Abismo
Ando cercado por mim mesmo.
Me vejo espreitando meu próprio Eu.
Tento me tirar do abismo, mas só faço me esquivar de mim.
Suspiro de amor, depois meneio a cabeça em rejeição.
Sou dono de muita coisa, menos da coisa-Eu.
Topo ir ao abismo para aprender o topo
Pela virtude a atitude que me faz ser melhor
Chegar lá mesmo que só espinhos inspirem
Ver o oco que nos olha de volta e nos profana
Mostra cara a cara o que de nós é pior
A dor de amar quem se ama
Pois a alma é de nós soberana
Ao contemplar o lago das profundezas
A lindeza está na suprema fidúcia
Na escrita do poema a astúcia
Na verdade a filosofia mais bonita
Brilha feito a constelação Ursa
Entender o mistério e do tudo fugaz
Que para sempre os hemisférios
Inspirem o coração que pulsa
Acordado no peito.
Abismo entre almas
Quando duas pessoas se amam com intensidade diferente dói. Mas o'que machuca não é a diferença de amor, e sim o abismo entre elas.
O abismo criado pela indiferença num grupo não permite que o coletivo se integre e usufrua da totalidade de suas forças.
Meu coração
Não tenho palavras. Ou talvez as tenha, mas elas se perderam em algum abismo silencioso. Não tenho sentimentos. Ou será que os enterrei tão fundo que já não os reconheço? Não consigo me expressar, não consigo me mover. Estou paralisado, preso em um limbo onde o tempo não flui, mas se despedaça.
Estou em uma viagem psicodélica interminável, onde o futuro me puxa para frente enquanto o passado me arrasta para trás. Sou um viajante sem destino, flutuando entre memórias que doem e sonhos que nunca se realizam. Me falta fôlego, me falta ar. Me faltam sentimentos para olhar para ti, para enxergar a beleza do mundo que insiste em brilhar, mesmo quando tudo dentro de mim é escuridão.
Estou perdido em um mar de pensamentos, um oceano turbulento onde cada onda carrega dúvidas, medos e angústias. E nessas águas, estou me afogando. Sem rumo, sem bússola, sou engolido pela correnteza dos meus próprios devaneios. Aos poucos, sou arrastado para o fundo, para um lugar onde já não me reconheço, onde já não existo.
O que faço para parar? Como encontro paz em meio a essa tempestade que habita minha mente? Como silenciar os ecos do passado e os sussurros do futuro?
Depoimento do abismo
Fui lançado — não nasci.
Arrancado do seio do Olimpo e cuspido no ventre escuro do submundo.
Como Michael, caí.
Mas não houve batalha. Não houve glória.
Só a queda.
Afundei nas águas estagnadas do Aqueronte,
onde o tempo não corre, onde a existência apodrece em silêncio.
Ali, não se morre — tampouco se vive.
Ali, a única sobrevivente é a dor.
E mesmo ela, cansa.
O amor é uma lembrança malformada.
A paz, um conceito sem tradução neste idioma feito de gritos mudos.
A esperança... uma piada cruel, contada em ecos por almas vazias.
Tentei respirar.
Mas as águas negras não são feitas de matéria,
são feitas de ausência — ausência de tudo.
São a substância daquilo que não deveria ser.
E nelas, minha alma se desfaz, lentamente.
Não há carne.
Não há forma.
Não há identidade.
O "eu" é um sussurro perdido na margem da consciência.
Sou e não sou.
E, nesse estado, compreendo o que é a antítese da vida:
não a morte, mas a permanência involuntária no não-ser.
O sofrimento aqui não grita.
Ele murmura, ele sussurra, ele escava.
É uma erosão constante da alma,
um delírio sem sonho.
Sou parte do rio agora.
Sou sua densidade, sua ausência de luz.
E quanto mais fundo me torno,
mais compreendo:
O inferno não é fogo.
É o esquecimento de si mesmo.
É saber que se sente dor,
mas não lembrar por quê.
Depoimento do Abismo – Parte II
Às vezes penso se algum dia fui algo.
Um nome. Um corpo. Um gesto de humanidade.
Mas essas memórias, se existiram, apodreceram sob o peso das águas.
O tempo aqui não passa — ele apodrece.
É um tempo imóvel, estagnado, onde tudo que respira morre em silêncio.
O que resta são vestígios de pensamentos,
ecos de uma razão que tenta sobreviver ao esvaziamento de si mesma.
Pergunto-me: o que é a dor quando não há mais corpo?
E descubro que ela sobrevive mesmo assim,
porque a dor é anterior à carne —
ela é a lembrança do que fomos,
a cicatriz deixada pela ausência de sentido.
Aqui, a consciência não se extingue.
Ela se estilhaça,
se parte em fragmentos que flutuam sem direção,
como restos de naufrágio num mar sem horizonte.
Eu os observo, esses fragmentos.
E cada um carrega uma versão de mim que não reconheço.
O que sou agora é um silêncio que pensa.
Um vazio que filosofa sua própria forma.
Compreendo, enfim, que o verdadeiro castigo
não é o fogo, nem o tormento físico.
É o excesso de lucidez num lugar sem realidade.
É saber demais num espaço onde nada tem nome.
Aqui, a única certeza que tenho
é que nunca sairei.
Não por estar preso —
mas porque já não há um "eu" que possa partir.
O rio Aqueronte não aprisiona.
Ele dissolve.
Ele absorve o que resta da alma até que a alma se torne ele.
E eu… já não sei se sou aquele que caiu,
ou apenas mais uma corrente fria
a arrastar outros para o mesmo fim.
Ó Amor Infinito, Vazio Eterno
Ó amor infinito, quão vazio és tu,
Tua imensidão, um abismo sem fim.
Promessas eternas, que se desfazem ao vento,
Deixando-nos à mercê do desencanto sem fim.
Neste mar de sentimentos, afogamo-nos sem cessar,
Tentando agarrar-nos a um amor que não pode parar.
Mas, ai de nós, pois esse amor, tão grande e intenso,
É, na verdade, um vazio que nos consome por dentro.
Que ilusão cruel é este amor sem medida,
Que nos faz crer em uma paixão infinita.
Porém, a realidade nos mostra, sem piedade,
Que esse amor, na verdade, é pura vaidade.
Ó amor, quão enganoso és tu em tua grandeza,
Pois, em tua imensidão, encontramos apenas a solidão e a tristeza.
Que nos reste, então, a sabedoria de aceitar
Que o amor infinito, muitas vezes, é um vazio a se contemplar.
tricotando palavras
Sentada no banquinho que coloquei na beira do abismo.
gosto do silêncio que ele traz.
Gosto da solidão que nele há.
Gosto de estar.
Na fúnebre sensação de ser somente o vazio incondicional
De ser o eco daquilo que quis ser e não consegui
Do meu medo enraizado
Do sorriso disfarçado
Do meu grito silenciado.
Sentada aqui
Não descobri nada de novo
Abismos não trazem respostas
Somente a proposta indecente
perfeitamente atraente
Para um desesperado...
Hesitação.
Mesmo que não haja o novo
A dúvida me corrói
O infinito é tão lindo!
E pertence-lo me parece uma boa opção
A medida que tricoto minha nova personalidade
Percebo que estou aqui só por vaidade.
Entrelaçada como malha... Tricoto minhas falhas...
A falta de castidade me afasta do Amor concreto e verdadeiro, me aproximando do abismo de uma paixão vazia e sem sentido.
Falar de amor não é tão fácil como se imagina, pois assim como o abismo que em meio a sua escuridão esconde o quão profundo ele pode ser... É o amor que facilmente é consumido pelas incertezas de suas próprias desilusões.
Ao correr de olhos vendados, qualquer buraco vira abismo. Seja o precursor de suas ideias por mais ilusórias que elas sejam. Jamais use o PARE para desistir, mesmo que o recuo seja necessário, pois o cavalheiro que rejeita a arena em meio a sua batalha, por si só rejeitará a ele mesmo.
Não é a falta de coragem que impede o depressivo de galgar uma vida fora do abismo, mas a falta de tesões sólidas para se prestarem como ponto de apoio para a escalada.
