Alzheimer Meu Deus, como é difícil... Jorgeane Borges
Alzheimer
Meu Deus, como é difícil quando eles se perdem nas próprias memórias e, ainda assim, falam de nós com tanto amor, sem saber que estão diante de quem tanto procuram.
É estranho e doloroso perceber que, talvez, o tempo tenha rebobinado dentro deles. Como se a fita da vida tivesse voltado a um capítulo em que nossos rostos ainda eram outros, em que a nossa face não carregava as marcas de tantos anos, e a imagem que guardaram de nós tivesse permanecido intacta, enquanto a vida seguia seu curso.
E então estamos ali, diante deles, ouvindo histórias sobre nós mesmos, sendo lembrados com ternura por quem já não consegue nos reconhecer. Somos, ao mesmo tempo, presença e ausência. Estamos perto o suficiente para tocar, abraçar, ouvir, mas longe demais para sermos encontrados na memória que se perdeu.
Talvez eles não saibam que somos nós. Talvez procurem, em nossos rostos de hoje, aqueles meninos e meninas que o tempo levou. E nós, com o coração apertado, gostaríamos tanto de poder voltar àquela época, nem que fosse por um instante, só para que seus olhos nos encontrassem mais uma vez.
Porque há dores que não vêm da falta de amor, mas da impossibilidade de sermos reconhecidos por quem nos ama. E poucas coisas devem ser tão difíceis quanto continuar sendo alguém tão importante na história de uma pessoa e, ainda assim, precisar reapresentar-se a ela todos os dias.
