Northon Salomao

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A intimidade começa quando podemos mostrar nossas imperfeições sem transformar a sinceridade em medo.

Às vezes, amar também significa reconhecer que o sentimento existe, mas que a relação já não faz bem.

A saudade é a memória tentando conversar com uma presença que o tempo já não consegue devolver.

Sentir saudade é descobrir que algumas pessoas continuam presentes na nossa vida por caminhos que não passam mais pelo encontro.

Há lembranças que doem porque foram bonitas demais para caber inteiramente no tempo em que aconteceram.

A saudade não prova que tudo era perfeito; prova que alguma coisa teve valor suficiente para permanecer.

Algumas despedidas terminam na porta, enquanto outras continuam acontecendo dentro de nós por muitos anos.

Talvez a eternidade humana seja isso: continuar existindo um pouco na memória de quem aprendeu a nos amar.

A paz interior começa quando a necessidade de vencer todas as discussões perde importância diante do desejo de viver bem.

A tranquilidade vale mais quando não depende de convencer o mundo de que fizemos as escolhas certas.

Algumas das melhores conquistas são invisíveis: dormir em paz, pensar com clareza e não precisar fingir.

A vida se torna mais generosa quando aprendemos a reconhecer alegria nas coisas que não precisam impressionar ninguém.

Algumas pessoas não sentem falta de nós, mas daquilo que nossa presença tornava conveniente para elas.

A ingratidão machuca especialmente quando percebemos que o outro tratou como obrigação aquilo que oferecemos por escolha.

Todos querem mudar o mundo, mas poucos aceitam enfrentar a única mudança sobre a qual realmente possuem algum domínio: a de si mesmos. Pretende-se reformar a realidade sem antes interrogar a consciência que a interpreta, critica e reproduz. Talvez a maior contradição humana esteja justamente aí: exigir do mundo a transformação que se recusa a realizar no próprio interior.

O presente é a instância em que o tempo se rebela contra a irreversibilidade do passado: não para apagar suas marcas, mas para transmutar seu significado. Nele, saldos negativos podem converter-se em patrimônio de experiência, derrotas em vitórias tardias e tristezas em formas mais profundas de alegria. A vida, contudo, não se deixa transformar apenas pela passagem das horas, mas pela inteligência com que habitamos o tempo: há batalhas cuja vitória nos liberta, batalhas cuja renúncia nos preserva e confrontos cujo maior triunfo consiste em jamais aceitá-los. A sabedoria está em discernir quando resistir, quando recuar e quando permitir que o silêncio realize aquilo que a força não conseguiria. Porque o passado é imutável em seus acontecimentos, mas permanece inacabado em seus significados; e o futuro não pertence necessariamente a quem mais luta, mas a quem aprende a escolher suas lutas. No fim, talvez a verdadeira arte de viver consista menos em impedir as perdas do que em impedir que elas tenham a última palavra.

Seria um paradoxo epistemológico que nós, seres finitos, limitados pelo tempo, pela experiência e pelos próprios contornos da razão, pretendêssemos determinar aquilo cuja natureza é infinita.

Diante do ilimitado, toda certeza humana talvez seja apenas uma fronteira provisória que a nossa própria finitude traça sobre o desconhecido.

A fórmula pode ser finita, mas suas consequências podem ser infinitas: talvez a complexidade do real não esteja na quantidade de regras que o governam, mas na capacidade de uma regra simples, repetida indefinidamente, de produzir o que a razão jamais conseguiria enumerar.

Será que o universo é incompreensível porque suas leis são complexas, ou porque leis simples podem gerar consequências complexas demais para uma mente finita acompanhar?

“O infinito talvez não esteja na fórmula, mas naquilo que a fórmula é capaz de fazer quando o tempo lhe permite repetir-se.”

Ironicamente, Bebelle não fez seu dinheiro trabalhar por ela e o inverno chegou. Um dia ele chegaria, ela sabia. Gelado e vazio. Solitário e inóspito. Bebelle estava quebrada ao fim de seu infame reinado, sem a juventude, sem a beleza que jamais teve. Bebelle voltou a ser o que sempre foi. Plebe.

Ironicamente, Bebelle jamais fizera seu dinheiro trabalhar por ela. E, como todas as coisas que são adiadas indefinidamente, o inverno chegou.


Um dia ele chegaria, ela sabia. Chegaria sem anúncio, sem piedade, sem a cortesia de bater à porta. Gelado e vazio. Solitário e inóspito, trazendo consigo aquela espécie de silêncio que só existe quando o mundo já não se impressiona com quem um dia acreditou dominá-lo.


Ao fim de seu infame reinado, Bebelle estava quebrada. Não apenas financeiramente, mas também daquilo que durante tanto tempo sustentara sua pequena mitologia pessoal: já não havia dinheiro, já não havia poder, já não havia a juventude que imaginara eterna, nem a beleza que, na verdade, jamais possuíra.


Restava apenas o tempo.


E o tempo, ao contrário do dinheiro, não negocia.


Quando as luzes se apagaram, quando os aplausos cessaram e quando o último vestígio de sua corte se dissolveu, Bebelle descobriu aquilo que talvez sempre tivesse temido: não havia uma rainha sob a coroa, apenas uma mulher que durante algum tempo acreditara sê-lo.


O inverno não a transformou.


Apenas retirou dela tudo aquilo que a fazia parecer diferente.


E então, finalmente, Bebelle voltou a ser o que sempre fora.


Plebe.

Ironicamente, Bebelle jamais fizera seu dinheiro trabalhar por ela. Talvez porque nunca tivesse compreendido que a riqueza verdadeira não está naquilo que se possui, mas naquilo que continua produzindo quando já não se está olhando. E, como acontece com todas as coisas que adiamos acreditando que o futuro nos pertencerá para sempre, o inverno chegou.


Um dia ele chegaria. Bebelle sabia disso, embora saber que alguma coisa acontecerá seja muito diferente de compreender que ela acontecerá conosco. O inverno não veio como uma tragédia. Não trouxe trombetas, carrascos ou sentenças. Veio silenciosamente, como quase tudo aquilo que realmente importa. Sem anúncio, sem piedade, sem sequer a delicadeza de bater à porta.


Chegou frio, vazio, solitário e inóspito, trazendo consigo aquele silêncio peculiar que surge quando o mundo deixa de reconhecer a importância que alguém imaginava possuir.


Ao fim de seu infame reinado, Bebelle estava quebrada. Não apenas financeiramente. Estava quebrada na própria narrativa que havia construído sobre si mesma. O dinheiro desaparecera. O poder evaporara. A juventude, que durante algum tempo parecera uma propriedade particular do seu corpo, descobrira aquilo que todo corpo acaba descobrindo: que o tempo não reconhece proprietários. E a beleza, que ela havia tratado como um patrimônio, revelou-se aquilo que talvez sempre tivesse sido: uma hipótese sustentada pelo olhar dos outros.


Restava o tempo.


E o tempo é a forma mais absoluta de pobreza para quem acreditou possuir tudo.


Porque o dinheiro pode ser acumulado, multiplicado, escondido, investido e transmitido. O tempo não. O dinheiro admite cálculo; o tempo impõe existência. O dinheiro pode voltar; o tempo apenas passa.


Talvez seja esse o maior equívoco de quem confunde poder com permanência: imaginar que aquilo que se consegue controlar durante algum tempo continuará obedecendo para sempre.


Não continua.


Toda corte acaba. Todo aplauso encontra seu último eco. Toda beleza envelhece. Toda fortuna pode desaparecer. Toda autoridade, por maior que pareça, depende de circunstâncias que um dia deixarão de existir.


Quando as luzes finalmente se apagaram, quando os aplausos cessaram e quando o último vestígio de sua pequena corte se dissolveu no anonimato, Bebelle encontrou algo mais terrível do que a pobreza: encontrou a si mesma.


E talvez tenha sido essa a verdadeira queda.


Porque sob a coroa não havia uma rainha. Havia apenas uma mulher.


Uma mulher que, durante algum tempo, acreditara que aquilo que possuía definia aquilo que era. Que confundira reconhecimento com valor, aparência com identidade, poder com permanência e riqueza com segurança.


O inverno não a transformou.


Essa talvez seja a parte mais cruel.


O inverno apenas retirou as coisas que estavam entre Bebelle e o espelho.


E, quando já não havia dinheiro para sustentar a personagem, poder para sustentar a ilusão, juventude para sustentar a aparência ou aplausos para sustentar a narrativa, restou aquilo que sempre estivera ali, esperando silenciosamente pelo fim da representação.


Bebelle não se tornou outra pessoa.


Apenas deixou de conseguir parecer outra.


E então, finalmente, quando todas as máscaras haviam perdido sua utilidade, Bebelle voltou a ser aquilo que sempre fora.


Plebe.

Bebelle nasceu plebeia e plebeia morreu, embora tenha conhecido, por alguns anos, a vertigem de se imaginar rainha. Ascendeu pelos degraus de uma escada construída com hipocrisia, dissimulação e a paciente arte de parecer aquilo que jamais fora. Fez da máscara uma identidade, da conveniência uma moral e da aprovação alheia a medida de seu próprio valor. Por algum tempo, a encenação prosperou, porque há épocas em que a aparência desfruta de mais prestígio do que a essência, e pessoas dispostas a acreditar no espetáculo preferem não investigar os bastidores.


Mas o tempo, esse filósofo implacável que não argumenta, apenas revela, encarregou-se de confrontá-la com a verdade que suas escolhas haviam adiado. Pouco a pouco, as circunstâncias desfizeram o cenário, os privilégios perderam a voz e o espelho, indiferente às antigas encenações, devolveu-lhe a imagem que a vaidade tanto se esforçara por ocultar. Bebelle descobriu, tarde demais, que ascender socialmente não significa transcender a própria condição interior, assim como vestir uma coroa não transforma em realeza aquele que jamais compreendeu a responsabilidade de usá-la.


Toda máscara tem sua duração; toda impostura, seu limite; toda glória emprestada, uma data de vencimento. E, quando a sinfonia finalmente alcança o último acorde, não são os aplausos que permanecem, mas o silêncio que sucede à representação. Nesse silêncio, desabam os títulos imaginários, evaporam-se as reverências circunstanciais e a personagem, privada do olhar que a sustentava, reencontra a nudez de sua própria existência.


Bebelle nasceu plebeia, viveu como rainha e morreu diante da evidência de que jamais deixara de ser quem era. Sua tragédia não foi perder o trono, mas descobrir que o trono nunca lhe pertencera. Porque o tempo pode conceder a alguém os ornamentos do poder, mas não tem o poder de transformar a aparência em substância. E, ao fim de todas as coisas, quando a música cessa e as luzes se apagam, cada um retorna àquilo que construiu dentro de si.

Alexandre, o pequeno príncipe. Viveu tão pouco, e talvez tenha sofrido mais do que o tempo que lhe foi concedido poderia justificar. Partiu antes de conhecer a vastidão do mundo, antes que a vida lhe revelasse suas infinitas contradições, suas descobertas inesperadas, seus prazeres efêmeros e suas dores inevitáveis. Não conheceu tantas pessoas, tantas tecnologias, tantas possibilidades que ainda estavam por nascer diante de seus olhos. O futuro permaneceu para ele como uma biblioteca cujos livros jamais seriam abertos, um universo de experiências suspensas na eternidade daquilo que não aconteceu.


Havia tanto por descobrir, tanto por experimentar, tanto por compreender. A humanidade continuaria reinventando seus brinquedos, seus desejos, suas máquinas e suas ilusões. O mundo mudaria de pele inúmeras vezes, enquanto Alexandre permaneceria para sempre na imobilidade de sua breve existência, alheio às revoluções que transformariam o cotidiano e aos pequenos milagres que aprenderíamos, pouco a pouco, a considerar banais.


Talvez tenha sido melhor assim. Há sofrimentos que a brevidade interrompe, tormentos dos quais a eternidade dos dias não nos oferece garantia de libertação. Talvez a vida, em sua inexplicável indiferença, lhe tenha poupado de algumas das crueldades que ainda estavam por vir. Ou talvez essa seja apenas a maneira imperfeita com que os vivos tentam reconciliar a razão com a injustiça de uma partida prematura.


Porque existe uma crueldade particular em morrer cedo: não apenas a de perder a vida, mas a de perder todas as vidas que poderíamos ter vivido dentro dela.


Alexandre, o pequeno príncipe, não chegou a conhecer o mundo inteiro. Mas o mundo também jamais saberá quem ele poderia ter sido. E talvez seja essa a tragédia mais silenciosa de todas: não sabermos apenas o que perdemos, mas tudo aquilo que nunca terá a oportunidade de existir.


Talvez, tenha sido melhor para o mundo.