Poemas curtos de Clarice Lispector
Tenho medo de revelar de quanto preciso e de como sou pobre.
Era um pouco de febre, sim. Se existisse pecado, ela pecara. Toda a sua vida fora um erro, ela era fútil. Onde estava a mulher da voz? Onde estavam as mulheres apenas fêmeas? E a continuação do que ela iniciara quando criança? Era um pouco de febre.
Resignou-se pois. A resignação era doce e fresca. Nascera para ela.
É preciso não ter medo de criar.
Nota: Trecho da crônica Conversa descontraída: 1972.
...MaisÉ por isso que na graça eu me mantive sentada, quieta, silenciosa. E como em uma anunciação. Não sendo porém precedida por anjos. Mas é como se o anjo da vida viesse me anunciar o mundo.
Fico tão assustada quando percebo que durante horas perdi minha formação humana. Não sei se terei uma outra para substituir a perdida.
A caça pode ferir mortalmente o caçador.
Nota: Trecho da crônica A perigosa aventura de escrever.
...MaisPor que ela estava tão ardente e leve, como o ar que vem do fogão que se destampa?
Estou atrás do que fica atrás do pensamento. Inútil querer me classificar: eu simplesmente escapulo.
O que os outros recebem de mim reflete-se então de volta para mim, e forma a atmosfera do que se chama: eu.
Sou muito mais lunar que solar.
Nota: Trecho da crônica Adeus, vou-me embora!
...MaisQue simplicidade. Nunca pensei que o mundo e eu chegássemos a esse ponto de trigo.
O mundo não sabe que é criativo.
Nota: Trecho da crônica Conversa puxa conversa à toa.
...MaisInclusive mais amor inclui uma alerteza maior para achar bonito o que nem mesmo bonito é.
Nota: Trecho da crônica O “verdadeiro” romance.
...MaisQuem é capaz de sofrer intensamente também pode ser capaz de intensa alegria.
Nada mais tenho a ver com a validez das coisas. Estou liberta ou perdida. Vou-lhes contar um segredo: a vida é mortal.
Minha tendência a indagar e a significar já é em si uma angústia.
Parece-me que eu vagamente sentia que, enquanto sofresse fisicamente de um modo tão insuportável, isso seria a prova de estar vivendo ao máximo.
Nota: Trecho da crônica Morte de uma baleia.
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