Coleção pessoal de Jorgeanesquivel
Tem coisas, e pessoas que nos desgastam tanto que, quando percebemos, já viraram um ciclo de repetições.
Batem, insistem, fazem a gente abrir a porta… mas, quando a gente abre, não permanecem, não cuidam, não fazem questão.
E esse movimento cansa.
Cansa a ponto de tirar a vontade de reagir, de falar, de tentar de novo.
A gente vai perdendo o interesse, a motivação…
e, quase sem perceber, escolhe o silêncio, se afasta, fecha um pouco mais a porta por dentro.
Não é frieza, nem falta de sentimento.
É excesso de desgaste.
É o corpo e a alma entendendo que nem toda insistência merece acesso,
e que insistir em certos ciclos dói mais do que soltar.
Então nasce o medo de abrir de novo…
mas junto com ele, nasce também algo importante: o cuidado.
Porque, às vezes, abrir mão não é desistir
é, finalmente, se escolher.
Eu disse que estou caindo.
e não é uma queda rápida
é lenta, contínua…
dessas que parecem não ter fundo.
eu estou em uma fase
que não suporta mais nada.
cada dor chega como se fosse única,
infinita, profunda, árdua…
como se eu não fosse atravessar.
e mesmo fazendo parte de um todo,
cada uma delas, sozinha,
já é um abismo.
neste momento
eu estou exausta.
cansada. triste. melancólica.
eu calo… e calo…
e ainda assim choro.
grito por dentro.
e não consigo desligar.
a vida me chama pra continuar,
me pede presença, responsabilidade, cuidado…
mas por dentro
tudo em mim só queria parar.
eu preciso ser forte para os outros,
mesmo quando ninguém é por mim.
então eu guardo a minha dor no bolso
e sigo… como dá.
tem tanta coisa que eu queria dizer,
retrucar, gritar, responder…
mas eu me calo.
e perdoo, em silêncio,
a insensatez de quem não sabe o que diz.
porque não sabem o que eu sinto.
não sabem como eu sinto.
e talvez seja melhor que não saibam.
porque desejar que saibam
seria desejar que sentissem o mesmo.
e eu não desejo isso a ninguém.
então não…
eu não espero que me entendam.
mas eu estou cansada.
cansada de uma dor
que não parece ter fim.
e quando tudo em mim acredita
que isso nunca vai passar…
o pensamento que vem
não é sobre viver
é sobre querer que isso acabe.
A única coisa que eu queria agora
era colocar a minha mente no modo não perturbe
e desativar os sentimentos,
só por um instante.
Silenciar esse barulho dentro do peito,
deixar o coração em repouso,
como quem fecha uma janela
para que a tempestade passe lá fora.
Não para deixar de sentir para sempre,
mas apenas para respirar um pouco
sem o peso de tudo que transborda.
Porque há momentos
em que a alma só precisa
de silêncio
para não se partir. 🌙
Hoje me perdi nas lembranças.
Não foi distração.
Foi mergulho.
Mergulhei nas versões antigas de mim
na menina que acreditava demais,
na mulher que suportou em silêncio,
na que quase desistiu,
e na que decidiu ficar.
Algumas memórias ainda doem.
Outras me aquecem.
Mas todas me construíram.
Perder-me nelas não foi fraqueza.
Foi reconhecimento.
Porque toda vez que volto ao que fui,
entendo com mais clareza
a força de quem me tornei.
Se quiser, deixo um título à altura desse mergulho.
Hoje me perdi nas lembranças…
e, por um instante, não quis me encontrar.
Voltei a lugares que já não existem como antes,
revivi vozes que hoje só moram no silêncio,
toquei ausências que ainda sabem o meu nome.
Há memórias que abraçam.
Outras apertam.
Algumas ensinam.
E todas, de algum jeito, nos lembram de quem fomos.
Hoje eu me perdi…
mas talvez tenha sido só a alma visitando
as versões antigas de mim
para ter certeza
de que sobrevivi a todas elas.
Reflexiva — porque penso antes de me entregar.
Profunda — porque não sei viver na superfície.
Contida e moderada — porque aprendi que nem todo sentir precisa ser alarde.
Mas intensa…
ah, intensa quando se trata de amar.
Não amo pela metade.
Não fico onde não posso florescer.
Não ofereço o que não sou.
Posso parecer calma por fora,
mas dentro de mim o amor é mar cheio
não faz barulho à toa,
mas quando decide tocar a margem, transforma.
Faz parte de mim essa dualidade:
a serenidade que observa
e o fogo que aquece.
E talvez seja isso que me define
não a intensidade isolada,
mas a consciência com que escolho onde depositá-la.
Faz parte de mim ser
mesmo quando o mundo exige que eu me molde.
Ser inteira nas minhas falhas.
Ser abrigo quando o dia pesa.
Ser silêncio quando a alma pede recolhimento.
Faz parte de mim não caber em rótulos,
não diminuir minha intensidade
para que caiba na medida do outro.
Ser, para mim, é resistência.
É escolha diária.
É coragem de continuar sentindo
mesmo quando sentir transborda.
E se há algo que aprendi,
é que deixar de ser
nunca foi uma opção.
Engraçado como a gente ri chamando de solteiro com comportamento de casado, mas no fundo isso diz muito.
Tem gente vivendo como se tivesse um compromisso invisível. Fiel a alguém que ainda nem chegou. Acorda, trabalha, cuida da casa, da rotina, se recolhe… e diz que é preguiça de socializar. Mas às vezes não é preguiça, é falta de propósito nas conexões rasas.
A gente se fecha sem perceber. Não olha para os lados porque não está à procura. Espera, mas não busca. Vive como se já tivesse alguém do lado, respeitando um lugar que ainda está vazio.
Existe uma linha delicada entre maturidade e isolamento. Entre paz e fuga. Entre estar inteiro sozinho e se esconder do mundo.
Ser seletivo é bonito. Ser fiel aos próprios valores é raro. Mas o amor não entra onde a porta permanece trancada.
Talvez não seja celibato involuntário. Talvez seja medo disfarçado de conforto. Ou talvez seja só alguém que aprendeu que não quer qualquer companhia.
No fim, a pergunta não é se você é um solteiro casado.
É se você está esperando… ou evitando.
E o mais curioso é que me parece que estamos no mesmo barco.
Existe um grupo silencioso crescendo por aí. Pessoas que dizem estar bem sozinhas. Resolvidas. Seletivas. Mas que, no fundo, talvez estejam apenas cansadas de tentar.
Não sei se é uma nova era, uma geração emocionalmente exausta ou apenas o reflexo de relações que nos ensinaram a endurecer. Somos funcionais, independentes, organizados… mas cada vez mais indisponíveis por dentro.
Nos protegemos tanto de sermos quebrados de novo que, sem perceber, começamos a nos blindar. E nessa tentativa de não sentir dor, vamos deixando a vida passar — e às vezes o amor também.
Não é sobre desespero por companhia.
É sobre perceber quando o cuidado vira muro.
Quando a paz vira isolamento.
Quando a espera vira desculpa.
Talvez não estejamos casados com a solidão.
Talvez só estejamos com medo de permitir que alguém nos desorganize outra vez.
E isso não é fraqueza.
Mas também não pode virar morada.
Carta aos Céus
Deus, já faz um tempo desde a última vez que consegui, em palavras, falar contigo.
É Pai… estou aqui, paralisada.
Eu clamo a Ti com gemidos inexprimíveis. Às vezes, mal consigo respirar. Fico com o olhar perdido, buscando a Tua direção, tentando encontrar algo palpável onde minhas mãos possam se apoiar. Quero confiar, e confioque o socorro vem de Ti. Sei que não falhas, mesmo quando eu falho tantas vezes, tantas vezes escondida dentro das minhas próprias limitações.
Tu és Deus de graça, de benevolência, de misericórdia sem medida. E eu… eu sou pequena diante da Tua grandeza, mas ainda assim sou Tua filha. Não tenho outro além de Ti. Não quero outro além de Ti.
Tem misericórdia de mim, ó Deus.
Vê o que ninguém vê.
Escuta o que não consigo dizer.
Recolhe as lágrimas que caem quando ninguém está olhando.
Há dias em que minha fé parece firme como rocha. Em outros, sinto-me areia espalhada pelo vento. Mas mesmo quando minha força vacila, eu sei que a Tua não vacila. Mesmo quando meus joelhos tremem, sei que Tu permaneces de pé por mim.
Ensina-me a descansar em Ti quando tudo em mim quer correr.
Ensina-me a esperar quando o silêncio parece resposta.
Ensina-me a confiar quando o medo tenta gritar mais alto que a Tua promessa.
Se for preciso quebrar algo em mim, que seja o orgulho.
Se for preciso silenciar algo, que seja a ansiedade.
Mas não permitas que se apague em mim a chama que ainda insiste em crer.
Pai, eu não preciso entender tudo. Só preciso sentir que Tu estás aqui.
E mesmo quando não sinto, ajuda-me a lembrar que presença não depende de sensação, depende de promessa.
Eu Te entrego meus medos, minhas dúvidas, minhas culpas, minhas expectativas.
Eu Te entrego o que fui, o que sou e o que ainda serei.
Sustenta-me.
Direciona-me.
Refaz-me, se necessário.
E se hoje só consigo sussurrar, recebe o meu sussurro como oração inteira.
Amém.
Tem dias em que a gente é tempestade.
Não aquela que destrói por maldade,
mas a que carrega dentro de si o peso do céu inteiro.
Relâmpagos de pensamentos,
trovões de palavras não ditas,
chuvas que caem pelos olhos em silêncio.
Ser tempestade é não caber em calmarias rasas.
É sentir demais,
é transbordar.
Mas toda tempestade também limpa.
Arranca o que estava seco,
lava o que estava sufocado,
abre espaço para o que precisa florescer.
Se hoje você é tempestade,
não se envergonhe do barulho.
Às vezes, é preciso estremecer por dentro
para depois voltar a ser céu.
Nem toda ausência é desistência; às vezes é a forma mais madura de se preservar.
Há silêncios que não nascem da indiferença, mas do cansaço de tentar ser ouvido onde nunca houve espaço para escuta. Há distâncias que não são fuga, mas limite.
A gente aprende, com o tempo, que permanecer onde a alma se encolhe é uma violência silenciosa contra si mesma. E então escolhe ir — não por falta de amor, mas por excesso de amor-próprio.
Porque preservar-se também é um gesto de coragem. É entender que algumas portas não se fecham por fracasso, mas por proteção. É confiar que sair de um lugar onde não florescemos é, na verdade, abrir espaço para respirar de novo.
Nem toda ausência é abandono. Às vezes, é apenas a forma mais digna de continuar inteiro.
pela minha paz, eu aprendi a desaparecer lentamente
dos lugares que me apertam,
das pessoas que me diminuem,
das situações que me roubam a luz.
mas antes de tudo, eu fico.
eu faço questão de ficar.
eu dou sinais.
eu converso.
eu explico o que dói.
eu mostro onde machuca.
eu tento ajustar o que ainda pode ser salvo.
não parto na primeira falha.
não desisto no primeiro silêncio.
não abandono no primeiro conflito.
eu permaneço enquanto há respeito.
enquanto há tentativa.
enquanto há reciprocidade.
eu já insisti demais.
já expliquei demais.
já tentei salvar o que não queria ser salvo.
e quando percebo que só eu estou sustentando,
quando meus sinais viram incômodo,
quando minha dor é tratada como exagero
eu começo a me recolher.
não faço alarde.
não anuncio partidas.
não bato portas.
eu apenas recolho o que é meu:
meu tempo,
minha energia,
meu afeto.
há quem chame de frieza.
há quem chame de orgulho.
mas só eu sei o quanto custou permanecer quando tudo em mim já pedia silêncio.
porque permanecer onde preciso me diminuir
é uma forma lenta de me abandonar.
e eu já me abandonei o suficiente em nome de amores,
de expectativas,
de pertencimentos que nunca foram casa.
pela minha paz, eu desapareço devagar
não por fraqueza,
não por indiferença,
mas porque aprendi que quem se ama
não permanece onde dói.
e se um dia eu for,
saiba:
antes, eu tentei ficar.
Quero alguém que não seja estrela cadente
que passe riscando o céu e desapareça.
Quero constelação.
Presença que permanece,
luz que mesmo distante continua visível.
Quero alguém que, quando a noite vier,
seja o meu ponto fixo no escuro.
Não brilho que impressiona
mas brilho que orienta.
Porque eu não quero mais marolas.
Quero céu firme.
Quero estrela que fica.
Às vezes, o que nos falta não é amor — é coragem de abrir as janelas da alma e deixar alguém entrar sem medo do vento.
Quero alguém para chamar de meu.
Não por posse, mas por escolha.
Alguém que eu reconheça como casa.
Quero sentir o cheiro do aconchego,
e nos seus braços não apenas estar
mas ser lar também.
Porque amar, para mim, não é passagem.
É permanência.
É ter onde repousar o medo
e onde a alma possa descansar.
Hoje, recebo vocês com aquilo que tenho de mais verdadeiro: minha gratidão.
Talvez eu ainda não consiga dizer tudo em palavras faladas. Às vezes, eu agradeço no silêncio, no olhar que demora, no abraço que segura um pouco mais, no sorriso tímido de quem ainda está se refazendo. Agradeço também vivendo, que é o que vocês me ensinaram a fazer de novo.
Vocês foram suporte quando eu precisei parar.
Foram colo quando meu corpo e minha alma pediram descanso.
Foram cuidado, zelo, presença, generosidade.
Apoio emocional, financeiro, de alma — daquele que permite respirar sem culpa.
Em vocês, aprendi que eu podia ser cuidada como algo precioso.
Como uma pérola.
Essa pequena concha é apenas um símbolo. Um gesto singelo para dizer que não há distinção entre vocês: todas têm a mesma importância, todas sustentaram, cada uma à sua maneira, o que em mim estava frágil. Que ela possa guardar o que for precioso — anéis, memórias, pequenas delicadezas — e que, ao olharem para ela, lembrem-se: ali também estou eu, depositada com amor, assim como fui acolhida.
No dia em que pedi anjos a Deus, Ele me enviou vocês.
E foi através de vocês que voltei a acreditar que descansar também é um ato de coragem, e que ser cuidada é uma forma de amor.
Obrigada por serem minha rede.
Meu suporte.
Meu descanso.
Minha luz no escuro.
Com todo o amor que hoje consigo oferecer.
🤍
29 de Dezembro de 2025
A Espera que Nos Leva
Vivemos esperando dias melhores.
Esperando o momento certo, a oportunidade certa, o sentimento certo.Como se a vida fosse começar depois.
Mas, enquanto esperamos, o tempo não espera por nós.
Ele passa nos detalhes.
Nas conversas adiadas.
Nos abraços que poderiam ter sido mais demorados.
Nas palavras que escolhemos guardar.
De maneira quase imperceptível, ele nos atravessa.
E quando nos damos conta, não foi apenas o calendário que virou, fomos nós que mudamos com ele.
Há uma delicadeza cruel nisso:
a gente aprende tarde demais que os dias “comuns” eram, na verdade, os melhores que tínhamos.
Talvez a vida não esteja depois da espera.
Talvez ela esteja aqui, agora, pedindo presença em vez de expectativa.
Porque o tempo não grita quando vai embora.
Ele apenas leva.
E deixa em nós o que fomos capazes — ou não — de viver.
A gente vive projetando a vida para frente, como se o melhor sempre estivesse logo ali, depois da próxima curva. E enquanto ensaiamos o futuro, o presente vai escorrendo pelos dedos sem barulho, sem aviso.
Eu fui o que pude,
eu dei o que tinha.
Se eu estava em pedaços,
como poderia ser inteira?
Não se entrega plenitude quando se está aprendendo a sobreviver.
Não se oferece abundância quando se vive de restos de si.
Ainda assim, eu fui.
Ainda assim, eu dei.
E talvez a pergunta nunca tenha sido sobre inteireza,
mas sobre verdade.
Porque há uma dignidade imensa em oferecer o que se tem,
mesmo quando o que se tem são fragmentos.
E quem não soube reconhecer isso
talvez nunca tenha entendido o que é amar alguém
em reconstrução.
Tem um tipo de silêncio que não é ausência. É exaustão.
É quando a alma percebe que falar já não muda, insistir já não constrói, explicar já não alcança. E então ela recolhe as palavras como quem fecha as janelas antes da chuva.
