Poesia Amor Nao Realizado Olavo Bilac
cartas para você II :
me perguntam sobre o que eu sinto
e eu pergunto se querem mesmo saber
parece estranho
difícil de entender
tenho poemas guardados
sobre coisas que eu gostaria de fazer
sobre sentimentos fraudados por você
Havia pressa para chegar
Para agora parar.
Se páro, a urgência surge para libertar
Mais um degrau feito de ossos.
Os meus ossos
O meu coração e os meus músculos.
Todo o meu mundo.
Todo o meu corpo.
Tudo ligado, sem espaço.
Tudo coeso.
Carne viva, vermelha, sem cor.
Movimento sem corpo
Momento sem dor,
Cristalina ansiedade que agora chegou.
Sem propósito nenhum?
Se era urgente, chegou.
E aqui ficou. Vertical, do princípio ao fim.
Abriu-se dentro de mim. Espalhou-se.
Serei refém?
Agora é bom
Um movimento de cada vez.
Toma o teu tempo,
Agarra a carne.
Fio de cima abaixo.
E escorre-o a ver onde vai parar.
Lá dentro, como num túmulo, jazem flores vivas
Pétalas vibrantes
Cores desassossegadas
Nutridas por lágrima secas...
Olhos mudos
Garganta fechada.
Só o ar me dá a mão para não deixar fugir esta solidão.
Silêncio.
Quero ouvir. Só oiço o que está aqui fora
Por dentro nada.
Escuto atentamente.
Respiro. Respiro novamente com consciência do que estou a fazer.
E volto a escutar.
Sondo: varro tudo dentro de mim.
Nada.
Tudo sereno. Só tenho percepção do movimento do tórax: dilata, expande, e colapsa controladamente.
Fecho os olhos para melhor sondar.
E ponho-me novamente à escuta.
Espero.
Só a presença do nada aflora.
Fico na presença.
E escuto então: vem de dentro, das paredes interiores, a vontade de partilhar. Porque partilhar também é ser. Ser no mundo.
O mundo dentro de mim.
O ser que sou na presença desse mundo.
Só sou eu a ser presença.
A vontade de ir regressou até às suas origens.
E eu escuto novamente a presença desse nada.
Nenhum verbo serve.
Nenhuma acção...
A presença não é. Está!
Estar é consciência das paredes de onde nasce a origem.
Escuto novamente. O peito dilata, expande, retém. Para colapsar, de seguida, controladamente.
O que saiu, escapou. Existiu!
Sou, sem ser.
O que ser quando aqui sinto que sou?
Imponente.
Como caber?
Poder.
Como mexer?
Intrigo-me.
Como é que ali está?
E vivo. De todo o tamanho que ocupa Ser.
E ali está. Ali habita.
Ali faz parte.
Aqui é possível - desafio das leis das física.
Mas ainda luto com limites de tão absurda que é a existência para a conter dentro de mim.
Ouvir as negruras
Que seguram as minhas paredes.
Estou nessa presença
Sentir o que foi construído
Ruínas em cima de ruínas
Ruínas novas
Mostradas com vaidade de quem não tem nada para mostrar.
São olhos vazios que tudo engolem
Olhos absortos, viscerais
Olhos ligados ao coração
Olhos bombeados, angustiados
Apertados.
Dos escombros teimam em sair devaneios lúcidos.
Ruínas perdidas, caídas
Levantadas com fulgor de um último grito.
Sempre último
Sempre presente
Nunca ausente.
Grito sempre seguro por estas paredes nascidas
Nestas ruínas crescidas,
Fortes, levantadas, esforçadas
Ora presentes, ora ausentes.
Há Aqueles que veem somente o corpo.
Porque perdidos da alma.
Do mundo. E do mundo da alma.
Os abissais. Os fatiados e fatídicos. Aqueles.
ESTADO DE GRAÇA
Eis-nos
na bênção da aventura
cachos de uvas ruivas no regaço
um véu de colibris a cobrir-nos a pele dos segredos.
Eis-nos
no céu dos escolhidos
todo o sol que irradias me ilumina
todo o amor que canto te pertence.
Existe uma fé em mim
que dá leveza aos dias.
Ainda me encanto com a lua,
Com a sutileza da flor,
Mesmo triste sorrir,
Com a empatia e com o favor.
Quando a maldade do mundo me parecer normal, então perdi tudo serei mais um igual.
@milenafernandesde
Que importa
que a alma jaza acre e escura
na lassidão da espera,
se com sonhar-te apenas
tudo se irradia
e por ser-te
tudo se transforma?
Minha alegria muitas vezes é tristeza,
Da minha alegria a maioria sempre ria,
A risada até me alegra um pouco,
Mas sem forças o suficiente para ser frequente.
Descartes assim descreveria...
O vazio que engole minha alma existe, logo, também existo.
Cada particula desse ser humano ordinário vive para o fim.
´´Assim como as dores de cabeça,
Você foi passageiro em mim
Deixando apenas um gostinho do que é
Sentir você na pele.
Quando tomei meu remédio,
A dor passou.
Mas o que sobrou?
A embalagem de como era antes do alívio.``
´´Dia de são nunca,
Foi o dia que você me disse
Que iria me largar.
E nesse dia você cumpriu sua promessa.``
´´Uma flor me disse um dia
Que qualquer coisa pode florescer
Se for regada com carinho,
Se for dado vinho
Ela sangraria pela terra da qual veio
E se iria sem mais nem menos.
Percebi que você prefere me dar vinho
Do que carinho.``
´´Quando eu falei que o mundo tinha acabado
Você nem acreditou
Seguiu com a sua vida e eu com a minha
Até que um dia eu sumi do seu mundo
E você percebeu quanta falta faz a ida
De alguém que sempre esteve aqui
Fazendo barulho no seu coração
Até que um dia eu estive no mudo
Torcendo para que receba meus sinais através de libras.``
´´Seu beijo foi eterno
Eternamente invisível
Você veio e foi tão rápido
Quando eu achei que tinha te alcançado,
Eu consegui finalmente achar
A desculpa que me deu para não ser mais achado.``
´´As pinturas que compõe sua parede
Mostram o quão solitário você está
Mas ao mesmo tempo
Você não pode ser tocado
Por que ainda está secando.``
´´A ganância traz a morte
A inveja traz a morte
A preguiça traz a morte
E hoje você me mostrou
O que é o inferno onde todas ficavam.
Me mostrou como se fossem troféus
E me disse que sentia orgulho de tê-los só para ele.``
´´Na escola aprendemos a nos portar
Na vida aprendemos a chorar
Já na morte
Aprendemos o que é viver.``
´´Assim como um sorvete caindo
E uma bolsa desajeitada
Essa era a nossa relação
Eu era o sorvete e você a bolsa,
você deixou claro de que
não dá para salvar os dois em uma queda só.``
