Bebelle nasceu plebeia e plebeia morreu,... Northon Salomão de Oliveira

Bebelle nasceu plebeia e plebeia morreu, embora tenha conhecido, por alguns anos, a vertigem de se imaginar rainha. Ascendeu pelos degraus de uma escada construída com hipocrisia, dissimulação e a paciente arte de parecer aquilo que jamais fora. Fez da máscara uma identidade, da conveniência uma moral e da aprovação alheia a medida de seu próprio valor. Por algum tempo, a encenação prosperou, porque há épocas em que a aparência desfruta de mais prestígio do que a essência, e pessoas dispostas a acreditar no espetáculo preferem não investigar os bastidores.


Mas o tempo, esse filósofo implacável que não argumenta, apenas revela, encarregou-se de confrontá-la com a verdade que suas escolhas haviam adiado. Pouco a pouco, as circunstâncias desfizeram o cenário, os privilégios perderam a voz e o espelho, indiferente às antigas encenações, devolveu-lhe a imagem que a vaidade tanto se esforçara por ocultar. Bebelle descobriu, tarde demais, que ascender socialmente não significa transcender a própria condição interior, assim como vestir uma coroa não transforma em realeza aquele que jamais compreendeu a responsabilidade de usá-la.


Toda máscara tem sua duração; toda impostura, seu limite; toda glória emprestada, uma data de vencimento. E, quando a sinfonia finalmente alcança o último acorde, não são os aplausos que permanecem, mas o silêncio que sucede à representação. Nesse silêncio, desabam os títulos imaginários, evaporam-se as reverências circunstanciais e a personagem, privada do olhar que a sustentava, reencontra a nudez de sua própria existência.


Bebelle nasceu plebeia, viveu como rainha e morreu diante da evidência de que jamais deixara de ser quem era. Sua tragédia não foi perder o trono, mas descobrir que o trono nunca lhe pertencera. Porque o tempo pode conceder a alguém os ornamentos do poder, mas não tem o poder de transformar a aparência em substância. E, ao fim de todas as coisas, quando a música cessa e as luzes se apagam, cada um retorna àquilo que construiu dentro de si.