Coleção pessoal de Jorgeanesquivel

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Casa de taipa.
Feita de barro, mãos e memória.
Erguida entre o vento e a esperança, sustentada mais por coragem do que por paredes.

Nela, cada rachadura conta uma história, cada canto guarda um silêncio antigo, cada porta conhece quem chegou cansado e quem partiu sonhando.

Casa simples aos olhos de muitos, mas imensa para quem entende que riqueza também mora no afeto.

Porque há lares de concreto que nunca aquecem…
e casas de taipa que abraçam como colo de mãe.

Tic tac, tic tac…
há relógios marcando horas,
e há silêncios marcando saudades.

Enquanto existo só em mim, carrego duas vontades: a de morrer… e a de viver de verdade. Não apenas passar pelos dias, não apenas respirar por obrigação, não apenas sobreviver. Quero tudo o que a vida ainda me permite tocar, sentir, descobrir e construir.


Mas há também essa desistência silenciosa, que tantas vezes me faz abrir mão de tudo antes mesmo de tentar. Uma força escura que me convence a parar, a recuar, a aceitar menos do que minha alma deseja.


Que morra em mim essa desistência. Que cesse esse hábito de abandonar sonhos, caminhos e a mim mesma. Porque não nasci para apenas suportar os dias. Nasci para habitá-los.


Enquanto travo essa batalha invisível, sigo sobrevivendo um dia de cada vez. E às vezes isso já exige uma coragem imensa. Há dias em que levantar é vitória. Há dias em que continuar respirando já é resistência.


Mas no fundo de mim ainda pulsa algo que não se rendeu. Uma centelha que insiste em querer mais, em querer vida inteira, em querer verdade.


Talvez seja por ela que ainda sigo aqui.
E talvez seja ela que, no tempo certo, me ensine a viver — não só existir.

Há em mim uma intensidade que, por vezes, me transborda e, em outras, me aprisiona. Sinto tudo em excesso: o silêncio, a ausência, os desejos, os medos e as esperanças. Enquanto o mundo segue seu curso, muitas vezes permaneço parada, vivendo mais dentro de mim do que fora de mim.


É estranho desejar tanto voar e, ao mesmo tempo, sentir as asas pesadas. Querer alcançar horizontes, mas não conseguir sair do lugar. Como se algo em mim chamasse pela vida, enquanto outra parte ainda se recolhe, cansada das próprias batalhas.


Carrego uma alma funda, dessas que não sabem sentir pouco nem viver pela metade. E talvez por isso tudo em mim seja tão vasto: quando dói, dói inteiro; quando sonha, sonha longe; quando ama, ama sem margens.


Mas começo a entender que não nasci para ser cárcere de mim mesma. Que toda essa profundidade não veio para me afundar, e sim para me ensinar a nadar em águas que muitos temem.


Talvez eu esteja em tempo de reconstruir minhas asas com paciência. De fazer paz com meus silêncios. De sair, aos poucos, desse mundo interno que me consome e tocar a vida com mãos mais leves.


Porque ainda há muito em mim que quer florescer. E mesmo cansada, ainda existe uma parte minha que acredita no voo.

Minha querida,


Essa intensidade que carregas nem sempre é chama. Às vezes, ela pesa. Às vezes, ocupa todos os espaços dentro de ti e faz parecer que nada mais existe além do que sentes. Enquanto o mundo segue lá fora, tu te vês parada, imóvel, como quem observa a vida de longe sem conseguir tocá-la.


Eu sei que desejas voar. Sei do impulso que existe em ti, da vontade de viver, de sentir o vento, de alcançar horizontes novos. Mas também sei que, por vezes, tu olhas para as próprias asas e acreditas que estão quebradas.


Escuta-me com carinho: talvez elas não estejam quebradas. Talvez estejam cansadas. Talvez feridas. Talvez recolhidas pelo excesso de peso que tens carregado em silêncio.


Não te condenes por isso. Não te chames de fraca por estar parada. Há batalhas que ninguém vê, cansaços que não aparecem no corpo, dores que se escondem atrás de um rosto quieto.


Tu não foste feita para viver apenas dentro de ti. Existe vida te esperando do lado de fora. Existe beleza, encontro, recomeço e caminhos que ainda não conheceste. Mas, para alcançá-los, primeiro precisas abrir algumas janelas por dentro.


Não precisa acontecer tudo hoje. Começa pequeno. Um passo. Um gesto. Um respirar fundo. Um pouco de sol no rosto. Um cuidado contigo. Uma palavra honesta. Um pedido de ajuda, se for preciso.


Lembra-te: o voo nem sempre começa no céu. Muitas vezes, ele começa no chão, no instante em que decidimos nos mover apesar do medo.


E nunca esqueças disto: tu não és a tua prisão. Tu és também a porta.


Com amor,
De mim para mim

Eu não sei sentir sem sentir muito.
Não sei querer se não for por inteiro.
Não sei ser, se for para ser pela metade.


Carrego intensidade até no silêncio, verdade até no que calo, entrega até no que temo.


Por isso me pergunto: por que me invades?
Se sabes que, quando entras, nada em mim permanece raso.
Tudo transborda. Tudo ganha nome. Tudo pede permanência.


Porque em mim, o pouco nunca soube morar.

Deus, se não for para mim, tira de mim esse querer.
Se a minha vontade não estiver alinhada à Tua, por que permitir em mim um desejo em vão?


Quero seguir a Tua vontade e os Teus propósitos para a minha vida. Se estás a me preparar, não permitas que nada me desvie do Teu chamado nem do destino que me reservas.


Socorre-me, meu Senhor. Que a Tua graça, a Tua bondade e a Tua misericórdia me alcancem antes que eu me perca em meus próprios desejos.


Se for Teu, confirma.
Se não for, aquieta meu coração.
Mas, acima de tudo, não me deixes caminhar longe de Ti.

Às vezes penso que devo me aquietar, porém quieta já sou. Permaneço imóvel enquanto penso.

E, por alguns momentos, sempre me vem a mesma pergunta: e se eu fizer diferente? Ir em frente e buscar alcançar com as mãos aquilo que só meus olhos alcançaram.

E se eu tocar… será que estrago? Ou é precipitado o medo de me precipitar?

Porque o medo de estragar já não causa seus próprios estragos?

Vai tornando impossível um acontecimento talvez inevitável. Fazendo ruir, antes mesmo do início, aquilo que talvez só precisasse de coragem para acontecer.

Talvez, às vezes, o que chamamos prudência seja apenas temor disfarçado.
E o que mais desejamos não se perde pelo toque… se perde pela ausência dele.

Tenho ânsia de te encontrar. Urgência de me abrigar em teus braços. Ainda que fosse apenas por um instante, por um cafuné, para repousar a tranquilidade entre o peito e o mundo.

Queria atender ao chamado do que me chama em teu olhar. Às vezes, queria trocar o relógio, vencer o tempo, rasgar a distância. Mas há o medo… ah, o medo. Esse que trava, bloqueia, bloqueia, semeia dúvidas. O receio de atropelar a forma certa e não deixar acontecer.

Mas existe forma certa quando o amor decide invadir? Existe medida exata para aquilo que chega tomando posse do que já lhe pertence?

Ah, a paixão… Ela me parece vir carregada de ímpeto e da bela insensatez dos destemidos apaixonados.

Então me pergunto: por que o amor conserva tanto pudor? Por que teme pisar em águas profundas, se ele, por si só, já nasce tão profundo?

Há muito te espero. Te espero sem fazer alarde. Te espero sem te procurar. Confesso: até sem sair do lugar.


Tenho receio de que nos desencontremos enquanto dou voltas por aí. Que eu passe por você em um café, numa esquina, em qualquer lugar… e não perceba. Inclusive, posso nem reconhecê-lo.


Ainda assim, te espero. Porque sei que tua alma reconhecerá a minha. Num aroma que fica no ar, num olhar profundo, talvez em um verso dito na hora certa.


Mas às vezes me pergunto: e se já nos encontramos? E se nos desencontramos logo depois? E se nos perdemos no tempo, ou não soubemos nos reconhecer? E se nos estranhamos, duvidamos, seguimos adiante?


Será que o destino concede segundas chances aos que eram para ser?
Será que, mesmo tardios, ainda saberemos voltar um para o outro?
Ou será que, de alguma forma silenciosa, seguimos nos esperando até hoje?

Saudade é amor que fica.


Você se foi
e levou um pedaço gigantesco de mim…
um desses que não se recompõe fácil.


Mas o amor
você esqueceu.


E ele ficou aqui,
ocupando tudo,
transbordando nos silêncios,
me atravessando nos dias mais comuns.


É por isso que eu morro de saudade.


Porque o que ficou
não foi pouco.


Ficou o que mais pesa,
o que não passa,
o que insiste em existir
mesmo depois da sua partida.


E eu escrevo
não para esquecer,
mas para dar lugar
ao que ainda vive em mim.




Aos meus pais 🤍

Cultivando minha primavera, para que nunca me faltem flores.
Quem sabe o amor que plantei e tenho regado também venha a florescer?


Sigo cuidando, mesmo quando não há sinais,
porque aprendi que nem toda raiz se revela de imediato.
Algumas crescem no escuro, em silêncio,
antes de ousarem tocar a luz.


E enquanto o tempo cumpre o seu papel,
eu não deixo de me florir.
Porque há beleza em quem permanece,
em quem cultiva,
em quem acredita
mesmo sem garantias.


Se for para florescer, que seja inteiro.
Se for para ficar, que seja com raízes.
E se não for…
ainda assim, minha primavera não se perde.

Eu estou triste.
tão triste que já nem sei mais onde começa ou termina.
é um cansaço que não passa com descanso,
é um peso que não se explica
só se sente.
eu estou tão triste
que até existir parece esforço demais.
e o mais difícil de admitir
é que não é sobre querer ir embora…
é sobre não aguentar mais ficar assim.
eu estou cansada de estar triste.
cansada de tentar e não sair do lugar,
cansada de sustentar algo dentro de mim
que já não se sustenta sozinho.
tem dias que a vontade não é viver,
é só desaparecer um pouco…
silenciar tudo isso que não cala.

Às vezes, a gente aprende no silêncio do que não aconteceu.
No intervalo entre o querer e o desistir, mora um tipo de verdade que ninguém ensina,
só se sente.


Tem coisas que não florescem, não por falta de cuidado,
mas porque não eram raízes para o nosso chão.


E tudo bem.


Nem tudo que chega é para ficar,
e nem tudo que vai leva embora o que fomos.
Há partidas que devolvem a gente para si.


No fim, a vida não é sobre segurar tudo,
mas sobre reconhecer o que merece ser permanência dentro da gente.

Falar da cor dos temporais
como quem nomeia o que não se deixa tocar.
Inventar tons para o que passa rápido demais,
para o que rasga o céu e não pede pra ficar.


Falar de coisas que ninguém viu,
nem os olhos mais atentos, nem a memória mais antiga.
Coisas que só existem no sentir,
no intervalo entre o que dói e o que ainda abriga.


Falar das flores de abril,
mesmo quando o chão insiste em silêncio.
Porque há sempre um brotar escondido,
um gesto de vida acima de qualquer sofrimento.


E então, dizer de tudo aquilo
que escapa do certo e do errado,
do que não cabe em medida, nem em julgamento
apenas existe… vasto, indomável, sentido.

Tem coisas, e pessoas que nos desgastam tanto que, quando percebemos, já viraram um ciclo de repetições.
Batem, insistem, fazem a gente abrir a porta… mas, quando a gente abre, não permanecem, não cuidam, não fazem questão.


E esse movimento cansa.
Cansa a ponto de tirar a vontade de reagir, de falar, de tentar de novo.


A gente vai perdendo o interesse, a motivação…
e, quase sem perceber, escolhe o silêncio, se afasta, fecha um pouco mais a porta por dentro.


Não é frieza, nem falta de sentimento.
É excesso de desgaste.


É o corpo e a alma entendendo que nem toda insistência merece acesso,
e que insistir em certos ciclos dói mais do que soltar.


Então nasce o medo de abrir de novo…
mas junto com ele, nasce também algo importante: o cuidado.


Porque, às vezes, abrir mão não é desistir
é, finalmente, se escolher.

Eu disse que estou caindo.
e não é uma queda rápida
é lenta, contínua…
dessas que parecem não ter fundo.
eu estou em uma fase
que não suporta mais nada.
cada dor chega como se fosse única,
infinita, profunda, árdua…
como se eu não fosse atravessar.
e mesmo fazendo parte de um todo,
cada uma delas, sozinha,
já é um abismo.
neste momento
eu estou exausta.
cansada. triste. melancólica.
eu calo… e calo…
e ainda assim choro.
grito por dentro.
e não consigo desligar.
a vida me chama pra continuar,
me pede presença, responsabilidade, cuidado…
mas por dentro
tudo em mim só queria parar.
eu preciso ser forte para os outros,
mesmo quando ninguém é por mim.
então eu guardo a minha dor no bolso
e sigo… como dá.
tem tanta coisa que eu queria dizer,
retrucar, gritar, responder…
mas eu me calo.
e perdoo, em silêncio,
a insensatez de quem não sabe o que diz.
porque não sabem o que eu sinto.
não sabem como eu sinto.
e talvez seja melhor que não saibam.
porque desejar que saibam
seria desejar que sentissem o mesmo.
e eu não desejo isso a ninguém.
então não…
eu não espero que me entendam.
mas eu estou cansada.
cansada de uma dor
que não parece ter fim.
e quando tudo em mim acredita
que isso nunca vai passar…
o pensamento que vem
não é sobre viver
é sobre querer que isso acabe.

Tem momentos em que insistir deixa de ser força
e começa a virar desgaste.


A gente fixa o olhar em algo como se ali estivesse tudo
como se, alcançando aquilo,
o resto finalmente se organizasse por dentro.


Mas nem tudo que chama
é feito para permanecer.


E há um limite silencioso
entre persistir
e se perder de si tentando.Às vezes, o que falta não é mais tentativa.


É direção.
É entender que nem todo desejo precisa ser sustentado
até o esgotamento.


Que nem tudo que não veio
precisa ser esperado até cansar.


Existe um tipo de sabedoria
que não está em segurar,
mas em soltar o foco
antes que ele nos prenda.


Redirecionar também é escolha.
Também é cuidado.
Porque enquanto a gente insiste no que não responde,
outras possibilidades passam
discretas, vivas, possíveis.
E a vida não pede que a gente queira menos,
mas que a gente queira melhor.
Que a gente aprenda a mover o olhar,
a ajustar o caminho,
a trocar de direção sem sentir que falhou.


Às vezes, não é sobre abrir mão.
É sobre se devolver.

Eu já quis tantas coisas
que hoje não fazem mais sentido.
Perdi o interesse…
e é estranho perceber
que algo que um dia foi tão intenso
agora não me alcança nem de longe.
Nem parece que eu quis tanto assim.
Talvez o querer também tenha seu tempo.
Talvez ele nasça, cresça…
e, silenciosamente, vá embora.
Por isso, o querer que hoje me atravessa com força
o que me desperta, inquieta e chama
que se faça presente.
Que permaneça vivo.
Que continue se fazendo desejar.
E que me deseje tanto
quanto eu o desejo.
Antes que, logo ali na frente,
eu também me torne ausência.
Antes que o encanto se dissolva pelo cansaço
e o gosto de querer se perca.
Porque eu sei…
eu posso, de novo, me distrair com o mundo
e deixar passar.
Então hoje,
se faça presença.
Se faça sentido.
Se faça interessante.

Cultivar flores é mais do que um gesto, é um exercício silencioso de sentir. É tocar a terra com delicadeza, como quem entende que tudo o que cresce precisa, antes, ser acolhido.


Há quem veja apenas pétalas. Mas quem é sensível enxerga processos: o tempo da semente, a espera da raiz, a coragem do broto que rompe o escuro em direção à luz. Cultivar é respeitar esses ciclos sem apressar, sem exigir apenas cuidar.


A sensibilidade mora nisso: em perceber o que não grita. Em regar mesmo quando ainda não há sinais. Em acreditar no invisível, no que está sendo formado longe dos olhos.


Flores não florescem sob pressa. Elas respondem ao toque certo, à luz suficiente, ao silêncio necessário. E talvez seja por isso que quem cultiva flores aprende, sem perceber, a cultivar pessoas, sentimentos e a si mesma.


Porque amar, no fundo, é isso: um ato contínuo de cuidado, presença e entrega, mesmo quando tudo ainda é semente.