Poesia sobre Silêncio
Quando confiamos e entregamos o agir de Deus penetra no mais profundo silêncio de nossas almas e a esperança sorri para nós.
Lu Lena
O ALICERCE DO INVISÍVEL
O Arquiteto que nos deu o sopro da vida trabalha em silêncio. Enquanto o mundo se deslumbra com muros e fachadas, Ele cava o solo do que não se vê.
Silencie: a planta baixa da sua alma pode ser apagada; Ele pode redesenhar todo o projeto do seu ser.
Deixe que Ele molde o seu íntimo.
Sustente o que é eterno.
Seja um alicerce inquebrável.
Lu Lena / 2026
CACOS DE VIDRO NA MADRUGADA
(O silêncio ensurdecedor da maternidade atípica.)
As lembranças da gestação eram a única coisa que martelava na minha cabeça naquela madrugada chuvosa, mas o barulho lá dentro era ensurdecedor.
Olhei para o relógio: duas da manhã. Meu filho autista não parava de entrar e sair do quarto; ia até a cozinha, abria e fechava a geladeira à procura de algo. Foi quando ouvi o estrondo: era mais uma xícara que ele arremessava, fruto da crise que o vencia naquele momento.
Lá fora, a chuva batia forte, no mesmo ritmo em que meu coração acelerava na angústia de ver meu filho nesse elo perdido entre o mundo dele e o meu. Levantei num sobressalto; as lágrimas escorriam silenciosas e indefesas ante a fragilidade que eu sentia.
Naquele instante, o peso do mundo se concentrou nos meus ombros e a pergunta que eu evitava finalmente me alcançou no escuro: O que é ser mãe neurodivergente?
É quando a sociedade e a família falham em ser suporte e a mãe atípica adoece no silêncio. O isolamento vira um cárcere, e a exaustão vira risco. Precisamos entender que cuidar de quem cuida é um ato de justiça e humanidade.
Nenhuma mãe deveria ter que ser forte o tempo todo; ninguém sobrevive apenas de resiliência quando o que falta, na verdade, é acolhimento. Que o elo não se quebre pela nossa indiferença. A rede de apoio é o que impede que o amor vire dor.
Nós, mães atípicas, sentimos como se a chuva lá fora fosse o reflexo das nossas lágrimas de exaustão. Um mergulho intenso em um mundo dito "azul" que, de azul, só tem os símbolos. Na realidade, existem todas as nuances de cores: ora nítidas, ora borradas. Um labirinto onde caminhamos em círculos.
Se alguém achar o encaixe exato das peças ou a saída, diga-nos...
E, nesse ínterim, o que me resta nesta madrugada é juntar os cacos de vidro pelo chão.
Lu Lena / 2026
QUEM É MÃE ATÍPICA VAI ENTENDER...
(Onde o cansaço encontra o silêncio, e o cuidado vira oásis)
Ando tão anestesiada do autismo que, quando passa a crise, eu me pergunto:
— Já passou? Posso voltar para a sala de recuperação?
Aí, num delírio da memória, saio da "matéria" e vejo outras mães atípicas: sentadas e extremamente exaustas, enquanto seus filhos enxugam suas testas dessa fuga em silêncio...
Onde descansar por um segundo é como encontrar um oásis no meio do deserto.
Lu Lena / 2026
ECO DO SILÊNCIO
(Quando as almas se tocam sem precisar de voz)
Abro a porta do quarto e observo meu filho autista, que adormece no auge de sua juventude — de puro vigor, exuberância e beleza, tanto externa quanto na pureza de sua alma perdida, avulsa e flutuante. Digo em pensamento: "Obrigada, meu Deus, estou me esforçando..."
E aí, ele dá um suspiro profundo, como quem diz: "Eu sei, mãe!"
E seu corpo estremece...
Lu Lena / 2026
O AVESSO DO VERBO
(Onde a grafia não alcança)
Às vezes eu culpo o silêncio por não compreender as metáforas de minha existência. Ele tem o hábito de esconder as palavras que eu ainda não tive coragem de inventar — ou mesmo decifrar. O que resta, afinal, é o que sobra quando as letras faltam.
Lu Lena / 2026
O AUTISMO ENTRE "ASPAS"
(O esquecimento do adulto e o silêncio da mãe)
Autistas, ao atingirem a idade adulta, tornam-se esquecidos.
No início, há uma luta desenfreada. Quando ainda são crianças, a gente nutre a doce ilusão de que o autismo poderá ser “revertido”. Mas o tempo passa.
À medida que crescem, vamos ficando calejadas. Calejadas de buscar respaldo do governo, de clínicas assistenciais, de redes de apoio... de bater em portas que insistem em não abrir.
E, então, eles são esquecidos. E nós, as mães, também.
O mundo para. Para o adulto autista e para a mãe, que já não enxerga mais o horizonte. Quando eram crianças, a gente via muito além do arco-íris. Mas, na vida adulta, o arco-íris some.
Nossa porta se fecha. O que nos resta é apenas uma janela aberta.
Uma janela que se escancara para deixar entrar a luz nos raros “momentos de oásis”... ou que se fecha apertado para nos proteger da tempestade das crises.
O autismo não termina na infância, mas o olhar do mundo, infelizmente, parece se fechar ali.
Lu Lena / 2026
O AVESSO DO DIZER
(O Verbo que o Silêncio Esconde)
Assim, vou vivendo entre sonho e realidade,
essa ilusão é como a bruma que borda o amanhecer,
e vivo assim em passos lentos caminhando sem saber...
tropeçando em letras para juntar o que não consigo dizer.
Se no meu silêncio mora a poesia desconexa,
aí eu pergunto:
— Palavras pra quê?
Lu Lena / 2026
A SINFONIA DO LABIRINTO ATÍPICO
(O canto da cigarra e o silêncio da exaustão)
Entro nas redes sociais e a pergunta de praxe no feed: "Quais as novidades hoje?". Fico pensando... Pois então, são essas as novidades que não tenho. Por mais que eu tente buscá-las, elas evaporam em frações de segundo e tudo volta ao ponto de partida. É como caminhar por um labirinto de círculos ébrios, vazios de cor e de emoção — um percurso onde as olheiras cinzas e profundas moldam o caminho, marcas de noites de insônia e da exaustão de ver meu filho desregulado.
Nesta tarde de sol escaldante de março, que parece sorrir ironicamente desse meu vazio existencial, sigo com as pernas estendidas no pufe da sala. No intervalo onde o autismo tira uma folga e o sono finalmente o venceu, fico atenta aos murmurinhos inaudíveis do mundo externo. Mas o que realmente preenche a sala é o zumbido na audição que insiste em parecer uma cigarra cantando.
Essa é a minha única novidade. Não só hoje, mas todos os dias a cigarra insiste em cantar. Ela é o meu mantra de uma rotina atípica que não encontra início, meio ou fim. É o som do meu silêncio possível, o eco de uma exaustão que já faz parte da mobília. É nesse ínterim que a novidade acorda e sai do quarto; a cigarra se despede, o sol acena. As cortinas do palco se fecham e a rotina se abre.
Lu Lena / 2026
Silêncio, a arma invisível
É triste a traição contida e inesperada.
Às vezes, o silêncio pode golpear.
É uma erosão de humilhação e, ao meu ver, o silêncio é uma arma — uma arma muito poderosa — capaz de marcar você para sempre.
Ele vem na sombra do silêncio,
um sussurro que congela a alma.
Cada passo seu é uma promessa de dor
e um alívio que só ele pode trazer.
Seus olhos são tempestades contidas, suas mãos,
veneno e remédio ao mesmo tempo.
No toque, a vida se dobra e se curva,
como se obedecesse à lei do medo
e da entrega.
Mas há beleza na destruição
que oferece,
um equilíbrio cruel entre
ferida e cura.
Painkiller,
lenda urbana do próprio tormento,
aquele que dói para que possamos, enfim, respirar.
Diário da alma
Hoje, escolhi o silêncio.
Não como ausência, mas como refúgio.
Existe um lugar dentro de mim que não precisa ser explicado, nem exposto, nem compartilhado — apenas sentido. E foi para lá que eu fui. Sem avisar, sem deixar rastros, sem olhar para trás.
Cansei de traduzir sentimentos em palavras rasas para que outros pudessem entender. Nem tudo foi feito para ser compreendido… algumas coisas só existem para serem vividas em segredo, no íntimo, onde o mundo não alcança.
Aprendi que a paz não faz barulho.
Ela não pede atenção, não disputa espaço, não se exibe. Ela simplesmente chega… e fica.
E foi nesse silêncio, nesse afastamento quase invisível, que eu me reencontrei. Sem máscaras, sem versões editadas, sem necessidade de ser aceita.
Hoje, não preciso mais ser vista.
Porque finalmente aprendi a me enxergar.
E, pela primeira vez… isso basta.
Lá fora, o céu de inverno sorri em azul…
Aqui dentro, o cuidado floresce em silêncio e fé.
Deus está em tudo: no vento lá fora e na restauração aqui dentro.
Sem pressa, sem murmurar… só confiando.
Janice F. Rocha
Mesmo quando tudo parece silêncio, Deus está trabalhando nos bastidores da sua história.
Janice F. Rocha
Meu silêncio não é fraqueza, é dignidade.
Enquanto você preserva sua imagem, sou eu quem guarda verdades que poderiam destruí-la.
Não me provoque: meu calar é o favor que você nunca reconhecerá.
Às vezes, o silêncio é mais forte do que qualquer palavra.
Eu sei do que vi, do que senti, do que vivi... e, ainda assim, escolho calar. Não por falta de coragem, mas por excesso de dignidade.
Enquanto você dorme em paz acreditando que sua imagem está intacta, lembre-se: sou eu quem guarda, no peito, um oceano de verdades que poderiam afundar o seu nome.
Silêncio também é proteção.
Eu guardo verdades que poderiam derrubar sua imagem.
Respeite minha escolha de calar.
Quantos sonhos seus deixaram de florescer porque, com medo do silêncio do processo, você os expôs antes da hora só para provar que existiam?
Janice F. da Rocha
Quando o silêncio de alguém já não dói, é sinal de que o coração fechou a porta e abriu uma nova janela.
Janice F Rocha
Mesmo quando tudo parece ter ido embora, Deus continua aí. Ele enche de vida o silêncio e transforma o vazio em recomeço.
Janice F Rocha
