Jorgeane Borges Photograph
Há olhos que não sabem esconder.
Mesmo quando a boca silencia,
mesmo quando o corpo continua,
mesmo quando a vida parece seguir no lugar de sempre,
há coisas que transbordam pelo olhar.
E talvez seja por isso
que algumas pessoas nos chamem de fortes
sem perceber o quanto estamos cansados.
Não é que a dor esteja escondida.
Às vezes, ela está justamente ali,
cristalina,
diante de quem olha.
Mas nem todo olhar enxerga.
É preciso alguma coisa além dos olhos
para reconhecer a tristeza no brilho,
o cansaço no silêncio,
a solidão onde ninguém imagina haver vazio.
É preciso alma
para olhar outra alma.
Porque há pessoas que perguntam se estamos bem
e há aquelas que simplesmente percebem.
E, às vezes,
tudo o que uma alma cansada precisa
não é de alguém que diga
você é forte.
É de alguém que olhe demoradamente
e diga, sem precisar dizer:
eu vi.
Cartas aos Céus | Orações Escritas
O Deus que me sustenta
Senhor, hoje eu não venho Te pedir que o dia tenha sido diferente.
Venho Te agradecer porque, mesmo sendo tão difícil, Tu me sustentaste dentro dele.
Meu corpo cansou, minha mente se encheu, meu coração se apertou. Houve dores, aborrecimentos e desconfortos que só Tu conheces por inteiro. E ainda assim, eu permaneci.
Não pela minha própria força.
Foi a fé que me fez continuar quando eu já não queria mais pensar, resolver ou suportar. Foi a Tua presença me lembrando, silenciosamente, que eu não estava sozinha.
Por isso, hoje, eu Te enalteço.
Porque quando minhas forças diminuem, Tu permaneces forte.
Quando eu não sei como continuar, Tu me sustentas.
E quando tudo em mim se cala, a fé ainda encontra um jeito de dizer:
Tu és Deus, e eu continuo de pé porque Tu me sustentaste.
Obrigada, Senhor.
Por hoje.
Por tudo.
E, sobretudo, por não teres me deixado caminhar sozinha.
30 de setembro de 2026
Cartas não entregues
São palavras não ditas, sentimentos sufocados e confissões que morreram antes de encontrar voz.
São saudades que não compartilhamos, abraços que ficaram suspensos no desejo, pensamentos que nasceram para alguém e terminaram sozinhos.
Às vezes, foram escritas. No papel, à mão, com a letra trêmula de quem sentia demais.
Outras, digitadas às pressas, em alguma tela iluminada pela madrugada, antes de serem apagadas, como se apagar as palavras fosse também uma maneira de esconder o que se sentia.
Algumas repousam em folhas esquecidas. Outras, em rascunhos sem destino, em bloquinhos digitais, entre mensagens nunca enviadas e silêncios que ninguém soube interpretar.
Talvez sejam essas as cartas mais difíceis de escrever: as que não pedem resposta, não esperam retorno, não chegam a lugar algum.
Apenas guardam, em algum canto secreto de nós, aquilo que um dia quisemos dizer.
E talvez o tempo passe, as pessoas mudem, a vida siga seu curso...
Mas certas cartas permanecem.
Não porque ainda esperem ser entregues, mas porque algumas palavras, mesmo quando nunca chegam ao destinatário, precisam existir para que o coração se lembre de que um dia sentiu.
Tente outra vez.
Mesmo quando acordar
com vontade de desistir.
Mesmo quando o corpo pesar,
a esperança parecer distante
e você não souber
por onde começar.
Não precisa recomeçar de onde parou.
Às vezes, é preciso olhar ao redor
e descobrir de onde ainda é possível recomeçar.
Pode ser de um passo.
De uma pequena coragem.
De uma escolha diferente.
De um fio de esperança
que quase se perdeu.
Não importa quantas vezes a vida
tenha interrompido o caminho.
Há dias em que recomeçar
é apenas não desistir hoje.
E amanhã,
tente outra vez.
