Jorgeane Borges Photograph
Casa de taipa.
Feita de barro, mãos e memória.
Erguida entre o vento e a esperança, sustentada mais por coragem do que por paredes.
Nela, cada rachadura conta uma história, cada canto guarda um silêncio antigo, cada porta conhece quem chegou cansado e quem partiu sonhando.
Casa simples aos olhos de muitos, mas imensa para quem entende que riqueza também mora no afeto.
Porque há lares de concreto que nunca aquecem…
e casas de taipa que abraçam como colo de mãe.
Passei tanto tempo colocando a dor no bolso, escondendo meus próprios problemas, porque os meus nunca pareciam prioridade. As circunstâncias sempre faziam da necessidade do outro algo maior, mais urgente, mais digno de atenção.
Até que veio o acúmulo. E com ele, a implosão
silenciosa, mas devastadora, causando danos profundos.
Agora estou aprendendo qual é o meu lugar de prioridade dentro da minha própria vida. Aprendendo a dar passos que antes nunca me foram permitidos.
Mas hoje surge um novo dilema nas circunstâncias da vida: minha dor já não cabe mais no bolso. Ela transborda, aparece até no silêncio. Tento guardá-la em uma gaveta, mas até essa gaveta está quebrada. E, ainda assim, a prioridade segue sendo cuidar de uma dor física, visível, aquela que todos conseguem enxergar.
E a que ficou em mim?
A que implodiu por dentro?
Existe forma de impedir que os danos ultrapassem os limites do aceitável, quando se viveu tanto tempo sem saber se colocar no próprio lugar?
Engana-se quem julga a Depressão como doença de alguém frágil. Muitas vezes, ela habita justamente quem suportou demais em silêncio, quem guardou dores para si, acumulou cansaços, varreu feridas para debaixo do tapete e colocou a própria dor no bolso para cuidar depois.
A Depressão costuma chegar como um grito silencioso, um pedido de socorro daquilo que foi negligenciado por tempo demais. Surge como limite, convocando a pessoa a reorganizar a bagunça emocional acumulada dentro de si, quando o corpo e a mente já não conseguem sustentar tanto peso calado.
É invisível aos olhos de muitos, mas profunda e devastadora para quem a enfrenta. A Depressão é como um câncer na alma: silenciosa, corrosiva e, muitas vezes, letal em seus efeitos.
Por isso, não é fraqueza, não é drama, não é falta de vontade. É sofrimento real que precisa de acolhimento, escuta, cuidado e tratamento.
A bondade é a mais bela linguagem do universo.
Ela alcança lugares onde palavras não chegam, toca feridas invisíveis e devolve luz até aos dias mais escuros.
Deus é bom, todo o tempo.
E o tempo todo, Sua bondade continua encontrando formas de nos lembrar que ainda existe beleza, cuidado e propósito mesmo em meio ao caos.
Às vezes nos quebram por inteiro por termos sido bons, por confiar, por entregar bondade a mãos erradas.
E dói… dói perceber que aquilo que oferecemos com verdade foi recebido sem cuidado.
Mas como deixar de ser bondade, se Deus nos ensina justamente através dela?
Sua graça nunca foi sobre merecimento. Sua misericórdia nunca escolheu apenas quem acertou.
Talvez o maior desafio não seja continuar acreditando nas pessoas…
Mas continuar preservando a essência que Deus colocou em nós, mesmo depois das decepções.
Porque o mundo pode endurecer alguém.
Mas existe uma força imensa em permanecer luz, mesmo depois de ter atravessado tanta escuridão.
A realização é a contrapartida do desejo; ela nasce dele, cresce através dele e só encontra sentido porque, antes, existiu algo pulsando por dentro, pedindo para acontecer.
Ninguém realiza o que nunca desejou de verdade. Até as maiores conquistas começaram como ausência, vontade, inquietação.
O desejo é a centelha.
A realização é o fogo alcançando forma.
E talvez seja por isso que viver também doa às vezes: porque desejar exige coragem. Mas é justamente essa coragem que move a vida, cria caminhos e transforma o impossível em algo tocável.
A realização é a contrapartida do desejo; ela só existe porque antes houve algo queimando em silêncio.
Um impulso. Uma vontade. Um corpo inquieto imaginando toque, presença, entrega.
Tudo que arde demais dentro da gente procura um jeito de existir fora.
O desejo provoca, percorre a pele antes mesmo das mãos, invade pensamentos, cria cenas, acende faltas.
E a realização…
ah, ela é quando aquilo que incendiava por dentro finalmente encontra corpo, boca, calor e coragem para acontecer.
Porque existem desejos que não nasceram para permanecer imaginados.
Nasceram para serem sentidos até o fim.
Eu sei o que você quer…
consigo sentir no jeito que me olha, nas entrelinhas, no silêncio que tenta esconder o que arde.
Mas quero te ouvir me pedindo.
Quero ver teu desejo perdendo o controle devagar, tomando coragem, deixando de ser pensamento para virar vontade dita, assumida.
Porque existe algo absurdamente provocante em alguém que tenta resistir… até não conseguir mais.
E, sinceramente?
A forma como você me pedir talvez me acenda ainda mais do que o próprio desejo.
Só se vê bem com o coração. O essencial quase nunca se entrega aos olhos apressados.
Há coisas que não se explicam pela aparência, nem se alcançam apenas pelo toque das mãos. É preciso sensibilidade para perceber, calma para enxergar além da superfície e alma para tocar aquilo que não se vê, mas se sente.
Olha pra mim.
Olha para o que me tornei ao longo desses três anos. Não para alguma versão antiga de mim, nem para expectativas guardadas em alguma gaveta do passado. Olha pra mim, agora. Nos meus olhos. No que existe diante de você.
Percorre com calma a textura do que venho me tornando. Passa os olhos pelo meu corpo, pelo meu semblante… e não se assusta.
Quero que me decifre. E eu não tenho dificultado a tua leitura. Estou aqui, me revelando inteira, com falhas, cicatrizes, vulnerabilidades e verdades que nunca souberam mais se esconder.
Olha pra mim.
Entra pelos meus olhos e percebe o que a tua ausência causou em mim. Tenho queimado por ti em silêncio há tanto tempo… Me toca, não só com os olhos.
Olha pra mim e vê se consegue enxergar o tamanho do que te guardei, de tudo o que ficou aqui, apertado no peito, esperando um lugar para existir.
Estende as tuas mãos e me puxa pra junto de você. Me sacode. Baila comigo. Me faz sentir que ainda existe espaço para nós em algum canto do teu caos.
Olha pra mim e vê se consegue se enxergar, nem que seja um pouco, ao meu lado… nos teus sonhos, nas tuas vontades, nos teus dias distraídos.
Vê se eu caibo aí, nessa tua bagunça bonita. Me encaixa. Me ajeita. Ou simplesmente me permita encontrar abrigo em ti.
Mas, antes de tudo… olha pra mim.
Hoje eu não tô bem, tô cansada, me sinto irritada, mas não tô reclamando, tá tudo bem. Só estou querendo vencer o dia sem perdas, buscando me recolher no meu canto, tentando evitar conversas e possíveis desavenças. É nesse silêncio que me reorganizo, me reavalio, me reestruturo.
Tá tudo errado, não tá legal, mas tá tudo bem. Só estou tentando vencer o dia sem perdas.
Nem todo dia é feito para avançar. Alguns são feitos apenas para resistir com dignidade, para não piorar o que já está difícil, para atravessar as horas sem ferir ninguém e sem me ferir no processo.
Hoje não quero respostas, não quero decisões, não quero grandes movimentos. Quero apenas o necessário. Quero me preservar enquanto a tempestade passa por dentro de mim.
Porque aprendi que há dias em que a vitória não está em conquistar algo, mas em manter intacto aquilo que já foi conquistado. Há dias em que sobreviver ao peso, ao cansaço e à confusão já é uma forma de coragem.
Então sigo assim, mais quieta, mais recolhida, respeitando meus limites e aguardando que a vida volte a encontrar seu eixo dentro de mim. Um passo de cada vez. Sem perdas. Apenas atravessando.
Eu não tenho outro além de Ti.
Eu não tenho lugar mais seguro senão junto a Ti.
Ó Deus de graça, bondade e misericórdia, eu sei que não sou nada sem a Tua presença.
Quantas vezes eu erro tentando acertar?
Quantas vezes me confundo tentando fazer o que acredito ser o melhor?
Quantas vezes me afasto da Tua vontade sem sequer perceber?
Mas existe uma coisa que eu sei, Pai: todas as vezes que algo aflige meu coração, é para Ti que eu corro.
Todas as vezes que as dúvidas me cercam, é diante de Ti que eu me ajoelho.
Todas as vezes que sonho, planejo, desejo e espero, é em Tuas mãos que eu deposito aquilo que não consigo controlar.
E mesmo assim eu falho.
Por isso, às vezes eu fico imaginando, Senhor...
se já é tão difícil tendo a Tua presença, tendo a Tua direção e a minha fé depositada em Ti, como seria se eu estivesse sozinha?
Tem misericórdia de mim.
Olha para Tua filha.
Olha para a menina dos Teus olhos.
Aquela que o Senhor já livrou tantas vezes sem que percebesse.
Aquela que o Senhor sustentou quando ninguém mais viu suas lágrimas.
Aquela que o Senhor carregou nos dias em que ela já não tinha forças para caminhar.
Mas ainda assim, Pai, eu caio.
Eu choro.
Eu me assusto.
Eu me desespero.
Então me acolhe.
Eu não estou bem.
Olha para todas as áreas da minha vida.
Olha para os sonhos que ainda não floresceram.
Olha para os projetos que parecem parados.
Olha para as dores que eu escondo para não preocupar quem amo.
Olha para a solidão dos dias em que eu pareço forte por fora, mas por dentro estou apenas tentando sobreviver.
Pai, eu não tenho com quem conversar da forma que converso contigo.
Não tenho quem me ouça até os pensamentos que não consigo colocar em palavras.
Eu olho para um lado e para o outro procurando respostas, mas sei que o meu socorro vem de Ti.
Só o Senhor pode mover aquilo que minhas mãos não alcançam.
Só o Senhor pode abrir portas que ninguém consegue abrir.
Só o Senhor pode quebrantar corações, alinhar propósitos, restaurar esperanças e transformar desertos em caminhos.
Pai, eu estou aqui.
Orando.
Jejuando.
Esperando.
Tentando permanecer fiel mesmo quando minhas emoções oscilam.
Mas eu confesso que às vezes o desânimo bate à porta.
Às vezes eu me pergunto quanto tempo mais preciso esperar.
Às vezes eu me pergunto se estou ouvindo corretamente a Tua voz.
Às vezes eu me pergunto se os sonhos que carrego vieram de Ti ou nasceram apenas da minha vontade de amar, construir, pertencer e viver algo bonito.
Porque eu estou cansada, Pai.
Cansada de lutar batalhas invisíveis.
Cansada de parecer forte quando estou exausta.
Cansada de carregar tantas perguntas sem respostas.
Mas existe algo dentro de mim que continua acreditando.
Mesmo cansada, eu acredito.
Porque o Senhor conhece o meu coração.
O Senhor sabe que eu não desejo riquezas vazias, status ou aparências.
O Senhor sabe que os meus sonhos são simples em sua essência.
Eu sonho com propósito.
Com amor verdadeiro.
Com família.
Com parceria.
Com um lar onde haja paz.
Com alguém que caminhe ao meu lado olhando para a mesma direção.
Eu sonho em cuidar e ser cuidada.
Em amar e ser amada.
Em construir algo que resista ao tempo porque foi edificado sobre fundamentos sólidos.
E o Senhor sabe que, por trás da mulher forte que tantas pessoas enxergam, existe uma menina que ainda espera.
Que ainda acredita.
Que ainda olha para o céu procurando respostas.
Então não deixa essa menina desistir.
Quando minhas forças faltarem, sustenta-me.
Quando minha fé vacilar, fortalece-me.
Quando eu não enxergar saída, lembra-me que o Senhor continua trabalhando mesmo no silêncio.
E se os propósitos que tenho colocado diante de Ti estiverem alinhados com a Tua vontade, confirma-os.
Abre caminhos.
Move circunstâncias.
Mostra frutos.
Não porque eu mereça, mas porque confio na Tua fidelidade.
E se alguma coisa precisar morrer dentro de mim para que algo maior nasça, me ajuda a entregar.
Mas se alguma promessa estiver apenas aguardando o tempo certo, me ajuda a permanecer.
Porque eu não quero viver apenas de expectativas.
Eu quero viver da esperança que nasce da Tua presença.
E enquanto as respostas não chegam, segura a minha mão.
Porque às vezes tudo o que eu consigo fazer é continuar caminhando... confiando que o Senhor ainda sabe exatamente onde está me levando.
Amém.
