Poemas curtos de Clarice Lispector
A barata e eu somos infernalmente livres porque a nossa matéria viva é maior que nós, somos infernalmente livres porque minha própria vida é tão pouco cabível dentro de meu corpo que não consigo usá-la. Minha vida é mais usada pela terra do que por mim, sou tão maior do que aquilo que eu chamava de “eu” que, somente tendo a vida do mundo, eu me teria.
A criação não é uma compreensão, é um novo mistério.
A gargalhada era aterrorizadora porque acontecia no passado e só a imaginação maléfica a trazia para o presente, saudade do que poderia ter sido e não foi.
Estou escrevendo porque não sei o que fazer de mim. Quer dizer: não sei o que fazer com meu espírito. O corpo informa muito.
Mas se eu não prestava, eu fora tudo o que aquele homem tivera naquele momento. Pelo menos uma vez ele teria que amar, e sem ser a ninguém – através de alguém.
Nota: Trecho da crônica Noveleta (continuação).
...MaisTodos os hábitos são suspeitos.
Nota: Trecho da crônica Quebrar os hábitos. Clarice atribui a citação a um autor desconhecido.
...MaisAndo de um lado para outro, dentro de mim.
Nota: Trecho de carta para Maury Gurgel Valente, escrita em 6 de janeiro de 1942.
...MaisComo pois inaugurar agora em mim o pensamento? e talvez só o pensamento me salvasse, tenho medo da paixão.
E apesar da hostilidade entre ambos se tornar gradativamente mais intensa, como mãos que estão perto e não se dão, eles não podiam se impedir de se procurar.
Se reflito demais, deixo de agir.
Quem, como eu, estava chamando o medo de amor? e querer, de amor? e precisar, de amor?
Porque no impossível é que está a realidade.
E a revolta de súbito me tomou: então não podia eu me entregar desprevenida ao amor?
Porque o formalismo não tem ferido a minha simplicidade, e sim o meu orgulho, pois é pelo orgulho de ter nascido que me sinto tão íntima do mundo, mas este mundo que eu ainda extraí de mim de um grito mudo.
Nota: Trecho do conto Perdoando Deus.
...MaisTalvez eu tenha que chamar de "mundo" esse meu modo de ser um pouco de tudo. Como posso amar a grandeza do mundo se não posso amar o tamanho de minha natureza?
Nota: Trecho do conto Perdoando Deus.
...MaisSó às vezes piso com os dois pés na terra do presente: em geral um pé resvala para o passado, outro pé resvala para o futuro. E fico sem nada.
Amor é achar bonita uma bota, amor é gostar da cor rara de um homem que não é negro, amor é rir de amor a um anel que brilha.
Nota: Trecho do conto A menor mulher do mundo.
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