Soneto da Falsidade de Vinicius de Moraes

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Não pode haver graça onde não há discrição.

Os homens, para não desagradarem aos maus de quem se temem, abandonam muitas vezes os bons, a quem respeitam.

Perante um auditório de tolos, os velhacos tornam-se fecundos, e os doutos silenciosos.

Não poder suportar todos os maus carácteres de que a sociedade está cheia não revela bom carácter: e isso é indispensável no comércio das peças de ouro e da moeda.

Os homens têm geralmente saúde quando não a sabem apreciar, e riqueza quando a não podem gozar.

A modéstia doura os talentos, a vaidade os deslustra.

Nada devemos fazer que não seja razoável; mas nada também de fazermos todas as coisas que o são.

Os homens desejam ser escravos em qualquer parte e colher aí a força para dominar noutro sítio.

A imaginação e o recolhimento são duas doenças de que ninguém tem piedade.

Não há ofensa que não perdoamos, depois de nos termos vingado.

Os escolares preocupam-se em segredo com o mesmo que preocupa as raparigas nos internatos; faça-se o que se fizer, elas falarão sempre do amor, aqueles das mulheres.

Censuram-se severamente defeitos à virtude, ao passo que se não poupa indulgência para as qualidades do vício.

Nas revoluções dos povos a insignificância é a maior garantia de segurança pessoal.

Os homens estão dispostos a ser prestáveis até ao momento em que têm poder.

O que há de melhor nos grandes empregos é a perspectiva ou a fachada com que tanta gente se embeleza.

É triste a condição de um velho que só se faz recomendável pela sua longevidade.

Os governos tendem à monarquia, como os corpos gravitam para o centro da terra.

As coisas que sabemos melhor são as coisas que não nos ensinaram.

O fraco ofendido atraiçoa, o forte e magnânimo perdoa.

O mistério em que envolvemos os nossos desígnios revela muitas vezes mais fraqueza do que discrição, e com frequência prejudica-nos mais.