As Pessoas Que Já Fomos Outro dia me... Wander Von Muller
As Pessoas Que Já Fomos
Outro dia me peguei olhando uma fotografia antiga.
Não era uma fotografia especial. Não mostrava nenhuma grande conquista, nenhuma viagem inesquecível ou um acontecimento extraordinário. Era apenas um registro de um dia comum. Mas havia algo diferente naquela imagem.
A pessoa que aparecia ali era eu.
E ao mesmo tempo, já não era mais.
Por alguns instantes fiquei observando aquele rosto, aquelas expressões, aqueles sonhos que eu carregava naquele tempo. Lembrei das preocupações que pareciam tão importantes, dos planos que eu acreditava serem definitivos e das certezas que hoje já não existem mais.
Foi então que percebi algo curioso.
Passamos boa parte da vida acreditando que somos a mesma pessoa. Afinal, carregamos o mesmo nome, as mesmas lembranças e a mesma história. Mas a verdade é que estamos mudando o tempo todo.
Existem versões de nós que ficaram pelo caminho.
Aquele jovem cheio de pressa.
Aquela pessoa que tinha medo de errar.
Aquele sonhador que acreditava que a felicidade estava sempre em algum lugar distante.
Todos eles ainda fazem parte da nossa história, mas já não ocupam o mesmo espaço dentro de nós.
Alguns desapareceram com o tempo. Outros foram transformados pelas experiências. E há aqueles que precisaram partir para que pudéssemos continuar crescendo.
Talvez seja por isso que, em certos momentos, sentimos saudade de épocas que nem eram tão perfeitas assim.
Não sentimos falta apenas dos lugares ou das pessoas.
Sentimos falta de quem éramos.
Da forma como enxergávamos o mundo.
Da maneira como acreditávamos que tudo seria.
Mas a vida segue seu curso.
Ela leva algumas certezas, modifica alguns caminhos e nos apresenta situações que jamais imaginaríamos viver.
E quando menos esperamos, nos tornamos alguém que aquela antiga fotografia jamais poderia prever.
Nem melhor.
Nem pior.
Apenas diferente.
Mais consciente de algumas coisas.
Menos preocupado com outras.
Mais próximo daquilo que realmente importa.
Hoje compreendo que crescer não significa abandonar completamente quem fomos.
Significa agradecer a cada versão que existiu.
Porque cada medo enfrentado, cada erro cometido, cada sonho sonhado e cada recomeço vivido ajudou a construir a pessoa que somos agora.
E talvez, daqui a alguns anos, eu encontre outra fotografia.
Talvez eu observe novamente meu próprio rosto e perceba que uma nova transformação aconteceu.
Porque a vida nunca para sua obra.
Ela continua nos moldando silenciosamente, dia após dia, enquanto seguimos caminhando.
E assim, entre lembranças e descobertas, vamos conhecendo as muitas pessoas que existiram dentro de uma única vida.
