Ofício

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Carrego no peito o ofício da ternura,
nos gestos pequenos onde o tempo se curva.
Um café repartido, o silêncio de um olhar,
e uma vida inteira que cabe na palma da tua mão.

Teu abraço me veste de calma e chão,
nele sou menino, sou abrigo e sou raiz.
Na simplicidade clara do que é amor,
descubro em ti a morada do meu existir.

Há dias em que eu penso que viver é um ofício delicado.
Não um trabalho de esforço, mas de escuta.
A vida não se revela no barulho das conquistas, mas nas frestas pequenas do tempo —
num olhar demorado, no cheiro do café, num pôr do sol que insiste em ser bonito,
mesmo depois que tudo parece cansado demais.


A existência é uma travessia.
Nascemos com o coração limpo, e ao longo do caminho vamos colecionando memórias,
feridas, amores, ausências e fé.
É assim que a alma aprende a ter forma —
como um vaso moldado por tudo o que nos toca e, ao mesmo tempo, nos parte.


Há quem diga que o tempo cura.
Eu acho que ele apenas ensina.
Ensina que crescer é se despedir com mais ternura,
que envelhecer é aprender a deixar os dias passarem sem tanto medo de perdê-los,
porque o que realmente fica não é o que vivemos,
mas o modo como fomos tocados pelas coisas simples.


A efemeridade é uma professora exigente.
Ela sussurra, com voz mansa e firme: “Nada é para sempre, e é justamente por isso que vale.”
E então percebemos que o amor, a dor e a saudade são da mesma família —
todos nascem daquilo que um dia foi vivo e, por isso mesmo, nos deixou marcas.


Viver, no fundo, é aceitar ser passagem.
É entender que o corpo se cansa, mas a alma não.
A alma é o que sobra quando o tempo se recolhe —
é o que permanece quando tudo o que é visível já partiu.


Talvez o sentido da vida não esteja em buscá-lo,
mas em permitir que a vida nos encontre
nos instantes em que deixamos de correr atrás dela.

O exercício terapêutico é bastante gratificante, não obstante, pode ser por vezes um ofício incômodo, principalmente quando nos contam certas histórias tão semelhantes que permearam as nossas vidas.

⁠“No prelúdio de cada verso, reverberar o amor é ofício sagrado — mitigar dores com palavras é dom dos que transformam silêncios em luz, e saudade em esperança viva!” ©JoaoCarreiraPoeta.


Campinas, 13/12/2025.

⁠Dedicar-se a uma conversa é ofício de toda mulher;

​No som que acorda, o galo em seu ofício,
E o vapor do café, fresco e propício.
Mas o coração bate forte, a memória voa,
Pois o cheiro do bolo de milho ecoa.
​A Vó, de avental, mãos que fizeram magia,
Transformava o milho em pura alegria.
Não era só bolo, era história contada,
Com a manteiga derretendo, a infância guardada.
​E no fim de tudo, a fatia na mão,
O abraço apertado, o mais puro perdão.
Saudade que arde, mas também conforta,
Pois o sabor da Vó jamais se transporta,
Ele vive em mim, em cada despertar,
No cheiro de café e no galo a cantar.

O ofício do sofrimento

Há quem trabalhe com ferro,
há quem negocie o trigo do dia —
eu assino recibos invisíveis
de uma dor que não tem firma aberta.

Bato ponto no escuro.
Pontual, o peito comparece
antes mesmo de mim.
Ele conhece o caminho.

Minha mesa é feita de memórias,
minha ferramenta, o silêncio.
Com ela aparo excessos de esperança,
lixo fino que insiste em brotar.

Aprendi técnicas:
respirar enquanto pesa,
sorrir enquanto rasga,
responder “tudo bem” com letra legível.

O sofrimento exige método.
Não aceita amadores —
cobra constância,
cobra presença integral.

Nos intervalos, tento descanso,
mas ele confere meus passos
como chefe antigo
que mora dentro da casa.

À noite arquivo o dia
em gavetas que nunca fecham.
O eco continua trabalhando
depois que o corpo desliga.

E ainda assim,
no rodapé de cada jornada,
há uma cláusula pequena:

quem suporta o peso
aprende secretamente
a reconhecer o leve.

Veja bem as pessoas com que compartilhas teus segredos certos amigos merecem um ofício fúnebre do que tentar levar certos segredos ao túmulo!

"A autodestruição é o passatempo dos fracos; a autoedificação é o ofício dos mestres. Enquanto o mundo se consome em vícios, nós projetamos impérios de valores."

⁠Todo escritor que leva a sério seu ofício mais que sagrado, deve se comportar no mundo como um grão de areia. Não deve esperar que pessoas comuns reconheçam seu gênio criativo. Outra coisa é saber que sua obra sempre ficará inacabada, nunca seremos completos ou ficaremos satisfeitos com o que já produzimos.

Às vezes é bom cancelar algum compromisso,
relaxar a gravata, dar folga ao ofício.
Ser um homem comum,
que não raro se passa por outro
neste teatro do absurdo,
como personagem de um drama fictício.


Às vezes é bom calar a voz,
segurar a pressa, suspender o vício.
Ficar sozinho, sem ser solitário,
num pacto mudo como um sacrifício.


Às vezes é bom cancelar algum compromisso,
relaxar a gravata, dar folga ao ofício.


Andar nas nuvens, dançar na chuva
e aprender o caminho do vento.
Saber que tudo passa
e que a vida cobra o tempo esquecido
no porão da memória.

Mantenha os tímpanos trabalhando ou poderá se assustar com o ofício dos neurônios.

Iniciei me na gemologia bem cedo, por volta de 1970. Anos mais tarde, já conhecedor do oficio da lapidação de gemas de um modo geral iniciei uma grande amizade e parceria com o artista plástico joalheiro Caio Mourão, o verdadeiro percussor da arte jóia assinada no Brasil. A ourivesaria e a prataria é muito antiga no Brasil, desde os anos iniciais do período colonial, mas na verdade como advinham do oficio de oficiais ourives e prateiros, muito ligados ao clero, na sua grande maioria portugueses, trouxeram as técnicas e padrões utilizados na Europa. Talvez por conta disto, antes de Caio, a maioria dos joalheiros e ourives eram meros copistas pela imagem de obras de grandes e famosas grifes.

Na política do espetáculo, fingir preocupação é o único ofício que os políticos-influencers dominam com maestria; o curioso é o povo acreditar.

Talvez porque, em tempos de carência coletiva, qualquer encenação minimamente convincente pareça acolhimento.

Há quem já não consiga distinguir empatia de performance, compromisso de marketing e indignação de roteiro.

E assim, pouco a pouco, a política vai deixando de ser espaço de construção pública para se tornar palco de monetização emocional.

Os antigos coronéis precisavam controlar territórios; os novos aprenderam a controlar narrativas.

Não precisam resolver problemas — basta reagir a eles diante das câmeras.

Não precisam ter coerência — basta ter alcance.

Não precisam sustentar a verdade — basta sustentar o engajamento.

Enquanto isso, parte do povo, cansada, ferida e desacreditada, consome políticos como quem escolhe personagens favoritos numa série interminável de conflitos fabricados.

A lógica deixa de ser “quem governa melhor?” para se tornar “quem lacra melhor?”.

E, quando a política vira entretenimento, a realidade sempre paga a conta.

Porque hospitais continuam lotados mesmo depois dos vídeos emocionados.

A fome não diminui com cortes bem editados.

A violência não recua diante de discursos performáticos.

E o desemprego não se impressiona com milhões de seguidores.

O mais perigoso não é o político aprender a fingir.

O teatro do poder sempre existiu.

O mais grave é quando a sociedade desaprende a reconhecer sinceridade, coerência e responsabilidade porque se acostuma a ser seduzida pelo barulho, pela estética e pela histeria calculada.

Há líderes preocupados de verdade, sim.

Mas estes quase sempre parecem menos interessantes ao público acostumado ao exagero.

Quem trabalha raramente viraliza tanto quanto quem grita.

Quem constrói dificilmente compete com quem provoca.

E quem assume responsabilidades costuma perder espaço para quem apenas terceiriza culpas.

No fim, o espetáculo só continua porque existe plateia disposta a confundir representação com caráter.

E talvez a maturidade política de um povo comece exatamente no dia em que ele parar de se preocupar com as falas, sobretudo as mais bonitas — e voltar a observar as ações.

Enganos foram ferramentas afiadas, os usei para polir meu ofício, agora o corte é preciso.

A cura é um ofício demorado, a alma não se regenera, ela é pacientemente remendada, ponto a ponto, com o fio da perseverança.

A dor se torna eterna quando lhe negamos o ofício de parteira para o nascimento de uma versão superior de nós mesmos.

Vence quem transforma o luto em ofício diário e converte a saudade em canção que constrói pontes invisíveis.

Eu vivo. Isso é o bastante para um poeta cujo ofício é transformar a dor em beleza.

Espalhar flores é meu ofício; a minha razão para amar.