RosangelaCalza
Como o rio
“Ser como o rio que deflui.”
Passar na agulheta do tempo.
Contornar tudo como um fio.
Saber que a vida é só e somente só um momento.
Ser como o rio... água que desce, contorna qualquer obstáculo que aparece...
Às vezes ser corrente traiçoeira, despencar como cachoeira,
Fazer curvas,
e num piscar de olhos, na última curva, desaparece.
Escorregar sonolento no leito.
Não levar mágoas no peito.
Lavar as pedras roladas.
Deixar para trás o passado...
Saber que dessa vida não se leva nada.
Rio... da vida, rio.
Rosangela Calza
Como as águas de um doce rio doce
Passam as águas doces do rio.
Correntes geladas... tremo de frio.
Não repetem sua passagem.
Pouco mudam... e tudo mudam.
Pedras roladas... docemente beijadas.
Margens lapidadas.
Correntes pesadas...
tudo levam... tudo lavam...
e deixam a alma lavada.
Correm as águas doces do rio.
Do que fogem as águas doces do rio?
Por que suas águas doces seguem tudo escumando?
Por que no leito silenciosamente seguem murmurando?
Por que as vejo engrossando?
Por que seguem tudo contornando?
Por que não retornam?
Águas de um rio doce...
Está o mar a esperar...
Tudo o que por tão breve tempo foram vai ele apagar...
Vai ele desadoçar.
Salgar... pra mais tempo conservar?
Rosangela Calza
Por onde um rio passa
... passa o rio cheio de graça...
Serpenteia em grandes curvas
Suaves e tranquilas
por milhas e milhas...
define o caminho...
não pede passagem.
Às suas margens... terrenos amplos, grandiosos enfileiram-se
parques e florestas... árvores com seus ninhos.
Um rio nunca está sozinho.
Água no leito dos rios...
Vida que desliza por um fio...
Rios com corredeiras
que correm ligeiras, bagunceiras, em direção ao mar...
Têm elas toda a certeza do mundo que o mar vai as abraçar.
Unir... fundir... tudo em um só aguar.
Rosangela Calza
O rio
O ser todo líquido... ‘ser como o rio...’. Rio que é sempre o mesmo e, ao mesmo tempo, desigual, tão diferente. Rio que corre... rio que escorre. Ser como o rio que contorna, respeita o incontornável, arrisca-se no desconhecido... aventura-se sinuoso, segue... e se joga nos braços do mar – o doce... no sal!
Do rio
A mesma água não volta... nada se repete... o rio abre passagem, rodeia, circula, obstáculos são deixados para trás, supera limites, reflete as nuvens e tudo o que em suas águas vem se espelhar... contorna, adapta-se aos novos contornos... funde, funde-se, confunde-se... joga-se em cascata, cachoeira... e volta a deslizar suavemente em seu leito nupcial.
Um ritmo tão sem graça
Tudo passa...
E o tudo passar deixa este mundo tão sem graça.
Passa o amor... passa a desgraça.
Como assim... mundo sem graça por fazer passar a desgraça?
Sim... sem graça... porque que graça tem já saber de antemão que a desgraça que aflige seu coração já tem seu fim determinado por antecipação?
Sua desgraça, minha desgraça... passarão como fumaça.
Que graça sofrer por uma desgraça que logo ali adiante passa?
Não sofra com a desgraça!
Passa o amor... que mundo mais sem graça...
Que graça tem na misteriosa estrada da vida...
Amor como guarida
Vida no amor ser acolhida
E, logo à frente, dolorosa despedida?
“Que por perdê-la perdida,
Me desfaleço de dor...”
Perde-se a vida...
Perde-se o amor.
Neste mundo frágil... tudo é frágil...
Tudo passa... tudo vira fumaça.
Que mais sem graça é esta vida!
Que no seu próprio ritmo desgraçadamente passa... tudo é, deveras, tão sem graça!
Ô vida... qual é de te viver a graça?
Rosangela Calza
Minha estrada
É comprida esta estrada à minha frente
E vazia de gente.
Não é a minha estrada nem a mais bela, nem a mais feia...
É minha... vou seguindo por ela
Às vezes a tudo tão indiferente.
Às vezes se apresenta tão vazia... às vezes tão cheia.
Esta estrada que a cada dia se faz
Não tem forma de voltar atrás...
É só seguir em frente... em frente... em frente.
Ela é tão igual e tão diferente.
Às vezes ela me parece tão certa...
Às vezes, a estrada mais errada.
Mas dela não saio por nada.
Conheço o que meus pés podem pisar.
Conheço os obstáculos que consigo ultrapassar.
Conheço o que me pode fazer parar.
E a minha estrada é generosa comigo...
Desconhecida, sim...
Depois de cada curva não sei o que ela reserva pra mim...
Mas sei que, seja o que for, minha estrada é feita pra se encaixar de forma perfeita em mim.
... do começo ao fim.
Rosangela Calza
Noite quase morta
Da noite quase morta
Surgem sombras quase vivas...
Povoam a noite...
Sempre há tanto escondido nas sombras da noite.
Tic... tac tic... tac
O tempo passa...
Noite noturna, soturna... melancólica e perfeita.
O escuro tenebroso, denso, se afasta.
Tic...tac tic... tac
Num clarão, a noite é desfeita.
Morre a noite...
Noite, tua escuridão não mais importa.
“O córrego chora.”... Vela, a noite morta!
Rosangela Calza
Amor... saudade eterna
Vieste, pra minha vida, um dia vieste.
E me deste toda a felicidade do mundo, me deste.
Foste, o amor da minha vida, foste.
E um dia te foste.
O amor eterno prometido,
em mil pedaços partido.
O amor eterno “que prometeste”
“era bem pouco e cedo se acabou”...
Partiste...
Triste me deixou...
Mas “de ti conservo no peito a saudade celeste” que do eterno amor ficou...
Amor eterno... em saudade eterna se transformou.
Rosangela Calza
De quando em quando
Silenciosamente…
Profundamente...
O som do vento corta o silêncio
de quando em quando.
Te amo
Silenciosamente.
Profundamente...
De quando em quando?
Não!
Sempre
.... e eternamente...
De quando em quando
apenas
“o ruído de um bonde”
corta “o silêncio
como um túnel.”
De quando em quando silente...
Nunca permanente...
Sempre profundamente.
Rosangela Calza
(Des)esperança
“- Ah, como dói viver quando falta a esperança!”
Não há sol que aqueça.
Não há noite que amanheça.
Quando a alma esperança não mais alcança.
Tudo passa vagarosamente...
se dilui... desaparece...
estrangeiro no mundo
a vida se desvanece.
Cores desbotadas.
Descolorindo a monotonia dos dias...
“O silêncio é tão largo, é tão longo, é tão lento”
Só desalento o que sinto por dentro.
Pressinto um medo...
Um mau presságio...
Velozmente está chegando perto do fim o meu momento.
Cada vez mais desentendo a vida...
Chega com as cartas marcadas...
Traçada da entrada à porta de saída...
a desesperança não é um luxo de ninguém...
é apenas um capricho da vida!
Rosangela Calza
Nuvens carregadas cobrem o céu da alma, espalhando dor e tristeza, enquanto a desesperança sussurra segredos de um amanhã incerto.
E assim sigo eu...
Rosangela Calza
Oh! vento
Oh vento, sopre forte
Leva pra longe as dores...
Há tantas que eu já não mais as suporto.
Meu corpo dói... minha mente pouco a pouco se destrói...
O coração dentro do peito corrói.
Leva tudo... mesmo o que me faz bem...
Não me importo.
Que nasça um novo eu.
Com novos sonhos...
Com um caminho todo novo.
Quero ser feita de novo.
Oh vento, varra pra longe
O que me consome...
Faça desaparecer até meu nome.
Rosangela calza
Canção do vento
O vento me atrai, me cativa, me fascina…
O vento me seduz, me encanta, me deslumbra...
O vento meu rosto acaricia... meu corpo envolve... minha paz me devolve.
Gosto do vento frio
Gosto do arrepio
Gosto do meu nariz gelado,
pelo vento deixado.
O vento sopra forte.
O vento me refresca em meio ao sol forte.
O vento me revigora...
Me avisa da hora de ir embora.
Gosto do som dos galhos das árvores balançando.
Gosto dos sinos dobrando.
Gosto das venezianas batendo.
Gosto do vento arruaças fazendo... e ninguém o vendo.
O vento segue soprando...
As nuvens moldando...
Os papéis derrubando...
Tudo separando... tudo misturando...
As saias levantando.
Da janela do meu quarto vejo o vento a soprar...
Passa, passa sem parar...
Pelas frestas da vida
Se divertindo vai seguindo...
Rindo... feliz da vida... tudo a bagunçar.
Brisas suaves
Nos ventos que forte sopram, uma vida ausente se esconde,
como murmúrios perdidos entre as nuvens escuras...
sussurros de memórias se infiltram na brisa nada serena...
enquanto um buraco negro abriga a mente demente.
As sombras se estendem, como dedos famintos,
acariciando rostos que já não reconhecem o sol... queimam com o sal...
Lágrimas de tempestade escorrem pela face, pesadas e lentas,
misturando-se ao eco da saudade... sugando uma energia que é vital.
Mas, no horizonte, uma luz suave se insinua,
promessa de renascimento além do terror... isso seria?
Respira a esperança, mesmo em meio à desventura,
e os ventos, então, cantam ao amor novas sinfonias.
Assim, nessa dança entre escuridão e claridade,
A vida persiste, tecendo sonhos que se aproximam da eternidade.
Chora o sertão
No sertão, a chuva forte despenca,
Cortinas de água dançam, se entrelaçam em pencas...
O céu azul, em contraste, se estende,
Nuvens pesadas silenciosas, como segredos que sussurram entre si e se entendem.
A terra sedenta, em êxtase, agradece,
cochichando promessas de vida e renovo...
As folhas vibram com cada gota que desce,
Um milagre sutil, um amor renasce completamente novo.
Os pássaros cantam, festejando a clemência...
Nos riachos fios de água dançantes refletem o brotar de nova alegria...
O chão, antes árido, agora em essência,
recebe a bênção que transforma a secura em terra fértil em florescência.
Da dor à esperança, o ciclo se completa...
Coração do sertão, pulsando em harmonia,
Na dança da chuva, a vida se propaga,
E em cada gota, a natureza se transformando na mais pura poesia.
Nas ondas do mar
Nasce o sol nas ondas do verde mar,
Em dança suave, a brisa bailando, bailando... a tudo encantar.
Sussurros de espuma, segredos antigos,
cantos de sereias, sonhos amigos.
O balanço das águas embala a razão,
em cada gota, surgindo se vê uma nova canção.
Navegar é sentir, com o corpo e a alma,
a liberdade e a paz que embalam e trazem enorme calma.
Entre horizontes, meu barco desliza...
a luz do entardecer, uma suave brisa.
mares de esperança, surpresas a florir,
no coração do oceano, só quero existir e existir .
Que as ondas me abracem, me envolvam, me guiem...
Nesse azul profundo onde os sentimentos indeléveis flutuam.
Mar verde, brisa suave, eternamente a sonhar,
Nessa viagem infinita, hei de sempre navegar.
Esquinas da cidade
Nas esquinas da cidade, um ladrão de sonhos,
remexeu as gavetas do tempo, buscando em seus tronos sonhos adormecidos.
Espalhou o encanto pela vida desnuda,
como um poeta que em versos nunca se ajuda.
O céu, testemunha dos segredos perdidos,
sussurra histórias de amores e sentidos...
Os sorrisos se misturam ao pó das calçadas,
enquanto a brisa leva memórias entrelaçadas pela brisa que se espalha pelo ar.
Corações pulsantes guardam esperanças,
sorrateiros dançam nas instâncias...
Despertando encantos em cada canto da cidade tão cheios de dor,
transformando essa dor em arte, em puro amor.
Assim, a cidade respira o seu lamento,
onde sonhos se tornam eternos, se camuflam... no vento todo tempo.
Quero acordar
Nasce o dia sem certezas.
O sol aparece suavemente.
Brilha um brilho fugidio...
Correm pro mar as águas do rio.
Meus sonhos atravessam a vida...
Como esse rio está toda a terra a atravessar...
Meus sonhos, em transversais suspensas, não sabem aonde irão chegar...
Mas o rio tem seu destino certo: o mar.
Meus desejos se vão com as nuvens
Vagueiam por terras tão distantes
Faço força pra acreditar que realidade se tornarão em um instante.
Um canto de sereia cega.
Um turbilhão de vozes a me atordoar.
Medo dessa escuridão que me cerca....
Por que não consigo logo acordar?
Ladrão de sonhos
Em noites de silêncio profundo,
Um ladrão sutil invade os sonhos,
Com sua magia de vida, em vagar,
Rouba esperanças, mas traz bálsamo aos corações.
É doce a esperança que se entrelaça,
Fé inabalável que nos embala,
Caminhos de luz e sombra dançam,
Nas labaredas da alma que nunca cansa.
Ele transforma o pesadelo em riso,
Nasce um novo dia, nosso paraíso.
Entre as estrelas, nossos anseios flutuam,
E, por detrás da dor, mil sorrisos surgem.
Assim, ao ladrão de sonhos nos rendemos,
Na fragilidade, encontramos o ser,
Que, ao mesmo tempo, nos leva ao chão
E nos ergue em voo, atendendo nossa oração.
Primavera de corações tristes
Na primavera, florescem as esperanças...
Os corações, em desatino, porém, sozinhos batem descompassadamente.
Ventos suaves sopram suaves lembranças...
E a luz do sol revela destinos perdidos que a felicidade nunca alcançam.
Butterfly de sonhos, aflitos em dor,
suspiros se perdem entre pétalas emurchecidas...
Tristes melodias, ecoando o amor que todo coração pra si almejaria...
Num ciclo eterno, em que a saudade é uma fúria nunca adormecida.
Caminhos floridos, mas sós, sem conforto... sem abrigo...
Os rostos sorriem, mas os olhos choram...
E sob o céu azul, um riso antigo
repete a tristeza que os corações devoram.
Oh, primavera! Teus coloridos encantos trazes...
Mas, que fazer com os sentimentos quebrados?
No silêncio dos campos, os lamentos são tantos,
E os destinos silenciosos sofrem amargurados...
De estação em estação passam sem nunca saber o que é ser amado.
Um peso morto
O frio da madrugada gela meu corpo.
Inerte estou à beira do mar...
Minha mente a divagar...
Como um barquinho perdido sem rumo pelas ondas a rodar.
Abandonada emocionalmente
Tento colocar minhas coisas num melhor lugar...
No meio de uma bagunça que não é pouca... tenho a impressão de que vou ficar... louca...
Do mar espero que venha o conforto
Entro nele devagar... o corpo mais frio começa a ficar...
Boio mansamente nas águas salgadas meu corpo s salgar...
Deixo a onda me levar...
A boiar... a boiar...
O sol nasce no horizonte.
O calor de volta traz.
Volto pra areia silenciosamente...
Minha dor no fundo do mar...
Novo dia.
Esperança.
Alegrias?
Deixará meu caminho de ser torto?
Deixarei eu de ser pro mundo um peso morto?
Deixarei de ser um peso morto...
renascerei em brisa leve, um novo alento,
a sombra se dissolverá em luz,
e o silêncio cantará promessas novas,
nascerá uma força das profundezas de mim que me erguerá e libertará,
vivendo eu, enfim, solto, em paz e vento?
Eis aí um pensamento que me traz na brisa um alento...
Rio errante
O rio corre pro mar, livre em sua longa trajetória... seu objetivo uma hora alcança,
Sinuante e audaz, na eterna esperança que nunca se desfaz.
Desvios e obstáculos seu caminho traçam,
na teia da vida, as sombras o abraçam.
Cada pedra, um desafio, cada curva, uma lição...
Na busca incessante do seu destino, não deixa de entoar leve e borbulhante canto sem qualquer desencanto.
A água murmura segredos de quem sempre ficou
nos braços da correnteza, até o dia em que a liberdade suavemente ecoou.
Deságua no oceano, onde o céu encontra a terra,
misturando suas águas, a jornada enfim em segundos se encerra.
Mas enquanto houver um sonho, um fluxo a pulsar,
o rio será sempre errante, continuará sempre a esperançar.
Minhas feridas
E continuo curando minhas feridas...
Abandonada emocionalmente...
Um horror tem sido minha vida.
Joelhos esfolados.
Feridas que não se curam.
Coração ferido.
Tanto é o medo que tenho sentido.
Dor... tristeza... desolação...
Bate cada vez mais vagarosamente meu triste coração.
E a luz do sol revela destinos perdidos,
Sombras que sussurram em caminhos esquecidos.
Na alvorada que pinta o céu de esperança,
Ecoam silêncios de uma antiga e doce lembrança.
Olhos que buscam o brilho da alegria,
Encontram, porém, só a névoa fria do dia que se inicia.
Sonhos dispersos na brisa matinal,
Fragmentos de um tempo tão irreal.
A felicidade, tímida, se escondeu,
Em cantos sombrios onde ninguém a viu.
Destinos cruzados, amores desfeitos,
no espelho do sol, refletem seus feitos.
E mesmo assim, há uma chama que arde,
Um desejo que nunca deixa de ser tarde.
Pois na luz que revela o que se perdeu,
Renascem esperanças que o tempo esqueceu.
Por que veio?
Lamentos lacônicos.
Momentos nada icônicos.
Passionalmente traída.
Uma vida desistida.
Estrada destruída.
Sempre em frente! Que coisa mais sem sentido.
Nunca queria ter sido.
Mas foi... é.
Não há como voltar atrás...
Ao mundo veio...
Sem fazer ideia nenhuma de a que veio... nem por que razão veio.
Ao mundo veio, folha ao vento levada,
Sem saber o porquê da jornada traçada.
Taciturna andança, misterioso viver,
Na imensidão suave, busca desflorescer.
Sem razão ou rumo, só a alma insistindo a pulsar,
No abraço do tempo, aprendendo
a resistir à vontade de desistir.
