Poesia Felicidade Fernando Pesso
Um homem no chão da minha sala
alonga sua raiz
galo que estufa o pescoço
cana-de-açúcar e bronze
poças, chuva, telha-vã
rio que escorre na velha taça empoeirada
O homem no chão da minha sala
cidades de ouro
castelos de mel
velhas metáforas
sinos línguas gelatina
O céu no chão da minha sala
Esse homem no chão da minha sala
provoca o veneno da cobra
pulgas atrás das orelhas
mexeu nos meus bibelôs
consertou aquela estante
revirou a roupa suja
desenterrou flores secas
fraldas
chifres
quatro cascas de ferida
um disco todo arranhado
e um punhado de pelos
Aquele homem no chão daquela sala
me fez cruzar o ribeirão dos mudos
estufa de tinhorões gigantes
no piso do meu mármore
ele acordou a doida
as quatro damas do baralho
uma ninfeta de barro
e a cadela do vizinho
Daquele homem no chão da minha sala
há meses não tenho notícia
desde que virei a cara
saltei janela
fugi sem freio ladeira abaixo
perdi o bonde
estraguei tudo
vim devolver o homem
assino onde
o peito desse cavaleiro não é de aço
sua armadura é um galão de tinta inútil
similar paraguaio
fraco abusado
soufflé falhado e palavra fútil
seu peito de cavalheiro
é porta sem campainha
telefone que não responde
só tropeça em velhos recados
positivo
câmbio
não adianta insistir
onde não há ninguém em casa
eu, a amada
eu, a sábia
eu, a traída
agora finalmente estou renunciando ao pacto
rasgo o contrato
devolvo a fita
me vendeu gato por lebre
paródia por filme francês
a atriz coadjuvante é uma canastra
a cena da queda é o mesmo castelo de cartas
o herói chega dizendo ter perdido a chave
a barba de mais de três dias
NUVEM
babado de organdi
floco de algodão
carneirinho regredido p
rimeira comunhão
beleza que é o cúmulo
Gostaria
Sim
Que você sentisse a minha falta
Como a sede que não sabe como encontrar água
Apesar de saber que ela está lá
Como o som que quer ser ouvido
Mas ninguém escuta
Que você sentisse a minha falta
Como um louco
Que ninguém mais entende.
Minha falta in "Aquário de Amor"
O que eu mais amava
O que eu mais amava em você
Nem era a cor dos teus olhos
Não eram os clássicos que você tinha lido
Nada do que pensavam sobre você
Era o que eu mais amava
O que eu sentia escondia-se
Além das percepções alheias
E aparecia no terremoto que existia
Durante os nossos encontros
Nenhum lugar viu isso acontecer
Nem as ruas dessa solitária cidade
Tampouco os olhares dos nossos amigos
Ninguém soube de nada
Só as paredes arruinadas do teu quarto
E o movimento frenético do meu coração
Que eu entregava para você
Mesmo sabendo que você fingia não saber
O quanto eu te amava.
Nossa lua
Lembre-se de nós sorrindo
Que hoje escrevo chorando
A dor de um amor florindo
E nunca desabrochando.
Não se esqueça da taça de vinho
Que ficou pela metade
Igual ao nosso carinho
E hoje vivemos de saudade.
Mas bem sei que nunca me esquecerá
O tempo é nosso inimigo
Mas as lembranças vamos guardar
E se nunca me reencontrar
Não se esqueça que sou poeta
E meus contos tu vais morar.
@CarvalhoEscrito
COROAI-ME DE ROSAS
Coroai-me de rosas
Sejam vermelhas
Amarelas ou brancas
Coroai-me num jardim
No edam num céu de rosas
Coroai-me sem espinhos
Das mais belas rosas
Coroai-me de amor
Perfumado no coração
De perfumadas rosas na alma
não sei ser metade
e tudo dói por isso.
por hoje,
os olhos.
amanhã,
coração.
e assim por diante.
de órgão em órgão.
eu não sei ser metade,
mas nem sei o que é isto,
ser.
A vida é uma viagem
Estamos viajando
Novos passageiros chegando
Com novas ideologias
Com um novo estilo de vida
Viajando na vida
Com o atual estilo da mesma
Enjoando de toda essa besteira
Tentando não fazer besteira
Acreditando numa nova leva de passageiros
Que aos poucos estão a chegar...
Que começaram agora a viajar...
Aprendendo com os erros de viagens passadas
Chegou a nova geração,
Geral se aconchegou
Até as malas guardou
Pena que ao terminal o ônibus logo chegou
E com isso digo,
Pare o ônibus
Quero descer.
- Oliveira RRC
Francisco de Assis
Francisco pequenino.
Meu bom Francisco menino.
Que a pureza de seu coração
ilumine meu olhar para o irmão.
Me encante como encantou Clara
para que trabalhe sem cessar na sua santa Seara!
Solito, solicito e dividido
Acabo como náufrago
Inunda as imundas ocas deste corpo
Sofro de novo, mesmo sem adorno.
Cauteloso até demais para sair bem
Astuto e perspicaz, mas não está também
Caindo de repente novamente
Arcabolso de choro: tem.
Agora só resta navegar
Nas lágrimas de desta ilusão
Quem diria que iria mesmo pagar
Pelo que os irmão mente e coração criaram.
Charles Chaplin
Ultimamente ando muito na chuva
Já fui mais feliz
Ultimamente amo a chuva
Perdi a essência, tô infeliz
Todo dia tento ressuscitá-lo
Não falo de Jesus
Não sou Jesus
Sou eu, quem falo
Devo ter perdido o sorriso
Talvez no Metrô
Aquele lindo sorriso
Hoje a máscara só funciona por trás do vitrô
Não entende oque eu falo
Muito menos oque sinto
Deve ser o destino
Aparecer pessoas que não entende o destino
Você foi embora
Só me deixou mais vago
Você era o motivo
Seja o motivo
"Não preciso me drogar para ser um gênio;
Não preciso ser um gênio para ser humano;
Mas preciso do seu sorriso para ser feliz"
- Leia o título.
Liberdade
Novamente interrompido
É que não sou querido
Nunca quis ser Quico
Não tinha nada com isso
A gente nasceu
Mas não viveu
Nunca vivi demais
E se vivo o mínimo, é demais
É preciso viver mais
Essa caça ao tesouro, tá demais
Minha loucura passou do limite?
Ou você é enganado sem limite?
Se me permite
Qual o seu limite?
Quando deixará a corrida pelo ouro
Para perceber o real tesouro?
Você que é cristão
Acredita na divisão do pão
Raciocine comigo, irmão
Na época de Adão, havia notas nas mãos?
Havia egoísmo, maldição
O mundo de Lennon ficará na imaginação
Maldição!
Ainda somos dominados por notas, irmão.
Realmente é cafona, sujo, brega e esdrúxulo.
Por isso me sinto em casa, é formal.
Por que sou eu na forma material desse estabelecimento banal, em uma metamorfose de cadeiras geladas e duras.
Tons de Marrom
Caminho por aí, ainda que permaneça aqui.
Gelado vento, congeladas palavras.
Parado momento, como aflição em garrafa.
Encho-me até que transbordo.
Corro e pulo, saltito correndo.
Tons de marrom, amarelo e vermelho.
Sou tão preenchida que vivo vazia.
Sou tão grandiosa que me torno pequena.
Eu sou eu mesma, coisa óbvia a se dizer.
Eu sou eu mesma, complicada de ser.
Borboletas pairam no ar
como se estivessem a anunciar
algo tão belo e incompreendido,
a morte de algo querido.
Deseja-se tanto que se perde no tempo,
este de fato mal interpretado.
Tons de marrom e rosa.
Sou como o tempo: imortal prosa.
Boneca de Pano
Que tal ficarmos na nossa?
Que tal fingirmos tudo?
Será que fazer vista grossa
vai silenciar o sofrimento não-mudo?
Sou marionete num jogo adulto,
vejo cordas a sufocar corações em luto.
Enceno a peça teatral perfeita
onde não sei pra que fui feita.
Todas vezes que o vigário traiu
fui atriz secundária;
a principal foi ilusão em navalha
e, a mensagem, mera falha.
Mas me libertarei.
Despedaço, destruo, desintegro
o frágil pano do qual me criei.
A coisa q mais me fascina é o romance,
Quando vejo um casal,
Quando ainda era romântico.
O romance é a fé do ateu.
O romance carrega a harmonia da vida
A essência da vida
É Deus fazendo balé.
O romance vem da alma da gente,
É de onde aquece a vida.
O romance é o pai do coração
Vivo e delicado,
Com o cheiro gentil
Cor de fazer sorrir.
O romance é a coisa mais bonita que o ser pode ofertar.
Se alguém te propõe um romance
Não ouse negar,
Nem tão pouco desperdiçar.
FÓRMULA
Toco em sua face e vejo toda a dor sumindo de mim, hoje não vou dormir em lágrimas;
Você me tira todo mal que insiste em me perseguir, a escuridão finalmente encontrou seu fim;
Seus olhos têm todo o brilho que preciso para seguir, Não há razão para não sorrir;
Seus beijos me fazem esquecer de tudo em minha volta, Nada então poderá me atingir;
Quando estamos juntos o medo se vai, eu posso ser quem sou sem temer que você se afaste;
Você me entende e me aceita, não sei o que vê em mim, mas aproveito cada segundo disto;
Estamos tão sós, mas isso não importa quando beijo seu pescoço e tiro a alça de sua blusa;
A Chuva e o frio estão lá fora pedindo para entrar, mas O calor de nossos corpos não deixa espaço;
Dançando no compasso da nossa respiração, Ofegantes e delirantes em nossa cena de amor;
Em uma prisão que não queremos sair, algemados de mãos dadas ao tempo que nos carrega;
Seus cabelos agora úmidos em meu corpo, o cheiro de paz e felicidade estão tão presentes em você;
E mesmo que o sol tenha que aparecer e pararmos nossa cena, sei que todo mal se foi e posso ir;
E deixe que o mundo desabe, nada poderá nos atingir, estamos nós em meio ao caos que ele criou;
Você tem a fórmula exata para esquecer tudo o que há de mal fora deste quarto;
O escuro está apenas no quarto, em nós há apenas luz e uma alegria de estamos somente nós;
Pegue em minha mão, olhe em meus olhos, sei que verá o mais puro e sincero amor em mim.
