Poesia eu sou Asim sim Serei
Absoluto Tu
Pela ponte, pelo rio,
pelo trem, pela rua.
Pela casa, pelo quarto,
pelo país, pela lua.
Por tudo e em tudo
está a inquietude do mudo
querer-te. Teu sufocante som
vocal a embalar
minha alma fragmentada. Com
graciosidade, meu descanso ponha-te a cantar.
Não bebo água,
não como cenoura.
Não respiro nem guardo mágoa
porque tu é tudo que guardo. Agoura
alma, tu te tornou minha fonte vital.
Venha, vá. Volte para cá.
Fuja! Fique! Faça-me chique:
cubra-me com carinho, caso
queira descansar. Dormir, despertar.
Morrer e voltar.
De ti, nunca me verei livre
visto que tu estás em tudo
e meu coração é teu lar-veludo.
Capa de chuva num dia ensolarado
porque, no altar, forte é a tempestade.
De acordo com o combinado,
os membros todos vestidos de ambiguidade.
Na igreja eles rezam, rudimentam-se e roem
suas próprias vísceras. Comida não há
e a sanidade os destrói.
As portas de madeira, lacradas. Lá
no céu, os portões enferrujaram.
“O altar está em chamas!
Socorro! Não quero morrer
tido como louco!”
“A água benta evaporou!
Deus, me perdõe
mas para o inferno sei que vou!”
E berram até perderem a voz
aqueles que não desmaiaram de pavor.
Morrerão, sim, todos. Nós
assistiremos tal sacro-divertimento sem respingo de dor.
Não escolhi escrever!
As palavras são assim, me tomam.
Quando encontram a melhor forma de sair, entram em combustão, incendeia e queima.
Então escrevo, não porque escolhi, mas minh'alma precisa falar.
O lápis se torna os lábios de onde saem palavras doentes e o papel... o ouvinte a ser curado.
Gosto muito de chuva,
mas ela não gosta de mim,
sai debaixo de uma bem miúda
e agora veio o atchim !
hoje ela é grande, uma adulta
não come mais doces, só frutas
os fios de ovos da padaria
estão em silêncio na memória
dela e minha, guardados
devem estar misturados
com outros fios, elétricos,
químicos, líquidos
mas não tem importância
que fiquem assim na lembrança
ainda não sei fazê-los
nem quero; chega lembrá-los.
não sei fazer as coisas útil
faço as coisas difícil
se fizesse as coisas certo
as coisas talvez ficassem lindo
mas tudo bem ficarem errado
as coisas assim triste
é mais as coisas mesmo
É domingo hoje
mas nós não saímos
é o único dia
que não repetimos
e que dura menos
Mas põe o teu rouge
que eu mudo a camisa
não como quem
de ilusão
precisa
Tomaremos chá
leremos um pouco
e iremos à varanda
absortos
Não durmo ainda
Só na cama
o tempo
ainda é meu
como a palavra
Discretamente
me agito
no colchão
Não penso em Deus
na morte
Imprimo
Aqueço-me
Escuto
conservo a posição
Depois das 7
as montras são mais íntimas
A vergonha de não comprar
não existe
e a tristeza de não ter
é só nossa
E a luz torna mais belo
e mais útil
cada objecto
Devo dizer que sempre preferi
os versos feridos pela prosa
da vida, os versos turvos
que tornam mais transparentes
os negros palcos do tempo, a dor
de sermos filhos das estações
e de andarmos por aí, hora após
hora, entre tudo o que declina
e piora. Em suma, os versos
que gritam: Temos as noites
contadas. E também
os que replicam:
Valha-nos isso.
Ao fim da noite, no frio do táxi, pousas
a cabeça no meu ombro – e assim entramos
duma vez e inteiramente na nossa vida.
Lá fora, pelo contrário, tudo perde realidade;
há em toda a parte um sossego abstracto,
as ruas parecem pintadas – betão entre
as árvores – numa tela baça. Vamos por lugares
que não reconheço, a minha geografia é vaga
e omissa como a dos velhos cartógrafos
que desenhavam um mundo cheio de espaços
em branco. É onde estamos agora, num
intervalo do mapa rente à primeira manhã –
que será a nossa e também a última.
Que mais podemos fazer?
Este amor é um país cansado
que não nos deixa mudar.
O medo cerca as fronteiras
e a capital é Nenhures,
cidade de perdulários
e pequenas ruas tortas
onde vem morrer a noite –
aqui estamos ambos sós,
desunidos, extraviados,
não há táxis na praceta
nem cinzeiros nos cafés
e perdemos os amigos
entre as curvas de um enredo
que deixámos de seguir.
Mas não era nada disto
o que tinha na cabeça
ao começar a escrever:
os versos chamam o escuro,
abrem os portões ao frio
e eu quero estar nas colinas
do outro lado do rio.
Vejo-te um pouco como se já não houvesse
uma casa para nós. As grandes perguntas estão aí
por todo o lado, onde quer que se respire, dentro
dos próprios frutos. É o começo da noite
e os cinzeiros já estão cheios de meias palavras:
porque escolhemos tão pouco
aquilo que nos pertence?
Vejo-te de olhos fechados enquanto me confiavas
a tua história – à mesa da cozinha, quase um espelho,
quase uma razão. As minhas canções preferidas
pareciam convergir para ti a certa altura, dir-se-ia
que te vestias com elas. E no entanto
como se apressaram as grandes florestas a invadir
as gavetas, como misturaram as raízes
no eco que fazia o teu desejo contra mim.
Compor infinidades de laudas...
É um desabrochar de almas para almas.
Basta ler para sentir!
E se encontrar em algumas páginas.
Ó Mama África!
Tu que vistes teus filhos serem arrancados dos teus seios.
Sentiu o estalo do chicote que ardia feito fogo,
No tronco eram castigados, sem mesmo serem culpados,
Só queriam liberdade para todos.
Ó Mama África!
Teus filhos ainda sofrem o mesmo castigo,
São marginalizados, desvalorizados, oprimidos...
Mas tu ensinastes teus filhos a ter resistência,
São guerreiros natos,
E jamais esquecem sua essência,
Ó Mama África!
Teus filhos vêm reconstruindo a história,
Lutando por liberdade.
Tem um preto em cada canto do mundo, Transformando a sociedade
Noutr'época redimido, amedrontado e fútil,
Instalei em minha angústias alheias das quais não precisava.
Vive, senti, morri e renasci, e ainda era inútil,
Rodas em Marte, anéis em Saturno e nada amava.
ULTRAVIOLETA
_
Mantenha seus lábios selados como um segredo,
Atento aos desejos que sobrevenham...
Mantenha-os longe!
Sobretudo do mar que abarcar desdenhos.
FELIZ ANO NOVO
_
Rolhas pelo ar, tudo está para recomeçar...
Um brinde ao arrependimento
E Dois últimos a este sentimento.
Três passos solitários...
Deus perdoe meus pecados.
Estraguei tudo mais uma vez,
Sei que me odiarei até morrer
Mas agora não me abandone,
Pois Preciso de você!
Eu lhe prometo que será a última vez.
Sensações \sǝ̃o̧ɔɐsuǝS
_
Flutuando sobre os ecos de minha mente
Pude perceber,
O quão vasto era os sentimentos
que tinha por você.
Ressonância de corpos e sentimentos abstratos,
memórias tão fragmentadas
Consoante aos passos que tínhamos dado.
_
Fez-se Verão insólito e índole,
Proeminência de afetos desleixados
E alimento de obsessão mística opressora
_
Era recessão de memórias passadas,
Interferidas pela casualidade.
O destino que transcendia nossas almas,
Foi tão incerto quanto a ressonância
que tínhamos pelo certo.
(2018-2019)
