Coleção pessoal de Jorgeanesquivel
Hoje eu não tô bem, tô cansada, me sinto irritada, mas não tô reclamando, tá tudo bem. Só estou querendo vencer o dia sem perdas, buscando me recolher no meu canto, tentando evitar conversas e possíveis desavenças. É nesse silêncio que me reorganizo, me reavalio, me reestruturo.
Tá tudo errado, não tá legal, mas tá tudo bem. Só estou tentando vencer o dia sem perdas.
Nem todo dia é feito para avançar. Alguns são feitos apenas para resistir com dignidade, para não piorar o que já está difícil, para atravessar as horas sem ferir ninguém e sem me ferir no processo.
Hoje não quero respostas, não quero decisões, não quero grandes movimentos. Quero apenas o necessário. Quero me preservar enquanto a tempestade passa por dentro de mim.
Porque aprendi que há dias em que a vitória não está em conquistar algo, mas em manter intacto aquilo que já foi conquistado. Há dias em que sobreviver ao peso, ao cansaço e à confusão já é uma forma de coragem.
Então sigo assim, mais quieta, mais recolhida, respeitando meus limites e aguardando que a vida volte a encontrar seu eixo dentro de mim. Um passo de cada vez. Sem perdas. Apenas atravessando.
Hoje, não peço ao dia que seja extraordinário.
Basta que ele encontre um jeito de pousar leve sobre os ombros cansados, de abrir uma fresta onde antes só havia muro, de lembrar ao coração que nem tudo precisa florescer de uma vez.
Há sementes trabalhando em silêncio sob a terra. Há respostas amadurecendo longe dos olhos. Há caminhos se formando enquanto a gente apenas continua.
E, às vezes, continuar já é milagre suficiente para um dia. 🌿
Amar alguém por uma vida inteira é permanecer curioso.
É compreender que ninguém termina de ser conhecido e que o amor também mora nessa descoberta constante.
É continuar escolhendo a mesma pessoa entre tantas distrações do mundo. É mantê-la entre as prioridades do coração, fazer-se presente e impedir que a distância se instale onde antes havia cuidado.
Talvez amar seja isso: uma permanência delicada.
A decisão diária de morar em um único sorriso e, mesmo depois de tantos anos, ainda encontrar nele razões para se encantar, se emocionar e se apaixonar novamente.
Cartas aos Céus
Senhor,
Hoje encontrei algumas palavras que um dia escrevi para Ti.
Estavam guardadas entre anotações antigas, carregando desejos, convicções e pensamentos que nasceram em um tempo diferente deste, mas que ainda conversam com quem sou.
Ao relê-las, percebi que não encontrei apenas uma lembrança.
Encontrei uma parte de mim.
Uma mulher que, naquele tempo, já tentava honrar os propósitos que depositou em Tuas mãos.
E foi bonito perceber que, apesar dos dias vividos, das dúvidas enfrentadas e das transformações que o tempo trouxe, algumas sementes continuam vivas.
Ainda acredito que aquilo que é precioso merece cuidado.
Ainda acredito que certas conexões não podem ser apressadas.
Ainda acredito que existem entregas que só encontram sentido quando caminham ao lado da verdade, da reciprocidade e da Tua direção.
Hoje não escrevo para falar do fim da espera.
Porque ela continua.
Também não escrevo para pedir que ela termine.
Escrevo para agradecer porque, enquanto espero, o Senhor continua trabalhando em mim.
Continua alinhando meus pensamentos, fortalecendo minhas convicções e lembrando-me de que propósito não é apenas sobre chegar a algum lugar.
É sobre quem nos tornamos durante o caminho.
Se em alguns dias meus desejos falarem mais alto, que eu continue ouvindo a Tua voz acima deles.
Se em alguns momentos a solidão visitar meus pensamentos, que ela nunca seja maior do que a paz que encontro em Ti.
Se o tempo parecer longo, que eu me lembre de que nenhuma estação permanece para sempre e que cada uma delas possui algo a ensinar.
E que eu jamais perca a ternura do coração enquanto aguardo aquilo que um dia entreguei em oração.
Porque algumas promessas não vivem apenas no futuro.
Elas também transformam o presente.
E eu sigo aqui, Senhor.
Ainda aprendendo.
Ainda confiando.
Ainda esperando.
Amém.
14 de junho de 2026
Há tempos escolhi esperar.
E às vezes as pessoas confundem a minha espera. Pensam que é ausência de desejo. Que é medo. Que é excesso de cuidado. Que é uma renúncia amarga feita por quem desistiu de viver.
Mas não.
Eu espero justamente porque sinto. Talvez mais do que deveria. Talvez porque tudo em mim sempre tenha sido intenso demais para caber nas superficialidades que o mundo oferece.
Eu não sinto falta de qualquer abraço. Não desejo qualquer presença. Não anseio por qualquer toque. O que me falta não é um corpo ao lado do meu. É uma alma que saiba permanecer.
Porque o toque, sozinho, nunca foi suficiente para mim. Meu coração sempre desejou aquilo que vem antes dele: a conversa que atravessa a madrugada, o interesse genuíno, a admiração silenciosa, a paz de poder ser quem sou sem precisar diminuir minhas profundezas para caber nos espaços de alguém.
Eu quis alguém que me encontrasse por inteiro. Alguém que compreendesse que meu corpo faz parte de mim, mas não é tudo o que sou. Que enxergasse a mulher por trás dos sorrisos, das fotografias, dos textos e das fortalezas que construí ao longo da vida.
Por isso me guardei.
Não porque me considero forte o tempo todo. Há dias em que a solidão pesa. Há noites em que a espera parece longa demais. Há momentos em que meus desejos me lembram que sou humana, que sinto, que sonho, que também gostaria de ter alguém para dividir os silêncios e repousar a cabeça depois de um dia difícil.
Mas, ainda assim, permaneço. Porque descobri que algumas esperas não são castigos. São cuidados.
E Deus sabe quantas vezes escolhi preservar aquilo que existe de mais precioso em mim, mesmo quando ninguém estava olhando. Quantas vezes troquei a facilidade de um momento pela esperança de uma história. Quantas vezes recusei o vazio disfarçado de companhia.
Eu não espero por perfeição. Não espero por um conto de fadas. Espero por verdade. Por uma conexão capaz de alcançar lugares que nenhuma aparência consegue tocar. Espero por alguém que compreenda que amor não é urgência. É construção. É presença. É escolha.
E se a minha espera tem sido longa, talvez seja porque meu coração nunca procurou qualquer pessoa. Ele sempre procurou lar.
E lares não são encontrados às pressas.
São reconhecidos.
29 de Janeiro de 2024
Carta de mim para mim
Um lembrete para que eu não esqueça o quanto sou amada e protegida por Deus, até nos mínimos detalhes.
Mesmo quando, por tantas vezes, não consigo me perceber assim.
Sou especial.
Uma joia única, lapidada pelas mãos Dele, carregando em mim uma essência rara e uma cultura singular que me atravessa e me forma.
Já percebi, em muitos momentos da vida, que sou como as meninas dos olhos de Deus.
Mesmo quando o mundo parece desmoronar, existe um certo cuidado ao meu redor, uma proteção silenciosa que me sustenta.
E eu sei: isso é obra Dele.
Mas às vezes a gente se perde…
fica sufocada em meio a tantas coisas, tantos pesos, tantos silêncios.
É fácil se sentir pequena diante do barulho do mundo, diante das dores que atravessam a alma e confundem o coração.
Por isso é preciso parar.
Respirar.
Lembrar.
Lembrar de tudo aquilo que já atravessei.
Lembrar das vezes em que pensei que não suportaria e, ainda assim, fui sustentada.
Lembrar que há uma presença cuidando de mim, mesmo quando meus olhos cansados não conseguem enxergar.
Então deixo este lembrete.
Esta carta de mim para mim mesma.
Para que, nos momentos de escuridão, quando a fé vacilar e o coração se apertar, eu consiga trazer à memória o meu valor.
Que eu me recorde de quem eu sou, de quem me sustenta e do amor que me guarda.
E que, mesmo nos dias em que tudo parecer desmoronar, eu nunca esqueça:
sou profundamente amada,
cuidada em silêncio,
e protegida por Deus.
E ainda assim reforço a mim mesma: sou amada e protegida por Deus até nos mínimos detalhes.
Mesmo quando o mundo parece desmoronar ao meu redor, há um cuidado silencioso que me envolve, uma presença que me sustenta quando minhas próprias forças vacilam. Já percebi tantas vezes que sou guardada como as meninas dos olhos de Deus.
Mas a vida, às vezes, pesa. Há dias em que a alma se sente sufocada em meio a tantos ruídos, tantas dores que tentam me fazer esquecer quem sou.
É nesses momentos que preciso parar.
Respirar.
E lembrar.
Lembrar que existe uma mão invisível me guiando, um amor que me protege mesmo quando não consigo ver.
Por isso deixo mais uma vez este lembrete, esta carta de mim para mim mesma.
Para que, quando a escuridão tentar me envolver, eu consiga trazer à memória o meu valor, recordar o quanto sou amada e reconhecer, mais uma vez, que nada do que sou nasceu por acaso.
Fui pensada, cuidada e guardada por Deus, até aqui. ✨
Sou grata pela bondade de Deus em minha vida,
pela forma silenciosa e constante com que Ele me sustenta,
pelos cuidados que muitas vezes só percebo depois,
quando olho para trás e vejo que, mesmo nas tempestades,
havia uma mão me guiando,
um amor me guardando,
e uma presença me impedindo de cair.
Sou grata porque, mesmo quando me sinto pequena diante do mundo,
Ele continua me lembrando do meu valor
e do quanto sou profundamente amada. ✨
Revisitar nossa galeria de fotos ou álbuns antigos é como revisitar a si mesmo.
Uma travessia silenciosa por rostos que já fomos, por sorrisos que um dia carregaram mundos inteiros dentro de si.
Em cada expressão mora um fragmento de tempo.
Sentimentos que voltam como ecos suaves, lembrando que aquilo existiu, que foi real, que nos atravessou.
Há um brilho no olhar que ainda resiste nas imagens, como se algo de nós tivesse decidido permanecer ali, guardado entre luz e memória.
Então percebemos que muito se perdeu pelo caminho.
Mas também entendemos que sempre escolhemos, consciente ou não, aquilo que permanece dentro de nós.
E entre dores, despedidas e silêncios, existiram instantes raros — momentos singulares em que simplesmente nos permitimos viver.
Talvez seja por isso que às vezes revisitamos o passado:
não para ficar nele,
mas para nos desprender daquilo que já não encontramos mais lá.
Porque há presenças que não voltam a existir em lugar algum.
Nem em tempo algum.
Pois não haverá outro igual a ti.
E compreender isso também é parte do processo de seguir. 🌿
Sonhos não são apenas aquilo que nos visita enquanto dormimos…
são também os sussurros daquilo que ainda insiste em nascer dentro de nós.
Às vezes, eles chegam suaves, quase tímidos.
Outras vezes, inquietam, tiram o sono, pedem coragem.
E há aqueles que a gente tenta esquecer… mas que, de algum jeito, continuam nos lembrando de quem somos por dentro.
Nem todo sonho é para ser vivido de imediato,
mas todo sonho carrega um pedaço de verdade sobre nós.
Talvez o maior erro não seja sonhar alto,
mas desistir baixo demais.
Porque no fim…
sonhos não nos afastam da realidade,
eles nos aproximam da vida que, em silêncio, a gente sabe que merece.
Há um instante em que o olhar se recolhe e as cortinas se fecham, não como fim, mas como pausa — a lente descansa do excesso, aprende a não capturar a dor que insiste, e no silêncio desse apagar de luz, nasce a coragem de escolher: ou se acende de novo por dentro, ou se aceita, com dignidade, que até desistir também pode ser um gesto de lucidez.
Decifre-me, então…
Mas não com pressa, nem com olhos apressados de quem só deseja o óbvio.
Há em mim caminhos que não se mostram à primeira vista, e talvez seja justamente aí que mora o que te inquieta.
Você me chamou de linda e misteriosa…
mas mistério não se revela a quem apenas observa
se entrega a quem ousa sentir.
Descubra-me nos detalhes que não anuncio.
No silêncio entre uma palavra e outra.
No jeito que recuo… não por falta,
mas por querer ser encontrada com intenção.
Há partes de mim que não se explicam
se percebem.
E outras que só existem quando alguém tem coragem de permanecer.
Se quiser me decifrar, venha sem atalhos.
Sem fórmulas prontas.
Sem medo de se perder um pouco no caminho.
Porque eu não sou um enigma para ser resolvido…
sou uma experiência para ser vivida.
E talvez, no fim,
você descubra que o mistério não está só em mim
mas no que eu desperto em você.
Em minha defesa, meu querer é simples, mas não é raso: quero ser leve nos braços de um homem, não forte demais para carregar um menino
Em minha defesa, eu nunca escondi o que sou nem o que desejo.
Há em mim uma mulher inteira, mas também uma menina que ainda acredita no cuidado, no gesto que acolhe, no olhar que sustenta. E é por ela que eu escolho.
Não quero ser a mulher de um menino que ainda ensaia responsabilidades, que se perde nas próprias indecisões e chama isso de liberdade. Não quero ser abrigo provisório de imaturidades, nem colo para quem ainda não aprendeu a permanecer.
Eu quero ser leve… mas leve de verdade.
Leve porque posso descansar, porque não preciso endurecer para dar conta de dois, porque não preciso ensinar o básico a quem já deveria saber amar com presença.
Quero ser a menina de um homem.
De um homem que entende que cuidado não diminui, que presença não sufoca, que escolha não se adia. Um homem que não se assusta com a profundidade, mas mergulha. Que não foge quando percebe que é real.
Porque em mim, tudo é real.
O sentir, o ficar, o construir.
E se isso assusta quem ainda é raso, então que assuste.
Eu não fui feita para caber no medo de ninguém.
Em minha defesa, eu só estou sendo fiel ao que em mim nunca foi ausência
essa vontade bonita de ser bem escolhida… e, finalmente, poder ser leve sem precisar deixar de ser inteira.
Cultivar flores é mais do que um gesto, é um exercício silencioso de sentir. É tocar a terra com delicadeza, como quem entende que tudo o que cresce precisa, antes, ser acolhido.
Há quem veja apenas pétalas. Mas quem é sensível enxerga processos: o tempo da semente, a espera da raiz, a coragem do broto que rompe o escuro em direção à luz. Cultivar é respeitar esses ciclos sem apressar, sem exigir apenas cuidar.
A sensibilidade mora nisso: em perceber o que não grita. Em regar mesmo quando ainda não há sinais. Em acreditar no invisível, no que está sendo formado longe dos olhos.
Flores não florescem sob pressa. Elas respondem ao toque certo, à luz suficiente, ao silêncio necessário. E talvez seja por isso que quem cultiva flores aprende, sem perceber, a cultivar pessoas, sentimentos e a si mesma.
Porque amar, no fundo, é isso: um ato contínuo de cuidado, presença e entrega, mesmo quando tudo ainda é semente.
Eu já quis tantas coisas
que hoje não fazem mais sentido.
Perdi o interesse…
e é estranho perceber
que algo que um dia foi tão intenso
agora não me alcança nem de longe.
Nem parece que eu quis tanto assim.
Talvez o querer também tenha seu tempo.
Talvez ele nasça, cresça…
e, silenciosamente, vá embora.
Por isso, o querer que hoje me atravessa com força
o que me desperta, inquieta e chama
que se faça presente.
Que permaneça vivo.
Que continue se fazendo desejar.
E que me deseje tanto
quanto eu o desejo.
Antes que, logo ali na frente,
eu também me torne ausência.
Antes que o encanto se dissolva pelo cansaço
e o gosto de querer se perca.
Porque eu sei…
eu posso, de novo, me distrair com o mundo
e deixar passar.
Então hoje,
se faça presença.
Se faça sentido.
Se faça interessante.
Tem momentos em que insistir deixa de ser força
e começa a virar desgaste.
A gente fixa o olhar em algo como se ali estivesse tudo
como se, alcançando aquilo,
o resto finalmente se organizasse por dentro.
Mas nem tudo que chama
é feito para permanecer.
E há um limite silencioso
entre persistir
e se perder de si tentando.Às vezes, o que falta não é mais tentativa.
É direção.
É entender que nem todo desejo precisa ser sustentado
até o esgotamento.
Que nem tudo que não veio
precisa ser esperado até cansar.
Existe um tipo de sabedoria
que não está em segurar,
mas em soltar o foco
antes que ele nos prenda.
Redirecionar também é escolha.
Também é cuidado.
Porque enquanto a gente insiste no que não responde,
outras possibilidades passam
discretas, vivas, possíveis.
E a vida não pede que a gente queira menos,
mas que a gente queira melhor.
Que a gente aprenda a mover o olhar,
a ajustar o caminho,
a trocar de direção sem sentir que falhou.
Às vezes, não é sobre abrir mão.
É sobre se devolver.
Há tempos carrego uma espera.
Não uma espera vazia, dessas que apenas contam os dias. É uma espera que me transformou. Que me ensinou a olhar para dentro, a compreender meus desejos, meus limites e os propósitos que Deus foi revelando ao longo do caminho.
Durante esse tempo, aprendi que esperar não é ficar parada. É preparar o coração para aquilo que se deseja viver. É cuidar da alma enquanto o tempo faz o seu trabalho silencioso. É permanecer fiel ao que acredito, mesmo quando a saudade de algo que ainda não aconteceu insiste em visitar meus pensamentos.
Tenho anseios. Tenho sonhos. Tenho o desejo de construir uma história bonita, de encontrar alguém com quem eu possa compartilhar a vida, os silêncios, os risos, os desafios e as conquistas. Alguém que compreenda que o amor verdadeiro não se sustenta apenas no encanto dos encontros, mas na decisão diária de permanecer.
Também tenho desejos que habitam meu corpo e minha alma. Sou humana. Sinto. Espero. Mas aprendi a não permitir que a pressa seja maior que o propósito. Porque algumas promessas florescem melhor quando respeitamos o tempo necessário para que criem raízes profundas.
Por isso sigo.
Nem sempre com a mesma força. Nem sempre sem questionamentos. Mas sigo. Acreditando que aquilo que Deus prepara não chega para preencher vazios, mas para somar caminhos, fortalecer propósitos e multiplicar alegrias.
Enquanto esse dia não chega, continuo cultivando quem sou. Continuo aprendendo, amadurecendo e me tornando a mulher que desejo ser quando o encontro acontecer.
Porque a minha espera não é ausência.
É preparação.
E cada dia vivido com propósito me aproxima não apenas de alguém, mas da versão de mim mesma que estará pronta para viver, com verdade e inteireza, tudo aquilo que hoje entrego em oração. 🌷
24 de janeiro 2024
Quando necessitar ausentar-se,
não vá longe.
Fique distante apenas o suficiente para que a saudade me visite,
mas nunca o bastante para que a tua presença deixe de morar em mim.
Que eu sinta tua falta,
mas continue encontrando você nos detalhes.
Não apenas nas lembranças,
mas nos gestos que permanecem,
nos silêncios que ainda carregam o som da tua voz.
Faça-se presente.
Demarque o teu lugar em meu coração para que o tempo jamais esfrie o abraço,
nem permita que a distância enfraqueça aquilo que construímos.
Porque gosto da saudade quando ela é ponte,
não quando se torna abismo.
Então vá, quando for preciso.
Mas deixe sempre um caminho de volta até mim.
Mantenha-se ecoando em forma de cuidado,
de carinho,
de amor.
Como quem zela pelo que é precioso.
Como quem, mesmo distante,
carrega no peito o desejo sincero de regressar ao seu lar.
Não se demore longe...
Fique apenas o suficiente para que a saudade floresça mansa dentro de mim,
como quem rega uma ausência necessária para tornar o reencontro ainda mais bonito.
Mas não vá tão longe a ponto de levar consigo os vestígios da tua presença.
Deixe ficar o eco da tua voz,
a lembrança do teu riso,
os pensamentos que insistem em me encontrar nos momentos mais distraídos do dia.
Ausente o bastante para que eu sinta tua falta.
Presente o bastante para que eu continue te sentindo.
Porque há distâncias que aproximam,
e saudades que, em vez de afastar,
nos fazem habitar ainda mais profundamente o coração um do outro.
Então não se demore longe...
Fique apenas o tempo necessário para que a saudade exista,
mas nunca o bastante para que eu precise aprender a viver sem você.
