Textos de Amizade Antiga
Há uma luz antiga no fundo do abismo,
não chama, mas acolhe.
Quando os pés param à beira,
é a terra que respira sob eles,
lembrando:
nenhum salto é sem mãos invisíveis.
Que o vento venha,
não para derrubar,
mas para sustentar.
Que ele ensine o corpo a confiar
no movimento que não fere.
O erro não é maldição.
É abertura.
Ferida por onde o amor esquecido
retorna ao sangue e faz pulsar o coração.
Que aquilo que sangrou
seja lavado não pelo medo,
mas pelo tempo certo.
Que essa pele nova endureça.
As defesas podem descansar.
Que as muralhas se tornem portais,
que os fantasmas dissolvam seus nomes.
Coragem não é ataque:
é permissão.
Que o amor seja lembrado.
Não como promessa,
mas como presença.
Que o sol não seja negado
mesmo quando a noite ainda pesa.
Que os ossos desaprendam a dor
que não lhes pertence.
Se houver sombra,
que ela seja abrigo,
não prisão.
Que o silêncio não engula,
mas escute.
E ao caminhar,
mesmo sem mapa,
que cada passo seja bênção.
Que o passado não seja apagado,
mas se torne aprendizado.
E que novos e bons caminhos surjam
onde antes só havia medo.
Assim seja no corpo.
Assim seja no fôlego.
Assim seja no agora.
Pensamentos que não dormem
Minha mente tece fios de insônia
no tear invisível da noite antiga,
oráculos sussurram em meus sonhos
enigmas que o tempo não decifra.
Sou chama iniciada no escuro,
alma errante entre véus e portais,
um rio sagrado de ideias febris
que não conhece margens nem sinais.
Amar, para mim, é rito e vertigem,
pular sem temer o abismo,
ofertar o coração aos deuses mudos
sem pedir proteção ou aviso.
Sensível demais, uma alquimia viva
ardo em brasa e gelo num só sopro,
meu peito é um vulcão selado em símbolos,
um segredo antigo gravado no corpo.
Como conter o que nasceu com asas,
marcado por estrelas errantes?
Sou tempestade invocada em silêncio,
sou o eco antes do instante.
Pressinto dores ainda sem nome,
sombras que o destino ensaia,
queria desligar esse sentir,
por ao menos um único dia,
essa luz que me fere e me guia.
Mas há beleza nosse excesso sagrado,
no amor que transborda e não cabe,
sou feita de marés proféticas
e presságios que a alma sabe.
Aceito o fardo de sentir o infinito,
o eterno ritual de existir.
Mesmo exausta, sigo sentindo
com os espíritos do pensar
sem me deixar dormir.
❝ ...Você me lê sem pressa, como se lê uma carta antiga, Descobrindo a história em cada linha, cada dobra. E eu sou em você a poesia que não se fatiga, A semente da paz que a cada novo dia se desdobra.
Somos o encaixe perfeito da imperfeição que acalma, Do riso que quebra o gelo e a dor do que passou. Você é a melodia que embala a minha alma, Onde o simples de amar é o nosso maior louvor...❞
------------ Eliana Angel Wolf
As Pessoas Que Já Fomos
Outro dia me peguei olhando uma fotografia antiga.
Não era uma fotografia especial. Não mostrava nenhuma grande conquista, nenhuma viagem inesquecível ou um acontecimento extraordinário. Era apenas um registro de um dia comum. Mas havia algo diferente naquela imagem.
A pessoa que aparecia ali era eu.
E ao mesmo tempo, já não era mais.
Por alguns instantes fiquei observando aquele rosto, aquelas expressões, aqueles sonhos que eu carregava naquele tempo. Lembrei das preocupações que pareciam tão importantes, dos planos que eu acreditava serem definitivos e das certezas que hoje já não existem mais.
Foi então que percebi algo curioso.
Passamos boa parte da vida acreditando que somos a mesma pessoa. Afinal, carregamos o mesmo nome, as mesmas lembranças e a mesma história. Mas a verdade é que estamos mudando o tempo todo.
Existem versões de nós que ficaram pelo caminho.
Aquele jovem cheio de pressa.
Aquela pessoa que tinha medo de errar.
Aquele sonhador que acreditava que a felicidade estava sempre em algum lugar distante.
Todos eles ainda fazem parte da nossa história, mas já não ocupam o mesmo espaço dentro de nós.
Alguns desapareceram com o tempo. Outros foram transformados pelas experiências. E há aqueles que precisaram partir para que pudéssemos continuar crescendo.
Talvez seja por isso que, em certos momentos, sentimos saudade de épocas que nem eram tão perfeitas assim.
Não sentimos falta apenas dos lugares ou das pessoas.
Sentimos falta de quem éramos.
Da forma como enxergávamos o mundo.
Da maneira como acreditávamos que tudo seria.
Mas a vida segue seu curso.
Ela leva algumas certezas, modifica alguns caminhos e nos apresenta situações que jamais imaginaríamos viver.
E quando menos esperamos, nos tornamos alguém que aquela antiga fotografia jamais poderia prever.
Nem melhor.
Nem pior.
Apenas diferente.
Mais consciente de algumas coisas.
Menos preocupado com outras.
Mais próximo daquilo que realmente importa.
Hoje compreendo que crescer não significa abandonar completamente quem fomos.
Significa agradecer a cada versão que existiu.
Porque cada medo enfrentado, cada erro cometido, cada sonho sonhado e cada recomeço vivido ajudou a construir a pessoa que somos agora.
E talvez, daqui a alguns anos, eu encontre outra fotografia.
Talvez eu observe novamente meu próprio rosto e perceba que uma nova transformação aconteceu.
Porque a vida nunca para sua obra.
Ela continua nos moldando silenciosamente, dia após dia, enquanto seguimos caminhando.
E assim, entre lembranças e descobertas, vamos conhecendo as muitas pessoas que existiram dentro de uma única vida.
Carta para o senhor Bento.
Caro senhor Bento, estou em uma viagem até a minha antiga cidade, meu pai faleceu e minha mãe disse que deveria pegar o ônibus o mais rápido possível, eu e ela não temos contato um com o outro a uns 12 anos, parece grosseiro da minha parte nunca ter ligado uma única vez para saber como anda a tia Júlia ou se nosso cachorro, o senhor Raivoso teve uma boa vida, já que seu passatempo era rosnar para todos ou até mesmo ligar para saber como ela estava ou claro, como o papai estava. Acredito que nós dois somos orgulhosos demais para isso, mesmo que ela tenha insistido muito em dizer que eu puxei minha personalidade forte do meu pai, algo que eu descarto até mesmo como hipótese. Não é que eu não tenha pensado nisso, é que acho que nenhum de nós estava preparado para dizer aquelas dolorosas e verdadeiras palavras, e quais são elas? Bem, às vezes eu não tenho certeza quais das milhares das possíveis palavras que se encaixam no contexto, no fim das contas, eu continuo pensando que ela nunca pedirá desculpas pela forma que me fazia sentir tudo, eu ainda consigo ouvir os murmúrios dela, falando em como tudo seria tão mais fácil se eles tivessem feito escolhas melhores, minha mãe sempre falava sobre como a vida dela era boa antes de todo o resto, ela ainda teria um belo corpo, teria liberdade e não estaria trancada a algo que ela no fundo nunca quis, lembro que quando ela foi embora e deixou a mim e meu pai, ela me disse que nunca daríamos certos juntos, de alguma forma, ela estava certa sabe, eu sinto que eu nunca fui um bom filho, acho que eu devia ter me dedicado mais, se eu tivesse largado tudo pelo que eu lutei e tivesse apenas aceitado ficar, acho que seríamos bem mais próximos, mas não sei se deveria sentir culpa por isso…
OBRA ANTIGA
O revisitar de uma obra antiga sempre nos surpreende com novos detalhes e nuances que teimam em escapar ao sentimento do momento. O sol nasce e adormece todos os dias e mesmo assim nos surpreendemos. A nossa alma cria o novo dia e dele se embevece, entristece ou se aborrece, não importa, o que de fato é significativo é que cada momento é único e se renova com outras formas todos os dias.
A consciência, em sua raiz mais antiga, não nasce apenas como um saber individual. Conscientia significa “saber junto”, compartilhar conhecimento, reconhecer-se diante de algo maior que o próprio ego. O ser humano não está separado da centelha primordial da consciência universal, apenas adormecido dentro da ilusão de uma identidade construída pelo mundo.
Desde o nascimento, somos ensinados a vestir máscaras. Recebemos nomes, crenças, medos, desejos e limitações. Chamamos isso de “eu”. Mas aquilo que pensamos ser talvez seja apenas um reflexo condicionado da matéria, uma personalidade moldada para sobreviver dentro de estruturas que aprisionam a percepção. O homem acredita possuir consciência, quando muitas vezes apenas reage mecanicamente aos impulsos, ao medo da rejeição e à necessidade de pertencimento.
É aqui que surge o discernimento.
Discernere é separar, peneirar, filtrar o joio do trigo. Compreende que discernir não é julgar superficialmente o mundo, mas separar dentro de si aquilo que é essência daquilo que é programação. Cada pensamento herdado, cada crença imposta, cada verdade aceita sem questionamento deve passar pela peneira da consciência desperta.
A luz não conforta o ego; ela o desnuda. Ela mostra que grande parte da humanidade vive identificada com uma personagem, enquanto a verdadeira essência permanece soterrada sob camadas de medo e ilusão.
A maioria pergunta: “Quem sou eu?”
Mas poucos suportam destruir aquilo que acreditavam ser.
Despertar a consciência é doloroso porque exige morrer simbolicamente antes da morte física. Exige abandonar falsas certezas, romper correntes invisíveis e perceber que a prisão mais poderosa nunca esteve no mundo exterior, mas dentro da própria mente condicionada.
O discernimento é a espada silenciosa do iniciado.
A consciência é o fogo interno que ilumina o caminho.
E talvez a maior tragédia humana seja esta: passar toda uma existência acreditando ser apenas aquilo que foi ensinado a representar, sem jamais descobrir a vastidão oculta que existe além do personagem.
A RETÓRICA
(Verso 1)
Na Grécia antiga começou a articulação,
Palavra era arma, argumento munição,
Córax na missão, método na construção,
Convencer na lógica, firme na razão.
Tísias lado a lado, técnica em evolução,
Discurso estruturado, prova na exposição,
Não era emoção, era precisão,
Fundaram a base da argumentação.
(Verso 2)
Górgias surgiu, mestre da persuasão,
Palavra como feitiço, mexe com a emoção,
Encanta multidão, molda percepção,
Mostrou que o discurso move a decisão.
Não é só o fato, é como conduz,
A mente se inclina quando a fala seduz,
Verdade ou ilusão? Quem é que traduz?
Se a forma convence, até mentira reluz.
(Verso 3)
Platão observou, postura crítica na missão,
Disse: sem verdade, é manipulação,
Contra o discurso vazio, contra a ilusão,
Defendia a essência, não a encenação.
Queria o justo, o bem na direção,
Conhecimento puro, fora da distorção,
Alerta pra palavra usada sem razão,
Filosofia acima da argumentação.
(Verso 4)
Sócrates na base, método aplicado,
Pergunta e resposta, saber lapidado,
Maiêutica em ação, pensamento elevado,
Não entrega resposta, deixa preparado.
Quebra a falsa certeza, instiga a visão,
Faz o ignorante buscar compreensão,
A verdade não grita, nasce na reflexão,
Consciência é fruto da indagação.
(Verso 5 – História)
Começa pequeno, ninguém dá atenção,
Um ato simples vira reação em reação,
Só soltaram o cavalo, olha a dimensão,
Do erro mínimo nasce a destruição.
Entrou na plantação, virou confusão,
Um puxou o gatilho, outro buscou vingança,
E o ciclo se fechou na ignorância,
Ninguém pensou, só seguiu na impulsão.
Sangue chama sangue, ódio puxa mais,
Quando a mente apaga, o instinto é que faz,
Ninguém parou pra pensar, só quis responder,
E cada resposta fez o caos crescer.
No fim perguntaram: quem causou isso aqui?
A resposta foi fria, difícil de engolir:
Eu só soltei o cavalo… e saí dali,
O resto foi vocês que escolheram seguir.
(Verso 6)
Aristóteles veio, trouxe definição,
Equilibrou a arte da argumentação,
Não é só falar, tem fundamentação,
Retórica é técnica com direção.
Logos na lógica, base da razão,
Ethos no caráter, gera conexão,
Pathos na emoção, toca o coração,
Os três alinhados moldam a decisão.
(Refrão)
Logos, Ethos e Pathos
A base do discurso que quebra o caos
Logos, Ethos e Pathos
Fala com verdade ou tudo é falso
Logos, Ethos e Pathos
Se não tiver os três, não alcança o alvo
Logos, Ethos e Pathos
Na mente e no coração, esse é o impacto
(Ponte)
Pense antes de agir, vigia o que diz,
A língua constrói ou destrói por um triz,
Entre razão e emoção existe um limite,
Quem não se controla é refém do próprio instinto.
(Refrão final)
Logos, Ethos e Pathos
A base do discurso que quebra o caos
Logos, Ethos e Pathos
Fala com verdade ou tudo é falso
No terraço onde a noite respira lenta,
uma luz antiga pousa nos meus ombros.
É quieta, mas exige humildade e espaço.
Descubro então que o saber não chega como rajada,
e sim como essa brisa obediente
que só atravessa portas destrancadas.
A mente, quando dobra o orgulho,
abre um corredor de silêncio onde tudo cabe:
o erro, o acerto, o possível.
E, nesse intervalo limpo,
o fluxo da sabedoria encontra passagem,
faz do vazio um campo fértil,
e repousa ali, sem pressa,
como quem sempre soube o caminho.
À moda antiga
" Meu bem, estou lhe escrevendo para matar saudades e ir um pouco contra essa digitalização virtual, onde o romantismo é constantemente trocado por likes e o amor desfigurado, tornou-se digital. Pois bem minha querida, ainda que tenhamos que conviver com todas essas tecnologias e elas são ótimas, escrevo para que reviva nossos tempos de adolescentes, onde eu lhe dedicava tantas cartas de amor. Faz tempo que não se escrevem cartas de amor.
- Escrevo pois se falasse, as palavras morreriam ao vento, mas escritas,elas se perpetuam no papel e enquanto houver papel, escreverei que amo você...
“Quando o Pensamento Precisa Caber em Caracteres”
É uma discussão antiga, aliás. A tecnologia nunca é só uma ferramenta neutra; ela muda hábitos. A imprensa mudou a leitura, a televisão mudou a narrativa, as redes sociais mudaram a atenção. Agora temos plataformas onde uma reflexão precisa disputar espaço com uma piada de três palavras e um anúncio de produto milagroso, porque aparentemente até o caos ganhou algoritmo.
Chovia como se o céu abrisse uma ferida antiga sobre a cidade, e cada gota trouxesse consigo um fragmento daquilo que ainda não aconteceu. Eu caminhava dentro desse rumor líquido com a sensação estranha de estar tocando a quarta dimensão, como se o tempo deixasse de ser linha e se tornasse um quarto secreto dentro do peito. Havia, na parede de uma casa esquecida, um relógio sem ponteiro. Ele não marcava horas; marcava ausências, retornos, aquilo que a memória inventa quando a saudade precisa sobreviver.
No bolso, eu carregava uma bússola de areia. Ela não apontava para o norte, mas para dentro, para esse lugar onde seguimos olhando o futuro reescrevendo o passado, sem perceber que ambos se misturam na mesma água escura. Talvez viver seja isso: atravessar a chuva sem querer secar demais, aceitar que o destino também hesita, e compreender que o amanhã nem sempre vem à frente. Às vezes, ele chega ontem tocando nossas cicatrizes, mudando o nome das antigas dores e devolvendo sentido ao que parecia perdido antes que a alma aprenda a chamá-lo casa.
Sonhei que eu trabalhava em um escritório, como assistente, para uma antiga patroa do meu ex marido, havia algumas meninas trabalhando junto de mim e eu senti fome e resolvi sair pra comprar algum lanche, passei em dois lugares e não comprei por achar o valor muito alto, olhei em minha carteira e havia muito dinheiro, mas eu pensei em outras necessidades maiores e voltei para o trabalho sem comprar nada. Quando cheguei na minha mesa, alguém havia escrito em uma folha "saiu e não avisou" eu fiquei muito chateada, porque as letras estavam tomando todo o espaço de uma folha A4 e me senti muito triste, com alguém que tentava me prejudicar. Desconfiei de uma garota que trabalhava lá há muito tempo, olhei pra ela e ela me olhava também, ela estava meio gordinha e grávida.
Julho de 2023
10:34 11 de setembro de 2024
"Sonhei que estava na antiga casa onde eu morava com meus pais, quando adolescente. Na verdade, a antiga casa com meus pais, era um lugar de muitas torturas e violência, por parte do meu pai, aos 16 anos, tive que fugir de casa, porque não aguentava mais tantas torturas
Eles não estavam mais lá, porém estava eu e meu esposo.
Eu sentia uma sensação muito estranha, de medo!
Quando olhei para a cerca que rodeava o terreno, enxerguei pelo lado de fora dela, 4 pessoas vestidas de branco, muito assustadoras, elas usavam capuz, seus olhares eram sinistros e ameaçadores, nos observavam, como se á qualquer momento fossem invadir o nosso espaço e nos fazer maldades.
Eu não esperei para ver, pedi para o meu esposo, para que saíssemos escondidos deles e fugíssemos. Pois, eles iriam entrar á qualquer momento, eram como guardiões do mal, á espreita!
Nós saímos por trás da casa e corremos muito! O caminho era bem diferente da realidade e a gente passava por baixo de uma construção que mais parecia um túnel, mas na verdade era uma casa, que tomava a rua inteira por onde passávamos.
Enquanto eu corria embaixo dela, eu olhava o teto, era uma laje pintada de verde e havia uma lâmpada que iluminava o caminho, porque havia escuridão.
Entramos pela rua lateral, correndo o tempo todo, com muito medo deles já terem percebido a nossa fuga.
Porém, quando entramos por essa rua, não havia casas, somente pequenos Lagos, em cada terreno baldio. Eram muito bonitos, passei observando, mesmo correndo muito rápido, pelo primeiro lago, com água cristalina, com dois peixes lindos nadando, o segundo laguinho também já havia mais peixes nadando e a água era bem cristalina, no terceiro lago, eu fiquei horrorizada, observei que não havia lago, somente um monte de peixes mortos, já em estado de decomposição, era como se o lago desse terreno tivesse secado e havia tantos peixes, que todos morreram sufocados, enquanto se abrigavam um . cima do outro, era uma pequena montanha de peixes o formato de como estavam.
Senti uma imensa tristeza, por ver aquela cena, o sorriso mesmo amedrontado, por medo daquelas pessoas, quando eu passei pelos 2 primeiros lagos, senti imensa alegria. Mas, a tristeza veio logo em seguida!
Ao observar tantos peixes mortos.
No quarto lago, não lembro ao certo mais havia peixes nadando e a água já não era tão cristalina, como as duas primeiras..."
Eu lembro dessa história como quem abre uma gaveta antiga e encontra um pedaço de mim mesma ainda respirando ali dentro, meio amassado, meio intacto, meio incrivelmente vivo. Era sempre à noite, como se a vida só tivesse coragem de acontecer depois que o sol ia embora. A gente se reunia debaixo daquela árvore que, na nossa imaginação adolescente, virou quase uma entidade sagrada, o tal do “velho Carvalho”. Nem sei se era mesmo um carvalho, mas na nossa cabeça ele tinha séculos, sabia de tudo, e guardava nossos segredos como um confidente silencioso.
Ali, eu era livre. Eu, que em casa andava pisando em cacos invisíveis, desviando de palavras duras, de olhares que pesavam mais do que qualquer castigo. Ali, embaixo daquela árvore, eu era leve. A gente ria alto, inventava histórias absurdas, falava de futuro como se fosse uma promessa garantida, como se a vida fosse mesmo justa com quem sonha. E eu acreditava. Acreditava nelas. Acreditava na gente. Achava que amizade era isso, um abrigo onde ninguém pergunta quanto você tem no bolso antes de te abraçar.
Até que veio aquela noite.
Eu cheguei como sempre, no mesmo horário, com a mesma expectativa simples de quem só quer um pouco de paz depois de um dia pesado. Mas o “velho Carvalho” estava sozinho. E isso já era estranho. Silêncio demais é sempre suspeito. Foi quando eu ouvi música, risadas, aquele barulho típico de festa boa… só que não era pra mim.
A casa ali perto estava iluminada, cheia de gente. E lá dentro estavam elas. Minhas amigas. Minhas companheiras de fuga. Rindo, comendo, vivendo… sem mim. Era uma festa de 15 anos. Aquela coisa clássica, bolo, decoração, gente feliz tirando foto como se a vida fosse perfeita.
E eu do lado de fora.
Eu não fui esquecida por acidente. Aquilo foi escolhido. Calculado. Porque no fundo, alguém decidiu que eu não cabia naquele cenário. Não porque eu não era amiga, mas porque eu não tinha dinheiro. Porque eu não teria um presente bonito pra entregar. Porque minha presença não combinava com a estética da festa.
É curioso como a exclusão não faz barulho. Ela não grita. Ela só acontece, e quando você percebe, já está do lado de fora, tentando entender em que momento virou invisível.
Elas vieram falar comigo depois. Disseram que acharam que eu tinha sido convidada. Ah, claro. Aquele clássico teatro da ingenuidade conveniente. Todo mundo sabia. Todo mundo sempre sabe. Mas ainda assim, saíram da festa pra ficar comigo. E naquele momento, eu aceitei aquilo como um gesto bonito. Hoje eu vejo como um remendo mal feito numa ferida que já tinha aberto.
Porque amizade de verdade não te deixa do lado de fora pra depois vir te consolar.
Eu me afastei da aniversariante. Não foi um escândalo, não teve grito, nem cena. Foi um silêncio decidido. Aquela percepção fria de que algumas pessoas só gostam de você até o ponto em que você não compromete a imagem delas. E quando compromete, você vira detalhe descartável.
Anos depois, ela ainda tentou me diminuir. Me chamou de pseudoblogueira, como se aquilo fosse um insulto mortal. E eu fiquei pensando… olha que curioso… eu, que não tinha dinheiro pra comprar um presente, agora tinha algo que ela não conseguia ignorar: voz. Alcance. Presença.
E mesmo assim, pra ela, eu continuava sendo nada.
Mas sabe o que é mais engraçado? Eu não era nada pra ela, mas eu fui tudo pra mim mesma naquele momento em que decidi ir embora. Porque crescer também é isso, é aprender que nem todo mundo que senta com você debaixo de uma árvore merece um lugar na sua vida inteira.
Hoje, quando eu lembro do “velho Carvalho”, eu não sinto raiva. Sinto uma espécie de carinho melancólico. Porque ali existiu uma versão minha que acreditava nas pessoas com uma pureza quase perigosa. E apesar de tudo… eu não me culpo por isso.
A culpa nunca foi de quem amou demais. Sempre foi de quem não soube receber.
E se tem uma coisa que a vida me ensinou, é que a gente pode até não escolher de onde vem, mas escolhe muito bem quem permanece.
Agora me conta… quantas vezes você também já foi deixada do lado de fora de alguma festa da vida?
Eu lembro de mim como quem lembra de uma versão antiga de um aplicativo que travava toda hora, mas eu insistia em usar porque tinha apego à interface bonita. Eu ali, regando lembrança morta como se fosse samambaia de vó, achando que bastava um pouquinho mais de atenção, um pouquinho mais de pensamento antes de dormir, que aquilo ia brotar de novo. E olha que interessante, eu sabia. Lá no fundo, naquele cantinho que a gente evita acender a luz, eu sabia que já não tinha vida. Mas mesmo assim, eu insistia. Porque aceitar o fim exige uma coragem que, às vezes, a gente só descobre depois de se cansar muito.
E eu me cansava. Me cansava de revisitar os mesmos diálogos como quem reassiste um filme esperando um final alternativo que nunca vem. Cada palavra dita virava material de estudo, quase uma tese emocional. Eu ampliava segundos como se fossem capítulos, transformava encontros curtos em histórias épicas, dignas de um diário que, coitado, carregava mais ficção do que realidade. E sim, as conversas existiram, os momentos aconteceram. Mas o que eu fiz com eles… ah, isso já era outra coisa. Eu peguei migalhas e montei um banquete imaginário.
E teve o dia do incêndio. Porque toda mulher intensa já teve um momento meio dramático de querer apagar a própria história como se fosse possível dar “delete” no que já foi sentido. Eu queimei aquele diário como quem faz um ritual de libertação, esperando que a fumaça levasse junto o que ainda pesava em mim. Não levou. Porque o problema nunca foi o papel, era o apego. Era a necessidade de continuar alimentando algo que já tinha acabado, mas que dentro de mim ainda encontrava espaço, palco, roteiro.
A dor, no fundo, era repetição. Não era nem sobre ele mais. Era sobre mim insistindo, revisitando, reabrindo uma porta que já estava fechada há muito tempo. Eu sofria não pela despedida em si, mas por não aceitar que ela já tinha acontecido. E é curioso como a mente é criativa quando o coração está resistente. Eu criava futuros inteiros com base em lembranças mínimas, como quem vê um trailer e já escreve o filme inteiro. Só que o filme nunca foi produzido.
Até que veio o ponto de ruptura. Não aquele bonito, cinematográfico, com trilha sonora e vento no cabelo. Foi um cansaço seco. Um basta silencioso. Eu escrevi. Mas dessa vez não foi para mim, não foi para o diário, não foi para alimentar a história. Foi para entregar. Para colocar um ponto final fora da minha cabeça. E quando eu fiz isso, algo mudou de lugar. Não foi imediato, não foi mágico, mas foi verdadeiro. Pela primeira vez, eu não estava mais segurando nada.
E aí veio a paz. Não aquela eufórica, não aquela de propaganda de margarina. Uma paz simples, quase tímida. De quem acorda e percebe que já não revisita mais o passado antes de escovar os dentes. De quem lembra sem doer. De quem entende que sentir não foi erro, mas permanecer presa naquilo teria sido.
Hoje eu olho para tudo isso com um respeito enorme por mim mesma. Porque não foi fácil sair desse ciclo quase poético e extremamente cruel. Mas eu saí. E sair não significou esquecer, significou parar de alimentar. Porque lembrança, quando não é regada, vira só memória. E memória não machuca, ela só existe.
E no fim, escrever foi a minha libertação. Não como fuga, mas como conclusão. Eu não escrevi para reviver, eu escrevi para encerrar. E quando eu finalmente parei de contar a mesma história, eu percebi que tinha espaço para viver outras.
Se você ainda está aí, regando o que já não cresce, talvez não seja falta de amor. Talvez seja só falta de coragem de aceitar o fim. Mas quando essa coragem chega, mesmo que cansada, ela muda tudo.
há dias em que eu me convenço de que existe uma conta aberta em meu nome. uma dívida antiga que eu nunca lembro de ter feito, mas que a vida faz questão de cobrar todos os dias.
talvez eu mereça. talvez cada ruína tenha sido construída pelas minhas próprias mãos. eu sempre encontro um jeito de tocar no que amo com tanta força que, sem perceber, também encontro um jeito de quebrar. construo casas para depois assistir ao teto desabar sobre mim. e o pior é que, mesmo conhecendo o roteiro, eu continuo acreditando que dessa vez será diferente.
já tentei me absolver. sentei diante dos meus erros como quem visita um velho amigo, esperando ouvir que tudo ficou para trás. mas eles nunca respondem. apenas me olham em silêncio, como espelhos que insistem em refletir a pior versão de mim.
o que mais me machuca não é perder. é nunca entender a lição. se toda dor existe para ensinar alguma coisa, então por que eu continuo repetindo o mesmo capítulo? quantas tempestades ainda faltam para que o mar finalmente aceite que eu já aprendi a afundar?
carrego um oceano de raiva que nunca encontra a praia. e uma tristeza tão antiga que às vezes parece ter nascido antes de mim. ambas dividem o mesmo peito, disputando espaço com um coração que ainda insiste em acreditar nas pessoas, mesmo depois de colecionar ausências.
eu não queria milagres. nunca quis promessas impossíveis. só queria experimentar, por um instante, a estranha sensação de receber na mesma intensidade em que entrego. descobrir como é estender a mão e encontrar outra vindo na direção contrária, em vez de mais um adeus.
mas existe uma crueldade silenciosa em continuar remando quando a maré parece ter escolhido o lado oposto. você se esforça, sangra as mãos nos remos, perde o fôlego, e ainda assim termina exatamente onde começou. às vezes até mais distante da margem.
e talvez seja isso que mais destrói o gabrieu: não o peso das derrotas, mas a dúvida de não saber se está lutando contra o mundo… ou contra si mesmo.
Eu sinto que carrego uma fúria antiga dentro de mim, algo que nasceu há muito tempo e que ninguém percebeu. Começou pequeno, como uma farpa, mas cresceu comigo, torto, pesado, como se tivesse se encaixado no meu peito sem pedir licença. E toda vez que eu falho, essa raiva acorda. É quente, inquieta, lateja na pele e me pergunta, com uma brutalidade que só eu conheço: por que você não foi o bastante? Por que você nunca é?
Eu não tenho resposta. Só sinto o impacto um golpe seco bem no meio do peito, desmontando tudo que eu ainda tentava manter firme.
Às vezes eu queria arrancar essa parte de mim, expulsar essa voz que me mastiga viva cada vez que eu não atinjo o que espero. Eu queria jogar fora essa exigência que me cobra até quando eu tô de joelhos. Mas logo depois da raiva vem a tristeza. Ela chega devagar, quase com carinho, e me abraça um pouco apertado demais. Ela sussurra que sabe, que entende, que tudo que eu queria era ser suficiente. Só isso.
E é nessa hora que eu encolho. Que eu me sinto pequena de novo. Não pequena como uma criança inocente, mas como alguém que aprendeu a diminuir sua própria existência pra não incomodar ninguém com suas falhas. Como se meu erro ocupasse mais espaço do que eu mesma.
Tem uma parte de mim que queria gritar, quebrar tudo, arrancar meu nome das expectativas que eu mesma escrevi. Queria fugir de mim. Mas existe outra parte tão frágil, tão quietinha que só queria um colo em que eu pudesse me largar sem precisar justificar nada. Só queria poder dizer: “eu tô cansada, eu tô machucada, eu não aguento ser forte hoje.”
Eu vivo num território estranho entre a minha raiva e a minha tristeza. A raiva me acusa, a tristeza me acolhe, e eu fico ali no meio, sem saber de qual das duas fugir primeiro. É como se eu estivesse sempre lidando com a dor de não chegar onde eu achei que deveria chegar, e com o luto por não ser a versão de mim que eu imaginava.
E mesmo assim… eu sigo. Eu continuo. Não porque eu me sinto forte, mas porque tem uma parte de mim, pequena, quase imperceptível, mas viva que acredita que existir já deveria ser suficiente. Que talvez um dia eu consiga me olhar com um pouco mais de gentileza. E que, quando esse dia chegar, talvez eu finalmente consiga me perdoar por ser humana.
Marte
Planeta que serviu para nomear o mês do ano, o mês de Março.
Na antiga Medicina Romana, acreditava-se que neste período do Ano, o sangue renovava-se pela força da energia solar neste planeta. Também uma crença antiga, que neste mês, a natureza explendia toda à sua energia! Renovavam-se nas plantas vida nova, as folhas recebiam luz do sol, e assim, mais verde e muitas cores nas flores do campo.
A lembrança mais antiga que eu tenho de mim mesma me faz entender que, durante toda a minha existência, eu já passei por muitos processos transformacionais. Olhando para trás, eu vejo que aprendi bem a mascarar a dor, a mascarar quem sou. Eu não sei se isso foi bom ou ruim. Enfim, olhando para a frente, estou aprendendo a ser quem sou, infinitamente, sempre querendo ser eu e mais ninguém.
Nildinha Freitas
