Poemas Melancólicos
Melancólico
Eu tenho um gosto meio cinza
ando zonza e enjoada.
As vezes escolho ser como as nuvens
ninguém as sente, mas podemos vê-las
e assim, sou eu
Vazia, mas muito densa
as vezes transbordamos e os outros
fazemos sofrer
Mas outras vezes abrimos caminhos
até tarde, ao escurecer.
Então volto a lhe dizer,
ainda sou bastante cinza, e mesmo assim
tem dias que não faço chover.
Queria ser, às vezes
um pouco azul
talvez roxo,
amarelo
e até vermelho.
Mas continuo sendo
Cinza.
Quando eu esqueço de me escolher
Hoje, a melancolia chegou sem pedir licença.
Talvez porque, mais uma vez, eu tenha percebido o quanto consigo dar importância a pessoas que, tantas vezes, só me procuram quando precisam de um lugar para despejar os próprios vazios. E o que mais dói não é não saber. É saber de tudo e, ainda assim, abrir a porta.
Se fosse qualquer outra pessoa, eu já teria ido embora há muito tempo. Eu sei partir. Sei fechar ciclos. Sei me proteger.
Mas com ela, alguma coisa em mim desaprende.
Não sei explicar o que existe entre nós. Só sei que, quando ela se aproxima, minhas defesas silenciam. Eu fico vulnerável, esqueço das cicatrizes e me entrego como quem ainda acredita que, desta vez, talvez seja diferente.
E então tudo se repete.
Eu perdoo o que me feriu, abraço o que me faltou, aceito migalhas como se fossem banquetes e chamo de esperança aquilo que tantas vezes já me provou ser ausência.
Talvez minha maior frustração nem seja o que ela faz comigo.
Talvez seja perceber o quanto eu me abandono quando se trata dela.
Porque eu sei que mereço mais. Sei que deveria escolher a mim mesma. Sei exatamente onde esse caminho termina.
Ainda assim, existe uma parte de mim que continua voltando.
Como quem conhece o abismo pelo nome, sabe a profundidade da queda, lembra de todas as vezes em que se machucou...
e, mesmo assim, caminha até a beira outra vez.
Talvez o amor mais difícil de aprender seja aquele que começa quando finalmente decidimos não nos perder de nós mesmos para permanecer na vida de alguém.
Oh, grande melancolia
Tão suave e avassaladora
Minha alma grita desesperadamente
Por seu abraço inexistente.
Oh, bela vida
Tú és a arte guiada pela existência
Onde encontro a insignificância!
Oh, grandioso tempo imparável
Tú és tão silencioso e inalcançável...
Em meu rosto, chuvas de meteoros atlânticos caem incessantes,
Com vossas águas salgadas e incansáveis.
Em meu coração, ele pede por paz
Mas eu lhe dou a solidão com vista ao abismo.
Em uma varanda, observando o mar e o pôr do sol,
Sentindo-se a euforia e a paz reinando em minha alma.
Numa profundidade assombrosa, mas viva e única.
Em uma alma perdida, encontrei a direção até o sol.
Lá avistei a metade que me faltava, que eras tú:
Felicidade!
A melancolia é o eco silencioso das histórias que nossa alma esqueceu de contar — e que insiste em sussurrar nas noites vazias.
EduardoSantiago
Não posso sucumbir à melancolia — esse monstro noturno que nos vigia sem descanso, esperando o mínimo gesto de fraqueza para invadir o que ainda resta inteiro em nós. Sei que ele ronda. Sei que respira atrás de mim quando caminho pela casa silenciosa. Mas não lhe devo reverência. A melancolia exige joelhos; eu ofereço coluna.
E há dias em que o desespero se insinua no corpo como febre: o amanhã se esconde, o dia seguinte perde o rosto, a existência inteira parece um quarto escuro. Mas sigo. Não por esperança — essa palavra envernizada — mas por teimosia. Por força. Por desafio. O futuro não precisa prometer nada para que eu avance. Basta que exista.
Poeta ou homem comum, não importa: todos carregamos a mesma condenação. A consciência — essa lâmina autônoma que nos enfrenta sem pedido, sem permissão, sem dó. Ela não nos observa: nos disseca. E cobra de nós o sentido que nunca lhe devemos.
Ela pergunta, com insolência: por que continuar? Onde repousa a coragem humana? O que sustenta o passo no meio do caos?
E a resposta não está no conforto, nem na fé, nem em algum alicerce secreto. Está no movimento. Na recusa em tombar. No ato bruto e insubordinado de permanecer, mesmo quando nada, absolutamente nada, garante o chão.
O caos é vasto. A consciência é cruel.
Ainda assim, eu existo.
Isso basta. Isso é tudo.
A melancolia dispõe de mecanismos únicos que nos permitem uma compreensão maior de quem somos e do que sentimos.
E, por menos vibrante que esse humor pareça, ele entrega uma quota valiosa de contribuição na sociedade.
Basta pensar o que seria da Grécia sem Homero, da Inglaterra sem Shakespeare ou do Brasil sem Guimarães Rosa?
Por isso, há que se valorizar os autores que, corajosamente, se dedicaram a explorar mais a fundo o fator humano.
Essas narrações são pedaços genéticos da constituição da sociedade ao longo do trânsito humano.
Assim, é admirável ver o poder da ficção que se origina do nosso impulso cognitivo.
O estado melancólico nos transporta para um lugar diferente:
É um lugar que é mais propenso às meditações íntimas.
Durante a experiência melancólica, realizamos um mergulho mais profundo.
Nele, somos capazes de acessar substratos que somente se encontram nessas regiões.
Os resíduos que são encontrados neste estado são as pulsões mais significativas que temos em nosso interior.
Na travessia dos humores, a representante da bile negra, a melancolia, é forte canalizadora de inspiração literária ao longo da história.
Padecimento após uma perda. Nostalgia dilacerante. Lamento sobre uma má sorte. Desencanto persistente.
São muitas manifestações possíveis...
A melancolia dos disfarces.
O mundo romântico,
Onde o baile é de máscaras,
E o sorriso, uma imposição.
A tristeza dança
No silêncio do coração,
Fantasiada
De uma utópica alegria.
A melancolia não deve ser vista como uma sombra que nos persegue, mas como a penumbra necessária para que as luzes da alma brilhem. Sem o contraste do escuro, a claridade da nossa própria resiliência se tornaria cega e sem profundidade alguma para o olhar atento. É no tom menor da existência que as lições mais cruas e honestas são sussurradas ao ouvido de quem tem coragem de ouvir. Aceite a sua tristeza como uma mestra rigorosa que te prepara para os grandes palcos da vida eterna.
- Tiago Scheimann
O amor é como as Gymnopédies de Erik Satie: Uma repetição hipnótica de melancolia e paz, onde o vazio entre as notas diz mais que o som. Amar exige a coragem de ser vulnerável em um mundo que idolatra a frieza e o descarte imediato das emoções. É aceitar que a tristeza faz parte do arranjo, e que sem o grave, o agudo não teria onde se apoiar para brilhar. Que o seu afeto seja profundo o suficiente para não temer o silêncio do outro.
- Tiago Scheimann
No início, percebi um tom melancólico, um sentimento bastante solitário, mas aos poucos, veio uma sensação muito elegante, indispensável, o ânimo ressurgindo ainda mais forte, na companhia agradável da própria solitude, uma mudança saudável
Cena entusiasmante que eu pude imaginar depois de refletir por alguns instantes sobre uma música linda, profunda, simples, emocionante, expressada com muita maestria, uma mensagem interessante sem palavras, uma rica melodia impactante
Desta provocação sonora tão cativante, usei esta minha reflexão poética em resposta, que me fez concluir que estava ouvindo o processo significante de uma resiliência, a chegada de uma metamorfose exuberante, que compensou toda a espera.
Compêndio de Chuva
Cai a chuva, melancólica e lenta, como um grito que o tempo inventa.
Em cada gota, um som, um tom, que o vento leva — e traz o teu batom.
O teu rosto vem, em bruma e luz, como se o céu em ti se traduz.
Enquanto o mundo se desfaz em água, o meu peito arde, embora os meus olhosse alaguem em frágua. O teu toque é sinfonia de chuva,
que compõe a minha alma, e acende lua turva . E eu, perdido entre trovões eos relâmpagos do meu silêncio, encontro-te em cada canto da minha pele em compêndio.
Que chova, amor — que o mundo escorra, que o tempo pare, nesta dor de masmorra. Pois se é na chuva que te penso e vejo, então que chova, só para te ter no beijo.Chove, e o meu mundo sopra o teu véu, as ruas das minhas veias choram sob o cinza do céu. No vidro, escorre o teu nome, lento, feito melodia, feito tormento.
Melancolia da Alvorada
"E nesta solitude vazia, interrogo-me se a paz do silêncio supera a sinfonia de violinos ao amanhecer, tempo em que o espectro sob
os lençóis simulava o sono.
Afinal, qual o tributo de me manter inabalável, vertendo sangueante os espinhos de um jardim desprovido de rosas e um deserto
de fantasmas?"
Jorge B Silva
Tua ausência tornou-se o compasso vazio dos meus dias. Há uma melancolia profunda em redescobrir o mundo sem o brilho do teu olhar para iluminar os pequenos detalhes que só nós sabíamos decifrar. Dizem que o tempo cura todas as feridas, mas, para mim, ele tem sido apenas um relógio parado — um eterno inverno que se instalou desde que nossos caminhos se desencontraram.
Sinto uma saudade latente da simplicidade de sermos, apenas, um só coração. Daquela época em que a nossa maior promessa era o próximo encontro e o meu tesouro mais sagrado era o som da tua risada, que ecoava como música em minha alma. Perdi-me em labirintos de palavras não ditas e em gestos que o orgulho ou o medo adiaram. Hoje, com a clareza que só a saudade traz, percebo que, no afã de viver a vida, esqueci que o meu mundo só possui sentido pleno quando está ancorado no teu porto seguro.
Não te peço que apagues as cicatrizes ou esqueças as dores, pois elas também narram a nossa história. Peço apenas que permitas que a ternura prevaleça. Lembra-te do toque que desarmava qualquer tempestade e daquela conexão que parecia ter sido escrita nas estrelas, muito antes de os nossos corações aprenderem a bater.
Se ainda restar, nas profundezas da tua alma, um pequeno refúgio guardado para o que fomos, deixa-me provar que podemos ser ainda mais. Não desejo voltar para o mesmo lugar de antes, mas sim construir um novo destino, como alguém que finalmente compreendeu o valor inestimável do que possuía e que hoje está pronto para lapidar esse sentimento como o mais raro e precioso dos cristais.
O meu coração, teimoso e eternamente fiel, ainda pulsa no ritmo do teu nome. Estarei aqui, no nosso cais particular, observando o horizonte e esperando para ver se o vento, em um sopro de misericórdia, decide trazer-te finalmente de volta para casa.
Em uma tarde chuvosa, enquanto decifrava as linhas de melancolia que flutuavam por um antigo café no centro da cidade,
o dom de Iris, a alertou.
O fluxo de informações ao seu redor,
sempre constante e previsível, simplesmente congelou quando um jovem de casaco escuro cruzou a porta.
Ao olhar para ele, Iris não viu as correntes de luz habituais.
Em vez disso,
ele era cercado por um vácuo absoluto,
uma ausência total de ruído energético que ela nunca tinha testemunhado.
Quando seus olhos se cruzaram,
o rapaz paralisou.
Ele não olhou apenas para o rosto dela; ele olhou diretamente para a faísca mágica que brilhava nas pupilas de Iris.
Você também consegue ver as engrenagens do mundo, não é?
Ele perguntou, aproximando-se a passos lentos e firmes.
O nome dele era Emanoel.
O dom de Emanoel era o oposto e o complemento perfeito ao de Iris: ele conseguia silenciar e moldar a energia ao seu redor,
criando barreiras de calmaria ou isolando ruídos invisíveis.
Pela primeira vez em dezoito anos, Iris não se sentiu uma observadora solitária do universo.
Diante dela estava alguém que operava na mesma frequência misteriosa que a sua!
Jogo de azar
Era doce a maneira de como ela via o amor. Para ela a melancolia era uma palavra bonita, uma forma romântica de ficar triste. Tanto quanto a solidão e a ingratidão. Palavras que já conhecia muito bem. O tempo a tranquilizava, dava uma certa paz. Ela sempre soube que o amor era um jogo de azar, nunca apostou nele . Apenas o amor não realizado poderia ser considerado como romântico e belo. Ela vivia aquele amor, sem jamais ter a pretensão de receber algo em troca, da pequena janela branca via a vida passar admirando a distancia. Com brilho nos olhos, um livro na mão e o cigarro na boca, ela seguia.
E a vida?
A vida era uma longa e surpreendente aventura do qual ela jamais desperdiçou.
