Coleção pessoal de Jorgeanesquivel
É difícil ser amargo quando se é doce.
A doçura não é um comportamento que se veste conforme as circunstâncias; é uma natureza. Quem é doce por essência pode endurecer a postura, mas raramente endurece o coração. Pode aprender a dizer "não", a partir, a proteger-se, mas sem perder aquilo que o define.
É difícil ser amargo quando a alma foi feita para espalhar leveza. Porque a essência sempre encontra um jeito de falar mais alto do que as feridas.
Como se devolve aquilo que nunca se recebeu?
Você sabe o que é não ter e, ainda assim, ter que ter para dar? É aprender a esconder a própria fome para repartir o pão. É guardar a dor na gaveta porque alguém precisa encontrar em você um abraço. É enxugar as lágrimas antes que elas caiam, porque há outras lágrimas esperando o seu ombro.
Há dias em que a vida parece nos cobrar exatamente aquilo que nunca nos ofereceu: um amor que nunca nos ensinaram, uma paciência que nunca tiveram conosco, um cuidado que um dia desejamos receber, mas que nunca chegou.
E, então, nasce a pergunta que atravessa a alma: como se devolve aquilo que nunca se recebeu?
Talvez a resposta seja dura. Não se devolve. Porque ninguém pode devolver o que nunca teve.
O que fazemos é diferente. Escolhemos construir. Escolhemos oferecer justamente aquilo que nos fez falta. Não porque transbordamos, mas porque conhecemos a dor da ausência. Quem já caminhou pelo frio sabe o valor de um cobertor. Quem já enfrentou o abandono compreende o peso de uma presença. Quem já implorou por amor aprende, mesmo entre cicatrizes, a semear aquilo que um dia esperou colher.
Mas até a terra mais fértil precisa de chuva.
E há momentos em que é preciso voltar para dentro de si. Habitar a própria casa. Abrir as janelas da alma, tocar as paredes que o tempo ergueu em silêncio e lembrar que também somos lugar de descanso. Porque quem vive oferecendo luz aos outros não pode esquecer de acender a própria.
Talvez seja esse o maior milagre: transformar a ausência em presença, a falta em cuidado e a dor em um amor que, embora nunca tenha sido recebido da forma esperada, escolheu existir.
No fim, talvez não se trate de devolver aquilo que nunca recebemos. Talvez se trate de impedir que a ausência determine quem nos tornaremos. Porque as maiores virtudes, muitas vezes, nascem justamente daquilo que mais nos faltou.
Não importa quanto tempo ficou para trás; o que importa é salvar o que ainda está por vir.
Há pessoas que passam a vida inteira lamentando os anos que perderam, como se o passado ainda pudesse ser reescrito. Mas o tempo não negocia com arrependimentos. Ele apenas segue.
O que ainda está em suas mãos não é o ontem, mas o hoje. E é justamente o hoje que molda o amanhã.
Talvez você tenha desperdiçado oportunidades, insistido em caminhos errados ou permanecido onde já não havia vida. Ainda assim, enquanto houver um novo amanhecer, haverá a possibilidade de uma nova escolha.
Não permita que os erros de ontem roubem também os dias que ainda não chegaram. O passado pode explicar quem você foi, mas não tem o direito de decidir quem você será.
No fim das contas, a maior perda não é o tempo que ficou para trás. É continuar perdendo o tempo que ainda resta.
Salve o que ainda está por vir. Às vezes, uma única decisão tomada no presente é capaz de redimir anos inteiros de espera.
Há uma paz que só nasce depois de muitas despedidas
Nem tudo o que deixei para trás era ruim. Algumas coisas eu amava profundamente. Mas a vida me ensinou que crescer também exige coragem para soltar aquilo que já não pode caminhar ao meu lado. Há dores que não desaparecem; apenas encontram um lugar mais silencioso dentro de nós. E talvez seja essa a forma mais bonita de seguir: continuar, sem negar o que foi vivido, mas sem permitir que o passado impeça o futuro de florescer. Porque a maior força não está em nunca cair, e sim em preservar a delicadeza do coração, mesmo depois de tudo.
Orar sem cessar
Aprendi que a oração não é um lugar para onde vou. É um lugar onde permaneço.
Sim, há momentos em que o silêncio de um quarto fechado se faz necessário. Há dias em que tudo o que preciso é parar, respirar e derramar a alma diante de Deus. Jesus nos ensinou o valor desse encontro íntimo. Mas limitar a oração a esses momentos seria esquecer que Deus caminha comigo também do lado de fora.
Oro enquanto estou viva.
Converso com Deus enquanto trabalho, enquanto cuido da casa, enquanto lavo a louça, enquanto caminho, entre uma fotografia e outra, enquanto observo o mundo através da minha lente. Muitas das minhas orações sequer atravessam os meus lábios. São diálogos silenciosos, profundos, que nascem no pensamento e encontram um Deus que conhece cada palavra antes mesmo que ela seja pronunciada.
É isso que entendo quando a Bíblia nos exorta a "orar sem cessar". Não significa viver ajoelhada o tempo todo, mas viver consciente da presença de Deus o tempo todo.
Orar é transformar a rotina em comunhão.
Também descobri que algumas orações precisam ser escritas. Não porque Deus necessite ler aquilo que já conhece, mas porque eu preciso me lembrar do que entreguei. Escrever é um ato de fé. É registrar o que pesa, o que espero, o que temo e aquilo que ainda não compreendo.
Quando Deus responde, essas palavras deixam de ser apenas orações. Tornam-se testemunhos.
Voltar a elas é perceber que Deus já estava trabalhando quando eu imaginava que apenas escrevia. Cada página se transforma em memória da Sua fidelidade, lembrando-me de que nenhuma oração sincera se perde diante d'Ele.
A oração não é uma obrigação religiosa, nem um conjunto de palavras decoradas. É relacionamento. É abrir o coração sem máscaras, sem discursos elaborados, sabendo que Deus não espera uma eloquência perfeita, mas uma sinceridade inteira.
Por isso, não espero o momento ideal para falar com Ele. Eu O encontro em qualquer lugar, porque Ele está em todos eles. Faço da oração uma conversa contínua, um diálogo que atravessa os meus dias e habita os meus silêncios.
Porque a oração não interrompe a vida.
Ela é a maneira como escolho vivê-la, em constante diálogo com Aquele que nunca deixa de me ouvir.
Expressar sentimentos através da música requer repertório. Não apenas musical, mas também emocional. Quem vive, sente. Quem sente, reconhece. E quem reconhece, escolhe canções que dizem o que as palavras, muitas vezes, não conseguem dizer.
A arte é a linguagem da alma. Quanto maior o repertório de emoções, experiências e contemplações, mais profunda se torna a capacidade de transformar o invisível em beleza.
A Expansão de Dois Universos
Há pessoas que atravessam a vida umas das outras como quem visita um lugar. Eu não.
Sempre acreditei que existem pessoas extraordinárias. Pessoas que carregam dentro de si universos inteiros. Com constelações ainda sem nome, galáxias jamais exploradas, oceanos profundos e infinitos esperando alguém suficientemente curioso para permanecer.
Talvez seja por isso que nunca consegui amar pela superfície. Porque a superfície nunca foi capaz de sustentar aquilo que eu procurava. O extraordinário é raro. E, quando dois universos raros se encontram, o desejo deixa de ser apenas estar ao lado. Passa a ser descobrir.
Descobrir os continentes escondidos nas palavras não ditas, decifrar as estrelas por trás dos medos, encontrar vida onde ninguém antes teve paciência para procurar. E, enquanto isso, permitir que alguém também percorra o meu pequeno universo. Não apenas para me possuir, mas para me conhecer. Porque universos não se conquistam. Universos se desvendam.
Existe algo extraordinário quando duas imensidões deixam de apenas se observar e escolhem explorar uma à outra. Não para que uma complete a outra, mas para que ambas se expandam. Cada descoberta amplia a seguinte. Cada pergunta abre espaço para novas galáxias. Cada vulnerabilidade ilumina uma parte que ainda permanecia invisível.
É como se dois infinitos, ao se encontrarem, não diminuíssem um ao outro. Ao contrário. Expandissem. Porque conhecer profundamente alguém nunca reduz o mistério. Apenas revela que o infinito sempre foi maior do que imaginávamos.
Talvez seja esse o encontro que sempre procurei. Não alguém que apenas me olhasse, mas alguém disposto a passar uma vida inteira descobrindo os infinitos que habitam em mim, enquanto eu faria o mesmo pelos infinitos que habitam nele.
E talvez seja por isso que, um dia, escolhi entregar o meu universo. Não em partes. Não apenas o que era bonito ou fácil de compreender. Entreguei também os silêncios, as cicatrizes, as galáxias ainda sem nome e os lugares onde quase ninguém teve coragem de permanecer. Porque um universo só pode ser verdadeiramente entregue quando alguém confia ao outro até aquilo que ainda não foi completamente descoberto.
Talvez poucos compreendam o peso dessa entrega. Mas quem compreende sabe que receber um universo nunca foi um privilégio comum. Foi um convite para uma jornada sem fim.
Deus, livra-me de mim mesmo.
Porque, às vezes, o maior inimigo não está do lado de fora, mas dentro de mim. Está nos medos que alimento, nas feridas que conduzem minhas escolhas, no orgulho que me impede de pedir ajuda, nas lembranças que me aprisionam e nas versões de mim que já não cabem no caminho que o Senhor preparou.
Livra-me de tudo aquilo que me afasta da paz que só Tu podes oferecer. Ensina-me a silenciar o que me destrói para que eu possa ouvir a Tua voz. Que eu tenha coragem de deixar morrer quem eu precisei ser para sobreviver, a fim de me tornar quem fui criado para ser.
Porque a verdadeira liberdade começa quando Deus nos salva, inclusive, de nós mesmos.
Deus, hoje eu só preciso que o Senhor me enxergue.
Não vim fazer uma oração bonita. Não vim repetir palavras que já não conseguem traduzir o que existe dentro de mim. Hoje eu só vim porque já não consigo carregar sozinha o peso que tenho sentido.
O Senhor conhece cada renúncia que fiz. Conhece cada desejo que calei, cada lágrima que escondi, cada vez que escolhi obedecer mesmo quando tudo em mim queria desistir. Eu tentei ser fiel. Tentei acreditar que toda espera teria um propósito e que nenhuma entrega feita ao Senhor seria em vão.
Mas existe um lado da espera sobre o qual quase ninguém fala.
Ninguém fala da angústia de um corpo que também sente. Da mulher que também deseja ser acolhida, amada, escolhida, desejada e cuidada. Ninguém fala da solidão que visita o quarto quando a noite chega, nem da batalha silenciosa entre a carne e o espírito. Como se viver um propósito anulasse aquilo que também fomos criados para sentir.
E eu sinto, Deus.
Sinto falta de um abraço que permaneça. De um olhar que me encontre. De alguém que faça o meu coração descansar sem que eu precise lutar tanto para acreditar que vale a pena continuar esperando.
Há dias em que me pergunto se não estou apenas assistindo à vida passar pela janela. Enquanto tantos vivem, constroem histórias e encontram companhia, eu permaneço aqui, presa entre crenças, renúncias e promessas que ainda não consigo tocar. Às vezes, tudo parece distante demais. Até a esperança.
Perdoa-me por dizer isso, mas hoje a espera pesa.
Pesa porque eu também sou carne. Sou mulher. Tenho emoções, tenho desejos, tenho medos. E, por mais que o meu espírito queira Te honrar, há dias em que meu corpo se cansa de esperar por respostas que nunca chegam.
Então eu Te pergunto, com toda a sinceridade que ainda me resta: o que o Senhor quer de mim que eu ainda não consegui compreender? Onde estou falhando? O que ainda preciso aprender? Porque eu tenho tentado. Tenho obedecido dentro das minhas limitações. Tenho permanecido quando tudo em mim queria correr para qualquer lugar onde a dor parecesse menor.
Se for para continuar esperando, faz com que essa espera se torne leve. Se ainda não chegou o tempo da resposta, sustenta-me até ela. Mas, por favor, não permita que eu me perca de mim enquanto caminho em direção à Tua vontade.
Olha para mim, Deus.
Não para a mulher que tenta parecer forte diante dos outros, mas para a filha que hoje se sente cansada, confusa e profundamente aflita. Acolhe aquilo que nem eu consigo nomear. Abraça o que em mim está ferido. E, se eu estiver caminhando na direção certa, dá-me apenas a graça de continuar.
Porque hoje eu não preciso de explicações.
Hoje eu só preciso sentir que o Senhor continua aqui.
Hoje o desejo me habita de uma forma diferente. Latente, inquietante, vibrante. É um daqueles dias em que a vida se revela nos detalhes, em que o corpo conversa com os pensamentos e responde às emoções como se cada sentimento encontrasse nele um lugar para existir.
Sim, o corpo tem suas necessidades. Ele pede atenção. Clama por presença. Às vezes trava um verdadeiro embate com a consciência. De um lado, o corpo que deseja sentir. Do outro, a alma que se recusa a ceder ao que é passageiro. E eu permaneço entre os dois, tentando conciliar aquilo que pulsa com aquilo em que acredito.
Desejo, sim. E desejo intensamente. Mas não qualquer toque. Não qualquer abraço. Não qualquer corpo.
Depois de tantos anos me guardando, percebo que a espera não enfraqueceu meus desejos. Fez exatamente o contrário. Refinou-os. Tornou-os mais conscientes, mais profundos, mais exigentes. Meu corpo já não anseia apenas por ser tocado. Ele anseia por reconhecer quem o toca.
Talvez seja por isso que você ocupe tanto os meus pensamentos.
Há algo em você que desperta tudo aquilo que permanecera em silêncio. Como se meu corpo soubesse, antes mesmo de mim, que toda essa espera sempre caminhou na direção de um único encontro.
E então imagino nós dois. Não por impulso, mas pela intensidade de tudo o que foi contido. Como se anos de espera, desejo e ausência se encontrassem no mesmo instante, fundindo-se num eclipse de sensações únicas, onde corpo, alma e coração deixassem, finalmente, de caminhar em direções diferentes.
Confesso que há dias em que essa espera pesa. Hoje é um deles. Meu corpo parece sussurrar que já esperou o suficiente. Que deseja repousar, enfim, nos braços do homem que há tanto tempo habita meus pensamentos.
Talvez esse seja o maior paradoxo do celibato: ele não mata o desejo. Apenas o ensina a esperar pela pessoa certa.
E depois de tanto tempo me guardando... depois de tanto tempo te aguardando... já não desejo apenas esperar.
Desejo você.
O Universo que Me Habita
Há quem passe pela vida colecionando encontros. Eu prefiro colecionar profundidades.
Nunca soube amar pela metade, conversar pela metade ou sentir pela metade. Talvez por isso o mundo, tantas vezes, pareça apressado demais para quem aprendeu que as coisas mais importantes não nascem da velocidade, mas da permanência.
Carrego valores que o tempo insiste em chamar de antigos. Eu os chamo de eternos.
Ainda acredito na palavra que vale mais que uma assinatura. Na presença que não precisa disputar espaço com distrações. No respeito que permanece mesmo quando ninguém está olhando. Na delicadeza que nunca perdeu a força. Na obediência a Deus, não por medo, mas porque descobri que Sua vontade sempre enxerga mais longe do que os meus desejos.
Sou romântica, mas não apenas no amor entre duas pessoas. Sou romântica diante da vida.
Vejo beleza no café servido com calma, nas cartas escritas à mão, no silêncio compartilhado, nas orações que ninguém ouviu, nos gestos que jamais serão fotografados e, justamente por isso, pertencem ao que há de mais verdadeiro.
Aprendi que caráter é aquilo que continua existindo quando desaparecem os aplausos. Que integridade é permanecer a mesma pessoa, ainda que ninguém reconheça o esforço. E que existem princípios que não foram feitos para serem negociados, porque, quando os vendemos, perdemos partes de nós.
Às vezes sinto que faço parte do universo. Outras vezes, tenho a impressão de que um universo inteiro vive dentro de mim.
Um oceano silencioso, profundo e quase inexplorado.
Nele existem perguntas que ainda não encontrei coragem para fazer. Sonhos que Deus conhece antes mesmo de eu lhes dar um nome. Memórias, esperanças e uma fé que insiste em florescer até nas estações mais secas da alma.
Não tenho pressa de chegar à superfície.
Algumas riquezas só existem nas grandes profundidades.
E talvez seja esse o meu jeito de existir: mergulhando.
Porque quem vive apenas na superfície conhece as ondas.
Mas quem aprende a descer encontra o silêncio, a verdade e Deus.
E é lá, onde poucos se aventuram, que a minha alma se sente em casa.
CARTAS AOS CÉUS | ORAÇÕES ESCRITAS
Quando a Tua Presença Vale Mais
5 de julho de 2026
Deus,
Ultimamente tenho passado por situações difíceis. Circunstâncias que me colocaram contra a parede, despertaram muitos questionamentos e me fizeram encarar partes de mim que eu mesma não compreendia.
Houve oportunidades que pareciam ser exatamente tudo aquilo que eu sempre quis. Elas chegaram com facilidade, quase como se bastasse estender as mãos para alcançá-las. Ainda assim, eu travei. Meu coração recuou. Não consegui aceitar.
E então veio a pergunta, repetida tantas vezes por quem está perto de mim e, principalmente, por mim mesma: por quê? Se é tudo o que busco... Se é tudo o que preciso... Por que não me permitir? Por que não dar uma chance ao que parece tão certo?
Foi quando, em silêncio, o Senhor trouxe à minha memória tantas coisas. Lembrei de quantas oportunidades deixei passar por amor a Ti. Quantas vezes escolhi perder aos olhos do mundo para permanecer perto do Teu coração. Quantas renúncias fiz sem entender completamente, apenas porque a Tua presença sempre valeu mais do que qualquer conquista.
E então compreendi.
Eu quero viver muito. Quero viver coisas lindas. Quero amar, construir, sorrir, realizar sonhos e experimentar tudo aquilo que o Senhor preparou para mim. Mas eu não abro mão da Tua presença.
Quero viver cada promessa debaixo da Tua graça. Quero desfrutar das Tuas bênçãos sem negociar meus princípios, sem silenciar a minha consciência, sem abrir mão dos valores que o Senhor plantou em mim. Não quero precisar forçar portas, convencer pessoas ou adaptar quem sou para caber em lugares onde a Tua presença não habita.
Porque eu sei que aquilo que vem da Tua vontade não precisa violentar a minha alma. Quando for o Teu tempo, será. Quando vier de Ti, haverá paz. Quando nascer da Tua vontade, fluirá com leveza, com propósito e com a certeza de que a Tua mão estará sustentando cada passo.
Por isso, Senhor, ajuda-me a permanecer assim. Fecha novamente os meus olhos para tudo aquilo que apenas parece fácil, mas que não carrega a Tua presença. Afasta de mim aquilo que chega depressa, mas não possui a Tua permissão. Livra-me do que seduz os meus desejos, mas não alimenta a minha alma. Que eu nunca confunda facilidade com direção, oportunidade com propósito ou desejo com a Tua vontade.
Obrigada por me lembrar quem eu sou. Obrigada por nunca permitir que eu me desviasse completamente dos propósitos que o Senhor escreveu para a minha vida. E até quando estive perto de sair do caminho, o Senhor, em Seu infinito amor, dificultou aquilo que parecia tão simples. Hoje entendo que não era castigo. Era cuidado.
Porque pertenço a Ti. Fui separada entre tantas outras, não por mérito algum, mas pela Tua graça. Sou guardada pelo Teu amor. Sou alcançada pela Tua bondade. Ainda sou a menina dos Teus olhos. E, enquanto o mundo mede valor pelo que se conquista, eu descanso em saber que o meu maior privilégio é ser conhecida e amada por Ti.
A Tua graça me basta. Ela me sustenta quando minhas forças acabam, me livra quando não percebo o perigo, me guarda quando não enxergo o caminho e me alcança até nos dias em que meu coração parece não suportar mais.
Porque, sim, houve dias em que ele se despedaçou. E talvez ainda existam pedaços espalhados dentro de mim. Mas eu os recolho, um a um, e os coloco em Tuas mãos. Cada caquinho. Cada ferida. Cada esperança. Cada silêncio.
Porque o Senhor é o Oleiro que refaz o vaso quebrado. É o Carpinteiro que restaura o que parecia perdido. É o Deus da criação, que continua fazendo novas todas as coisas e reconstruindo, quantas vezes forem necessárias, aquilo que o tempo, a dor ou a vida tentaram destruir.
Por isso, a quem tenho eu além de Ti? Não há outro.
O Senhor continua sendo o meu refúgio, a minha esperança, a minha direção e o meu descanso. E, aconteça o que acontecer, que eu nunca prefira qualquer caminho à Tua presença.
Que eu espere.
Que eu confie.
Que eu permaneça.
Porque tudo o que vem de Ti vale cada renúncia, cada espera e cada lágrima.
Graças Te dou, meu Deus.
Hoje, amanhã e enquanto houver fôlego em mim.
Amém.
Tudo o que é para ser, será.
Nada desvia, em definitivo, o curso das águas de um rio que nasceu para encontrar o mar. Haverá curvas, desvios e até atalhos, mas o destino permanece o mesmo.
Por isso, aprendi a descansar. O que Deus determinou encontrará o seu caminho, no tempo certo.
Hoje não estou muito bem.
Há um barulho dentro de mim que ninguém ouve. Por fora, tudo parece seguir seu curso. Por dentro, os pensamentos se atropelam, as lembranças se misturam e o coração tenta organizar um caos que não cabe em palavras.
Carrego o peso de tudo o que precisei esconder. Das emoções que foram empurradas para as gavetas da alma porque não havia tempo para senti-las. Das sombras que aprenderam a morar em silêncio, atrás de portas que eu mesma fechei para conseguir continuar.
A noite sempre parece saber onde essas portas estão.
O frio toca o que passei o dia tentando aquecer. E, enquanto o mundo desacelera, minha mente percorre corredores que eu gostaria de evitar. Luto para manter tudo em equilíbrio, porque hoje não posso me permitir cair. Há responsabilidades, há caminhos que ainda precisam ser percorridos.
Mas sentir não pede licença.
Mesmo tentando seguir, eu sinto. Sinto o peso, o vazio, a exaustão de quem passou tanto tempo sustentando o próprio mundo que já nem sabe mais como descansar.
Talvez amanhã tudo pareça um pouco mais leve. Hoje, porém, só consigo admitir que existe uma batalha silenciosa acontecendo dentro de mim.
E, mesmo cansada, continuo caminhando.
Hoje não estou muito bem.
Há dias em que a gente não desaba porque aprendeu a guardar. E, de tanto guardar, vai enchendo gavetas que já não fecham mais, empurrando para o fundo do armário tudo aquilo que não teve tempo, lugar ou permissão para sentir.
Hoje sinto o peso dessas gavetas.
O frio da noite parece encontrar cada uma dessas sombras escondidas. Os pensamentos caminham em desordem, cruzam minha mente sem pedir licença, enquanto eu tento, silenciosamente, colocar tudo em equilíbrio. Não porque esteja tudo bem, mas porque a vida continua exigindo que eu siga.
Não tenho a opção de parar para sentir.
Então continuo. Arrumo o sorriso, organizo as tarefas, respondo às pessoas, respiro fundo... mas sinto.
Sinto o cansaço de quem precisou ser forte por tempo demais. Sinto o peso das palavras engolidas, das lágrimas adiadas, das dores que aprenderam a esperar pela madrugada para aparecer.
E talvez seja isso que mais doa: não é a falta de sentimentos. É a falta de tempo para acolhê-los.
Mesmo assim, sigo.
Não porque seja fácil, mas porque, por enquanto, é o único caminho que encontrei. Carrego comigo a esperança silenciosa de que um dia eu possa abrir essas gavetas sem medo, deixar entrar luz onde hoje habitam sombras e, finalmente, descansar o coração de tudo aquilo que ele insistiu em suportar calado.
Muitas pessoas me perguntam o que eu estou esperando. Dizem que eu preciso sair mais, conhecer gente nova, me permitir viver experiências. Algumas acreditam que o amor é algo que se encontra pela insistência, pela exposição ou pela quantidade de portas que se abre ao longo do caminho. Talvez seja por isso que se surpreendam quando percebem que eu não procuro ninguém.
A verdade é que eu nunca procurei.
Não porque tenha desistido do amor, mas porque aprendi a diferenciar carência de conexão. Aprendi que a minha paz vale mais do que qualquer companhia e que nem toda presença é capaz de preencher aquilo que realmente importa.
Durante muito tempo, ouvi que eu precisava me mostrar mais ao mundo para ser encontrada. Como se o amor estivesse escondido em algum lugar e dependesse apenas de eu circular pelos ambientes certos para finalmente acontecer.
Mas o que meu coração espera nunca foi alguém qualquer. Nunca foi um encontro que servisse apenas para aliviar a solidão ou ocupar um espaço vazio.
Talvez seja justamente por isso que a minha espera tenha se tornado tão incompreendida.
Eu não estou esperando um relacionamento. Estou esperando uma conexão genuína. Algo que não possa ser forçado, fabricado ou apressado. Algo que alcance lugares que nenhum toque vazio é capaz de alcançar.
E não, isso não significa que eu não tenha desejos. Sou humana. Tenho saudades do que ainda não vivi. Tenho sonhos, expectativas e, por vezes, sinto o peso da ausência de alguém com quem compartilhar a vida.
Mas aprendi que sentir falta de uma conexão verdadeira não é motivo para aceitar qualquer aproximação.
Houve um tempo em que escolhi me guardar. E essa escolha me ensinou muito mais sobre mim do que sobre o amor. Aprendi a ouvir meus próprios silêncios, a compreender meus desejos sem me tornar refém deles e a reconhecer o valor daquilo que entrego quando decido permitir que alguém se aproxime.
Por isso não abro as portas apenas porque alguém bate. Não porque me considero difícil. Não porque me sinto superior. Mas porque algumas coisas dentro de mim custaram caro demais para serem entregues sem significado.
Se um dia acontecer, que seja verdadeiro. Que não nasça da pressa, da conveniência ou do medo de estar só. Que venha carregado de propósito, reciprocidade, admiração e permanência.
E se não acontecer, ainda assim estarei em paz.
Porque eu não construí a minha vida em torno da falta de alguém.
Mas continuo esperando.
Não por necessidade.
Por esperança.
Porque ainda acredito que algumas conexões não são encontradas por quem as procura desesperadamente. Elas chegam quando duas almas se reconhecem e, sem esforço, entendem que finalmente encontraram um lugar onde podem permanecer.
2 de fevereiro 2024
Às vezes penso que devo me aquietar, porém quieta já sou. Permaneço imóvel enquanto penso.
E, por alguns momentos, sempre me vem a mesma pergunta: e se eu fizer diferente? Ir em frente e buscar alcançar com as mãos aquilo que só meus olhos alcançaram.
E se eu tocar… será que estrago? Ou é precipitado o medo de me precipitar?
Porque o medo de estragar já não causa seus próprios estragos?
Vai tornando impossível um acontecimento talvez inevitável. Fazendo ruir, antes mesmo do início, aquilo que talvez só precisasse de coragem para acontecer.
Talvez, às vezes, o que chamamos prudência seja apenas temor disfarçado.
E o que mais desejamos não se perde pelo toque… se perde pela ausência dele.
Tenho ânsia de te encontrar. Urgência de me abrigar em teus braços. Ainda que fosse apenas por um instante, por um cafuné, para repousar a tranquilidade entre o peito e o mundo.
Queria atender ao chamado do que me chama em teu olhar. Às vezes, queria trocar o relógio, vencer o tempo, rasgar a distância. Mas há o medo… ah, o medo. Esse que trava, bloqueia, bloqueia, semeia dúvidas. O receio de atropelar a forma certa e não deixar acontecer.
Mas existe forma certa quando o amor decide invadir? Existe medida exata para aquilo que chega tomando posse do que já lhe pertence?
Ah, a paixão… Ela me parece vir carregada de ímpeto e da bela insensatez dos destemidos apaixonados.
Então me pergunto: por que o amor conserva tanto pudor? Por que teme pisar em águas profundas, se ele, por si só, já nasce tão profundo?
