Ironicamente, Bebelle jamais fizera seu... Northon Salomão de Oliveira

Ironicamente, Bebelle jamais fizera seu dinheiro trabalhar por ela. Talvez porque nunca tivesse compreendido que a riqueza verdadeira não está naquilo que se possui, mas naquilo que continua produzindo quando já não se está olhando. E, como acontece com todas as coisas que adiamos acreditando que o futuro nos pertencerá para sempre, o inverno chegou.


Um dia ele chegaria. Bebelle sabia disso, embora saber que alguma coisa acontecerá seja muito diferente de compreender que ela acontecerá conosco. O inverno não veio como uma tragédia. Não trouxe trombetas, carrascos ou sentenças. Veio silenciosamente, como quase tudo aquilo que realmente importa. Sem anúncio, sem piedade, sem sequer a delicadeza de bater à porta.


Chegou frio, vazio, solitário e inóspito, trazendo consigo aquele silêncio peculiar que surge quando o mundo deixa de reconhecer a importância que alguém imaginava possuir.


Ao fim de seu infame reinado, Bebelle estava quebrada. Não apenas financeiramente. Estava quebrada na própria narrativa que havia construído sobre si mesma. O dinheiro desaparecera. O poder evaporara. A juventude, que durante algum tempo parecera uma propriedade particular do seu corpo, descobrira aquilo que todo corpo acaba descobrindo: que o tempo não reconhece proprietários. E a beleza, que ela havia tratado como um patrimônio, revelou-se aquilo que talvez sempre tivesse sido: uma hipótese sustentada pelo olhar dos outros.


Restava o tempo.


E o tempo é a forma mais absoluta de pobreza para quem acreditou possuir tudo.


Porque o dinheiro pode ser acumulado, multiplicado, escondido, investido e transmitido. O tempo não. O dinheiro admite cálculo; o tempo impõe existência. O dinheiro pode voltar; o tempo apenas passa.


Talvez seja esse o maior equívoco de quem confunde poder com permanência: imaginar que aquilo que se consegue controlar durante algum tempo continuará obedecendo para sempre.


Não continua.


Toda corte acaba. Todo aplauso encontra seu último eco. Toda beleza envelhece. Toda fortuna pode desaparecer. Toda autoridade, por maior que pareça, depende de circunstâncias que um dia deixarão de existir.


Quando as luzes finalmente se apagaram, quando os aplausos cessaram e quando o último vestígio de sua pequena corte se dissolveu no anonimato, Bebelle encontrou algo mais terrível do que a pobreza: encontrou a si mesma.


E talvez tenha sido essa a verdadeira queda.


Porque sob a coroa não havia uma rainha. Havia apenas uma mulher.


Uma mulher que, durante algum tempo, acreditara que aquilo que possuía definia aquilo que era. Que confundira reconhecimento com valor, aparência com identidade, poder com permanência e riqueza com segurança.


O inverno não a transformou.


Essa talvez seja a parte mais cruel.


O inverno apenas retirou as coisas que estavam entre Bebelle e o espelho.


E, quando já não havia dinheiro para sustentar a personagem, poder para sustentar a ilusão, juventude para sustentar a aparência ou aplausos para sustentar a narrativa, restou aquilo que sempre estivera ali, esperando silenciosamente pelo fim da representação.


Bebelle não se tornou outra pessoa.


Apenas deixou de conseguir parecer outra.


E então, finalmente, quando todas as máscaras haviam perdido sua utilidade, Bebelle voltou a ser aquilo que sempre fora.


Plebe.