Tua voz.
Às vezes eu me pergunto se os sonhos que carrego vieram de Ti ou nasceram apenas da minha vontade de amar, construir, pertencer e viver algo bonito.
Porque eu estou cansada, Pai.
Cansada de lutar batalhas invisíveis.
Cansada de parecer forte quando estou exausta.
Cansada de carregar tantas perguntas sem respostas.
Mas existe algo dentro de mim que continua acreditando.
Mesmo cansada, eu acredito.
Porque o Senhor conhece o meu coração.
O Senhor sabe que eu não desejo riquezas vazias, status ou aparências.
O Senhor sabe que os meus sonhos são simples em sua essência.
Eu sonho com propósito.
Com amor verdadeiro.
Com família.
Com parceria.
Com um lar onde haja paz.
Com alguém que caminhe ao meu lado olhando para a mesma direção.
Eu sonho em cuidar e ser cuidada.
Em amar e ser amada.
Em construir algo que resista ao tempo porque foi edificado sobre fundamentos sólidos.
E o Senhor sabe que, por trás da mulher forte que tantas pessoas enxergam, existe uma menina que ainda espera.
Que ainda acredita.
Que ainda olha para o céu procurando respostas.
Então não deixa essa menina desistir.
Quando minhas forças faltarem, sustenta-me.
Quando minha fé vacilar, fortalece-me.
Quando eu não enxergar saída, lembra-me que o Senhor continua trabalhando mesmo no silêncio.
E se os propósitos que tenho colocado diante de Ti estiverem alinhados com a Tua vontade, confirma-os.
Abre caminhos.
Move circunstâncias.
Mostra frutos.
Não porque eu mereça, mas porque confio na Tua fidelidade.
E se alguma coisa precisar morrer dentro de mim para que algo maior nasça, me ajuda a entregar.
Mas se alguma promessa estiver apenas aguardando o tempo certo, me ajuda a permanecer.
Porque eu não quero viver apenas de expectativas.
Eu quero viver da esperança que nasce da Tua presença.
E enquanto as respostas não chegam, segura a minha mão.
Porque às vezes tudo o que eu consigo fazer é continuar caminhando... confiando que o Senhor ainda sabe exatamente onde está me levando.
Amém.
Olha pra mim.
Olha para o que me tornei ao longo desses três anos. Não para alguma versão antiga de mim, nem para expectativas guardadas em alguma gaveta do passado. Olha pra mim, agora. Nos meus olhos. No que existe diante de você.
Percorre com calma a textura do que venho me tornando. Passa os olhos pelo meu corpo, pelo meu semblante… e não se assusta.
Quero que me decifre. E eu não tenho dificultado a tua leitura. Estou aqui, me revelando inteira, com falhas, cicatrizes, vulnerabilidades e verdades que nunca souberam mais se esconder.
Olha pra mim.
Entra pelos meus olhos e percebe o que a tua ausência causou em mim. Tenho queimado por ti em silêncio há tanto tempo… Me toca, não só com os olhos.
Olha pra mim e vê se consegue enxergar o tamanho do que te guardei, de tudo o que ficou aqui, apertado no peito, esperando um lugar para existir.
Estende as tuas mãos e me puxa pra junto de você. Me sacode. Baila comigo. Me faz sentir que ainda existe espaço para nós em algum canto do teu caos.
Olha pra mim e vê se consegue se enxergar, nem que seja um pouco, ao meu lado… nos teus sonhos, nas tuas vontades, nos teus dias distraídos.
Vê se eu caibo aí, nessa tua bagunça bonita. Me encaixa. Me ajeita. Ou simplesmente me permita encontrar abrigo em ti.
Mas, antes de tudo… olha pra mim.
Só se vê bem com o coração. O essencial quase nunca se entrega aos olhos apressados.
Há coisas que não se explicam pela aparência, nem se alcançam apenas pelo toque das mãos. É preciso sensibilidade para perceber, calma para enxergar além da superfície e alma para tocar aquilo que não se vê, mas se sente.
