Sair da Casa da Mae

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⁠Ela sabe muito bem comandar uma cama..
Uma empresa... um fogão....uma casa... ela sabe muito bem onde quer chegar ... ela sabe muito bem do poder que tem..da força que nela emana... ela sabe muito bem o seu ligar...e lugar de mulher poderosa é onde ela bem quiser..bem entender...

Descomplica vai...
passa la em casa..
para de dar um de dificil..
e da vc todinho pra mim..
de bandeja...

Casa de apostas, chamada Congresso! Entre BET’s, agro e emendas, sua corrupção, afunda na lama a nação!⁠

Nossos inimigos estão em casa e fingem ser amigos

⁠A gente precisa mudar ..
De vida ,
De casa ,
De amor ,
De página,
De rumo ,
De estratégia,
De atitude...
A gente precisa mudar ..antes que mudem com a gente.. antes que tudo mude pra pior .. antes que tentem mudar a nossa essência. Mude ! Só você pode mudar tudo !!!

“Morada nas Palavras”

Há amores que moram numa casa.
Conhecem o barulho das chaves na porta, o café dividido pela manhã, os pequenos desentendimentos, o silêncio confortável de quem já não precisa dizer nada para permanecer.
E há outros que nunca recebem um endereço.
Não porque tenham sido menores. Talvez justamente porque a vida não lhes concedeu espaço suficiente para acontecer.
Então eles procuram outro lugar para morar.
Uma carta.
Uma página.
Uma frase escrita no meio da madrugada.
Kafka e Milena encontraram esse lugar.
Não tiveram uma vida inteira lado a lado. Tiveram distância, espera, desejo e palavras. Muitas palavras. E talvez cada carta enviada fosse uma tentativa de diminuir alguns quilômetros entre dois corações que a realidade insistia em manter separados.
Há algo profundamente romântico e doloroso nisso.
Quando não podemos tocar alguém, começamos a tocar através das palavras.
Escrevemos “saudade” quando gostaríamos de dizer “fique”.
Escrevemos páginas quando desejaríamos apenas alguns minutos de presença.
E colocamos dentro de um envelope aquilo que os braços não conseguiram alcançar.
Talvez por isso certas cartas de amor sobrevivam tanto tempo.
Elas não guardam apenas aquilo que aconteceu.
Guardam aquilo que poderia ter acontecido.
Os encontros imaginados.
As manhãs que nunca chegaram.
Os abraços adiados.
A vida que permaneceu esperando do outro lado da possibilidade.
E existe saudade até daquilo que nunca vivemos.
Essa talvez seja uma das formas mais misteriosas da saudade: sentir falta de uma vida que nunca chegou a existir.
Kafka e Milena partiram.
As mãos que escreveram aquelas cartas desapareceram. Os olhos que esperavam por elas também.
Mas as palavras ficaram.
Continuaram atravessando anos, fronteiras e gerações até chegarem às mãos de pessoas que eles jamais conheceriam.
Talvez porque algumas palavras se recusem a morrer quando foram escritas com sentimento suficiente.
E penso que certos amores sejam assim.
Não encontram uma casa.
Não encontram o tempo certo.
Às vezes nem sequer encontram um final.
Encontram apenas uma página em branco.
E ali permanecem.
Porque quando a vida não oferece lugar para um amor morar, às vezes resta à palavra abrir a porta.


Crônica baseada no livro Cartas a Milena - Franz Kafka

Talvez a pior forma de solidão seja voltar para casa e descobrir que até a própria sombra parece pertencer a outro homem.

Estrangeiro Dentro de Casa




Sinto-me velho antes do tempo,
mal amado, gasto e sem alento;
um homem perdido, sem direcção,
com ferrugem antiga dentro do coração.
O mundo parou quando aprendi a viver,
e desde então não o consigo entender;
as ruas mudaram, as vozes também,
mas algo em mim ficou preso ao ontem.
Passo noites sozinho, sem nada esperar,
lambendo velhas feridas que não querem sarar;
empoeiradas, profundas, escondidas na pele,
como cartas esquecidas que ninguém mais lê.
Atiro cigarros mortos contra a calçada,
vendo a fumaça morrer na madrugada;
cada brasa acesa, cada cinza no chão,
parece um pequeno funeral do meu coração.
Sou estrangeiro no meio da multidão,
um rosto sem pátria, sem nome, sem mão;
e quando finalmente volto para casa,
sou estrangeiro até onde a minha sombra passa.
Tenho vinte e poucos, mas carrego cem anos,
coleccionando fracassos, silêncios e enganos;
o tempo corre, mas eu fiquei para trás,
num mundo que já não me reconhece mais.
E talvez envelhecer seja simplesmente isto:
perder aquilo que um dia julgámos ter visto;
ficar acordado enquanto tudo vai embora,
e conversar com a solidão até nascer a aurora.

Miserável é o homem que não questiona.
Habita a própria casa e não indaga quem caminha ao seu redor;
convive com seus atos e não os examina,
sejam eles tidos por bons ou por maus.


Aceita como certo aquilo que lhe foi ensinado,
sem jamais provar se o certo é justo
ou se o que julga errado o é de fato.
Vive preso à fé que recebeu pronta,
não porque a compreende,
mas porque lhe disseram que assim deveria crer.


Tal homem anda em círculos,
como o animal preso ao curral:
vê apenas o chão que pisa,
não contempla o campo distante,
e ainda assim chama isso de liberdade.
Bendito, porém, é o homem que não se curva a palavras vagas,
ainda que venham vestidas de verdade.
Ele pesa a prova, examina o fato,
e questiona até aquilo que lhe parece sólido.
Nisso consiste a sabedoria.


Pois loucura é crer em toda palavra que sai da boca alheia.
Qualquer um pode lançar uma semente à terra,
mas poucos sabem de onde ela veio.
Todos desejam plantar,
mas quase ninguém se recorda da colheita.

Eu fui te entregar rosas e chocolate.


Parei em frente à sua casa.


Pensei por alguns segundos...
Depois pensei mais um pouco...
E mais um pouco ainda.


A garganta travou.


Sua janela estava aberta.


De repente, começou a chover.


Fiquei ali, parado na chuva.


Seu vizinho me observava e ria.


Ouvi um comentário ao longe:


"Que brega..."


Não respondi.


Apenas dei meia-volta e fui embora.


Você nunca saberá que, um dia, alguém te esperou diante da sua porta com rosas nas mãos.


E que, naquele dia, o céu chorou comigo.


L**

Invisível


Demétrio Sena - Magé


Esta casa saudosa de ser lar
quer sentir os teus pés; tua expressão;
teu olhar conferindo as nossas plantas;
tuas mãos apalpando as almofadas...
Nosso canto em silêncio vira concha
que deseja ecoar a tua voz,
as paredes desbotam nossos quadros
e os nós do vazio são mais cegos...
Nossa cama, imagine como fica;
é um mundo sem chão, recosto e teto;
cria veto ao meu corpo indesejado...
Tudo imerge num nada inconcebível;
sou alguém invisível sem teus olhos
que me fazem sentir especial...
... ... ...


Respeite autorias. É lei

*ANTES QUE ALGUÉM ENTRE*


Entrei no bar porque ainda era cedo demais para voltar para casa e tarde demais para fingir que tinha alguma coisa importante para fazer.


O garçom me reconheceu.


Depois de certa idade, ser reconhecido num bar não é exatamente uma conquista. Significa apenas que você esteve ali vezes demais.


Sentei no canto de sempre.


Pedi bourbon.


O primeiro gole resolveu algumas questões que eu não tinha intenção de discutir naquela noite.


Peguei o celular.


Não sei por quê.


Talvez por hábito.


Talvez por tédio.


Talvez porque, depois de certa idade, qualquer tela iluminada pareça uma promessa de companhia.


Havia aplicativos abertos.


Alguns deles eu nem lembrava por que tinha instalado.


Não eram necessariamente aplicativos de namoro.


Pelo menos era isso que eu dizia a mim mesmo.


Curiosidade também é uma palavra bastante útil.


Passei o dedo pela tela.


Rostos.


Mulheres novas, balzaquianas, maduras.


Pessoas sorrindo diante de praias, restaurantes, cachorros, academias e lugares onde provavelmente nunca tinham estado tão felizes quanto pareciam estar na fotografia.


Algumas apresentavam a si mesmas como se estivessem concorrendo a uma vaga.


Outras apresentavam uma lista.


Não fumante.


Não bebe.


Não aceita determinada posição política.


Não quer alguém com filhos.


Não quer alguém sem filhos.


Altura mínima.


Renda mínima.


Distância máxima.


Personalidade compatível.


Signo compatível.


Vida resolvida.


Passado aceitável.


Pouco passado, de preferência.


Comecei a achar aquilo curioso.


Não exatamente engraçado.


Curioso.


As pessoas pareciam estar procurando alguém depois de verificar cuidadosamente se ninguém entraria.


Era uma espécie de alfândega sentimental.


Documentos em ordem.


Bagagem declarada.


Nenhuma mercadoria proibida.


Continuei olhando.


A lista era maior que algumas biografias.


E talvez fosse justamente esse o problema.


Ninguém mais precisava conhecer alguém.


Bastava verificar se a pessoa atendia aos requisitos.


Como se estivesse comprando um carro usado.


Quilometragem emocional.


Opcionais.


Defeitos ocultos.


Manual de instruções.


Garantia.


Pedi outro bourbon.


O garçom deixou o copo diante de mim.


Fiquei olhando o líquido por alguns segundos.


O bourbon tem essa qualidade.


Não resolve nada.


Mas melhora a aparência dos problemas.


Voltei ao celular.


A tecnologia prometeu aproximar as pessoas.


Entregou um catálogo.


Milhões de rostos ao alcance do dedo e uma quantidade cada vez maior de razões para não tocar em nenhum deles.


Passei para outro perfil.


Não gostei da fotografia.


Passei.


Outro.


Não gostei da descrição.


Passei.


Outro.


Alguma coisa me incomodou.


Passei.


Parei.


Voltei.


Não sei por quê.


Continuei.


Foi aí que percebi que eu também estava fazendo aquilo.


Essa foi a parte desagradável.


É fácil observar a estupidez dos outros quando você não precisa olhar para as próprias mãos.


Eu também tinha critérios.


Só não os chamava de critérios.


Chamava de experiência.


Depois de certa idade, a gente aprende a dar nomes respeitáveis às próprias defesas.


Não quero drama.


Pode significar: já fui ferido.


Não quero alguém complicado.


Pode significar: não tenho mais paciência para descobrir outra pessoa.


Quero alguém maduro.


Pode significar: quero alguém que não me obrigue a mudar.


Quero alguém resolvido.


Essa era uma das melhores.


Como se eu mesmo estivesse resolvido.


Como se tivesse passado décadas acumulando erros apenas para chegar a algum ponto em que pudesse preencher um formulário dizendo:


pronto.


Agora estou funcionando corretamente.


Bebi.


Olhei para o bar.


Duas pessoas conversavam numa mesa próxima.


Não pareciam interessantes.


Depois pensei que talvez eu não tivesse dado a elas tempo suficiente para serem.


Esse pensamento me incomodou.


Eu queria conhecer pessoas ou apenas encontrar versões antecipadas delas?


Talvez fosse a segunda opção.


Uma pessoa antecipada é muito mais confortável.


Você sabe o que ela pensa.


Sabe o que ela gosta.


Sabe o que ela não tolera.


Sabe o que procura.


Sabe o que rejeita.


Tudo antes de ela abrir a boca.


Uma pessoa real é outra coisa.


Chega atrasada.


Tem mau humor.


Fala demais.


Fala pouco.


Ri na hora errada.


Tem uma opinião absurda.


Muda de opinião.


Fuma quando você odeia cigarro.


Bebe quando você prometeu que não queria mais bêbados por perto.


Vota no sujeito que você considera um idiota.


Escuta a música que você não suporta.


Tem cicatrizes que não aparecem na fotografia.


E, às vezes, é gentil.


Isso complica tudo.


É fácil rejeitar uma categoria.


Mais difícil rejeitar alguém que está sentado diante de você.


Principalmente quando essa pessoa não corresponde àquilo que você imaginou.


Fiquei olhando para o meu copo.


Talvez fosse por isso que as listas existissem.


Elas davam a sensação de controle.


Se eu estabelecer critérios suficientes, pensei, posso impedir que alguém errado entre.


O problema é que ninguém consegue estabelecer critérios suficientes.


Sempre existe alguma coisa que ficou de fora.


Um hábito.


Uma lembrança.


Uma maneira de falar.


Uma família.


Uma história anterior à sua.


Alguma coisa que não estava na fotografia.


E então você descobre que não estava escolhendo apenas quem poderia entrar.


Estava tentando decidir antecipadamente o que teria permissão para acontecer depois que alguém entrasse.


Essa parte eu não gostei.


Porque já não era mais sobre os aplicativos.


Era sobre mim.


Passei anos aprendendo a viver sozinho.


Isso tem vantagens.


Você sabe onde estão as coisas.


Sabe o que comprar.


Sabe a hora em que prefere ficar quieto.


Não precisa explicar por que chegou tarde.


Não precisa negociar o volume da televisão.


Não precisa perguntar se alguém se importa com a música.


A casa vai adquirindo o formato de quem mora nela.


E, depois de algum tempo, qualquer outra pessoa parece uma mudança de móveis.


Talvez fosse exagero.


Talvez não.


Eu já tinha me acostumado demais com o meu próprio espaço.


A ideia de alguém ocupando uma parte dele parecia boa enquanto permanecia abstrata.


Quando se aproximava da realidade, começava a parecer trabalho.


Voltei ao aplicativo.


Outro rosto.


Outro.


Outro.


O dedo continuava trabalhando.


Era quase um reflexo.


A cabeça justificava.


O dedo decidia.


E eu nem sabia exatamente o que estava procurando.


Talvez nada.


Talvez alguém.


Talvez apenas a sensação de que ainda poderia encontrar alguém.


Existe uma diferença.


A esperança pode ser mantida durante anos quando não precisa enfrentar a realidade.


A pessoa real, não.


A pessoa real exige presença.


E presença é uma coisa inconveniente.


Ela não pode ser filtrada.


Não pode ser editada.


Não pode ser devolvida depois de sete dias.


Uma pessoa real traz uma vida inteira que começou antes de você.


Traz antigos amores.


Família.


Medos.


Hábitos.


Erros.


Desejos.


Contradições.


Algumas coisas que você vai gostar.


Outras que vai detestar.


E algumas que, para seu azar, vão obrigá-lo a reconsiderar aquilo que você jurou nunca aceitar.


Pode ser alguém que vota diferente.


Pode fumar.


Pode beber.


Pode acreditar em alguma coisa que você considera absurda.


Pode ter uma história que não combina com a sua.


Pode rir de coisas que você não acha engraçadas.


Pode ser exatamente o tipo de pessoa que você teria eliminado no segundo movimento do dedo.


E ainda assim pode acontecer alguma coisa.


Esse é o problema.


Pode acontecer alguma coisa.


O algoritmo prefere outra coisa.


Prefere que você continue procurando.


A próxima pode ser melhor.


Mais bonita.


Mais inteligente.


Mais compatível.


Mais interessante.


Mais próxima.


Mais perfeita.


A próxima está sempre disponível.


A esperança fica um perfil adiante.


Mais um movimento.


Mais uma noite.


Mais um bourbon.


Mais uma promessa silenciosa de que amanhã talvez seja diferente.


Amanhã chega.


A lista continua.


Enquanto isso, as pessoas envelhecem.


As rugas chegam sem pedir licença.


Os bares fecham.


Os amigos desaparecem.


Alguns morrem.


Os discos riscam.


As fotografias ficam antigas.


O bourbon acaba.


E nós continuamos escolhendo.


Eu também.


Talvez essa fosse a parte que mais me incomodava.


Eu podia rir das listas dos outros porque elas pareciam absurdas.


Mas tinha uma lista minha.


Talvez não estivesse escrita em lugar nenhum.


Era pior assim.


Estava na cabeça.


Altura.


Hábitos.


Jeito de falar.


Passado.


Problemas.


Opiniões.


Tudo aquilo que eu dizia não querer.


Tudo aquilo que eu achava que já tinha idade suficiente para não precisar suportar.


Como se envelhecer desse ao homem algum direito especial de exigir uma vida sem inconvenientes.


Não dá.


Só dá mais experiência em reconhecer alguns deles.


Terminei o bourbon.


Fiquei olhando o copo vazio.


Pensei que talvez o problema nunca tivesse sido encontrar alguém.


Talvez fosse aceitar que alguém real sempre traria alguma coisa que eu não tinha pedido.


Uma opinião.


Uma lembrança.


Um medo.


Uma diferença.


Um defeito.


Uma necessidade.


Uma história anterior à minha.


Conhecer alguém significava entrar numa história que começou sem você.


Não havia como editar os capítulos anteriores.


Não havia como selecionar apenas as partes convenientes.


Não havia botão para remover aquilo que incomodasse.


Uma pessoa real não vinha com manual.


Nem certificado de compatibilidade.


Nem garantia contra abandono.


Era justamente isso que tornava tudo tão difícil.


Pedi a conta.


O garçom trouxe.


Guardei o celular no bolso.


Não porque tivesse aprendido alguma grande lição.


Não aprendi.


Apenas fiquei cansado de transformar desconhecidos em candidatos.


E depois reclamar que ninguém me conhecia.


O bar estava quase vazio.


Fiquei sentado mais alguns segundos.


Pensei nas pessoas que eu tinha descartado naquela tela.


Depois pensei nas que talvez tivessem me descartado.


A ideia não era agradável.


Talvez algumas tivessem razão.


Talvez outras não.


Nunca saberia.


Essa é uma das coisas que a gente perde quando decide cedo demais.


A possibilidade de descobrir.


Levantei.


Saí do bar.


O celular continuava no bolso.


Não o abri.


Não porque tivesse desistido de encontrar alguém.


Nem porque tivesse finalmente compreendido o amor.


Não tinha compreendido nada disso.


Apenas comecei a desconfiar de uma coisa.


Talvez eu não estivesse procurando alguém que coubesse na minha vida.


Talvez estivesse procurando alguém que não mexesse nela.


E isso era diferente.


Continuei andando.


Passei anos organizando a casa.


Escolhendo os móveis.


Definindo as regras.


Decidindo quem poderia entrar.


No fim, a casa estava impecável.


E vazia.


Parei por um instante.


Pensei que talvez fosse melhor assim.


Depois pensei que essa frase também parecia uma defesa.


Sorri sozinho.


Era um progresso pequeno.


Ou apenas outro truque da minha cabeça.


Não importava.


Continuei andando.


O bar ficou para trás.


O celular permaneceu no bolso.


Eu ainda não sabia se queria encontrar alguém.


Também não sabia se queria continuar sozinho.


Pela primeira vez, porém, percebi que talvez tivesse passado tempo demais tentando resolver essa dúvida antes que qualquer pessoa tivesse a oportunidade de aparecer.


E talvez fosse esse o problema.


Eu queria saber quem entraria antes de abrir a porta.


Isso me pareceu uma exigência razoável durante muito tempo.


Naquela noite, já não pareceu tanto.


Não porque eu tivesse descoberto alguma resposta.


Só porque, pela primeira vez, a possibilidade de não saber não me pareceu uma ameaça.


Continuei andando.


O resto podia esperar.

Só Falta Você


A saudade de um amor que me deixou
O eco das risadas ainda pela minha casa
Seus presentes de crochê na minha gaveta


Então por que você não me diz como é que eu faço pra te esquecer,
Se tudo o que sobrou ainda me lembra você?
Mesmo com a casa estando vazia,
Todo o meu ser só consegue dizer o quanto sinto falta de você.


Há mais de um mês que eu não sei o que é dormir direito,
Deito do lado contrário da cama, tentando arrumar um jeito.
Já fiz de tudo pra mudar o meu pensamento,
Mas não se apaga um sentimento assim no vento.


Eu tentei te esquecer, fiz de tudo pra mudar,
Mas quanto mais eu tento, mais eu quero te buscar.
Você se foi, mas o meu peito não entendeu...
Que o amor que era nosso, agora é só meu.


Então por que você não me diz como é que eu faço pra te esquecer,
Se tudo o que sobrou ainda me lembra você?
Mesmo com a casa estando vazia,
Todo o meu ser só consegue dizer o quanto sinto falta de você...
Falta de você...
Só falta você.

Poema da Minha Vida


Minha vida é casa de porta aberta, com cheiro de mar e café.
É terapia nas mãos,
cuidar do outro para aprender a cuidar de mim também.


É recomeço em dia de ventania,
quando o vento leva o que não presta
e planta de novo a esperança no coração.


É gratidão nas coisa simples:
uma boa noite nordestina,
um "gratidão" dito de coração,
um poema que chega pra fazer companhia
na hora que a solidão bate na porta amiga.


Minha vida é farmar aura como diz esta geração, todos os dias —
nas conversa, no trabalho, no silêncio.
É cair, levantar, e seguir com doçura e sutileza,
que nem me ensinaram sem precisar me dizer.


É saber que a vida é vento
e eu sou raiz.
Que pode balançar,
mas não arranca.


E no fim das contas
minha vida é isso:
cuidar, recomeçar,
e deixar um pouco de luz
por onde eu passar.
Eu sou.

Silêncio


O silêncio não é vazio.
É casa cheia de coisa que a gente não fala.
É a noite em Salvador
quando o vento para
e só o mar conversa baixinho.
É o espaço entre uma palavra e outra,
onde a alma respira
e Deus conserta o que quebrou por dentro.
O silêncio cura.
Tira a poeira da mente,
acalma o coração apressado,
ensina a ouvir o que o barulho esconde.
Tem silêncio que pesa,
de solidão.
E tem silêncio que abraça,
de paz.
No silêncio a gente se encontra.
Escuta o próprio pensamento,
escuta o outro sem interromper,
escuta a vida acontecendo mansinha.
Porque às vezes
o que mais precisa ser dito
se diz calado.

"Quem não limpa a própria casa não deveria ter tempo para reparar na poeira da janela vizinha."

“Quando só tem fubá em casa, não falta comida — falta escolha.”

Se alimentar, em pé.
Fazer leitura, com livro. De que forma? Em pé.
Arrumar a casa, em pé.
Para varrer com a vassoura,
precisa estar de pé.
Não dá para varrer, sentado(a).
Passar pano,com produto de limpeza.
Cozinhar perto do fogão, em pé.

Existe uma casa, para eu morar.
Existe um lugar, para eu dormir.
Existe um lugar;
para me proteger da chuva,
do sol,
e do frio.
Existe uma comida e
uma bebida,
que me dá vida.
Existe movimento, no meu corpo.
Um dia eu nasci,
eu vivo,
sei que vou morrer um dia.
Eu fui no Hospital,
lá existe gente que trabalha.
Fico feliz, com o pouco.
Durmo, e acordo.
O tempo passa.
Vejo terra, no chão.
Vejo montanha.
Eu estava em um lugar, fui para outro.
O carro, precisou consertar.

*EU ME QUERO DE VOLTA*


Saí de casa sem saber para onde ia. Não era exatamente uma viagem. Viagem pressupõe algum compromisso com a chegada. Eu só queria andar.


Peguei a moto cedo, antes que a cidade começasse a cobrar de mim as coisas que eu já não sabia se queria pagar. Uma mochila pequena, pouca roupa, documentos, algum dinheiro e aquela sensação conhecida de que talvez, se eu ficasse longe o bastante, certas coisas dentro da cabeça perdessem o endereço.


A estrada de serra estava quase vazia.


Subi sem pressa. Curva depois de curva. Pinheiros, barrancos, casas isoladas, pequenas vendas onde ainda se podia tomar café sem alguém perguntar se você queria açúcar. Em alguns lugares, o mundo parecia ter esquecido de atualizar a paisagem.


Eu gostava disso.


Talvez porque passei boa parte da vida fazendo exatamente o contrário.


Atualizando.


Mudando de emprego. De cidade. De mulher. De opinião. De planos. Trocando certezas velhas por certezas novas, como quem troca uma camisa suja e acredita que ficou limpo.


Quando somos jovens, ninguém nos explica direito o tamanho da brincadeira.


Dizem para estudar.


Trabalhar.


Construir.


Casar, talvez.


Ter filhos.


Comprar uma casa.


Ser alguém.


A gente acredita.


Depois descobre que existe uma diferença enorme entre cumprir o figurino e caber dentro dele.


Eu cumpri algumas partes.


Outras fiz pela metade.


E algumas fiz tão bem que quase consegui destruir a pessoa que deveria ter sido.


Foi só muito depois que percebi isso.


Na juventude, eu achava que as decepções eram acidentes de percurso. Uma mulher que não ficou. Um amigo que virou estranho. Um projeto que morreu antes de nascer. Uma porta que não abriu. Um sonho que parecia grande demais para o quarto onde eu dormia.


A gente sofre.


Depois chama aquilo de experiência.


É uma maneira elegante de não admitir que não entendeu nada.


Continuei subindo.


Em determinado ponto, parei a moto num acostamento. Havia uma venda pequena, dessas que parecem ter sobrevivido por teimosia. Pedi café. O homem atrás do balcão devia ter mais ou menos a minha idade. Talvez um pouco mais.


Ele não tinha pressa.


Fiquei olhando enquanto ele limpava o balcão com um pano que provavelmente já tinha visto dias melhores.


Pensei em quantas pessoas eu havia observado durante a vida.


Homens cansados.


Mulheres que desistiram de certas coisas sem anunciar.


Gente que bebia todos os dias.


Gente que trabalhava todos os dias.


Gente que dizia estar feliz com a convicção de quem precisava convencer a si mesmo.


Eu costumava olhar para essas pessoas de fora.


Agora começo a reconhecê-las por dentro.


Essa talvez seja uma das partes menos agradáveis de envelhecer.


Você começa a encontrar nos outros os mesmos defeitos que passou anos condenando.


O homem que você julgava acomodado.


Você.


A mulher que você achava que tinha desistido.


Você.


O sujeito que dizia não esperar mais nada da vida.


Você.


É uma espécie de justiça tardia.


A vida não manda boleto.


Manda espelho.


Voltei para a estrada.


Desci a serra em direção ao litoral. O ar mudou primeiro. Depois a paisagem. A estrada se abriu e o mar apareceu entre uma curva e outra.


Parei.


Fiquei olhando.


Não senti nenhuma revelação.


Ainda bem.


Tenho desconfiança de revelações.


Quase sempre elas duram até o próximo problema.


O que senti foi uma coisa mais simples.


Cansaço.


Um cansaço antigo.


Não do corpo. O corpo estava funcionando.


Era outro.


O cansaço de carregar perguntas que aprenderam a se reproduzir.


Quando somos jovens, procuramos respostas.


Depois de algum tempo, percebemos que algumas respostas apenas criam perguntas melhores.


E algumas perguntas não querem resposta.


Querem companhia.


Segui pela estrada litorânea.


Pequenos lugarejos apareciam e desapareciam. Uma igreja. Uma praça. Dois cachorros dormindo na sombra. Um bar aberto numa quarta-feira à tarde. Um velho sentado numa cadeira de plástico olhando para lugar nenhum.


Talvez ele soubesse alguma coisa.


Talvez não.


Essa é outra mentira da idade.


A gente imagina que quem chegou mais longe sabe mais.


Nem sempre.


Às vezes só chegou mais longe.


Foi então que lembrei de algumas coisas que eu tinha deixado para trás.


Não pessoas exatamente.


Momentos.


A adolescência.


Aquele período estranho em que a vida ainda não tinha apresentado a conta.


Eu sinto falta de coisas que, na época, pareciam insignificantes.


Uma rua.


Um quarto.


Uma conversa idiota.


Uma música tocando num rádio ruim.


Uma tarde sem obrigação.


A sensação de que ainda havia muito tempo.


É curioso.


Quando temos tempo, queremos futuro.


Quando o futuro já está parcialmente ocupado pelo passado, começamos a querer de volta algumas tardes.


Não quero voltar a ser adolescente.


Isso seria uma estupidez.


Quero apenas recuperar alguma coisa daquele sujeito que acreditava que a vida podia ser diferente.


Não necessariamente melhor.


Diferente.


Talvez seja isso que eu tenha perdido.


Não a juventude.


A capacidade de acreditar antes de exigir garantias.


Passei anos tentando viver de acordo com aquilo que parecia correto.


E algumas coisas corretas fizeram estragos.


Essa talvez seja uma das coisas que ainda não compreendi.


Como alguém pode fazer tudo conforme o figurino e, mesmo assim, terminar diante de uma vida que não reconhece?


Você trabalha.


Paga contas.


Cumpre compromissos.


Evita escândalos.


Engole algumas vontades.


Adia outras.


Diz “depois”.


Diz “agora não”.


Diz “é o melhor”.


E, quando percebe, existe uma distância entre aquilo que você construiu e aquilo que você era.


Não houve uma explosão.


Não houve música triste.


Ninguém percebeu.


Foi acontecendo.


Depois que sangra, seca.


O problema é que a pele fica diferente.


Talvez algumas coisas tenham morrido em mim em dias que eu achei que tinha apenas perdido.


Uma relação.


Uma amizade.


Uma possibilidade.


Uma versão de mim.


Aquilo não me matou.


Mas algo naquele dia morreu em mim.


Demorei para entender.


Ou talvez ainda não tenha entendido.


A diferença entre amadurecer e se acostumar é uma das perguntas que continuam me perseguindo.


Porque existe gente madura.


E existe gente apenas cansada.


Existe gente tranquila.


E existe gente que desistiu de discutir com a própria vida.


Existe gente que aprendeu a viver.


E existe gente que aprendeu a não reclamar.


Às vezes eu não sei em qual grupo estou.


Talvez nos dois.


Continuei rodando.


O vento batia no capacete e levava embora qualquer possibilidade de pensamento organizado.


Foi bom.


Minha cabeça sempre foi um lugar pouco recomendável.


Sou de carne, osso e uma confusão de pensamentos.


Nunca fui exatamente uma pessoa simples.


Durante muito tempo achei que isso fosse um defeito.


Hoje já não sei.


Talvez a simplicidade seja apenas uma forma eficiente de esconder aquilo que não conseguimos compreender.


Eu sempre vou ser uma confusão.


Não digo isso com orgulho.


Também não digo com vergonha.


É apenas um diagnóstico sem médico.


No fim da tarde, parei perto de uma praia pequena.


Não havia quase ninguém.


Tirei o capacete e sentei num banco.


O mar fazia aquele trabalho antigo de ir e voltar sem precisar justificar nada.


Pensei que talvez eu tivesse passado tempo demais tentando resolver a minha vida.


Talvez a amnésia resolvesse o problema.


Esquecer algumas coisas.


Esquecer algumas pessoas.


Esquecer certas versões de mim.


Mas logo percebi que seria inútil.


Porque não é o passado que continua nos perseguindo.


Somos nós que continuamos voltando até ele.


Voltei para a moto.


Ainda não sabia para onde iria dormir.


Também não sabia o que faria no dia seguinte.


Pela primeira vez em muito tempo, isso não pareceu uma ameaça.


Talvez porque eu tenha finalmente entendido que planejar tudo não me protegeu de nada.


Tudo correu como eu não planejei.


E, apesar disso, cheguei até aqui.


Não é uma vitória.


Também não é uma derrota.


É apenas o lugar onde estou.


A estrada continuava pela costa.


Eu podia seguir.


Podia parar.


Podia voltar.


Não havia placa dizendo qual das três opções seria a mais correta.


Ainda bem.


Passei anos demais obedecendo placas.


Naquela noite, enquanto o céu escurecia sobre o mar, pensei numa frase que não parecia minha, embora viesse de dentro:


eu me quero de volta.


Não o homem que fui.


Isso seria impossível.


Quero de volta alguma coisa que existia antes de eu começar a negociar comigo mesmo.


Antes de transformar desejo em obrigação.


Antes de confundir responsabilidade com abandono.


Antes de aprender a dizer “é assim mesmo”.


Talvez viver seja justamente isso.


Perder algumas versões de si.


Encontrar outras.


E, de vez em quando, reconhecer uma antiga no acostamento.


Parar.


Olhar.


Não tentar trazê-la de volta.


Apenas agradecer.


Depois subir na moto e continuar.


Porque existir é pouco.


É preciso viver.


Mesmo sem saber exatamente como.


Mesmo carregando perguntas.


Mesmo fazendo errado.


Mesmo descobrindo tarde demais que algumas respostas não estavam na estrada, na cidade, nas pessoas ou nos lugares para onde fugimos.


Estavam naquilo que a gente evitou olhar enquanto ainda tinha tempo.


O motor pegou na primeira tentativa.


Pus o capacete.


Acelerei.


Vamos, vida.


Me surpreenda.


Dessa vez eu não vou exigir que você faça sentido.