Coleção pessoal de Jorgeanesquivel

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Eu já quis tantas coisas
que hoje não fazem mais sentido.
Perdi o interesse…
e é estranho perceber
que algo que um dia foi tão intenso
agora não me alcança nem de longe.
Nem parece que eu quis tanto assim.
Talvez o querer também tenha seu tempo.
Talvez ele nasça, cresça…
e, silenciosamente, vá embora.
Por isso, o querer que hoje me atravessa com força
o que me desperta, inquieta e chama
que se faça presente.
Que permaneça vivo.
Que continue se fazendo desejar.
E que me deseje tanto
quanto eu o desejo.
Antes que, logo ali na frente,
eu também me torne ausência.
Antes que o encanto se dissolva pelo cansaço
e o gosto de querer se perca.
Porque eu sei…
eu posso, de novo, me distrair com o mundo
e deixar passar.
Então hoje,
se faça presença.
Se faça sentido.
Se faça interessante.

Cultivar é a terapia de quem sabe amar.

Tem momentos em que insistir deixa de ser força
e começa a virar desgaste.


A gente fixa o olhar em algo como se ali estivesse tudo
como se, alcançando aquilo,
o resto finalmente se organizasse por dentro.


Mas nem tudo que chama
é feito para permanecer.


E há um limite silencioso
entre persistir
e se perder de si tentando.Às vezes, o que falta não é mais tentativa.


É direção.
É entender que nem todo desejo precisa ser sustentado
até o esgotamento.


Que nem tudo que não veio
precisa ser esperado até cansar.


Existe um tipo de sabedoria
que não está em segurar,
mas em soltar o foco
antes que ele nos prenda.


Redirecionar também é escolha.
Também é cuidado.
Porque enquanto a gente insiste no que não responde,
outras possibilidades passam
discretas, vivas, possíveis.
E a vida não pede que a gente queira menos,
mas que a gente queira melhor.
Que a gente aprenda a mover o olhar,
a ajustar o caminho,
a trocar de direção sem sentir que falhou.


Às vezes, não é sobre abrir mão.
É sobre se devolver.

Há tempos carrego uma espera.


Não uma espera vazia, dessas que apenas contam os dias. É uma espera que me transformou. Que me ensinou a olhar para dentro, a compreender meus desejos, meus limites e os propósitos que Deus foi revelando ao longo do caminho.
Durante esse tempo, aprendi que esperar não é ficar parada. É preparar o coração para aquilo que se deseja viver. É cuidar da alma enquanto o tempo faz o seu trabalho silencioso. É permanecer fiel ao que acredito, mesmo quando a saudade de algo que ainda não aconteceu insiste em visitar meus pensamentos.
Tenho anseios. Tenho sonhos. Tenho o desejo de construir uma história bonita, de encontrar alguém com quem eu possa compartilhar a vida, os silêncios, os risos, os desafios e as conquistas. Alguém que compreenda que o amor verdadeiro não se sustenta apenas no encanto dos encontros, mas na decisão diária de permanecer.
Também tenho desejos que habitam meu corpo e minha alma. Sou humana. Sinto. Espero. Mas aprendi a não permitir que a pressa seja maior que o propósito. Porque algumas promessas florescem melhor quando respeitamos o tempo necessário para que criem raízes profundas.


Por isso sigo.
Nem sempre com a mesma força. Nem sempre sem questionamentos. Mas sigo. Acreditando que aquilo que Deus prepara não chega para preencher vazios, mas para somar caminhos, fortalecer propósitos e multiplicar alegrias.
Enquanto esse dia não chega, continuo cultivando quem sou. Continuo aprendendo, amadurecendo e me tornando a mulher que desejo ser quando o encontro acontecer.


Porque a minha espera não é ausência.


É preparação.


E cada dia vivido com propósito me aproxima não apenas de alguém, mas da versão de mim mesma que estará pronta para viver, com verdade e inteireza, tudo aquilo que hoje entrego em oração. 🌷




24 de janeiro 2024

Quando necessitar ausentar-se,


não vá longe.


Fique distante apenas o suficiente para que a saudade me visite,
mas nunca o bastante para que a tua presença deixe de morar em mim.


Que eu sinta tua falta,
mas continue encontrando você nos detalhes.
Não apenas nas lembranças,
mas nos gestos que permanecem,
nos silêncios que ainda carregam o som da tua voz.


Faça-se presente.
Demarque o teu lugar em meu coração para que o tempo jamais esfrie o abraço,
nem permita que a distância enfraqueça aquilo que construímos.


Porque gosto da saudade quando ela é ponte,
não quando se torna abismo.


Então vá, quando for preciso.


Mas deixe sempre um caminho de volta até mim.
Mantenha-se ecoando em forma de cuidado,
de carinho,
de amor.


Como quem zela pelo que é precioso.
Como quem, mesmo distante,
carrega no peito o desejo sincero de regressar ao seu lar.

Não se demore longe...


Fique apenas o suficiente para que a saudade floresça mansa dentro de mim,
como quem rega uma ausência necessária para tornar o reencontro ainda mais bonito.


Mas não vá tão longe a ponto de levar consigo os vestígios da tua presença.


Deixe ficar o eco da tua voz,
a lembrança do teu riso,
os pensamentos que insistem em me encontrar nos momentos mais distraídos do dia.


Ausente o bastante para que eu sinta tua falta.
Presente o bastante para que eu continue te sentindo.


Porque há distâncias que aproximam,
e saudades que, em vez de afastar,
nos fazem habitar ainda mais profundamente o coração um do outro.


Então não se demore longe...


Fique apenas o tempo necessário para que a saudade exista,
mas nunca o bastante para que eu precise aprender a viver sem você.

Tem coisa em você que surge na minha cabeça sem pedir licença. Quando percebo, já se espalhou pelos pensamentos, feito presença que chega sem avisar e decide ficar.

Hoje o coração ficou quieto demais.


E quando ele fica assim, não é porque não tem o que dizer. É porque sentiu além das palavras, atravessou emoções que não couberam em nenhuma conversa e guardou em silêncio aquilo que ainda não conseguiu traduzir.


Há sentimentos que não gritam, não pedem atenção, não fazem alarde. Apenas se recolhem para dentro de nós e permanecem ali, ocupando espaço, pedindo tempo para serem compreendidos.


Hoje o coração ficou quieto demais.


E talvez esse silêncio seja apenas a forma que ele encontrou de acolher tudo o que sentiu.






22 de junho 2026

A distância entre duas pessoas não se mede apenas em quilômetros. Mede-se também pelas pontes que cada um pode construir, pelos obstáculos que precisa atravessar e pela vontade que tem de chegar.
Por isso, dizer que "o direito de um ir é o mesmo do outro vir" pode ser justo em teoria, mas a realidade nem sempre oferece as mesmas condições para ambos. Quando existem atalhos para um e barreiras para o outro, a distância deixa de ser igual, ainda que o mapa insista em dizer que é.
No fim, talvez o mais importante não seja quem vai ou quem vem, mas o quanto cada um está disposto a percorrer do próprio caminho para que o encontro aconteça.
Porque quando existe vontade, não se contabilizam apenas os passos dados;reconhecem-se também os obstáculos vencidos.

Bom domingo.


Que o dia seja leve, mas que também nos ensine aquilo que o coração, às vezes, demora a compreender: a importância da reciprocidade.


Porque não há paz em insistir onde só um lado se doa. Não há descanso em carregar sozinho o peso de uma relação, de uma amizade ou de um sentimento. Tudo o que é verdadeiro encontra caminho de volta. Tudo o que é sincero ecoa no outro de alguma forma.


Que neste domingo Deus nos dê sabedoria para reconhecer quem caminha ao nosso lado com a mesma disposição, o mesmo cuidado e a mesma verdade. E que nos dê serenidade para soltar aquilo que exige de nós um esforço constante, sem nunca oferecer abrigo.


Que o amor, o respeito, a presença e o carinho encontrem morada onde também sejam acolhidos.


A reciprocidade não é sobre receber exatamente o que se entrega, mas sobre não ser o único a entregar.


Abençoado domingo.


Dom, 21 de junho de 2026

Mantenha-me quente, acesa.


Não sirvo fria. Mas também não me mantenha morna, guardada para um momento oportuno, para um "quem sabe", um "talvez".


Ou me aqueça por inteiro e me prove quente, ou permita que eu esfrie.
Porque a mornidão é espera demais para quem nasceu intensidade. E eu não sirvo morna.

Houve um tempo em que o amor atravessava estradas de terra, mares e continentes dentro de um envelope.


As palavras eram escritas à mão, carregando a inclinação da letra, a força do traço, as pausas do pensamento. Algumas cartas levavam perfume. Outras, uma flor prensada entre as páginas. Quase todas levavam saudade.


Quem escrevia não tinha a certeza da resposta. Esperava dias, semanas, às vezes meses. E, ainda assim, escrevia.


Talvez porque o sentimento viesse antes da comunicação.


Hoje, carregamos o mundo inteiro na palma da mão. Uma mensagem atravessa oceanos em segundos. Vemos quando a pessoa está online, quando digitou, quando visualizou. Nunca foi tão fácil chegar até alguém.


E, no entanto, nunca pareceu tão difícil alcançar uma alma.


Falamos com muitas pessoas ao mesmo tempo, mas raramente permanecemos em alguma conversa tempo suficiente para que ela crie raízes. Colecionamos contatos, curtidas, notificações e distrações. Estamos conectados por sinais invisíveis, mas separados por muralhas emocionais cada vez mais altas.


Vivemos uma época estranha, onde demonstrar interesse pode parecer excesso. Onde responder rápido pode ser interpretado como carência. Onde sentir muito assusta. Onde a sinceridade, tantas vezes, é substituída por estratégias.


Chamam de maturidade emocional aquilo que, por vezes, é apenas medo de se entregar.


Então me pergunto: o que movia aquelas cartas?


Não era o papel.
Não era a tinta.
Não era o perfume.
Era o sentimento que transbordava antes de se tornar manuscrito.


As palavras apenas encontravam uma forma de existir.
Hoje, para onde vai esse transbordamento?


Para onde vai o amor de quem deseja conversar sem calcular o tempo da resposta? De quem sente saudade sem orgulho? De quem gostaria de dizer "gosto de você" sem receio de parecer demais?


Talvez o problema não seja a tecnologia.
Talvez o problema seja que aprendemos a nos proteger tão bem que esquecemos como nos revelar.


E, enquanto inventamos jogos para não parecer interessados, acabamos perdendo justamente aquilo que mais procuramos: alguém diante de quem não seja necessário jogar.
Não acredito que este seja o fim das relações verdadeiras.


Mas acredito que elas se tornaram um ato de coragem.
Porque, em um mundo que ensina a esconder sentimentos, amar continua sendo a arte de deixá-los aparecer.

Há olhares que percorrem paisagens, atravessam rostos e encontram beleza nas coisas mais simples. Mas existe um olhar ainda mais difícil: aquele que se volta para dentro.

Nem sempre temos coragem de sustentá-lo.

É mais fácil observar o mundo do que visitar os cômodos esquecidos da própria alma. Mais fácil apontar imperfeições ao redor do que reconhecer aquelas que silenciosamente habitam em nós.

Olhar para dentro exige silêncio.

Exige fechar os olhos para tudo o que distrai e sentir. Sentir o que dói, o que constrange, o que precisa partir e também aquilo que precisa permanecer.

É nesse encontro que descobrimos nossas falhas, mas também nossas virtudes. Nossos excessos, mas também nossas ausências. As feridas que pedem cura e os sonhos que ainda esperam coragem para florescer.

Quem nunca olha para dentro corre o risco de viver distante de si mesmo.

Mas quem se permite esse mergulho encontra mais do que imperfeições. Encontra verdades.

E são elas que nos transformam.

Porque todo recomeço nasce primeiro de um olhar sincero lançado para dentro de nós mesmos.

Orações Escritas | Cartas aos Céus


Quem sou eu, Senhor?


Sem Tua presença, sou apenas pó que se esquece de onde veio. Sou falha, limitada, tantas vezes tomada por dúvidas que me fazem questionar minha própria capacidade, meu valor e até aquilo que um dia sonhei alcançar.


Quem somos nós sem a Tua misericórdia? O que haveria de bom em nossos corações se não fosse a Tua graça nos alcançando todos os dias, nos chamando filhos mesmo quando falhamos, nos vestindo de dignidade quando tudo em nós parece ruína?


E ainda assim, com amor, Tu nos levantas. Não nos defines pelos nossos erros. Apenas nos estendes a mão e nos convidas a recomeçar.


Por isso venho a Ti. Não com méritos para apresentar, nem com certezas para oferecer, mas com o coração aberto, necessitado da Tua presença.


Faz-me nova criatura, Senhor.


Reveste-me da Tua bondade. Constrange-me com o Teu amor. Corrige em mim o que precisa ser corrigido e fortalece o que em mim ainda é frágil.


Ensina-me a confiar quando eu quiser desistir. Ensina-me a permanecer quando o medo tentar me fazer recuar.


E dá-me a ousadia de sonhar os sonhos que colocaste dentro de mim. Não para a minha glória, mas para que eu veja Tuas promessas florescerem no tempo certo.


Eis-me aqui, Senhor. Com minhas imperfeições, minhas dúvidas e minhas esperanças. Inteira diante de Ti, porque sei que é nas Tuas mãos que tudo em mim encontra sentido.

Há dias em que a saudade chega sem aviso.


Não faz barulho. Não bate à porta. Apenas ocupa os espaços, senta-se ao meu lado e me acompanha em silêncio.


Nesses dias, tudo continua igual por fora. O mundo segue seu ritmo, as pessoas seguem seus caminhos, os compromissos continuam existindo. Mas por dentro, algo caminha mais devagar.


Sinto falta de presenças que nem sempre estiveram perto, mas que encontraram morada em mim.


E é estranho como algumas pessoas conseguem permanecer mesmo quando estão ausentes.


Talvez a solidão não seja a falta de companhia. Talvez seja a distância entre aquilo que sentimos e aquilo que conseguimos dizer.


Por isso me recolho.


Não porque queira me afastar do mundo, mas porque existem sentimentos que precisam ser ouvidos antes de serem explicados.


E enquanto escuto o que meu coração tenta me contar, sigo.


Com saudade, com esperança, com dúvidas às vezes.


Mas sigo.


Porque algumas ausências doem, é verdade.


Mas também revelam o tamanho daquilo que um dia tocou a alma e decidiu permanecer.

Sempre me intrigaram os olhares.


Não aqueles que passam por nós distraídos, mas os que permanecem.
Os que pousam devagar sobre a nossa existência e parecem recolher fragmentos que nem sabíamos ter deixado expostos.


Há quem olhe para um rosto e veja apenas traços. Há quem olhe para uma fotografia e veja apenas uma imagem. Mas existem aqueles raros olhares que atravessam a moldura, a pele, as palavras e alcançam aquilo que não foi dito.


Talvez seja por isso que me encanto tanto pelos detalhes.


Porque a alma dificilmente se apresenta inteira. Ela se revela aos poucos: em um silêncio prolongado, em um sorriso que vacila antes de nascer, em uma saudade escondida atrás de uma frase comum. E é preciso sensibilidade para perceber.


Quem enxerga por dentro compreende que cada pessoa é um universo guardado sob aparências. E que reconhecer alguém é mais do que vê-lo; é acolher sua história sem precisar conhecê-la por completo.


Também acredito que todo olhar é uma espécie de espelho.


Aquilo que conseguimos reconhecer no outro fala, de alguma forma, sobre aquilo que habita em nós. Talvez seja por isso que certas pessoas nos alcançam tão profundamente. Não porque nos revelam algo novo, mas porque iluminam algo que já existia e permanecia adormecido.


No fim, penso que a vida é feita desses raros reconhecimentos.


Instantes em que alguém nos vê para além do que mostramos. Instantes em que nos sentimos encontrados sem termos pedido para ser procurados.


E talvez seja esse o maior desejo da alma: não ser admirada, nem compreendida por completo.


Apenas ser vista.

Quem olha e enxerga por dentro, reconhece.

Não porque sabe tudo sobre o outro, mas porque percebe aquilo que nem sempre é dito. Enxerga as marcas escondidas atrás dos sorrisos, os silêncios que carregam significados e as verdades que não cabem nas palavras.

Quem enxerga por dentro não se detém apenas na aparência das coisas. Vai além da superfície, atravessa as camadas que costumamos mostrar ao mundo e alcança aquilo que permanece quando todas as máscaras caem.

Talvez por isso o verdadeiro reconhecimento seja tão raro.

Porque reconhecer alguém não é apenas identificá-lo. É perceber sua essência. É enxergar a beleza que não se exibe, as dores que não se anunciam e a força que muitas vezes nem a própria pessoa sabe que possui.

E há algo ainda mais profundo nesse encontro.

Quem enxerga o outro com verdade acaba, inevitavelmente, encontrando a si mesmo pelo caminho. Porque cada alma reconhecida desperta um reflexo. Cada profundidade acolhida revela uma profundidade que também habita em nós.

Os olhares mais sensíveis carregam esse dom. Não apenas observam; compreendem. Não apenas percebem; acolhem.

E quando dois olhares capazes de enxergar por dentro se encontram, acontece algo raro: deixam de procurar explicações e passam apenas a reconhecer.

Como quem finalmente encontra, no olhar do outro, uma parte esquecida de si.

Ainda sobre olhar e olhares...

Existem olhos que apenas olham, e existem olhares que verdadeiramente enxergam.

Olhares que transcendem a superfície e alcançam lugares que as palavras nem sempre conseguem tocar. Olhares que acolhem a alma sem interrogá-la, que compreendem sem exigir explicações e que permanecem atentos aos detalhes que quase todos deixam escapar.

São olhares que registram mais do que imagens. Registram silêncios, ausências, cicatrizes, alegrias discretas e sentimentos que não encontram voz. Não se limitam ao que está diante deles; percebem o que habita por trás dos gestos, entre as pausas e dentro das emoções.

Mas também existem olhos que olham e não veem. Que atravessam pessoas, histórias e sentimentos sem realmente encontrá-los. Olhos que se detêm na aparência, mas não alcançam a essência. Que observam a forma, mas desconhecem a profundidade.

Talvez porque enxergar seja mais do que um ato da visão. Enxergar exige presença. Exige sensibilidade. Exige disposição para encontrar no outro algo além daquilo que está exposto.

Os olhares são espelhos e portais da alma. Espelhos porque revelam aquilo que carregamos dentro de nós. Portais porque permitem acessar mundos que não podem ser tocados pelas mãos.

E há uma beleza rara nos olhares que permanecem. Naqueles que não apenas veem quem somos, mas nos fazem sentir vistos. Porque, às vezes, o maior encontro entre duas almas acontece em silêncio, no breve instante em que um olhar reconhece o outro e decide ficar.

Que Deus me proteja daquilo que entra pelos meus olhos e, silenciosamente, encontra abrigo em meu coração.

Há olhares que parecem inocentes, mas carregam tempestades. Há imagens, palavras, gestos e presenças que atravessam a pele sem pedir licença e, quando percebemos, já criaram raízes dentro de nós.

Que Deus me guarde daquilo que encanta apenas os meus olhos, mas não alcança a minha alma. Daquilo que desperta desejos sem propósito, expectativas sem fundamento e sentimentos que me afastam de quem sou.

Que Ele me conceda discernimento para enxergar além da beleza, além da aparência, além daquilo que reluz por um instante e desaparece com a mesma rapidez com que chegou.

Que eu tenha sabedoria para filtrar o que vejo, porque nem tudo o que toca o olhar merece morar no coração.

E, se algo houver de permanecer em mim, que seja leve. Que seja verdadeiro. Que carregue paz, e não confusão. Que aproxime, e não afaste. Que floresça como propósito, e não como ilusão.

Que Deus proteja os meus olhos, porque eles são janelas abertas para a alma. E que proteja ainda mais o meu coração, porque tudo aquilo que ele acolhe acaba, de alguma forma, tornando-se parte de quem eu sou.

Hoje resolvi revisitar uma versão de mim que ficou guardada entre anotações antigas.


Abri o bloco de notas sem procurar nada específico e encontrei pensamentos que escrevi há algum tempo. Reflexões sobre espera, propósito, conexões, desejos e sobre a forma como eu enxergava certas escolhas que estava fazendo naquele período da minha vida.


Enquanto lia, percebi que não estava apenas relendo palavras.


Estava reencontrando uma mulher.


Uma mulher que ainda tentava compreender algumas ausências, que fazia perguntas silenciosas a Deus e que buscava permanecer fiel às próprias convicções, mesmo quando elas pareciam caminhar na direção oposta à do mundo.


Foi curioso perceber que o tempo passou, mas muitas daquelas reflexões ainda fazem sentido para mim.


Outras ganharam novos contornos.
Algumas amadureceram junto comigo.


Mas todas carregam a sinceridade de quem estava tentando ouvir a própria alma em meio ao ruído das opiniões, dos conselhos e das expectativas alheias.


Talvez por isso eu tenha decidido publicar este registro.


Não porque eu pense exatamente da mesma forma sobre tudo... más, algumas não mudaram.


Acredito que existe beleza em reconhecer os caminhos que nos trouxeram até aqui.


E, ao reler essas anotações, encontrei algo que continua merecendo espaço: a honestidade com que eu escrevia sobre aquilo que habitava meu coração naquele tempo, e resolvi trazer a luz.


14 de junho de 2026