TRISTEZA. Há uma tristeza antiga,... Marcelo Caetano Monteiro
TRISTEZA.
Há uma tristeza antiga, obscura e fria,
que desce sobre a tarde, lentamente,
como um sino perdido, cuja agonia
se dissolve no espaço inutilmente.
Não sei de onde ela vem, talvez do chão
onde repousam mortos esquecidos,
ou desse imenso e fúnebre sertão
que guarda os sonhos todos sepultados.
A noite cresce. O céu, desabitado,
derrama sobre a terra um véu profundo;
e o vento, entre os ciprestes fatigados,
parece prantear o fim do mundo.
Há vozes que não chegam aos meus ouvidos,
mas vivem na penumbra da memória;
são nomes, rostos, amores já perdidos,
cinzas errantes de uma antiga história.
E a lua, espectral, sobre o ermo,
contempla a solidão dos caminhos;
seu clarão parece um olhar enfermo
vagando entre sepulcros e espinhos.
Oh, morte! Tu, silenciosa soberana,
que igualas rei, mendigo, sábio e incréu,
quando recolhes a matéria humana,
que abismo abres entre a Terra e o céu?
Talvez sejamos apenas poeira
levada pelo vento dos destinos;
talvez a alma, eterna forasteira,
atravesse outros mundos e caminhos.
Mas hoje, não. Hoje somente a dor
me fala ao coração com voz soturna;
e até o próprio silêncio, ao meu redor,
parece ter saudade da vida diurna.
Se há depois da morte alguma aurora,
se existe além do túmulo outra estrada,
que a alma encontre aquilo que implora
quando a existência termina desolada.
Enquanto isso, permaneço junto ao nada,
ouvindo a noite em sua imensidão;
e, sobre a terra fria e abandonada,
deposito uma lágrima, e uma oração.
Porque a tristeza, quando é verdadeira,
não grita, não suplica, não reclama:
é como uma árvore derradeira
que morre lentamente dentro da alma.
