Tag memória
A memória momentânea é como um navio à deriva que colide com o iceberg do tempo; e afunda velozmente na profundidade imensurável do mar do esquecimento.
Comunidades são feitas da matéria de gente, e gente é feita do calor da memória. Pessoas, é claro, não são feitas somente de memória, mas é possível argumentar em favor de o ser humano ser animal mnemônico por excelência.
(Vidas machucadas)
Se formos cronometrar o somatório das nossas lembranças, teremos algumas dezenas de minutos.
Nossa memória é feita de décadas de esquecimentos.
Não devemos nunca aceitar que o futuro se curve sob o peso da memória.
Se soubesse antes
que meu ontem hoje ia acabar
transformaria ele em memória
e me lembraria agora o que comi
no café da manhã
no almoço e no jantar
Pranto oculto
Por suas estrelas,
a noite é linda,
e a escuridão que
não se vê
é pranto oculto,
latejante,
vulto
que dói profundo.
Escala o mundo
… em vão.
É a estrela mais distante,
entalada na memória
e no semblante.
É como verso acabado
de amor sem amantes.
E a que brilha
é como a velha música
em notas da trilha,
algo grande que antes havia
e não há mais.
Por todas elas
a noite…
Às vezes escura,
às vezes bela.
É como a vida:
- Eterna espera.
Olhei demoradamente
para a foto da família.
Rostos lindos,
que meu coração vê.
Dedicatória
de algum ano
em que o sol se punha, rindo.
De lá para cá, eu a perdi,
juventude!
Agora, só a tenho retratada.
Mas eu ainda a encontro na memória...
Ficou longe
a cor da infância!
Silêncio é o que prende
a garganta.
Fecho os olhos.
Saudade!
Cara e coragem,
eternas bagagens
desta viagem
rumo ao fim.
Viver é partir
sem apetrechos
nem preconceitos,
levando a vontade
de ir, passo a passo,
construindo a história
preenchendo lacunas,
de lembranças na memória.
A pele da memória torna-se surpreendentemente sensível ao toque da saudade quando está repleta de sensações voluptuosas.
Será que a memória abarrotada aumenta os olhos?
A memória é um sótão atravancado de objetos inúteis, onde tanto desejaríamos encontrar aquelas coisas perdidas que – de tão perdidas – já nem sabemos mais.
O que sejam...
Eu sei, é claro, que a memória retém tudo sem piedade, e admito minha fraqueza: tem coisas que eu não quero lembrar.
A memória não consegue restaurar fielmente os pesados caprichos da embriaguez e se esgota com o esforço.
As coisas do passado são vertiginosas como o espaço, e seu traço na memória é deficiente como as palavras.
Nosso cérebro tem mais juízo do que nós mesmos. Ele fecha as janelas da memória para pensarmos menos e gastarmos menos energia.
