Textos de Saudade
Não se perca pensando demais.
Nem tudo precisa de resposta,
nem toda ausência é culpa sua.
Você não veio ao mundo para ser suficiente
a expectativas que nunca foram suas.
Veio para ser inteira,
mesmo com rachaduras,
mesmo em silêncio.
Viva como quem honra o hoje,
não para consertar o ontem,
mas para caminhar um passo mais lúcida que antes.
Solte o peso que não te pertence,
trate-se com a mesma gentileza
que oferece aos outros,
e siga…
não em dívida com o passado,
mas em paz consigo.
FIGURAS CINZAS
Quando a ausência ganha a cor da memória.
Talvez a vida seja como um álbum.
Nascemos com algumas páginas praticamente vazias. Não sabemos quantas existirão, quantas pessoas passarão por elas ou quais histórias serão escritas ao longo do caminho.
Então começamos a preencher.
Primeiro aparecem aqueles que já estavam conosco antes mesmo de compreendermos o significado da palavra família. Pai, mãe, irmãos, avós. Depois chegam os tios, primos, professores, colegas, amigos, amores, filhos, vizinhos e tantas outras pessoas que, de alguma maneira, encontram um espaço em nossas páginas.
Cada uma delas é uma figurinha.
E, enquanto está conosco, é colorida.
Algumas ocupam páginas inteiras. Outras aparecem discretamente em algum canto da nossa história. Há aquelas que permanecem durante décadas e aquelas que passam rapidamente, mas deixam uma marca que não desaparece.
Há figurinhas que trazem alegria.
Outras carregam ensinamentos.
Algumas nos fazem rir.
Outras nos fazem chorar.
Existem aquelas que nos abraçam e aquelas que nos ferem.
Algumas nos amam.
Outras nos decepcionam.
E há aquelas que simplesmente passam por nós sem perceber que, por algum motivo, deixaram uma pequena parte de si em nossa história.
É assim que o álbum vai crescendo.
Página após página.
Ano após ano.
Até que descobrimos uma coisa que ninguém nos ensina verdadeiramente a compreender:
o álbum também muda de cor.
Um dia, uma das figuras coloridas se torna cinza.
Não porque perdeu sua importância.
Não porque deixou de ser amada.
Não porque sua história deixou de ter valor.
Ela se torna cinza porque sua presença terminou e sua memória começou.
É o momento em que alguém parte.
Um avô.
Uma avó.
Um pai.
Uma mãe.
Um irmão.
Um amigo.
Um amor.
Alguém que, talvez, acreditássemos que estaria sempre ali.
E então descobrimos que algumas pessoas não desaparecem exatamente.
Elas apenas mudam de lugar.
Saem do espaço onde podíamos encontrá-las e passam a ocupar outro lugar, muito mais silencioso: a memória.
É por isso que algumas figuras ficam cinzas.
Não são figuras apagadas.
São figuras encerradas.
A história chegou ao seu ponto final.
E talvez seja justamente isso que torne a perda tão dolorosa.
Porque a morte não leva apenas uma pessoa.
Ela leva também a possibilidade de escrever novos capítulos com ela.
Não haverá mais aquela conversa.
Aquela ligação.
Aquele abraço.
Aquela discussão.
Aquela risada.
Aquele conselho.
Aquela presença aparentemente comum que, depois da partida, descobrimos ser extraordinária.
É então que sentimos saudade.
E a saudade talvez seja uma das formas mais silenciosas de amor.
Porque sentimos falta justamente daquilo que teve importância.
Ninguém sente saudade daquilo que nunca significou nada.
A dor da ausência é, de certa forma, a prova de que houve presença.
Talvez por isso devêssemos olhar para nossas figuras cinzas com um pouco mais de ternura.
Elas não representam somente aquilo que perdemos.
Representam também aquilo que tivemos.
Um dia aquela pessoa esteve ali.
Um dia houve convivência.
Houve histórias.
Houve abraços.
Houve conflitos.
Houve perdão.
Houve amor.
Houve vida.
E talvez essa seja a primeira grande lição das figuras cinzas:
não devemos permitir que a tristeza pelo fim apague a beleza do que existiu.
O ponto final não torna inútil a história.
Uma história não perde seu valor porque terminou.
Pelo contrário.
É justamente porque sabemos que ela terminaria algum dia que cada capítulo deveria ter sido vivido com maior intensidade.
A criança que brincou com o avô talvez não soubesse que um dia sentiria falta daquela voz.
O filho que achava cansativo ouvir os conselhos dos pais talvez um dia daria qualquer coisa para escutá-los novamente.
O amigo que sempre esteve por perto talvez só tenha revelado seu verdadeiro valor depois de partir.
A vida possui essa estranha capacidade de nos ensinar o valor das coisas muitas vezes depois que elas deixam de estar disponíveis.
Por isso, talvez devêssemos olhar mais para as figuras coloridas enquanto ainda estão coloridas.
Abraçar enquanto podemos.
Dizer “eu te amo” enquanto a pessoa pode ouvir.
Pedir perdão enquanto ainda existe tempo.
Perdoar enquanto ainda existe oportunidade.
Visitar enquanto a porta ainda pode ser aberta.
Ligar enquanto ainda existe alguém do outro lado da linha.
Porque não sabemos em qual página a cor vai mudar.
---
Com o passar dos anos, nosso álbum fica cheio.
E, inevitavelmente, algumas figuras coloridas começam a ficar cinzas.
Isso pode nos assustar.
Quando somos jovens, pensamos que viver é acrescentar pessoas.
Mais tarde descobrimos que viver também é aprender a conviver com as ausências.
Talvez amadurecer seja exatamente isso.
No começo, queremos preencher páginas.
Depois aprendemos a preservar páginas.
E, finalmente, compreendemos que algumas das páginas mais importantes de nossa existência são justamente aquelas que guardam pessoas que já não podemos abraçar.
O álbum da vida não é composto apenas pelas pessoas que permaneceram.
Ele também é formado por aqueles que partiram.
Somos, de certa maneira, uma coleção de pessoas.
Carregamos expressões que aprendemos com nossos pais.
Gestos dos nossos avós.
Conselhos de professores.
Histórias de amigos.
Manias de irmãos.
Lembranças de antigos amores.
Feridas deixadas por algumas pessoas.
Perdões oferecidos por outras.
Somos também aquilo que recebemos daqueles que passaram por nossa vida.
Talvez sejamos um pouco de cada pessoa que realmente nos tocou.
E, nesse sentido, as figuras cinzas continuam participando do álbum.
Elas já não podem acrescentar novos capítulos à própria história, mas continuam influenciando a nossa.
O avô que partiu pode continuar ensinando através de uma frase que repetimos.
A mãe pode continuar presente em um gesto que aprendemos.
O pai pode continuar vivendo em uma maneira de trabalhar, cuidar ou enfrentar dificuldades.
O amigo pode continuar provocando um sorriso quando lembramos de determinada história.
A pessoa que amamos pode continuar existindo na forma como aprendemos a amar.
É assim que a memória desafia a ausência.
Ela não devolve fisicamente quem partiu.
Mas impede que tudo aquilo que aquela pessoa representou desapareça completamente.
Enquanto alguém se lembrar, alguma parte daquela história continua existindo.
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Talvez seja por isso que o cinza não deva ser entendido apenas como a cor da tristeza.
O cinza também pode ser a cor da permanência.
É a cor de uma presença que deixou de ser física, mas não deixou de ser significativa.
É a cor da memória.
E memória não é o contrário da vida.
É uma das maneiras pelas quais a vida continua dentro de nós.
Existe, então, uma esperança escondida nas figuras cinzas.
A esperança de que aquilo que foi verdadeiro não seja completamente perdido.
A esperança de que o amor não termine simplesmente porque o abraço terminou.
A esperança de que uma história possa continuar produzindo frutos mesmo depois de seu último capítulo.
Talvez a morte encerre uma existência, mas não consiga apagar todas as consequências de uma vida.
Uma pessoa pode partir e ainda permanecer na maneira como alguém pensa, educa, ama, trabalha, perdoa ou enfrenta o mundo.
Nesse sentido, algumas pessoas continuam vivendo através daqueles que deixaram para trás.
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Imagine, então, alguém chegando ao final da própria vida e abrindo seu álbum.
Haverá muitas figuras coloridas.
Mas haverá também muitas figuras cinzas.
Algumas provocarão lágrimas.
Outras trarão risos.
Algumas despertarão arrependimento.
Outras, gratidão.
Talvez algumas páginas sejam difíceis de olhar.
Talvez existam pessoas que gostaríamos de encontrar novamente.
Talvez existam outras das quais gostaríamos de nos despedir melhor.
Mas todas elas terão alguma coisa em comum:
fizeram parte da história.
E talvez, naquele momento, seja possível compreender algo que levamos uma vida inteira para aprender.
O objetivo nunca foi manter todas as figuras coloridas.
Isso seria impossível.
O objetivo era viver.
Amar.
Conhecer.
Errar.
Perdoar.
Aprender.
Construir histórias.
Preencher páginas.
E, quando algumas figuras inevitavelmente mudassem de cor, ter memória suficiente para olhar para elas e dizer:
“Eu tive você na minha vida.”
Talvez essa seja uma das maiores formas de gratidão que podemos oferecer aos que partiram.
Não apenas chorar porque eles se foram.
Mas agradecer porque um dia estiveram conosco.
Porque, quando transformamos a lembrança em gratidão, a ausência começa a dividir espaço com a esperança.
E então percebemos algo ainda mais bonito.
O álbum não terminou.
Ainda existem páginas vazias.
Ainda existem pessoas que não conhecemos.
Amizades que ainda não começaram.
Abraços que ainda não demos.
Lugares onde ainda não estivemos.
Amores que ainda podem chegar.
Histórias que ainda não foram escritas.
E, principalmente, ainda podemos ser a figurinha colorida na vida de alguém.
Talvez seja essa a grande responsabilidade de estar vivo.
Enquanto nossas páginas ainda estão sendo preenchidas, precisamos cuidar da cor que deixamos nas páginas dos outros.
Porque um dia, para alguém, também seremos memória.
E quando esse dia chegar, talvez não sejamos lembrados pelo tamanho da nossa casa, pelo dinheiro que acumulamos, pelos cargos que ocupamos ou pelas coisas que possuímos.
Talvez sejamos lembrados por uma conversa.
Por um abraço.
Por uma ajuda.
Por uma palavra.
Por uma presença.
Por um momento em que fizemos alguém sentir que não estava sozinho.
No fim, talvez seja isso que realmente permaneça.
As coisas passam.
As pessoas partem.
As páginas viram.
As cores mudam.
Mas algumas histórias continuam.
E talvez a vida seja exatamente isso:
um álbum que começa vazio, se enche de cores e, lentamente, vai adquirindo tons de cinza.
Não devemos temer o cinza.
Porque o cinza nos lembra que houve cor.
E se ainda dói olhar para determinada figura, talvez seja porque aquela pessoa ainda possui um lugar dentro de nós.
Por isso, quando sentir saudade, não pense apenas na ausência.
Volte à página.
Olhe a figura.
Lembre da voz.
Lembre do sorriso.
Lembre da história.
E agradeça.
Porque nem todos têm a sorte de possuir uma memória que ainda dói.
Às vezes, a dor da saudade é simplesmente o coração dizendo:
“Isso foi importante.”
E talvez seja essa a esperança escondida nas figuras cinzas.
Algumas pessoas deixam de estar ao nosso lado, mas nunca deixam de fazer parte de quem somos.
O álbum continua aberto.
Ainda há páginas.
Ainda há cores.
Ainda há vida.
Preencha-as.
O Amor que Permanece Além da Partida
A ausência física de quem amamos abre um vazio que nenhuma distração do mundo é capaz de preencher. É natural que o choro venha, que a casa pareça mais silenciosa e que a dor da despedida aperte o peito com força. Mas, para os meus amigos que hoje choram, eu gostaria de deixar um acalento: a morte tem o poder de interromper o toque, mas ela é completamente incapaz de apagar o amor. As pessoas queridas que partem deixam as suas marcas guardadas nos nossos sorrisos, nos nossos valores e nas memórias mais bonitas que construímos juntos. Elas continuam vivas em cada detalhe do afeto que plantaram em nós. Que a certeza desse amor eterno seja o farol a guiar os seus passos nos dias de maior saudade, e que o Criador cure, no tempo Dele, a ferida dessa ausência.
Saudade de Você, Lua
Em uma noite de Lua cheia
Me pego pensando em você,
E que saudade eu sinto
Saudade de me perder nas palavras que você dizia,
De suas invasões em meu lar,
Saudades das tardes em que conversávamos sobre tudo e sobre nada.
Me pego olhando para lua e pensando em você,
Todos os meus pensamentos foram tomados por ti,
Minha cabeça e meu coração entram em confusão,
E tudo o que consigo me lembrar,
Tudo o que consigo pensar,
E tudo o que consigo dizer é que sinto sua falta,
Então volte,
Eu odeio dizer isso, mas eu estava errada,
Eu estava enganada,
Volte para casa, volte para mim.
Pra Sempre te Amar (Canção)
Meu coração te pede pra voltar,
A saudade machuca demais,
As noites são longas, não consigo amar,
Teu sorriso é o que eu quero pra mim,
Sem você aqui, tudo faz fim.
Te acordando com meus beijos,
Fazendo tudo pra você voltar,
A vida é um sonho sem teu cheiro,
Meu amor, vem logo me encontrar.
Tudo o que eu quero é nunca mais chorar,
Te ter ao meu lado, pra sempre te amar.
Lembro dos momentos que a gente passou,
As risadas, os planos, tudo o que sonhou,
Agora é só sombra, um vazio a preencher,
Teu olhar é a luz que me faz viver.
Te acordando com meus beijos,
Fazendo tudo pra você voltar,
A vida é um sonho sem teu cheiro,
Meu amor, vem logo me encontrar.
Tudo o que eu quero é nunca mais chorar,
Te ter ao meu lado, pra sempre amar.
Se o tempo é cruel, eu vou lutar,
Com fé no coração, eu vou te buscar.
Cada lágrima caída é um passo a mais,
Na dança da vida, eu sei que és capaz.
Te acordando com meus beijos,
Fazendo tudo pra você voltar,
A vida é um sonho sem teu cheiro,
Meu amor, vem logo me encontrar.
Tudo o que eu quero é nunca mais chorar,
Te ter ao meu lado, pra sempre te amar.
Que saudade de ser criança, jogar vídeo game a madrugada toda, dos rios, andar de bicicleta com um sentimento único, molhar na chuva sem medo de ser feliz, jogar bolinha de gude, andar de patins.
Tenho saudades até das brigas, mesmo do medo de chegar em casa e apanhar.
Vida que segue, só se vive uma vez, quem sabe se um dia não sentirei saudades do agora.
Quando a saudade dói e fica martelando na gente como uma mágoa que não passa, a melhor saída é enfrentá-la de frente. Reservar um tempo para pensar, colocar os sentimentos no papel, desabafar com alguém, ou simplesmente chorar, pode ser o jeito de se livrar dela e se sentir livre de novo.
Se está causando uma angústia que não vai embora, enfrente-a. Refletir, escrever, conversar ou chorar podem ser a chave para superar esse sentimento e encontrar alívio.
Não se condene e não me condene pela ausência, porquê, o amor ainda está vivo e overdadeiro amor não precisa de nada, ele se basta nas pequenas migalhas e até na ausência dela.
A dor do amor, se chama saudade e quem disse que saudade dói, ela arde de esperança que se transforma em poesia...
Ó, saudade leviana, que chega assim, do nada, sem se explicar.
Que entra rasgando meu peito de uma forma diferente. Só que quem já passou por isso sabe o quanto é difícil segurar.
Saudade com S maiúsculo, do tamanho do mundo, que insiste em não me deixar.
Mas, quando vier, traga boas lembranças, daquelas que me dão esperança e me fazem querer continuar.
Já não me encontro no amor ou na dor. Na saudade ou no vício. Na espera ou na vontade de algo melhor. Não há razão ou sentido. Tudo pelo que vivi, hoje são flores mortas em um jardim sem vida dentro de um cemitério abandonado, frio e amaldiçoado. Não resta nada pelo que viver.
- Marcela Lobato
Cada coisa não dita gira e ecoa no vento. Cada grama de saudade destrói por dentro. Não quero mais fingir estar tudo bem, ou esconder a intensidade que avassala o peito. Há uma década meu maior desejo é apenas um.
O frio que congela engole o meu corpo e me lança ao abismo. Eu peço a luz que me deixe apagar. Que não seja preciso conhecer o inverno. Que a noite me leve, como vênus leva o sol. Se não há uma saída desse labirinto, que eu não precise mais caminhar nessa prisão.
- Marcela Lobato
"A solidão não é apenas ausência de algo ou alguém. Pode ser um refúgio para o seu autoconhecimento e criatividade. Transformar teus momentos a sós te fortalece a resiliência e melhora sua autoestima. Aproveite o silêncio para ouvir a si mesmo, recarregar energias e encontrar inspiração de equilíbrio força e coragem. Que esta solitude te encaraja a liberdade ao seu santuário pessoal, não como punição, mais como sabedoria para vossa alma."
—By Coelhinha
A ausência de si
Talvez exista uma forma de ausência que nunca percebemos.
Estamos presentes fisicamente, cumprimos compromissos, conversamos, trabalhamos, produzimos, conquistamos, respondemos mensagens e continuamos funcionando.
Mas funcionar não significa necessariamente estar presente.
Podemos comparecer a todos os lugares e ainda faltar dentro de nós mesmos.
Talvez essa seja a ausência de si.
Não é desaparecer do mundo.
É permanecer nele durante tanto tempo respondendo ao que esperam de nós que já não sabemos distinguir aquilo que fazemos por escolha daquilo que fazemos por repetição.
Existem pessoas extremamente ocupadas que talvez estejam, na verdade, ocupando-se para não se encontrarem.
Porque o silêncio produz perguntas que o barulho consegue adiar.
Quanto mais barulho fazemos do lado de fora, menos ouvimos aquilo que continua falando do lado de dentro.
Produzir pode ser realização.
Mas também pode ser fuga.
Trabalhar pode representar propósito.
Mas também pode evitar encontros internos.
Ajudar os outros pode ser generosidade.
Mas, algumas vezes, cuidar permanentemente de todos pode ser uma maneira sofisticada de nunca precisar olhar para quem cuida.
Por isso, nem toda produtividade significa evolução.
Há pessoas construindo grandes coisas enquanto silenciosamente deixam de construir a si mesmas.
Talvez tenhamos aprendido a medir demais aquilo que fazemos e muito pouco aquilo que estamos nos tornando enquanto fazemos.
Perguntamos:
Quanto produzi?
Quanto ganhei?
Quantas pessoas alcancei?
Quantas metas cumpri?
Mas raramente perguntamos:
Quem estou me tornando enquanto conquisto aquilo que desejo?
Essa talvez seja uma das perguntas mais importantes do desenvolvimento humano.
Porque nenhuma conquista chega sozinha.
Toda conquista também constrói o conquistador.
Cada caminho modifica aquele que caminha.
Cada escolha repetida transforma-se gradualmente em comportamento.
Cada comportamento repetido participa da construção de uma identidade.
Por isso, talvez exista algo anterior ao sucesso.
Não basta perguntar se estamos chegando. Precisamos perguntar quem está chegando conosco.
Podemos alcançar o destino e perder partes fundamentais de nós durante o percurso.
E existe uma ironia nisso:
passamos anos tentando construir uma vida melhor para nós mesmos e podemos acabar construindo uma vida na qual já não existe espaço para nós.
Uma agenda cheia também pode esconder uma existência vazia de presença.
Talvez o contrário de vazio não seja preenchimento.
Talvez seja presença.
Porque preencher todos os espaços não significa habitar nenhum deles.
Podemos preencher a agenda, a casa, a conta bancária, o currículo, as redes sociais e até os relacionamentos e, ainda assim, permanecer ausentes da própria experiência.
Por isso proponho outra ideia:
Presença não é estar onde o corpo está. É conseguir existir conscientemente onde a vida está acontecendo.
E a vida sempre acontece agora.
Não ontem.
Não depois da próxima conquista.
Não quando tudo estiver resolvido.
Agora.
Talvez tenhamos desenvolvido uma extraordinária capacidade de registrar momentos que já não sabemos experimentar.
Fotografamos antes de observar.
Publicamos antes de sentir.
Compartilhamos antes de compreender.
Transformamos experiências em conteúdo e, algumas vezes, deixamos de transformar experiências em consciência.
Nunca registramos tanto a vida e talvez nunca tenhamos precisado tanto aprender a vivê-la sem registro.
Não se trata de rejeitar tecnologia, trabalho, ambição ou progresso.
Trata-se de impedir que os instrumentos criados para ampliar nossa existência acabem ocupando o lugar dela.
Porque existe uma diferença entre possuir ferramentas e ser conduzido por elas.
Entre utilizar o tempo e ser utilizado pelas urgências.
Entre construir reconhecimento e depender dele para reconhecer a própria existência.
Talvez liberdade não seja fazer tudo aquilo que desejamos.
Talvez exista uma liberdade ainda mais rara:
não precisar demonstrar permanentemente que estamos vivendo para conseguir sentir que nossa vida possui valor.
Quando a existência depende excessivamente do olhar externo, podemos começar a viver como espectadores de nós mesmos.
Perguntamos como parecerá antes de perguntar como será vivido.
Escolhemos aquilo que poderá ser mostrado.
Construímos uma versão publicável de nós.
E, gradativamente, podemos começar a confundir visibilidade com existência.
Mas ser visto não significa ser conhecido.
Ser conhecido não significa ser compreendido.
Ser admirado não significa estar realizado.
E ser seguido por milhares não impede alguém de ter perdido o caminho para dentro de si.
Visibilidade é quando muitos conseguem nos encontrar. Presença é quando ainda conseguimos encontrar a nós mesmos.
Talvez essa distinção se torne cada vez mais necessária.
Porque o mundo continuará disputando nossa atenção.
Empresas querem nossa atenção.
Redes querem nossa atenção.
Pessoas querem nossa atenção.
Problemas querem nossa atenção.
Objetivos querem nossa atenção.
Mas existe uma pergunta anterior:
quanto da nossa própria atenção ainda permanece disponível para nós?
Aquilo para o qual entregamos repetidamente nossa atenção participa silenciosamente da construção da nossa consciência.
Talvez, portanto, atenção seja muito mais do que concentração.
A atenção é uma forma silenciosa de autoria: aquilo que escolhemos observar começa, pouco a pouco, a participar daquilo que nos tornamos.
Se entregarmos nossa atenção apenas ao barulho, o barulho passará a habitar nosso interior.
Se entregarmos nossa existência apenas às urgências, poderemos passar uma vida inteira resolvendo aquilo que precisava ser feito sem descobrir aquilo que precisava ser vivido.
Talvez o verdadeiro desenvolvimento não consista somente em acrescentar competências.
Talvez também exija recuperar presença.
Voltar a habitar as próprias escolhas.
Voltar a escutar as próprias perguntas.
Voltar a perceber aquilo que sentimos antes de explicar aquilo que sentimos.
Voltar a existir antes de representar que existimos.
Chamo isso de presença consciente:
a capacidade de participar da própria existência enquanto ela acontece.
Porque talvez exista uma tragédia maior do que perder alguma coisa durante a vida.
É chegar ao final e perceber que estivemos presentes em quase todos os acontecimentos, mas ausentes de nós mesmos enquanto eles aconteciam.
Não permita que sua existência se transforme apenas em evidência de que você existiu.
Esteja nela.
Porque uma vida pode ser longa em anos, enorme em realizações e repleta de acontecimentos…
e ainda assim ter sido pouco habitada.
A maior distância que alguém pode percorrer talvez seja aquela que, sem sair do lugar, o afasta de si mesmo.
E talvez uma das maiores conquistas humanas seja exatamente o caminho contrário:
voltar a estar presente na própria existência.
Carlos Eduardo Balcarse
02 de setembro de 2026
Não há ausência de sentimento maior e mais medonha do que a dos que se atrevem a julgar o sentimento alheio.
Há uma estranha soberba em quem se coloca como árbitro da dor do outro, como se emoções fossem fatos mensuráveis, passíveis de perícia tão gélida.
Julgar o sentimento do outro é, antes de tudo, ignorar a vastidão invisível que cada pessoa carrega — histórias não contadas, cicatrizes que não se exibem, batalhas travadas no silêncio.
Quem invalida o sentir alheio, muitas vezes, não o faz por força, mas por ausência — ausência de empatia, de escuta, de profundidade…
É mais fácil desqualificar do que compreender; mais confortável rotular do que acolher.
Afinal, reconhecer a dor do outro exige, inevitavelmente, encarar as próprias limitações emocionais.
Mas sentimentos não obedecem à lógica dos tribunais.
Eles não precisam de provas, tampouco de aprovação.
Sentir é, por si só, um ato muito legítimo.
E cada emoção, por mais incompreensível que pareça, nasce de um lugar real dentro de quem a vive.
Talvez a verdadeira humanidade resida menos em explicar o que o outro sente e mais em respeitar que ele sente — mesmo quando não entendemos, mesmo quando não concordamos.
Porque, no fim, a maior pobreza não está em sentir mais ou sentir menos, mas em sentir tão pouco a ponto de negar a existência do sentimento alheio.
Os dois seladores patronos,
Eu desejei a ausência deles.
Meus piores inimigos.
Meus inimigos mais mortais!
Puxando meu tornozelo para baixo,
Colocando uma corrente.
Destruo a corrente,
Colocam a corrente na mente.
Destruo a corrente,
Colocam a corrente na mente deles.
Meus piores inimigos.
Jamais amarei vocês de novo!
- Ramile Godon
Saudade dos bons e velhos tempos em que quase todos queriam — e se atreviam — a ser diferentes uns dos outros.
Havia uma coragem deveras silenciosa em não caber nos moldes.
As pessoas ousavam ter opiniões impopulares, gostos estranhos, sonhos improváveis.
Erravam com a própria assinatura.
Discordavam sem medo e sem culpa — olhando nos olhos.
Não precisavam de plateia para existir, nem de aplausos para sustentar suas convicções.
E muito menos subir o tom para tentar sustentar uma ideia.
Hoje, a pressa por pertencimento parece ter substituído o desejo de identidade.
A originalidade virou risco; a repetição, estratégia.
Ser diferente, que antes era um ato quase instintivo de afirmação, passou a ser cuidadosamente calculado para não desagradar o rebanho — ainda que cada um jure ser pastor de si mesmo.
Talvez o medo de ficar só tenha nos ensinado a falar em coro.
Talvez a avalanche de vitrines e vozes tenha nos convencido de que é mais seguro ecoar do que criar.
Mas há um preço muito alto nessa homogeneização voluntária: quando todos repetem, ninguém realmente diz; quando todos performam, poucos vivem.
Sentir saudade daquele tempo é, no fundo, sentir saudade de uma liberdade mais bruta, menos polida e menos aprovada.
Uma liberdade que permitia ser estranho sem ter que pedir desculpas.
Que entendia que a verdadeira diversidade não nasce de discursos ensaiados, mas da coragem nua e crua de sustentar a própria diferença.
Porque, no fim, não há nada mais semelhante do que pessoas tentando, desesperadamente, parecer iguais.
Os que sacrificam demais o presente para viver o futuro, chegam nele com saudade da saúde que não aproveitaram no passado.
Quem negligencia o presente para viver o futuro costuma acreditar que está fazendo um investimento muito seguro.
Troca horas de sono por promessas, adia encontros por metas, empurra o cuidado com o corpo para depois da próxima conquista.
Vivem como se a vida fosse um rascunho — como se o agora fosse apenas um corredor apertado que precisa ser atravessado às pressas para, enfim, chegar ao grande salão do “um dia”.
Mas o futuro tem um hábito curioso: ele chega.
E quando chega, não traz de volta as madrugadas mal dormidas, as refeições engolidas às pressas, os abraços adiados, os sinais ignorados do próprio corpo.
Ele chega cobrando juros silenciosos — nas dores crônicas, no cansaço que não passa, na energia que já não acompanha os sonhos.
Há uma ironia delicada nisso tudo: trabalhamos para garantir dias melhores e, no processo, entregamos os dias que já eram bons.
Buscamos segurança e acumulamos ausência.
Queremos estabilidade e perdemos vitalidade.
E quando finalmente alcançamos o futuro tão esperado, às vezes ele nos encontra com a saúde fragilizada, e uma saudade imensa do tempo em que podíamos ter vivido com mais equilíbrio.
O presente não é inimigo do futuro.
Ele é a matéria-prima dele.
É no agora que o corpo se fortalece ou se desgasta, que a mente respira ou se sobrecarrega, que a alma floresce ou se cala.
Não há amanhã saudável construído sobre um hoje negligenciado.
Talvez a sabedoria não seja abandonar os planos, mas aprender a não se abandonar enquanto os constrói.
Porque sucesso algum compensa o arrependimento de ter tratado a própria saúde como algo descartável.
E não há futuro tão próspero que substitua o privilégio de estar inteiro — física, mental e espiritualmente — na única linha do tempo que realmente nos pertence: o agora.
O melhor dia para se viver é hoje.
Quando eu me calar, eu sei que o mundo não sentirá saudade da minha voz, mas se alguém sentir, que se contente com ela.
Sei que o mundo seguirá em frente — como sempre seguiu — indiferente à ausência da minha voz.
Não porque ela não tenha existido, mas porque os ruídos do mundo, muito raramente, o deixam perceber silêncios que não gritam por atenção.
Ocupado demais com os próprios ecos, ele não notará a falta de uma voz tão insignificante que nunca quis ser multidão.
E está tudo bem.
Porque quando eu me calar, talvez não seja por ausência de palavras, mas por excesso de lucidez.
Há momentos em que falar já não acrescenta, explicar cansa e gritar não cura…
Então o silêncio deixa de ser fuga e passa a ser escolha.
Nem toda ausência precisa virar ruído.
E nem todo silêncio é pedido de aplauso.
Se alguém sentir saudade, que a sinta por inteiro, sem pressa de transformá-la em cobrança.
Saudade não exige devolução, não pede palco e nem reclama resposta.
Ela apenas existe — como prova de que algo foi dito, vivido ou sentido no tempo certo.
Ainda assim, se alguém sentí-la, que não lamente.
Que se contente com ela.
E que guarde essa voz como quem guarda um copo d’água no deserto: não para exibir, mas para lembrá-la.
Porque há vozes que não foram feitas para ecoar em multidões, e sim para alcançar um coração de cada vez.
O silêncio, quando escolhido, não é derrota nem esquecimento.
É o berço do descanso da alma…
O lugar onde a palavra aprende a ter peso justamente por não ser dita.
É a forma mais honesta de permanecer inteiro quando as palavras já não alcançam.
E se restar alguém que sinta, que se contente com o sentir.
Porque há afetos que não precisam de voz para continuar verdadeiros — sobrevivem, intactos, exatamente no espaço onde o silêncio começa.
Que o Senhor da Vida liberte os que trilham as Estradas da Saudade calçados com as Sandálias do Remorso!
Amém!
Liberta, Senhor!
Arrebentai as Sandálias do Remorso de todos que revisitam as lembranças dos que partiram antes de nós!
Saudades, sim — Tristeza, não!
Amém!?!
Porque a Saudade, por si só, já é estrada longa o bastante — feita de Memórias, Silêncios e Ausências que aprendem a conversar conosco.
Mas há quem caminhe por ela ferindo os próprios pés, calçado com as sandálias do arrependimento.
São passos, às vezes, demasiadamente pesados, que machucam o coração a cada lembrança do que não foi dito, do abraço adiado, da reconciliação interrompida...
No entanto, a verdadeira cura começa quando entendemos que o amor não termina com a partida — apenas muda de endereço.
E quem parte não deseja nos ver presos ao que faltou, mas gratos pelo que foi vivido.
Descalçar o remorso é um gesto sagrado: é permitir que a saudade volte a ser caminho de amor e não de castigo.
Que possamos, então, revisitar nossas lembranças com a graça de quem sabe que o perdão é o único calçado capaz de levar a alma em paz, sobretudo pelas estradas pavimentadas pela Saudade.
Amém!
+Q Luminescência
Fazer escurecer é mais fácil que iluminar, pois, sendo o escuro a ausência de luz, para iluminar é preciso ter luz e não ter nada, assim como destruir o que há, sempre foi mais fácil que construir, ou seja, que ter. No entanto, se alguns peixes, fungos, insetos ou até bactérias conseguem utilizar enzimas especiais (luciferases) para gerar luz, que dirá você que vivo, carrega o Espírito Divino.
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