Paulo Ricardo Zargolin
FADAS SENSATAS
Para dizer o óbvio, as fadas são seres mitológicos. Talvez possam existir em um outro plano, outra dimensão, algo nessa seara. Mas vamos aos fatos: na nossa existência terrena, não convivemos com figuras mágicas.
No imaginário infanto-juvenil, é possível sonhar com fadas, bruxas, gnomos e seus pares. Às crianças estão reservadas a criação e a crença nesses seres, incluindo características físicas e psicológicas que lhes possam ser atribuídas.
Alguns adultos, na ânsia de nutrir o pensamento fantástico dos infantes, também podem compor histórias mágicas, repletas de pó de pirlimpimpim, varinhas de condão, caldeirões e todo aparato imaginável.
Contudo, é estritamente necessário que não haja a tentativa de atribuir aos seres humanos as mesmas qualidades dispensadas às fadas, haja vista que somos imperfeitos por definição empírica, por acepção filosófica, por revelações religiosas e por convicção científica.
Assim sendo, a sensatez até pode ser uma virtude que alguns homens e mulheres detêm e que outros, vez ou outra, utilizam; mas aplicada a humanos travestidos de fadas é uma aberração.
As pessoas são falhas. Vive-se a vida buscando superar as fragilidades e desenvolver os potenciais. Essa é a síntese da existência humana. Qualquer canonização ou fadificação são incongruentes com o que nos torna humanos: os erros.
Estar enclausurados por bom senso e respeito à saúde é como os cidadãos conscientes podem se tornar heróis contra o coronavírus.
A Covid-19 não é uma doença redentora, que, para alguns românticos, transmite cura, reflexão e harmonia com a natureza; mas sim a ceifadora de vidas, planos e sonhos.
A falência da sociedade capitalista diante de um pequeno vírus exprime a desigualdade e suas consequências.
Contrair coronavírus durante uma viagem para a Europa é meritocracia ou esse termo só vale para desqualificar cotistas?
Ainda que o isolamento social seja desagradabilíssimo, evitar a transmissão de um vírus pode ser crucial para salvar vidas.
É TEMPORÁRIO
A efemeridade da vida
sempre nos chama,
traz inquietude e convida
a nos confrontarmos com um drama:
tudo passa, o tempo voa,
a mudança é permanente
e todo evento ruim
pode trazer experiência boa.
Não é imaturidade pueril
nem traço de esperança,
é raciocínio maduro e coração de criança.
Sem controle de itinerário,
sigamos a viagem isolados,
com a certeza de que é temporário.
Os espertos não conseguem sorrir, porque passam a vida cometendo espertezas, tecendo tramas, julgando e criticando tudo e todos e se esquecem do que realmente importa: viver.
Só o bobo sabe viver bem. Ele prefere não ver ou ouvir certas coisas, faz de conta que não existe maldade e vive. Intensamente!
A crise entra no cenário político como a luva que vai na mão de um mímico, que sem cor e sem som, faz drama e faz rir num semáforo.
Se nós pudéssemos beber da fonte da qual jorram nossas origens, poderíamos construir um futuro bem diferente, com uma filosofia mais abrangente, uma espiritualidade mais leve, sem mistérios entre os céus e a terra.
Preferimos, enquanto humanidade, acreditar nas falácias de “autoridades” que, em sua maioria, chegaram aonde estão pela astúcia – que nada tem a ver com sabedoria.
