Poesia Amor Nao Realizado Olavo Bilac
Quantos corações poetas vivem apreendidos em corpos racionais?
Quantas mentes racionais mataram corações poetas?
Quanto de um poeta vive na razão de uma mente?
Quanta razão existe no coração de um poeta apreendido?
Quantos poetas libertos existem sem uma razão?
Quanta razão há em ter razão e viver sem poesia?
Quanta poesia morta ainda vive em seu coração?
Um/Uma
Um Simples Gesto
Um Café da Manha
Uma risada sincera
Uma aventura na praia
Uma família à espera
Um jogo qualquer
Um almoço corrido
Uma noite de jogos
Uma surpresa agradável
Uma virada com fogos
Um abraço apertado
Um conselho gentil
Uma viagem inesperada
Uma sessão de cinema
Uma bela morada
Um rapaz tímido
Um paizão incrível
Uma pequena linda
Uma mãe perfeita
Uma família unida
A Girafa
Olhando para o horizonte
O tempo passa, muda a estação
Enxerga folha, arvore, bicho e chuva
Nada escapa sua visão
Alcançando tudo e todos
Com olhar sempre gentil
Observa as coisas boas
E até o amor que partiu
Defensora de si mesma
Sem atacar ninguém
Não precisa de presas e garras
Sua força vai muito além
Já não se incomoda mais
A não ser com sua família
Não se incomoda mais
A não ser com sua cria
Indo sempre adiante
Nada pode te deter
A Girafa sabe o que fazer
O mais difícil dos perdões é aquele que temos que dar a nós mesmos.
É imperdoável deixar que nossos medos nos tranquem o coração.
Errar faz parte do aprendizado.
Que o erro vire lição,
E que a gente aprenda a recomeçar.
É tempo de tomar atitudes que nos transformem de verdade por dentro.
Felicidade não pula janela: temos que abrir as portas para ela entrar.
Agosto no Cio
Nuvens vermelhas flutuam baixo. As circunstâncias atmosféricas do mês de agosto facilitam sua formação em níveis vulneráveis à sensualidade humana, absorvendo as gotículas de sangue lançadas ao ar enquanto vociferamos nossos temores, nossas aflições, paixões, fúrias e desejos, sangrando como fêmeas férteis cujos óvulos não foram fecundados.
Noites longas, frias e densas. Eis nossos corpos envoltos pela nebulosa encarniçada: entramos no cio e a grande fera sopra seu vapor sanguinário no deserto.,
Hei, Senhor Lupino! Abandone seu covil e venha me pegar!
[...]
Sinto seu hálito, seus beijos, sua língua úmida descendo por meu pescoço, minhas costas, meus seios, minha barriga, meu templo.
Gemidos, sussurros: a heresia de uma fase lunar personificada pela condensação de nossos instintos carnívoros.
Seus lábios macios sugam o fluido ferruginoso que verte de minhas nascentes em resposta à efervescência de suas carícias sinuosas.
Sua fera pulsa entre minhas coxas.
E eu sei: o Deus-homem nunca morreu.
O PAREDÃO MARIANO
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Os anjos libertadores,
incumbidos de trazer a chave da Sociedade Livre,
morreram todos no Paredão Mariano.
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Não me lembro se foram fuzilados,
se fluíram por um corte na garganta,
ou se alguns morreram de gripe...
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O que sei é que sua marca ficou nos muros
que foram pichados pelas cidades
de países passados e futuros.
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Os anjos libertadores
morreram por uma venda
no Paredão Mariano.
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O Paredão Mariano não existe.
Sua pedra e sua largura
são por conta da imaginação do poeta;
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mas sua imagem me veio tão nítida,
como se fosse o sonho de um pesadelo vivo,
que herdei o desespero dos condenados.
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O Paredão Mariano:
a dureza das suas paredes frias
... o horizonte de metralhadoras e fuzis
prestes a roubar a vida.
..
O Paredão Mariano não existe:
sua pedra e sua largura
são ficções de um poeta louco.
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Não há registro histórico;
mas seus olhos me gritam tanto,
e sonhar é tão pouco...
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O que foi feito dos anjos libertadores
diante do horizonte de metralhadoras?
Em forma de brilhos, terão sobrevivido?
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Será que, em música, foram convertidos,
e hoje trilham no céu noturno
o leite alegre das estrelas?
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E o Paredão Mariano, que não existe?
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Existirá, por ventura,
em algum ponto da memória
de futuros torturadores?
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[BARROS, José D'Assunção. Sintonia Fina, 2022]]
TRISTEZA MARAVILHOSA
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Rio de Janeiro,
sob teu corpo de concreto
teu santo padroeiro
dorme, como um feto.
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Ainda não nasceu, teu santo,
ainda é cedo para o milagre;
e a lágrima doce do teu pranto
não é vinho, é só vinagre.
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Baía de Guanabara,
como mente o teu postal.
Vejo fome em pau-de-arara
sob a camada social.
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Queria entender teu segredo,
tua miséria, tua mentira;
mas o que vejo é o degredo
que escapa da tua mira.
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Seres humanos migratórios
compelidos à mudança
cujos mortos compulsórios
são produtos da esperança.
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Rio, Deus te abençoe,
e do alto do Corcovado
em pedra o Cristo nos perdoe
por teu índio dizimado.
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Cidade Maravilhosa,
herança dos guaranis...
na tua culpa misteriosa
guarda a lembrança dos brasis.
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Rio, cidade poesia,
olha teu negro na construção;
não lhe conceda alforria:
tu és a própria escravidão.
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Rio, alguém que tardia
espreita em teu carnaval;
sobre a tua fantasia
jaz a beleza de um postal.
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Rio de Janeiro,
teu caminho não é reto;
ao sul do teu cruzeiro,
um voto vira um veto.
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Ainda não nasceu teu quebranto,
ainda é cedo para o céu;
e a cachaça do pai de santo,
não é néctar, é só mel.
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[BARROS, José D'Assunção. Publicado na revista Insurgência, 2023]
MISTÉRIO DAS ESTRELAS
Se há mistério no mundo,
digo-lhe às estrelas,
que se mostram e se escondem.
Correm elas da alegria justa e
se entregam as tristezas vãs.
Ah quanto mistério, carregam as
estrelas... Ardem ao desprezo
e se enturvam ao regozijo verdadeiro.
De todo modo aos astros não se impõe regras, pois preferível
a liberdade é, de quem vai e vem. Do que se pode e do que se tem,
restam apenas o mistério da vida, qual se carrega alguém.
Título: Eco sem nome
Estava indo tudo bem, até que…começou a tocar essa música
Minha voz foi cortada pelo silêncio
Apenas um instrumental repleto de sentimento.
E eu celebrei a nostalgia, como se nunca a tivesse vivido, não prometendo algo a mim mesmo,
Mas, rasgando-me no deserto das horas
(silenciosas)
Busco a não paz, o eco da saudade que se faz e desfaz.
Porque relembrando o momento cotidiano da minha criança interior,
Revivi várias promessas,
que eu negociei com penhor.
As forças de um pescador
Não eram as de um sujeito qualquer,
Eram as forças de um senhor, as memórias de um baiano,
Que se dizia meu avô.
Isso é excentricidade dos poetas.
É o eixo do corpo carregado de nostalgia e constância de alma,
É o pulsar de um coração de areia,
Levado pelo vento, levado pela força espiritual,
E isso talvez seja o caso, pois o ontem é um fantasma sem nome.
Mas o fantasma não é invisível?
É sim por isso mesmo que fica no coração.
Exceto se você for uma sombra do dia anterior,
Uma miragem a ser temida, mas nunca tocada.
O que me importa, é ser uma versão diferente de mim mesmo,
Assim como no espelho quebrado do agora,
Que mesmo fragmentado mostra como eu sou.
Estava indo tudo bem, até que…
Começou a tocar essa música de novo
Domingo à noite
São meios de encarar essa escuridão
ZZZ então surge Zollim, Zollim é a voz do coração
Zollim é sentimento, Zollim é a melodia única,
Que diz sobre a emoção
Que celebra o movimento,
Que celebra o invisível ao palpável,
Transformando sombras em saudades,
E a ansiedade do domingo, em uma obra-prima.
O REFUGIADO A NADO
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O sal das lágrimas
misturava-se ao das águas:
só queria vida, só queria um chão.
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Mas encontrou as armas, nas mãos de um guarda.
Encontrou o exército, de todos os países do mundo,
e a serviço de todas as burocracias do Universo.
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Ele pedia um lugar, e implorava pão;
mas encontrou um muro,
para além dos muros
(não bastassem as águas
contra as quais nadava).
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O Refugiado a Nado
construiu seu escafandro
com garrafas e boias de plástico.
Conseguiu quebrar a violência das ondas...
Mas não conseguiu derreter o coração das autoridades.
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Duros, e como a um peixe, devolveram-no ao mar
– ao mar da morte, e da vida em morte –:
ao mar cinza dos apátridas
a quem não se quer.
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Devolveram-no
– ao Refugiado a Nado –,
como se nunca o tivessem recebido.
Entregaram-no àquela vasta extensão de oceano
– desoladora, fria, e muito mais implacável –
para além do Mediterrâneo,
e de todos os mares:
para aquém da Terra.
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Depois que ele se foi,
como se não tivesse chegado,
rasgaram sua presença como uma foto incômoda.
No fim, os noticiários o deglutiram ao avesso
como uma fome indigesta...
qual mera curiosidade
para sessão da tarde
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[BARROS, José D'Assunção. Publicado na revista Crioula, nª31, 2023]
PEIXE NO AQUÁRIO
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Um peixe no aquário
é um peixe-encerrado,
é um peixe-impedido,
é um peixe-cercado
por todos os lados.
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Um peixe levado
para um aquário maior,
ainda assim é um peixe
neste aquário maior.
E se lhe dermos uma represa
com proporções oceânicas,
teremos agora um peixe
no aquário da Terra.
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Ah... cruel infelicidade aquática!
Um peixe, onde for que esteja,
depara-se com seus limites,
defronta-se com a sua parede,
debate-se... contra o seu vidro.
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[BARROS, José D'Assunção. Publicado na revista Poetizar, vol.1, nª5, 2024]
A BOMBA
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Despencou sobre a vida
com suas inúmeras ogivas.
Europeia, era russo-americana.
Como cobra, vinha em fila indiana,
paquistanesa, chinesa, inglesa, coreana!
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A Bomba... era apátrida,
e julgava-se democrática
ao cair sobre os viventes.
Não quis poupar formigas,
bactérias, fungos ou entes
(muito menos os humanos
escondidos qual toupeiras
nos abrigos tão dementes).
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A Bomba... destruiu a Vida.
Não deixou célula sobre pedra,
extinguiu o único grão de milagre
nascido em um universo improvável.
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A Bomba... traz-me pesadelos à noite,
como este, que me assombrou há pouco.
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[BARROS, José D'Assunção. Publicado na revista Intransitiva, vol.6, nº1. 2022]
PREMONIÇÃO
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Em um dia de meio dia,
meus olhos, somente os olhos,
tiveram uma visão.
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Lembro-me que a luz me doía
como uma ponta de sabre
no corpo do coração.
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Lembro-me, sem muito assombro,
que tudo quedava incompleto,
como se as luzes buscassem em vão
o preenchimento das coisas.
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Na sintonia das imagens
dissecavam-se as paisagens
sem mistificação:
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Não obstante o colorido,
ficavam os homens repartidos
como se feitos de pão.
A uns: o ouro e a prata;
a outros: a fome e a crença;
a esses: a esperança;
para aqueles: quitutes em lata.
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Tanto sol doía
nos ombros da nação
(talvez não houvesse justiça
em sua distribuição).
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E talvez por ser evidente,
ficavam doídas e claras
as sombras dos coqueiros.
Ali, onde outrora era verde
espreitam crianças no desamparo.
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Desamparadas, porém livres,
querem construir a nação
– mas faltam-lhe os instrumentos:
os braços, e as mãos...
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Igualmente iluminados,
os andarilhos nas estradas:
pés descalços, chapéus de palha,
– ou capacetes e mãos de graxa –.
Todos, embora cansados,
querendo correr o chão.
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Mas falta-lhes segmento:
as pernas da multidão.
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Arre!
Tanto sol
arde como uma tarde
de Verão...
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BARROS, José D'Assunção. Publicado na revista Insurgências, 2024]
O ANJO
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Enquanto bebia seus drinques, um antes do outro,
começaram a lhe crescer asas cada vez maiores:
bem desenhadas, cheirosas... brancas e polidas.
O sorriso verteu-se puro, sincero, acolhedor.
Falava agora a deliciosa língua dos anjos
com suas palavras estranhas e belas
a soar qual música nos ouvintes
e a reluzir como imagens
no pleno espaço.
Puro êxtase
profano
e sacro
de quem via.
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As cores do paraíso a ele se abriram, como se misturadas em um crisol.
A inteligência, não mais em greve, discorria sobre todos os arranjos:
cinema, viagens, lares e lugares... filosofia, arte, sabores e amores.
Com a luz que de si emana... contava piadas de cair o siso!
Iluminava, fundo e profundo, as jovens rosas no gineceu...
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Até que a noite, por fim, se pôs... cedendo caminho ao sol.
O sono chegou leve, pois Deus viera buscar seus anjos
espalhados pelos bares, festas e casas de flores...
Fechou cada pestana, junto ao sutil sorriso.
Depois, na paz do mundo, adormeceu.
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Na tarde seguinte, ao despertar,
as asas tinham regredido.
Transfiguraram-se
em uma ressaca
confusa e cinza.
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BARROS, José D'Assunção. Publicado na revista Ipotesi, 2023]
MEDO DE TIGRE-ARANHA
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Tinha um medo crônico de tigres.
Podia ser até mesmo dos que estão nos filmes
enjaulados dentro de uma intransponível tela de Cinema
e incapazes de saltar para a nossa dimensão.
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Se vislumbrava um cartaz de propaganda
estampado com uma só destas feras,
ali mesmo deixava litros de medo
escorrerem por entre as pernas.
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O medo de tigres fora o companheiro
de toda a sua vida.
Desde a mais tenra infância
chorava ao ver desenhos de tigrinhos
nos pijamas e invólucros de refrigerantes.
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Isso tudo, apesar
de não haver tigres em seu continente,
e de sua pequena cidade jamais ter sido visitada
nem mesmo por um velho tigre desdentado,
protegido pela jaula de um circo.
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Tigres...
Esse pânico o acompanhou sempre
a cada dia, a cada instante de sua vida.
Foi a psicólogos caros, mas sem resultados.
Lá estavam, no fundo, sempre os mesmos tigres...
Espreitando, ferozes e listrados, no covil do inconsciente.
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[BARROS, José D’Assunção. Publicado na revista Simbiótica, 2023]
Se um dia eu alcançar a perfeição de algo que faço, logo,
deixarei de fazer.
Alcançar o limite,
lhe cria um teto;
limita o homem.
E não quero nada que impeça de chover sob minha cabeça.
Carta para a ''Garota de bom gosto''
Entre os três acordes que aprendi
Encontrei um conforto maligno
Que aquele pouco já bastava
E mesmo com esse aconchego
Tenho o desejo
De não sentir essa angústia
A distância que me separa da "garota de bom gosto"
Que em seu repertório de memórias
Esteja pelo menos a minha voz
Para que ela me reconheça
Sem nem ter visto essa figura que sou
E nesse dia talvez
Eu tenha nos dedos aqueles versos que tanto...
Ama.
Ressignificar
No fundo do poço, onde a luz se esconde,
onde os dias são sombras e o silêncio responde,
há um chão que parece fim, o último passo,
mas nele, começa a força, o abraço.
Caída ali, conheço as rachaduras,
as que vêm de fora, as que vêm de dentro.
Sou tudo que quebrou, que a dor revelou,
mas sou também a que, ferida, se levantou.
Aprendo a olhar o escuro sem medo,
a ver que do fundo renasce um enredo.
O peso vira impulso, o breu vira abrigo,
e eu, que me vi perdida, torno-me amiga.
Ressignificar é dar cor ao vazio,
é fazer do cansaço um novo pavio.
É saber que as quedas são caminhos, não perdas,
e que de todo o fim nasce a esperança das veredas.
Então subo, devagar, mas inteira,
um novo olhar, sem pressa, verdadeira.
Do fundo do poço, recrio a saída,
e transformo em luz o sentido da vida.
Em meio à devaneios, minha alma pôde descansar em uma praia de ventos álgidos que faziam do meu sangue, gelo.
Meus pés puderam passear pela areia quente e solitária, não havia ninguém ao meu lado.
Era um privilégio escutar a canção das ondas, era um privilégio a ausência de voz que não fosse a minha.
A boa solidão, como eu digo, é um privilégio.
Carta de redenção
Dizem que nenhum homem pode se arrepender de seus pecados
E continuar como se não houvesse acontecido nada
Mas as coisas que ouço são diferentes
E sei que no fundo serve apenas para me lembrar
Que cada um terá seu dia, de glória ou julgamento
Percebo que os espíritos me intoxicam.
Observo-os infiltrarem-se em minha alma sem sucesso
Eles tentam dizer que é tarde demais para mim
Mas sei que todos acreditam que esse é o sinal
De que estou voltando para casa...
Eu juro que vou viver para sempre
Digam ao meu criador que ele pode esperar
Estou cavalgando em vida, para algum lugar ao sul do Céu
Talvez em busca de redenção.
É dia de julgamento lá em casa, por isso volto...
Uma vez me prometeram absolvição
Mas sei que no fundo há somente uma solução para os meus pecados.
Tenho que encarar meus fantasmas
E saber sem nenhuma ilusão
Que somente um de nós vai para casa de novo
E eu culpo este mundo
Por tornar-me um homem pecador, sendo eu um homem bom
Se o demônio fizer o que quiser
Vou acabar entrando no Céu
Por que este mundo é o culpado por me fazer um pecador
Mas juro que vou viver para sempre
Depois que voltar para casa
Por que tenho dívidas a pagar e um julgamento marcado lá em casa.
Peço ao Senhor, tenha misericórdia
E guardo uma prece nessa carta para quando mais precisar dela.
Para o Pai, Filho e o Espírito Santo
E a assino, PECADOR, Sem nome.
Quando eu encontrar meu criador
Será que ele fechará o livro dos corações que parti?
Ou será que ele irá embora e me deixará viver para sempre?
Quem ler amiúdemente essa carta assim, pode até parecer que é uma carta de redenção.
Mas na verdade é o primeiro passo para a transcendência.
Pecador, sem nome(Edgi Carvalho).
