Daniel Avancini

Encontrados 9 pensamentos de Daniel Avancini

O incerto sempre é certo.
Não temos domínio do depois.
A cada segundo, vivemos um milagre.


A insegurança bate forte.
A pressão imposta.
A necessidade do imediato.
Tudo satura, desgasta.


Só nos resta viver
Ou sobreviver,
Um dia de cada vez,
Pois é o que temos.


Não há momento ideal.
O amor não é um mar de rosas.
Amizades podem ser passageiras.


E nós, passageiros de um tempo sem regresso,
Desenhamos caminhos sobre o desconhecido.
Nenhum destino nos pertence por inteiro,
Nem o mundo obedece à nossa vontade.


E, enquanto esperamos a certeza de um porto,
A vida segue, indiferente à nossa espera.
Talvez o maior naufrágio
Seja nunca ter partido.

A melancolia dos disfarces.


O mundo romântico,
Onde o baile é de máscaras,
E o sorriso, uma imposição.


A tristeza dança
No silêncio do coração,
Fantasiada
De uma utópica alegria.

Um menino inocente
Habita um jardim vazio.
O sol já não brilha,
E as estrelas perderam sua luz.


O vento sopra mansamente,
Acariciando os cachos do menino,
Enquanto o silêncio repousa
Sobre aquilo que um dia floresceu.


Mas, em seus olhos,
Ainda amanhece.
E o jardim, esquecido pelo mundo,
Desconhece a luz que abriga.


Talvez o menino não saiba
Da escuridão que o cerca.
Talvez a chama que carrega
Seja a última a se apagar.

O caos tardou,
Mas encontrou o caminho de volta.
Chegou sem aviso,
Desfez minhas certezas
E me deixou à deriva.


Ao longe, uma luz.
Caminhei em sua direção,
Arrastando um corpo exausto,
Com os pés marcados
Por caminhos que já não recordava.


Até que avistei você.


Algo em mim despertou.
O peso dos passos diminuiu,
E a esperança, há tanto esquecida,
Fez-me acreditar no resgate.


Continuei.
A cada passo, a luz crescia.
Meus olhos, desacostumados,
Ardiam diante da claridade.
Já não sabia se caminhava
Em direção à saída
Ou apenas ao seu encontro.


Quando enfim pude enxergar,
O túnel terminava.
Você não estava lá.


E percebi que, durante a travessia,
Acreditando seguir seus passos,
Havia caminhado sozinho.


Você era apenas uma miragem.


Mas obrigado.

Toboágua


E assim vivemos,


E
S
C
O
R
R
E
G
A
N
D
O


Pelas curvas do destino,
Entre quedas e desvios,
Sem saber o que nos espera.


A correnteza nos arrasta,
O tempo nos atravessa,
E, quanto mais tentamos frear,
Mais depressa descemos.


Até que, de repente,
Nos descobrimos...




S
E
M




R
U
M
O


Em um caminho
Que já sabia aonde chegar.

Inserida por DanielAvancini

Toboágua


E assim vivemos,


ESCORREGANDO


Pelas curvas do destino,
Entre quedas e desvios,
Sem saber o que nos espera.


A correnteza nos arrasta,
O tempo nos atravessa,
E, quanto mais tentamos frear,
Mais depressa descemos.


Até que, de repente,
Nos descobrimos...


SEM RUMO


Em um caminho
Que já sabia aonde chegar.

Habitar-se é um tipo de exílio sagrado!


Minha infância era um espelho embaçado, onde ninguém parecia me reconhecer. E, por muito tempo, tampouco soube distinguir meu rosto daquilo que esperavam de mim.


Cresci tentando compreender por que o mundo parecia tão distante, por que havia tanto de mim que não encontrava lugar nos outros. Às vezes, sequer em mim mesmo.


Havia uma solidão que me acompanhava, mesmo quando eu não estava sozinho. Uma antiga sensação de desencontro, de estar presente sem necessariamente pertencer.


Ainda assim, sempre que alguém cruzava meu caminho, eu me doava inteiro, sem hesitar.


Entregava o que em mim era força, o que era luz, e até aquilo que eu sabia que me faria falta depois.


Amar, mesmo em ruínas, sempre me pareceu uma forma sincera de tocar a vida que tanto almejo.


E, por um instante, eu me permitia viver aquela realidade sonhada. A presença bastava, e o agora parecia conter tudo aquilo que eu havia esperado.


Mas, depois do inevitável “até logo”, a maré me devolvia à margem de mim.


Ali, onde já não havia ninguém a quem oferecer minha inteireza, eu reencontrava as partes que havia deixado para depois.


As ausências antes negligenciadas, os sentimentos que havia silenciado e as perguntas que permaneciam mesmo depois de todas as despedidas.


Tentava compreender, reconstruir, encontrar algum sentido naquilo que repetidas vezes me escapava.


Parecia inútil. Às vezes, era mesmo.


Houve dias em que viver foi apenas sobreviver. Dias em que a própria existência pesava e nenhuma explicação parecia suficiente para tornar a dor mais suportável.


Ainda assim, nunca deixei de desejar a vida por inteiro.


Ainda creio na beleza dos dias, embora nem sempre consiga encontrá-la. Houve dias que apenas aconteceram. E outros dos quais trouxe somente a consciência de ter conseguido atravessá-los.


Foi preciso tempo para compreender que nem toda dor traz um ensinamento e que minhas feridas não precisam de justificativas para merecer cuidado.


Penso, então, no kintsugi.


Na delicadeza de recolher os fragmentos, na paciência e na precisão de cada encaixe, no ouro que acompanha as rachaduras sem apagar as marcas da ruptura.


Por muito tempo, acreditei que precisava reparar tudo aquilo que havia se partido em mim. Que somente depois de inteiro poderia finalmente viver bem.


Hoje, acolho meus cacos com reverência.


Há partes que ainda compreendo pouco, outras que já não desejo recuperar. Há marcas que permanecem dolorosas e algumas que o tempo tornou familiares.


Nem todas precisam se transformar em beleza. Nem toda perda precisa encontrar um propósito. E nenhuma das minhas feridas, por mais profundas que sejam, contém a totalidade do que sou.


Há muito de mim que existia antes delas. Há muito que nasceu depois. E há, sobretudo, aquilo que ainda desconheço.

Talvez habitar-se seja também
renunciar à necessidade
de encontrar uma versão definitiva de si.


Permitir-me mudar,
desconhecer-me por vezes,
reconhecer minhas próprias contradições
sem transformá-las em condenação.


Por tanto tempo procurei nos outros
um lugar onde pudesse pertencer
que, às vezes, me esqueci
de permanecer comigo.


Confundi a entrega com a permanência,
a presença com a segurança
e o desejo de ser amado
com a necessidade de ser reconhecido.


Hoje, começo a compreender
que nem todo encontro será abrigo,
nem toda despedida será abandono.
Há quem permaneça por uma vida e quem, por um instante, nos revele algo que desconhecíamos em nós.


E, quando o mundo se tornar distante,
quando os encontros terminarem
e a maré novamente me trouxer à margem,
quero encontrar em mim
um lugar onde seja possível permanecer.


Quero aprender a estar sozinho
sem fazer da solidão uma sentença.
A reconhecer minhas ausências
sem procurar em cada presença
alguém que possa preenchê-las.


Sei que ainda haverá dias
em que desejarei fugir de mim.
Dias em que antigas feridas
voltarão a exigir atenção
e em que o passado parecerá
mais próximo do que realmente está.


Nesses dias,
quero me conceder a mesma delicadeza
que tantas vezes ofereci aos outros.


Sem a necessidade de respostas imediatas,
sem transformar cada recaída
em fracasso definitivo,
sem esperar que todas as minhas partes
estejam finalmente resolvidas
para me permitir viver.


É na intimidade do que fui
e na incerteza do que ainda serei
que continuo a me reconstruir.

A arte de permanecer


Algumas rachaduras permanecerão visíveis.
Outras talvez nunca recebam ouro.
E haverá fragmentos que já não encontrarão seu antigo lugar.


Ainda assim,
não preciso recuperar todas as partes
para reconhecer aquilo que permanece.


Talvez o verdadeiro pertencimento comece
quando já não preciso me abandonar
para caber na expectativa de alguém.


E talvez, um dia,
diante do meu próprio reflexo,
eu reconheça meu rosto,
ainda que não o compreenda por inteiro.


Sem procurar nele
a criança que deveria ter sido,
o homem que esperavam que eu fosse
ou a promessa de alguém
que ainda não me tornei.


Apenas eu.


Com tudo aquilo que fui,
o que consegui preservar
e o que ainda me permitirei descobrir.


E, pela primeira vez,
talvez eu não precise partir.