Pensamentos de Clarice Lispector
Abro o jogo. Só não conto os fatos de minha vida: sou secreta por natureza.
E, se você me achar esquisita, respeite também.
Até eu fui obrigada a me respeitar.
Outro sinal de se estar em caminho certo é o de não ficar aflita por não entender; a atitude deve ser: não se perde por esperar, não se perde por não entender.
Nota: Trecho da crônica Brincar de pensar.
...MaisO mal é que a minha esperança ou é inexistente ou forte demais – esperança forte demais é “infantil”.
Nota: Trecho de carta a Fernanda Sabino, de 24 de janeiro de 1957.
...MaisSua coragem é a de, não se conhecendo, no entanto prosseguir. É fatal não se conhecer, e não se conhecer exige coragem. [...] O caminho lento aumenta sua coragem secreta.
Nota: Trecho do conto As águas do mundo.
...MaisEu antes tinha querido ser os outros para conhecer o que não era eu. Entendi então que eu já tinha sido os outros e isso era fácil. Minha experiência maior seria ser o âmago dos outros: e o âmago dos outros era eu.
Mas a nostalgia do presente. O aprendizado da paciência, o juramento da espera. Do qual talvez não soubesse jamais se livrar.
Suponho que este tipo de sensibilidade, uma que não só se comove como por assim dizer pensa sem ser com a cabeça, suponho que seja um dom.
Nota: Trecho da crônica Sensibilidade inteligente.
...MaisEra muito impressionável e acreditava em tudo o que existia e no que não existia também. Mas não sabia enfeitar a realidade. Para ela a realidade era demais para ser acreditada. Aliás a palavra “realidade” não lhe dizia nada. Nem a mim, por Deus.
Deus, o que nos prometeis em troca de morrer? Pois o céu e o inferno nós já os conhecemos - cada um de nós em segredo quase de sonho já viveu um pouco do próprio apocalipse. E a própria morte.
Nota: Trecho da crônica Morte de uma baleia.
...MaisEsperar que algo amadureça é uma experiência sem par: como na criação artística em que se conta com o vagaroso trabalho do inconsciente.
Nota: Trecho da crônica Um reino cheio de mistério.
...MaisFaltava-lhe o jeito de se ajeitar. Só vagamente tomava conhecimento da espécie de ausência que tinha de si em si mesma.
Quem não é perdido não conhece a liberdade e não a ama.
E quando notou que aceitava em pleno o amor, sua alegria foi tão grande que o coração lhe batia por todo o corpo, parecia-lhe que mil corações batiam-lhe nas profundezas de sua pessoa.
Disso tudo, restam nervos muito sensíveis e uma predisposição séria para ficar calada. Mas aceito tanto agora. Nem sempre pacificamente, mas a atitude é de aceitar.
Nota: Trecho de carta para Fernando Sabino, escrita em 5 de outubro de 1953.
...MaisQuero exigentemente que acreditem em mim. Quero que acreditem em mim até quando minto.
Há muito aceitei o destino espaventado que é o meu. Obrigada. Muito obrigada, meu senhor. Vou embora: vou ao que é meu. Meu coração está gélido que nem barulhinho de gelo em copo de uísque.
Estou habituada a não considerar perigoso pensar. Penso e não me impressiono.
Nota: Trecho da crônica O caso da caneta de ouro.
...MaisEngoli com alguma dor meu orgulho que sempre fora feroz, e aceitei humilde o que o destino me dava de esmola.
Nota: Trecho do conto Restos do Carnaval.
...Mais– Se você não pudesse mais escrever você morreria?
– Eu acho que, quando não escrevo, estou morta. (...) É muito duro, esse período entre um trabalho e outro, e ao mesmo tempo é necessário para haver uma espécie de esvaziamento para poder nascer alguma outra coisa, se nascer. É tudo tão incerto…
