RosangelaCalza
Soltei as amarras
Amore,
soltei as amarras,
limpei o coração...
Novo começo?
Recomeço?
Ou continuação?
Uma única certeza: nós,
apenas nós...
somos nós...
Abraços, laços,
entrelaço... entre laços,
não apertam como nós.
Porque amor é isto: não aperta, liberta.
Condição sine qua non
Noite fria,
vida vazia,
trajetória... sua história...
Condição pra ser meu amor:
viva forever... vida forever.
Não há amor incondicional,
menos que isso não quero,
a eternidade não será a eternidade
sem quem eu quero, do jeito que quero.
Preto e branco?
A vida não é só preto e branco,
há espaços em cores,
há nuances, há apostas,
sem respostas.
Há bem mais...
que apenas duas posições,
radicalmente opostas...
há mistérios insondáveis,
impenetráveis...
Há o conhecido sim,
e o desconhecido também,
o que poderia ter sido...
há o sentido, o avesso,
sem sentido...
sexto sentido,
o encontrado, o perdido.
O tropeço...
o oculto,
o revelado...
A vida não é só um lado,
e outro lado...
não é só presente e passado.
Pés machucados
Saí pra caminhar,
nas ruas desertas desta cidade,
sem olhar o sinal,
sem sentir o tempo passar,
sem querer voltar...
Saí pra caminhar,
nas ruas desertas desta cidade,
onde o silêncio embala meus pensamentos,
e a insônia a me rondar em passos lentos.
Cada estrela é um sussurro no escuro,
velando meus sonhos adormecidos,
na esperança de um novo amanhecer.
Andei sem rumo,
milhas e milhas,
dias e dias...
não sei mais quanto tempo faz...
O caminho de volta
encontrar não sou mais capaz...
Andei sem rumo,
milhas e milhas,
dias e dias...
A noite se estende,
silenciosa, fria,
onde o sono se esconde,
tecendo sonhos fugidios,
na dança lenta da insônia.
Andei... ando sempre andando,
sigo caminhando,
sem rumo, sem direção
vou continuar
até a dor dos meus pés
ser maior que a do meu coração.
Amor da minha vida
Amor da minha vida,
por que me deixou partir?
Agora aqui sozinha
não consigo mais sorrir.
a insônia insiste em surgir.
No silêncio da noite fria,
minha alma quer se esconder,
mas o vazio que você deixou
não me deixa mais esquecer.
Amor da minha vida,
minha mais triste despedida,
chega a noite
toda noite
insônia me convence que a força do amor nem sempre vence.
Tédio
Tédio...
pra vida não há remédio,
drama dos dias divididos,
mal vividos,
desiludidos.
silêncio que ecoa no vazio,
sombras de um tempo perdido.
Trama da vida,
mil começos,
nenhuma saída...
vida demasiadamente longa,
demasiadamente breve,
(des)afortunadamente,
quem a escreve sabe o que escreve
Vida
Estranha vida, mistério que me veste...
Sou sombra e luz, calma e tempestade,
uma parcela dispersa no universo,
retalho invisível de uma imensidade.
Um tudo vasto, ou talvez um nada...
Sopro leve que faz a alma despertar,
um pouco de brisa rara que acaricia a tarde,
outras vezes vento que vem para tudo tirar deo lugar.
Sou chama que arde no peito inquieto,
chuva que lava os sonhos esquecidos, os telhados pela poeira enegrecidos...
Mar revolto, mar sereno, silêncio e grito,
entre dores profundas e sorrisos perdidos.
Estranha vida, entrelaço entre o caos e a paz...
mistura de tudo, um nada que num frágil sopro se desfaz...
Sou fio tênue que tece meu enredo,
Verso roubado ao tempo, mistério sem medo.
Vida, qual é de bem viver o segredo?
Quimeras
Uma nuvem noturna pairava sobre ele
Dia e noite
Noite e dia.
Não via solução pras dores de seu coração.
Já tentara de tudo:
Gritara... ficara mudo.
Sorrira... chorara...
Nada adiantava.
No meio de tudo isso,
deu-se conta de que ninguém se importava...
Começou a duvidar de que a vida não era nada do que sonhara...
Quimeras...
Quem sabe a realidade de todos eram puros devaneios?
Tentavam todos se equilibrar na corda bamba...
Lutar contra a corrente...
Escapar da areia movediça que aos poucos os engolia.
Talvez fosse pura utopia a existência de um lugar onde reinasse dia e noite a alegria.
Aceitou então seu trágico destino: viver entre faces confusas, jogar os dados, consolar-se com perguntas sem respostas... um trevo de quatro folhas de ouro no pescoço... torcer para ganhar as apostas...
Um laço invisível, astúcias astuciosas sempre em ação...
A bater no ritmo da roleta, então, acostumou-se, seu coração.
Dias e noites
Noite e dia, em seu ciclo incansável, revelam os espasmos das dores que habitam meu coração.
Não vejo solução, perdida estou em labirintos internos onde a esperança parece de todo ausente.
Já tentei de tudo:
gritei contra o vazio, busquei voz no silêncio, fiquei mudo diante do meu próprio querer.
Sorri por momentos breves, mas rapidament lágrimas vieram para lavar o encanto e transformar o momento em desencanto.
Um pouco brisa suave acaricia às vezes minha alma cansada,
um pouco vento forte sacude os pilares do meu indelável ser,
e até tempestades brutais vêm testar a resistência do meu espírito.
Mas entre a sombra da noite e o brilho do dia,
descobro que não há dor que não se dissolva com o tempo,
nem ferida que não se reabra para, um dia, outra, e mais outra vez, cicatrizar.
Assim, no vai e vem da vida,
aprende-se a ser inteiro – mesmo nas partes que parecem desfeitas,
pois a luz sempre volta a vencer a escuridão... e a alma ensaia o tempo todo ser perfeita.
Silêncio profundo
Depois de tudo, sigo firme na estrada...
Apesar de tudo, minha alma não é segue calada.
Vou tentando rimar meu canto no vento, na brisa, no vai e vem de uma aragem sutil...
Nesse voo rasante, sem medo, sem lamento... sigo passo a passo na minha estrada.
Aqui não há distâncias, só olhares que brilham no lusco fusco do amanhecer...
Novos horizontes onde os sonhos cintilam... e se esforçam para nascer e firmes e fortes vivos permanecer...
Corpo abandonado, leve a flutuar,
deixo-me planar, além do pesar.
Liberta e solta, entre nuvens a flutuar,
minha voz encontra o mar para nele totalmente se espelhar e se espalhar.
Em cada verso, uma força reluzente...
Na tempestade, sou eu a chama ardente.
Depois de tudo, renasço em poesia,
Apesar de tudo, floresço em melodia.
No silêncio profundo, minha essência canta,
E a vida, enfim, reinventa-se forte e solene, e tudo ao seu redor encanta.
Dias leves
Uma leve nostalgia...
dos dias do passado,
dias passados,
dias azuis da cor do mar...
dias isolados – ilhas –,
separados só pra olhar o azul da cor do mar
olhar azul... olhar o azul, azul da cor do mar.
Nostalgia leve...
dos dias leves
dias em que o conhecido era leve
tudo esbarrava em mim de leve;
nostalgia de dias em que eu seguia leve...
sem lembranças...
carregando apenas esperanças.
Hoje procuro um farol na tempestade.
Não diferencio mais verdades de inverdades...
Vivo um tempo de escuridão e incertezas...
Sinto-me uma eterna presa.
A noite não parece ter fim.
O frio invade meu coração...
Só queria o aconchego de dias que tão longe vão.
Desde Eclesiastes...
O sol desaprendeu a nascer.
Impossível isso... está no seu DNA
Nascer de manhã do lado de cá...
Morrer depois de seu caminho atravessar.
Mas ele esqueceu como se faz.
E parece que uma mudança tão radical
Muda também todo e qualquer coração (a)normal.
O doce perdeu seu sabor.
A flor do meu jardim perdeu a cor,
Qualquer palavra torta causa uma imensa dor.
Coisas que antes nem incomodavam...
Hoje nos jogam no chão e dobram o peso do coração.
Os dias são cinzas,
A inutilidade das coisas atingiu o superlativo.
A pergunta que mais surge nas mentes: por que se está vivo?
Está-se apenas a preencher um espaço...
Por um tempo limitado...
Anda-se um pouco...
E quando se vê um precipício bem à frente.
E... tudo acabado.
O bom é que nem todos sentem assim.
É preciso contrabalancear.
O mundo todo não pode enlouquecer...
Porque se assim acontecer...
Quem estará lúcido pra contemplar o fim?
Mas, já está dito, né não?
'Tempo de plantar e tempo de colher'.
"Tempo de nascer e tempo de morrer'.
Está escrito: vai acontecer"
Rosangela Calza
A palavra nasce do silêncio, mas não lhe pertence por inteiro. Ela carrega a matéria do mundo: o peso da pedra, a aspereza da terra, o calor da pele, o rumor das águas. Quando nomeamos, tocamos. Quando escrevemos, deixamos marcas no corpo do tempo.
A memória é uma casa sem paredes. Guarda vozes, gestos, cheiros, caminhos. Às vezes, permanece em uma cicatriz; outras, no espaço vazio de quem partiu. O corpo sabe o que a boca esquece. Cada osso traz um território. Cada passo redesenha a distância entre o medo e a coragem.
Resistir é permanecer sem ficar imóvel. É lançar raízes em solo ferido e, ainda assim, procurar a luz. É transformar a dor em presença, a ausência em lembrança, o silêncio em testemunho. Há palavras que quebram muros. Há silêncios que recusam a mentira.
Somos feitos de matéria e passagem, de ruína e recomeço. O território que habitamos também nos habita: entra pelos olhos, permanece nos músculos, reaparece nos sonhos. Nada desaparece completamente. A terra conserva pegadas. A palavra conserva o grito. O corpo conserva a história.
E quando tudo parece se desfazer, resta a insistência de existir: uma voz baixa, uma mão aberta, um nome dito contra o esquecimento. Permanecer é isso: continuar sendo presença onde quiseram deixar apenas silêncio.
Camaleão
Camaleão...
Não tenho convicções,
me adapto a qualquer situação...
vou e volto,
dou a volta,
depois volto...
Passo por cima,
passo por baixo...
me encaixo.
Preto e branco?
Comigo não...
domina a razão,
quem manda é o coração.
Meus sonhos têm a cor da minha vida
... (des)colorida.
Repleta de contradições,
tudo me convence...
nada me vence...
começo e não termino
no meio do caminho...
largo tudo e volto
convenientemente
começo tudo novamente.
... mais uma vez.
Camaleão
mudado, transmutado...
(re+vestido de sonhos,
Disfarçado de (des)amores,
O que
Tem de ser feito faço...
‘Melhor feito do que perfeito’ é o meu lema...
Esqueço-me, se preciso for, de seguir qualquer esquema.
Mudo-me como sinto
ou, se acaso pressinto que mudar não é a solução,
simplesmente minto.
Camaleão, pele mudada
núcleo intacto, integro, só a casca desintegrada...
Sou o que preciso,
sem deixar de ser quem era,
ou de ser o que de mim se espera...
Estou aqui, estou lá.
Mudo sem mudar.
É na saudade e na solidão
É na saudade e na solidão
que os silêncios, pouco sábios,
se escondem entre cartas sem retorno,
perdidas no tempo, vencidas pelo abandono...
Cartas que só vão.
Quando o beijo se faz sem lábios
e a mão procura o que não alcança,
a alma, cansada, sussurra baixinho:
“É chegada a hora da mudança, siga por este mundo perdido... não pare suas andanças”
Hora de vestir a prontidão,
de abandonar esta dimensão
tão bela, árdua, sinuosa e torta,
onde cada chegada anuncia uma porta.
É hora de encontros, de ir embora,
de deixar cair o peso do agora,
sem promessas, sem prêmios, sem donos,
pois a vida oferece apenas os seus insones sonhos.
E, quando o último suspiro se acalma,
que não haja medo, nem demora:
somente a entrada suave de uma alma
noutro mundo, noutra esfera,
onde a saudade já não chora
e a solidão, enfim, não espera...
Já sabe que tudo foi um dia... tudo era...
Sempre por eras e eras.
Você é um amado.
Eu faço tudo errado,
estrago tudo
e, você, mesmo mudo,
conserta num momento
manda embora todo tormento.
E num momento de lucidez,
peço desculpas,
digo é a última vez
que ajo com insensatez.
E você, tão querido,
simplesmente me diz:
- Não me peça desculpas,
você nunca deve se desculpar...
quando você acha que fez algo errado
é só pensar que está do meu lado...
sem você não sei o que é amar.
E, eu:
- Você não existe...
E, você:
- Existo sim... existo sempre que você olha pra mim.
Meu lugar especial
Quem quer passar
no lugar do outro,
se o caminho alheio
pedras há que não se veem?
Melhor de longe observar
os passos que passam,
um após outro,
deixando no chão
a memória de quem neles acabou de passar.
Há pés que não acompanham
o ritmo do mundo;
ficam atrás,
desalinhados, num passo sempre atrasado
aprendendo a dançar
com os desníveis da vida...
Equilibrando-se sempre pra encontrar em tudo a melhor saída
Passam os passos, (des)compassados,
cambaleiam as certezas,
e cada tropeço revela
uma força escondida.
Ninguém chega
ao lugar do outro.
Cada coração guarda
uma paisagem única, um cenário só seu,
um silêncio que ninguém traduz,
uma ferida que ninguém sente
da mesma maneira de quem a viveu.
Por isso, não invejo caminhos.
O meu pode ser estreito,
com curvas a me tontear, lento, tão lento que estou sempre a me atrasar...
mas é nele que estou sempre a aprender
minha própria voz reconhecer.
Meu lugar não é perfeito.
É feito de ausências, carências (in)consistências... encontros, embates, combates...
lágrimas, sorrisos e recomeços.
E é especial:
porque é meu... somente meu.
Dele cada cantinho só quem conhece sou eu.
E, quando o mundo passar por mim,
seguirei caminhando,
com passos talvez incertos,
mas inteiros, certeiros –
em direção à pessoa
que estou me tornando...
Serei eu do jeito que só eu sei ser, enfim!
Há flores
Há sempre flores
que se abrem onde não esperamos...
Sons em lugares onde sequer estamos...
Sabores nos dissabores...
Dias nas noites mais insones
Às vezes é apenas uma janela
que não sabe fechar...
Uma porta que se mantém entreaberta...
Ou algumas frestas que se fazem nascer pra deixar luz entrar.
Há sempre esperança nas nuvens mais densas...
Há sempre um barquinho num porto num canto qualquer desse mar imenso...
Uma voz pra assegurar que tudo se vai ajeitar...
Silêncio inscrito
Repetidamente ouve-se o eco de um silêncio escrito dos dois lados da rua...
Perpetua-se, pela alameda vazia e fria, o eco de vozes antigas
guardadas na memória... revive-se dolorosamente o peso da ausência.
Enredam-se as palavras, sufocam-se as lágrimas engolindo-se em seco uma dor que insiste em se fazer sempre presente...
Suprimem-se as doces lembranças, que
iludem as veias de um tempo adormecido nos ombros cansados, esgotados de vida.
Insinuam-se em ondas de frio sobressaltos e temores – fantasmas de uma força invisível e maior do que o mundo.
Espalham-se palavras contra os muros, por debaixo de pontes... afogam-se sonhos
que o vento insiste em de volta trazer.
Há em minha lama uma sede feroz a consumir-me a razão... um pulsar loucamente do meu coração numa recusa insistente a ceder... deixar simplesmente acontecer.
Acumulam-se as sombras nos meus olhos...
Persiste sempre esse louco desejo de romper o vazio... de gritar o seu nome...
cravar no peito do impossível seu sobrenome.
Meu caminho segue...
Corda bamba...
Fumaça desgarrada de mim...
Preso à vida por um desgastado, quase roto fino fio.
Do silêncio em mim
E eu não lhe disse nada...
E, o silêncio que se fez em mim, disse-lhe tudo.
No peito ficou guardado o que não encontrou coragem na voz.
Engasguei-me com a dor e o medo do som das palavras que poderiam de mim sair.
E cá estou eu: vivendo há séculos de frases inacabadas... palavras tartamudeadas, balbuciadas, só dentro de mim...
Um Universo inteiro
Há palavras frágeis demais
para atravessar a distância do silêncio que ficou
quando você de mim se afastou.
Então, tenho ficado num silêncio abissal...
Tenho vivido de frases inacabadas,
palavras balbuciadas dentro do meu coração.
guardo, sem testemunhas, esse amor que deveria ter morrido quando você se foi.
Um Universo inteiro deveria acontecer entre nós...
Mas está suspenso...
parado no tempo...
esperando pra acontecer em algum momento... sempre jogado pra depois.
Silêncios
Somos feitos de instantes que se dissolvem imediatamente no instante seguinte...
Ainda assim, amamos como se o tempo
pudesse aprender a deter seus passos,
como se os abraços fossem casas eternas
e os olhos, mapas para o reencontro.
Guardamos vozes no silêncio dos quartos,
perfumes adormecidos em roupas antigas,
risos que retornam quando a noite
abre suas janelas para a saudade.
Cada despedida deixa uma esperança escondida,
um pequeno incêndio sob a pele,
prova de que alguém passou por nós
e mudou, para sempre, a paisagem.
Talvez viver seja isto:
recolher o que o mundo leva,
beber a chuva dos dias perdidos
e seguir, mesmo com as mãos vazias,
carregando no peito a certeza
de que todo fim, ao desaparecer,
também prepara o instante
em que outra presença irá florescer.
Você partiu...
Você partiu...
e me partiu com os olhos,
e eu fiquei com o que eles deixaram:
um brilho perdido nas ocas paredes da vida,
uma saudade dormindo no sofá,
um vazio que tem o seu nome
e um silêncio que insiste em me lembrar
de tudo o que eu não deixei de falar.
Desde então, converso com a noite,
pergunto às estrelas se você também escuta
o eco dos meus passos
procurando seu caminho de volta.
Mas a madrugada só me oferece
o frio das respostas incompletas
e a sombra do que um dia fomos.
Guardo seus gestos como quem guarda cartas
que jamais terá coragem de abrir.
Cada lembrança floresce devagar,
mas traz espinhos sob as pétalas.
Se um dia você retornar,
não prometo palavras bonitas;
talvez eu apenas chore,
talvez minhas mãos tremam,
talvez todo eu estremeça
ao reconhecer seu rosto.
Porque há partidas que terminam na estrada,
mas permanecem para sempre
dentro de quem estacionou na jornada,
como uma chama silenciosa
recusando-se terminantemente a morrer.
Peito cheio de palavras
Como uma respiração que não se completa,
fico por cá suspenso entre o ontem e o agora...
com meu peito cheio de palavras
que nunca encontram a coragem de nascer.
O mais profundo dos sentimentos
não morre por falta de amor,
morre por falta de coragem.
E o meu…
ainda vive, silenciosamente agoniado,
feito brasa oculta sob as cinzas,
esperando um passado
que já não volta...
Um passado cada dia mais distanciado de nós.
Às vezes, escuto seus passos
nas salas vazias da memória,
e o coração, ingênuo,
abre a porta para ninguém.
Há ausências que não partem:
apenas mudam de lugar
e passam a morar dentro da gente.
Eu quis dizer “fica”,
mas minha voz se perdeu
na distância entre o desejo e o medo.
Agora, carrego seu nome
como quem carrega uma prece
sem saber se ainda há céu
para recebê-la.
E sigo – incompleto,
respirando devagar,
para não acordar a esperança
que adormeceu em seus braços,
mas nunca aprendeu a morrer.
Eu escrevi silêncios inexprimíveis...
eu gritei, te sacudi, tua cabeça bati...
tudo isso só por amor a ti.
Tu te fizeste silêncio
e não me ouviste,
minha dor não sentiste
e partiste...
me partiste.
Onde andas tu
hoje em dia?
O silêncio ainda é tua companhia?
Os gritos ecoam
desde aquele dia...
Se tu nunca tivesses sido
eu ainda saberia o que é alegria?
Se tu nunca tivesses sido...
Eu, certamente, estaria agora por cá sabendo da vida qual o sentido?
Dúvidas
É claro que tenho dúvidas...
Sorrisos fingidos,
beijos escondidos...
olhares traiçoeiros...
foi o que era pra ter sido...
foi pela metade...
foi tudo o que deveria ter sido?
Anjo caído.
Se eu gosto de incertezas?
Pode crer... tenha certeza.
Não estou tão certa
se há alguém que sempre acerta.
Nuvenzinha a turvar meu pensamento
por um momento
de dúvidas me encheu:
era você pra ser só meu?
Enfim, pelo o que me diz respeito,
sou feita de dúvidas...
como saber o que é torto, o que é direito?
Diante da vida
O que é tido como certo, duvido
E não me engano a mim mesma, não...
vou montada na minha desconfiança...
E mesmo que eu me distraia e caia
Sou cobaia de mim mesma...
E, por via das dúvidas, nunca fujo da raia.
