Jorgeane Borges Photograph
Ainda sobre olhar e olhares...
Existem olhos que apenas olham, e existem olhares que verdadeiramente enxergam.
Olhares que transcendem a superfície e alcançam lugares que as palavras nem sempre conseguem tocar. Olhares que acolhem a alma sem interrogá-la, que compreendem sem exigir explicações e que permanecem atentos aos detalhes que quase todos deixam escapar.
São olhares que registram mais do que imagens. Registram silêncios, ausências, cicatrizes, alegrias discretas e sentimentos que não encontram voz. Não se limitam ao que está diante deles; percebem o que habita por trás dos gestos, entre as pausas e dentro das emoções.
Mas também existem olhos que olham e não veem. Que atravessam pessoas, histórias e sentimentos sem realmente encontrá-los. Olhos que se detêm na aparência, mas não alcançam a essência. Que observam a forma, mas desconhecem a profundidade.
Talvez porque enxergar seja mais do que um ato da visão. Enxergar exige presença. Exige sensibilidade. Exige disposição para encontrar no outro algo além daquilo que está exposto.
Os olhares são espelhos e portais da alma. Espelhos porque revelam aquilo que carregamos dentro de nós. Portais porque permitem acessar mundos que não podem ser tocados pelas mãos.
E há uma beleza rara nos olhares que permanecem. Naqueles que não apenas veem quem somos, mas nos fazem sentir vistos. Porque, às vezes, o maior encontro entre duas almas acontece em silêncio, no breve instante em que um olhar reconhece o outro e decide ficar.
Quem olha e enxerga por dentro, reconhece.
Não porque sabe tudo sobre o outro, mas porque percebe aquilo que nem sempre é dito. Enxerga as marcas escondidas atrás dos sorrisos, os silêncios que carregam significados e as verdades que não cabem nas palavras.
Quem enxerga por dentro não se detém apenas na aparência das coisas. Vai além da superfície, atravessa as camadas que costumamos mostrar ao mundo e alcança aquilo que permanece quando todas as máscaras caem.
Talvez por isso o verdadeiro reconhecimento seja tão raro.
Porque reconhecer alguém não é apenas identificá-lo. É perceber sua essência. É enxergar a beleza que não se exibe, as dores que não se anunciam e a força que muitas vezes nem a própria pessoa sabe que possui.
E há algo ainda mais profundo nesse encontro.
Quem enxerga o outro com verdade acaba, inevitavelmente, encontrando a si mesmo pelo caminho. Porque cada alma reconhecida desperta um reflexo. Cada profundidade acolhida revela uma profundidade que também habita em nós.
Os olhares mais sensíveis carregam esse dom. Não apenas observam; compreendem. Não apenas percebem; acolhem.
E quando dois olhares capazes de enxergar por dentro se encontram, acontece algo raro: deixam de procurar explicações e passam apenas a reconhecer.
Como quem finalmente encontra, no olhar do outro, uma parte esquecida de si.
Sempre me intrigaram os olhares.
Não aqueles que passam por nós distraídos, mas os que permanecem.
Os que pousam devagar sobre a nossa existência e parecem recolher fragmentos que nem sabíamos ter deixado expostos.
Há quem olhe para um rosto e veja apenas traços. Há quem olhe para uma fotografia e veja apenas uma imagem. Mas existem aqueles raros olhares que atravessam a moldura, a pele, as palavras e alcançam aquilo que não foi dito.
Talvez seja por isso que me encanto tanto pelos detalhes.
Porque a alma dificilmente se apresenta inteira. Ela se revela aos poucos: em um silêncio prolongado, em um sorriso que vacila antes de nascer, em uma saudade escondida atrás de uma frase comum. E é preciso sensibilidade para perceber.
Quem enxerga por dentro compreende que cada pessoa é um universo guardado sob aparências. E que reconhecer alguém é mais do que vê-lo; é acolher sua história sem precisar conhecê-la por completo.
Também acredito que todo olhar é uma espécie de espelho.
Aquilo que conseguimos reconhecer no outro fala, de alguma forma, sobre aquilo que habita em nós. Talvez seja por isso que certas pessoas nos alcançam tão profundamente. Não porque nos revelam algo novo, mas porque iluminam algo que já existia e permanecia adormecido.
No fim, penso que a vida é feita desses raros reconhecimentos.
Instantes em que alguém nos vê para além do que mostramos. Instantes em que nos sentimos encontrados sem termos pedido para ser procurados.
E talvez seja esse o maior desejo da alma: não ser admirada, nem compreendida por completo.
Apenas ser vista.
Há dias em que a saudade chega sem aviso.
Não faz barulho. Não bate à porta. Apenas ocupa os espaços, senta-se ao meu lado e me acompanha em silêncio.
Nesses dias, tudo continua igual por fora. O mundo segue seu ritmo, as pessoas seguem seus caminhos, os compromissos continuam existindo. Mas por dentro, algo caminha mais devagar.
Sinto falta de presenças que nem sempre estiveram perto, mas que encontraram morada em mim.
E é estranho como algumas pessoas conseguem permanecer mesmo quando estão ausentes.
Talvez a solidão não seja a falta de companhia. Talvez seja a distância entre aquilo que sentimos e aquilo que conseguimos dizer.
Por isso me recolho.
Não porque queira me afastar do mundo, mas porque existem sentimentos que precisam ser ouvidos antes de serem explicados.
E enquanto escuto o que meu coração tenta me contar, sigo.
Com saudade, com esperança, com dúvidas às vezes.
Mas sigo.
Porque algumas ausências doem, é verdade.
Mas também revelam o tamanho daquilo que um dia tocou a alma e decidiu permanecer.
Orações Escritas | Cartas aos Céus
Quem sou eu, Senhor?
Sem Tua presença, sou apenas pó que se esquece de onde veio. Sou falha, limitada, tantas vezes tomada por dúvidas que me fazem questionar minha própria capacidade, meu valor e até aquilo que um dia sonhei alcançar.
Quem somos nós sem a Tua misericórdia? O que haveria de bom em nossos corações se não fosse a Tua graça nos alcançando todos os dias, nos chamando filhos mesmo quando falhamos, nos vestindo de dignidade quando tudo em nós parece ruína?
E ainda assim, com amor, Tu nos levantas. Não nos defines pelos nossos erros. Apenas nos estendes a mão e nos convidas a recomeçar.
Por isso venho a Ti. Não com méritos para apresentar, nem com certezas para oferecer, mas com o coração aberto, necessitado da Tua presença.
Faz-me nova criatura, Senhor.
Reveste-me da Tua bondade. Constrange-me com o Teu amor. Corrige em mim o que precisa ser corrigido e fortalece o que em mim ainda é frágil.
Ensina-me a confiar quando eu quiser desistir. Ensina-me a permanecer quando o medo tentar me fazer recuar.
E dá-me a ousadia de sonhar os sonhos que colocaste dentro de mim. Não para a minha glória, mas para que eu veja Tuas promessas florescerem no tempo certo.
Eis-me aqui, Senhor. Com minhas imperfeições, minhas dúvidas e minhas esperanças. Inteira diante de Ti, porque sei que é nas Tuas mãos que tudo em mim encontra sentido.
Há olhares que percorrem paisagens, atravessam rostos e encontram beleza nas coisas mais simples. Mas existe um olhar ainda mais difícil: aquele que se volta para dentro.
Nem sempre temos coragem de sustentá-lo.
É mais fácil observar o mundo do que visitar os cômodos esquecidos da própria alma. Mais fácil apontar imperfeições ao redor do que reconhecer aquelas que silenciosamente habitam em nós.
Olhar para dentro exige silêncio.
Exige fechar os olhos para tudo o que distrai e sentir. Sentir o que dói, o que constrange, o que precisa partir e também aquilo que precisa permanecer.
É nesse encontro que descobrimos nossas falhas, mas também nossas virtudes. Nossos excessos, mas também nossas ausências. As feridas que pedem cura e os sonhos que ainda esperam coragem para florescer.
Quem nunca olha para dentro corre o risco de viver distante de si mesmo.
Mas quem se permite esse mergulho encontra mais do que imperfeições. Encontra verdades.
E são elas que nos transformam.
Porque todo recomeço nasce primeiro de um olhar sincero lançado para dentro de nós mesmos.
Houve um tempo em que o amor atravessava estradas de terra, mares e continentes dentro de um envelope.
As palavras eram escritas à mão, carregando a inclinação da letra, a força do traço, as pausas do pensamento. Algumas cartas levavam perfume. Outras, uma flor prensada entre as páginas. Quase todas levavam saudade.
Quem escrevia não tinha a certeza da resposta. Esperava dias, semanas, às vezes meses. E, ainda assim, escrevia.
Talvez porque o sentimento viesse antes da comunicação.
Hoje, carregamos o mundo inteiro na palma da mão. Uma mensagem atravessa oceanos em segundos. Vemos quando a pessoa está online, quando digitou, quando visualizou. Nunca foi tão fácil chegar até alguém.
E, no entanto, nunca pareceu tão difícil alcançar uma alma.
Falamos com muitas pessoas ao mesmo tempo, mas raramente permanecemos em alguma conversa tempo suficiente para que ela crie raízes. Colecionamos contatos, curtidas, notificações e distrações. Estamos conectados por sinais invisíveis, mas separados por muralhas emocionais cada vez mais altas.
Vivemos uma época estranha, onde demonstrar interesse pode parecer excesso. Onde responder rápido pode ser interpretado como carência. Onde sentir muito assusta. Onde a sinceridade, tantas vezes, é substituída por estratégias.
Chamam de maturidade emocional aquilo que, por vezes, é apenas medo de se entregar.
Então me pergunto: o que movia aquelas cartas?
Não era o papel.
Não era a tinta.
Não era o perfume.
Era o sentimento que transbordava antes de se tornar manuscrito.
As palavras apenas encontravam uma forma de existir.
Hoje, para onde vai esse transbordamento?
Para onde vai o amor de quem deseja conversar sem calcular o tempo da resposta? De quem sente saudade sem orgulho? De quem gostaria de dizer "gosto de você" sem receio de parecer demais?
Talvez o problema não seja a tecnologia.
Talvez o problema seja que aprendemos a nos proteger tão bem que esquecemos como nos revelar.
E, enquanto inventamos jogos para não parecer interessados, acabamos perdendo justamente aquilo que mais procuramos: alguém diante de quem não seja necessário jogar.
Não acredito que este seja o fim das relações verdadeiras.
Mas acredito que elas se tornaram um ato de coragem.
Porque, em um mundo que ensina a esconder sentimentos, amar continua sendo a arte de deixá-los aparecer.
Mantenha-me quente, acesa.
Não sirvo fria. Mas também não me mantenha morna, guardada para um momento oportuno, para um "quem sabe", um "talvez".
Ou me aqueça por inteiro e me prove quente, ou permita que eu esfrie.
Porque a mornidão é espera demais para quem nasceu intensidade. E eu não sirvo morna.
Bom domingo.
Que o dia seja leve, mas que também nos ensine aquilo que o coração, às vezes, demora a compreender: a importância da reciprocidade.
Porque não há paz em insistir onde só um lado se doa. Não há descanso em carregar sozinho o peso de uma relação, de uma amizade ou de um sentimento. Tudo o que é verdadeiro encontra caminho de volta. Tudo o que é sincero ecoa no outro de alguma forma.
Que neste domingo Deus nos dê sabedoria para reconhecer quem caminha ao nosso lado com a mesma disposição, o mesmo cuidado e a mesma verdade. E que nos dê serenidade para soltar aquilo que exige de nós um esforço constante, sem nunca oferecer abrigo.
Que o amor, o respeito, a presença e o carinho encontrem morada onde também sejam acolhidos.
A reciprocidade não é sobre receber exatamente o que se entrega, mas sobre não ser o único a entregar.
Abençoado domingo.
Dom, 21 de junho de 2026
A distância entre duas pessoas não se mede apenas em quilômetros. Mede-se também pelas pontes que cada um pode construir, pelos obstáculos que precisa atravessar e pela vontade que tem de chegar.
Por isso, dizer que "o direito de um ir é o mesmo do outro vir" pode ser justo em teoria, mas a realidade nem sempre oferece as mesmas condições para ambos. Quando existem atalhos para um e barreiras para o outro, a distância deixa de ser igual, ainda que o mapa insista em dizer que é.
No fim, talvez o mais importante não seja quem vai ou quem vem, mas o quanto cada um está disposto a percorrer do próprio caminho para que o encontro aconteça.
Porque quando existe vontade, não se contabilizam apenas os passos dados;reconhecem-se também os obstáculos vencidos.
Tem coisa em você que surge na minha cabeça sem pedir licença. Quando percebo, já se espalhou pelos pensamentos, feito presença que chega sem avisar e decide ficar.
Hoje o coração ficou quieto demais.
E quando ele fica assim, não é porque não tem o que dizer. É porque sentiu além das palavras, atravessou emoções que não couberam em nenhuma conversa e guardou em silêncio aquilo que ainda não conseguiu traduzir.
Há sentimentos que não gritam, não pedem atenção, não fazem alarde. Apenas se recolhem para dentro de nós e permanecem ali, ocupando espaço, pedindo tempo para serem compreendidos.
Hoje o coração ficou quieto demais.
E talvez esse silêncio seja apenas a forma que ele encontrou de acolher tudo o que sentiu.
22 de junho 2026
A Favor da Vida
Hoje acordei com vontade de ficar do meu lado.
Não para travar batalhas ou cobrar mudanças imediatas, mas para me acompanhar com a mesma paciência que a natureza dedica às suas transformações. Há um tempo para a semente repousar na terra, um tempo para criar raízes e outro para romper o solo em direção à luz. Nada acontece antes da hora, e ainda assim tudo acontece.
Tenho pensado que talvez viver seja isso: aprender a cuidar do que cresce dentro de nós. Regar os sonhos sem afogá-los na ansiedade. Podar os excessos sem ferir a própria essência. Reconhecer que algumas folhas caem não porque a árvore está morrendo, mas porque está se preparando para uma nova estação.
Quero me permitir esse cuidado. Quero abrir espaço para os dias simples, para os pequenos recomeços, para as alegrias discretas que muitas vezes passam despercebidas. Quero habitar minha própria companhia sem pressa de chegar a outro lugar.
A vida já carrega movimento suficiente. Ela traz e leva ventos, muda paisagens, aproxima caminhos, apresenta pessoas, recolhe outras. Talvez a beleza esteja justamente em não tentar controlar tudo, mas em manter a porta do coração livre das ferrugens do medo.
O que for verdadeiro saberá chegar. O que for bom encontrará abrigo. E o que não for, seguirá seu caminho como as águas que passam sem permanecer.
Enquanto isso, sigo aqui, cuidando do meu jardim. Não porque espero alguma estação específica, mas porque florescer é uma forma de agradecer pela vida que continua nascendo em mim, todos os dias.
Hoje não estou muito bem.
Há dias em que a gente não desaba porque aprendeu a guardar. E, de tanto guardar, vai enchendo gavetas que já não fecham mais, empurrando para o fundo do armário tudo aquilo que não teve tempo, lugar ou permissão para sentir.
Hoje sinto o peso dessas gavetas.
O frio da noite parece encontrar cada uma dessas sombras escondidas. Os pensamentos caminham em desordem, cruzam minha mente sem pedir licença, enquanto eu tento, silenciosamente, colocar tudo em equilíbrio. Não porque esteja tudo bem, mas porque a vida continua exigindo que eu siga.
Não tenho a opção de parar para sentir.
Então continuo. Arrumo o sorriso, organizo as tarefas, respondo às pessoas, respiro fundo... mas sinto.
Sinto o cansaço de quem precisou ser forte por tempo demais. Sinto o peso das palavras engolidas, das lágrimas adiadas, das dores que aprenderam a esperar pela madrugada para aparecer.
E talvez seja isso que mais doa: não é a falta de sentimentos. É a falta de tempo para acolhê-los.
Mesmo assim, sigo.
Não porque seja fácil, mas porque, por enquanto, é o único caminho que encontrei. Carrego comigo a esperança silenciosa de que um dia eu possa abrir essas gavetas sem medo, deixar entrar luz onde hoje habitam sombras e, finalmente, descansar o coração de tudo aquilo que ele insistiu em suportar calado.
Hoje não estou muito bem.
Há um barulho dentro de mim que ninguém ouve. Por fora, tudo parece seguir seu curso. Por dentro, os pensamentos se atropelam, as lembranças se misturam e o coração tenta organizar um caos que não cabe em palavras.
Carrego o peso de tudo o que precisei esconder. Das emoções que foram empurradas para as gavetas da alma porque não havia tempo para senti-las. Das sombras que aprenderam a morar em silêncio, atrás de portas que eu mesma fechei para conseguir continuar.
A noite sempre parece saber onde essas portas estão.
O frio toca o que passei o dia tentando aquecer. E, enquanto o mundo desacelera, minha mente percorre corredores que eu gostaria de evitar. Luto para manter tudo em equilíbrio, porque hoje não posso me permitir cair. Há responsabilidades, há caminhos que ainda precisam ser percorridos.
Mas sentir não pede licença.
Mesmo tentando seguir, eu sinto. Sinto o peso, o vazio, a exaustão de quem passou tanto tempo sustentando o próprio mundo que já nem sabe mais como descansar.
Talvez amanhã tudo pareça um pouco mais leve. Hoje, porém, só consigo admitir que existe uma batalha silenciosa acontecendo dentro de mim.
E, mesmo cansada, continuo caminhando.
Tudo o que é para ser, será.
Nada desvia, em definitivo, o curso das águas de um rio que nasceu para encontrar o mar. Haverá curvas, desvios e até atalhos, mas o destino permanece o mesmo.
Por isso, aprendi a descansar. O que Deus determinou encontrará o seu caminho, no tempo certo.
CARTAS AOS CÉUS | ORAÇÕES ESCRITAS
Quando a Tua Presença Vale Mais
5 de julho de 2026
Deus,
Ultimamente tenho passado por situações difíceis. Circunstâncias que me colocaram contra a parede, despertaram muitos questionamentos e me fizeram encarar partes de mim que eu mesma não compreendia.
Houve oportunidades que pareciam ser exatamente tudo aquilo que eu sempre quis. Elas chegaram com facilidade, quase como se bastasse estender as mãos para alcançá-las. Ainda assim, eu travei. Meu coração recuou. Não consegui aceitar.
E então veio a pergunta, repetida tantas vezes por quem está perto de mim e, principalmente, por mim mesma: por quê? Se é tudo o que busco... Se é tudo o que preciso... Por que não me permitir? Por que não dar uma chance ao que parece tão certo?
Foi quando, em silêncio, o Senhor trouxe à minha memória tantas coisas. Lembrei de quantas oportunidades deixei passar por amor a Ti. Quantas vezes escolhi perder aos olhos do mundo para permanecer perto do Teu coração. Quantas renúncias fiz sem entender completamente, apenas porque a Tua presença sempre valeu mais do que qualquer conquista.
E então compreendi.
Eu quero viver muito. Quero viver coisas lindas. Quero amar, construir, sorrir, realizar sonhos e experimentar tudo aquilo que o Senhor preparou para mim. Mas eu não abro mão da Tua presença.
Quero viver cada promessa debaixo da Tua graça. Quero desfrutar das Tuas bênçãos sem negociar meus princípios, sem silenciar a minha consciência, sem abrir mão dos valores que o Senhor plantou em mim. Não quero precisar forçar portas, convencer pessoas ou adaptar quem sou para caber em lugares onde a Tua presença não habita.
Porque eu sei que aquilo que vem da Tua vontade não precisa violentar a minha alma. Quando for o Teu tempo, será. Quando vier de Ti, haverá paz. Quando nascer da Tua vontade, fluirá com leveza, com propósito e com a certeza de que a Tua mão estará sustentando cada passo.
Por isso, Senhor, ajuda-me a permanecer assim. Fecha novamente os meus olhos para tudo aquilo que apenas parece fácil, mas que não carrega a Tua presença. Afasta de mim aquilo que chega depressa, mas não possui a Tua permissão. Livra-me do que seduz os meus desejos, mas não alimenta a minha alma. Que eu nunca confunda facilidade com direção, oportunidade com propósito ou desejo com a Tua vontade.
Obrigada por me lembrar quem eu sou. Obrigada por nunca permitir que eu me desviasse completamente dos propósitos que o Senhor escreveu para a minha vida. E até quando estive perto de sair do caminho, o Senhor, em Seu infinito amor, dificultou aquilo que parecia tão simples. Hoje entendo que não era castigo. Era cuidado.
Porque pertenço a Ti. Fui separada entre tantas outras, não por mérito algum, mas pela Tua graça. Sou guardada pelo Teu amor. Sou alcançada pela Tua bondade. Ainda sou a menina dos Teus olhos. E, enquanto o mundo mede valor pelo que se conquista, eu descanso em saber que o meu maior privilégio é ser conhecida e amada por Ti.
A Tua graça me basta. Ela me sustenta quando minhas forças acabam, me livra quando não percebo o perigo, me guarda quando não enxergo o caminho e me alcança até nos dias em que meu coração parece não suportar mais.
Porque, sim, houve dias em que ele se despedaçou. E talvez ainda existam pedaços espalhados dentro de mim. Mas eu os recolho, um a um, e os coloco em Tuas mãos. Cada caquinho. Cada ferida. Cada esperança. Cada silêncio.
Porque o Senhor é o Oleiro que refaz o vaso quebrado. É o Carpinteiro que restaura o que parecia perdido. É o Deus da criação, que continua fazendo novas todas as coisas e reconstruindo, quantas vezes forem necessárias, aquilo que o tempo, a dor ou a vida tentaram destruir.
Por isso, a quem tenho eu além de Ti? Não há outro.
O Senhor continua sendo o meu refúgio, a minha esperança, a minha direção e o meu descanso. E, aconteça o que acontecer, que eu nunca prefira qualquer caminho à Tua presença.
Que eu espere.
Que eu confie.
Que eu permaneça.
Porque tudo o que vem de Ti vale cada renúncia, cada espera e cada lágrima.
Graças Te dou, meu Deus.
Hoje, amanhã e enquanto houver fôlego em mim.
Amém.
O Universo que Me Habita
Há quem passe pela vida colecionando encontros. Eu prefiro colecionar profundidades.
Nunca soube amar pela metade, conversar pela metade ou sentir pela metade. Talvez por isso o mundo, tantas vezes, pareça apressado demais para quem aprendeu que as coisas mais importantes não nascem da velocidade, mas da permanência.
Carrego valores que o tempo insiste em chamar de antigos. Eu os chamo de eternos.
Ainda acredito na palavra que vale mais que uma assinatura. Na presença que não precisa disputar espaço com distrações. No respeito que permanece mesmo quando ninguém está olhando. Na delicadeza que nunca perdeu a força. Na obediência a Deus, não por medo, mas porque descobri que Sua vontade sempre enxerga mais longe do que os meus desejos.
Sou romântica, mas não apenas no amor entre duas pessoas. Sou romântica diante da vida.
Vejo beleza no café servido com calma, nas cartas escritas à mão, no silêncio compartilhado, nas orações que ninguém ouviu, nos gestos que jamais serão fotografados e, justamente por isso, pertencem ao que há de mais verdadeiro.
Aprendi que caráter é aquilo que continua existindo quando desaparecem os aplausos. Que integridade é permanecer a mesma pessoa, ainda que ninguém reconheça o esforço. E que existem princípios que não foram feitos para serem negociados, porque, quando os vendemos, perdemos partes de nós.
Às vezes sinto que faço parte do universo. Outras vezes, tenho a impressão de que um universo inteiro vive dentro de mim.
Um oceano silencioso, profundo e quase inexplorado.
Nele existem perguntas que ainda não encontrei coragem para fazer. Sonhos que Deus conhece antes mesmo de eu lhes dar um nome. Memórias, esperanças e uma fé que insiste em florescer até nas estações mais secas da alma.
Não tenho pressa de chegar à superfície.
Algumas riquezas só existem nas grandes profundidades.
E talvez seja esse o meu jeito de existir: mergulhando.
Porque quem vive apenas na superfície conhece as ondas.
Mas quem aprende a descer encontra o silêncio, a verdade e Deus.
E é lá, onde poucos se aventuram, que a minha alma se sente em casa.
Há uma força que exerço todos os dias, e poucas pessoas a enxergam.
É a força de me colocar constantemente no lugar dos outros. De tentar compreender antes de ser compreendida. De acolher antes de pedir acolhimento. De medir cada palavra, revisar cada atitude, reconstruir a mim mesma inúmeras vezes para não ferir, não decepcionar, não sobrecarregar quem está à minha volta.
Passei boa parte da vida acreditando que esse era o amor.
Então fui me desfazendo aos poucos.
Respeitei os limites de todos, menos os meus. Carreguei responsabilidades que nunca me pertenceram. Silenciei dores para preservar a paz alheia. Tomei para mim culpas que não eram minhas. Vivi em permanente autoavaliação, tentando corrigir defeitos, controlar reações, encontrar maneiras de ser mais fácil para o mundo.
Enquanto isso, o meu próprio mundo desmoronava em silêncio.
Talvez seja por isso que a ansiedade e a depressão não sejam, para mim, apenas nomes. Elas também carregam o peso de uma vida inteira tentando sustentar aquilo que nunca esteve sob o meu controle.
Hoje percebo o quanto é perigoso viver assim.
Existe uma diferença enorme entre amar e abandonar a si mesmo.
Entre servir e anular-se.
Entre cuidar e esquecer que também se precisa de cuidado.
E talvez seja justamente aí que muitos de nós nos percamos.
Passamos tanto tempo tentando corresponder às expectativas, apagar incêndios, carregar dores que não são nossas e manter a vida de todos em ordem, que nos esquecemos de voltar para casa: para dentro de nós.
Precisamos nos lembrar, constantemente, de que cada pessoa é responsável pelas próprias escolhas, pelos próprios caminhos e pela própria alma.
Podemos aconselhar, amar, acolher, estender a mão. Mas não podemos viver a vida de ninguém, nem assumir responsabilidades que Deus nunca nos entregou.
Porque haverá um dia em que estaremos diante d'Ele.
E, naquele dia, não será possível dizer:
"Senhor, eu escolhi esse caminho porque me senti obrigada."
"Eu não tive tempo de cuidar da minha alma porque estava ocupado demais cuidando da vida de todos."
"Eu vivi tentando agradar, obedecer às expectativas e corresponder ao que esperavam de mim."
Cada um responderá pela própria vida.
Que essa verdade não seja um peso, mas um despertar.
Que ela nos lembre de que não fomos chamados a viver sufocados pelas expectativas do mundo, nem aprisionados pelas necessidades das pessoas, a ponto de abandonarmos a única alma que Deus confiou aos nossos cuidados.
No fim, talvez a pergunta mais importante não seja quantas vidas tentamos salvar.
Mas o que fizemos com a nossa, enquanto tentávamos carregar o mundo inteiro sobre os ombros.
Hoje o desejo me habita de uma forma diferente. Latente, inquietante, vibrante. É um daqueles dias em que a vida se revela nos detalhes, em que o corpo conversa com os pensamentos e responde às emoções como se cada sentimento encontrasse nele um lugar para existir.
Sim, o corpo tem suas necessidades. Ele pede atenção. Clama por presença. Às vezes trava um verdadeiro embate com a consciência. De um lado, o corpo que deseja sentir. Do outro, a alma que se recusa a ceder ao que é passageiro. E eu permaneço entre os dois, tentando conciliar aquilo que pulsa com aquilo em que acredito.
Desejo, sim. E desejo intensamente. Mas não qualquer toque. Não qualquer abraço. Não qualquer corpo.
Depois de tantos anos me guardando, percebo que a espera não enfraqueceu meus desejos. Fez exatamente o contrário. Refinou-os. Tornou-os mais conscientes, mais profundos, mais exigentes. Meu corpo já não anseia apenas por ser tocado. Ele anseia por reconhecer quem o toca.
Talvez seja por isso que você ocupe tanto os meus pensamentos.
Há algo em você que desperta tudo aquilo que permanecera em silêncio. Como se meu corpo soubesse, antes mesmo de mim, que toda essa espera sempre caminhou na direção de um único encontro.
E então imagino nós dois. Não por impulso, mas pela intensidade de tudo o que foi contido. Como se anos de espera, desejo e ausência se encontrassem no mesmo instante, fundindo-se num eclipse de sensações únicas, onde corpo, alma e coração deixassem, finalmente, de caminhar em direções diferentes.
Confesso que há dias em que essa espera pesa. Hoje é um deles. Meu corpo parece sussurrar que já esperou o suficiente. Que deseja repousar, enfim, nos braços do homem que há tanto tempo habita meus pensamentos.
Talvez esse seja o maior paradoxo do celibato: ele não mata o desejo. Apenas o ensina a esperar pela pessoa certa.
E depois de tanto tempo me guardando... depois de tanto tempo te aguardando... já não desejo apenas esperar.
Desejo você.
Deus, hoje eu só preciso que o Senhor me enxergue.
Não vim fazer uma oração bonita. Não vim repetir palavras que já não conseguem traduzir o que existe dentro de mim. Hoje eu só vim porque já não consigo carregar sozinha o peso que tenho sentido.
O Senhor conhece cada renúncia que fiz. Conhece cada desejo que calei, cada lágrima que escondi, cada vez que escolhi obedecer mesmo quando tudo em mim queria desistir. Eu tentei ser fiel. Tentei acreditar que toda espera teria um propósito e que nenhuma entrega feita ao Senhor seria em vão.
Mas existe um lado da espera sobre o qual quase ninguém fala.
Ninguém fala da angústia de um corpo que também sente. Da mulher que também deseja ser acolhida, amada, escolhida, desejada e cuidada. Ninguém fala da solidão que visita o quarto quando a noite chega, nem da batalha silenciosa entre a carne e o espírito. Como se viver um propósito anulasse aquilo que também fomos criados para sentir.
E eu sinto, Deus.
Sinto falta de um abraço que permaneça. De um olhar que me encontre. De alguém que faça o meu coração descansar sem que eu precise lutar tanto para acreditar que vale a pena continuar esperando.
Há dias em que me pergunto se não estou apenas assistindo à vida passar pela janela. Enquanto tantos vivem, constroem histórias e encontram companhia, eu permaneço aqui, presa entre crenças, renúncias e promessas que ainda não consigo tocar. Às vezes, tudo parece distante demais. Até a esperança.
Perdoa-me por dizer isso, mas hoje a espera pesa.
Pesa porque eu também sou carne. Sou mulher. Tenho emoções, tenho desejos, tenho medos. E, por mais que o meu espírito queira Te honrar, há dias em que meu corpo se cansa de esperar por respostas que nunca chegam.
Então eu Te pergunto, com toda a sinceridade que ainda me resta: o que o Senhor quer de mim que eu ainda não consegui compreender? Onde estou falhando? O que ainda preciso aprender? Porque eu tenho tentado. Tenho obedecido dentro das minhas limitações. Tenho permanecido quando tudo em mim queria correr para qualquer lugar onde a dor parecesse menor.
Se for para continuar esperando, faz com que essa espera se torne leve. Se ainda não chegou o tempo da resposta, sustenta-me até ela. Mas, por favor, não permita que eu me perca de mim enquanto caminho em direção à Tua vontade.
Olha para mim, Deus.
Não para a mulher que tenta parecer forte diante dos outros, mas para a filha que hoje se sente cansada, confusa e profundamente aflita. Acolhe aquilo que nem eu consigo nomear. Abraça o que em mim está ferido. E, se eu estiver caminhando na direção certa, dá-me apenas a graça de continuar.
Porque hoje eu não preciso de explicações.
Hoje eu só preciso sentir que o Senhor continua aqui.
Deus, livra-me de mim mesmo.
Porque, às vezes, o maior inimigo não está do lado de fora, mas dentro de mim. Está nos medos que alimento, nas feridas que conduzem minhas escolhas, no orgulho que me impede de pedir ajuda, nas lembranças que me aprisionam e nas versões de mim que já não cabem no caminho que o Senhor preparou.
Livra-me de tudo aquilo que me afasta da paz que só Tu podes oferecer. Ensina-me a silenciar o que me destrói para que eu possa ouvir a Tua voz. Que eu tenha coragem de deixar morrer quem eu precisei ser para sobreviver, a fim de me tornar quem fui criado para ser.
Porque a verdadeira liberdade começa quando Deus nos salva, inclusive, de nós mesmos.
A Expansão de Dois Universos
Há pessoas que atravessam a vida umas das outras como quem visita um lugar. Eu não.
Sempre acreditei que existem pessoas extraordinárias. Pessoas que carregam dentro de si universos inteiros. Com constelações ainda sem nome, galáxias jamais exploradas, oceanos profundos e infinitos esperando alguém suficientemente curioso para permanecer.
Talvez seja por isso que nunca consegui amar pela superfície. Porque a superfície nunca foi capaz de sustentar aquilo que eu procurava. O extraordinário é raro. E, quando dois universos raros se encontram, o desejo deixa de ser apenas estar ao lado. Passa a ser descobrir.
Descobrir os continentes escondidos nas palavras não ditas, decifrar as estrelas por trás dos medos, encontrar vida onde ninguém antes teve paciência para procurar. E, enquanto isso, permitir que alguém também percorra o meu pequeno universo. Não apenas para me possuir, mas para me conhecer. Porque universos não se conquistam. Universos se desvendam.
Existe algo extraordinário quando duas imensidões deixam de apenas se observar e escolhem explorar uma à outra. Não para que uma complete a outra, mas para que ambas se expandam. Cada descoberta amplia a seguinte. Cada pergunta abre espaço para novas galáxias. Cada vulnerabilidade ilumina uma parte que ainda permanecia invisível.
É como se dois infinitos, ao se encontrarem, não diminuíssem um ao outro. Ao contrário. Expandissem. Porque conhecer profundamente alguém nunca reduz o mistério. Apenas revela que o infinito sempre foi maior do que imaginávamos.
Talvez seja esse o encontro que sempre procurei. Não alguém que apenas me olhasse, mas alguém disposto a passar uma vida inteira descobrindo os infinitos que habitam em mim, enquanto eu faria o mesmo pelos infinitos que habitam nele.
E talvez seja por isso que, um dia, escolhi entregar o meu universo. Não em partes. Não apenas o que era bonito ou fácil de compreender. Entreguei também os silêncios, as cicatrizes, as galáxias ainda sem nome e os lugares onde quase ninguém teve coragem de permanecer. Porque um universo só pode ser verdadeiramente entregue quando alguém confia ao outro até aquilo que ainda não foi completamente descoberto.
Talvez poucos compreendam o peso dessa entrega. Mas quem compreende sabe que receber um universo nunca foi um privilégio comum. Foi um convite para uma jornada sem fim.
A arte é a linguagem da alma. Quanto maior o repertório de emoções, experiências e contemplações, mais profunda se torna a capacidade de transformar o invisível em beleza.
Expressar sentimentos através da arte requer repertório. É preciso ter vivido, sentido, observado e permitido que a vida nos atravesse. A arte nasce do encontro entre a sensibilidade e as experiências que carregamos.
