Machado de Assis (1839 — 1908) foi um escritor brasileiro nascido no Rio de Janeiro que continua sendo encarado como um dos nomes mais importantes da literatura nacional.

Lembrado principalmente pelos seus romances, obras-primas como Dom Casmurro (1881) e Memórias Póstumas de Brás Cubas (1899), o autor também escreveu teatro, poesia e duas centenas de contos.

Confira, abaixo, trechos dos melhores contos machadianos, acompanhados por uma breve análise das narrativas:

1. O Espelho

Um dos contos mais célebres do autor, ele foi publicado originalmente em setembro de 1882, na Gazeta de Notícias, sendo depois lançado na obra Papéis Avulsos, do mesmo ano. A narrativa acompanha a conversa de um grupo de homens que refletem sobre questões filosóficas e metafísicas.

Um deles, chamado Jacobina, defende que todos temos duas almas, uma interior e outra que mostramos ao mundo. Para ilustrar a tese, conta uma história da sua juventude: quando se tornou alferes e começou a receber elogios por isso, passou a precisar dessa validação dos outros para se encarar no espelho.

Tinha uma sensação inexplicável. Era como um defunto andando, um sonâmbulo, um boneco mecânico. Dormindo, era outra coisa. O sono dava-me alívio, não pela razão comum de ser irmão da morte, mas por outra. Acho que posso explicar assim esse fenômeno: — o sono, eliminando a necessidade de uma alma exterior, deixava atuar a alma interior. Nos sonhos, fardava-me, orgulhosamente, no meio da família e dos amigos, que me elogiavam o garbo, que me chamavam alferes; vinha um amigo de nossa casa, e prometia-me o posto de tenente, outro o de capitão ou major; e tudo isso fazia-me viver. Mas quando acordava, dia claro, esvaía-se com o sono a consciência do meu ser novo e único, — porque a alma interior perdia a ação exclusiva, e ficava dependente da outra, que teimava em não tornar... Não tornava. Eu saía fora, a um lado e outro, a ver se descobria algum sinal de regresso.

2. Missa do Galo

Missa do Galo

Publicado em Páginas Recolhidas (1899), o conto é protagonizado apenas por duas personagens que conversam numa sala. O protagonista, Nogueira, é um jovem de dezassete anos que está passando uma temporada no Rio de Janeiro com a família de Menezes. Enquanto o dono da casa sai para cometer adultério, o rapaz fica na sala, esperando um amigo que vai buscá-lo para assistir à missa do Galo.

É então que aparece Conceição, que é uma mulher mais velha e a dona da casa. Nessa noite, os dois trocam ideias sobre vários assuntos. O secretismo do diálogo contribui para um clima de desejo entre os dois, que nunca chega a ser consumado.

Tal foi o calor da minha palavra que a fez sorrir. De costume tinha os gestos demorados e as atitudes tranqüilas; agora, porém, ergueu-se rapidamente, passou para o outro lado da sala e deu alguns passos, entre a janela da rua e a porta do gabinete do marido. Assim, com o desalinho honesto que trazia, dava-me uma impressão singular. Magra embora, tinha não sei que balanço no andar, como quem lhe custa levar o corpo; essa feição nunca me pareceu tão distinta como naquela noite. Parava algumas vezes, examinando um trecho de cortina ou concertando a posição de algum objeto no aparador; afinal deteve-se, ante mim, com a mesa de permeio.

3. A Cartomante

A Cartomante

O conto foi publicado inicialmente na Gazeta de Notícias, em novembro de 1884; dois anos mais tarde, foi integrado na coletânea Várias Histórias (1896). Considerada uma das principais narrativas breves de Machado de Assis, a história se foca num triângulo amoroso protagonizado por Rita, Camilo e Vilela.

A moça, esposa de Vilela, está cometendo adultério com um amigo de ambos, Camilo. Preocupada com os perigos da situação, ela resolve procurar uma cartomante, mas nem ela consegue adivinhar o desenlace trágico desse romance proibido.

Hamlet observa a Horácio que há mais coisas no céu e na terra do que sonha a nossa filosofia. Era a mesma explicação que dava a bela Rita ao moço Camilo, numa sexta-feira de novembro de 1869, quando este ria dela, por ter ido na véspera consultar uma cartomante; a diferença é que o fazia por outras palavras.

— Ria, ria. Os homens são assim; não acreditam em nada. Pois saiba que fui, e que ela adivinhou o motivo da consulta, antes mesmo que eu lhe dissesse o que era. Apenas começou a botar as cartas, disse-me: "A senhora gosta de uma pessoa..." Confessei que sim, e então ela continuou a botar as cartas, combinou-as, e no fim declarou-me que eu tinha medo de que você me esquecesse, mas que não era verdade...

4. Adão e Eva

Adão e Eva

Também integrado em Várias Histórias (1896), este é um importante conto machadiano que reflete sobre a criação do Universo. Durante um jantar, quando a dona da casa anuncia que tem um doce especial para sobremesa, desperta a sua curiosidade de um convidado.

Isso gera um debate sobre a curiosidade e a perda do paraíso: a culpa foi de Eva ou de Adão? Entre as várias opiniões, a do Frei Bento provoca a surpresa geral, quando este afirma que o verdadeiro criador do mundo teria sido o Diabo.

Uma senhora de engenho, na Bahia, pelos anos de mil setecentos e tantos, tendo algumas pessoas íntimas à mesa, anunciou a um dos convivas, grande lambareiro, um certo doce particular. Ele quis logo saber o que era; a dona da casa chamou-lhe curioso. Não foi preciso mais; daí a pouco estavam todos discutindo a curiosidade, se era masculina ou feminina, e se a responsabilidade da perda do paraíso devia caber a Eva ou a Adão.

5. A Carteira

Publicado em 1884 na revista A Estação, o conto foi lançado posteriormente no segundo volume de Contos Fluminenses. A história é protagonizada por Honório, um homem que está cheio de dívidas quando acha uma carteira no chão. Além de conter um maço de notas, a carteira também guardava várias cartas do amor.

Em plena crise de consciência, o homem tem que decidir se vai ficar com o objeto ou procurar o seu verdadeiro dono. Chegando em casa, ele encontra Gustavo, um amigo da família que estava visitando Amélia, a esposa de Honório. Pelos documentos, percebe que a carteira afinal pertencia ao companheiro. Então, quem seria a remetente daquelas cartas?

Para avaliar a oportunidade desta carteira, é preciso saber que Honório tem de pagar amanhã uma dívida, quatrocentos e tantos mil-réis, e a carteira trazia o bojo recheado. A dívida não parece grande para um homem da posição de Honório, que advoga; mas todas as quantias são grandes ou pequenas, segundo as circunstâncias, e as dele não podiam ser piores. Gastos de família excessivos, a princípio por servir a parentes, e depois por agradar à mulher, que vivia aborrecida da solidão; baile daqui, jantar dali, chapéus, leques, tanta cousa mais, que não havia remédio senão ir descontando o futuro. Endividou-se. Começou pelas contas de lojas e armazéns; passou aos empréstimos, duzentos a um, trezentos a outro, quinhentos a outro, e tudo a crescer, e os bailes a darem-se, e os jantares a comerem-se, um turbilhão perpétuo, uma voragem.

6. To be or not to be

O conto foi publicado pela primeira vez no ano de 1876, em cinco partes, no Jornal das Famílias. A narrativa gira em torno de André Soares, um homem de 27 anos que está destabilizado e frustrado com a sua carreira. Quando perde uma promoção no trabalho que desejava há muito tempo, o protagonista toma uma decisão drástica: terminar com a própria vida.

No entanto, quando pega uma barca na intenção de se jogar no mar, ele conhece Cláudia, uma mulher por quem se apaixona e que altera subitamente o seu destino.

Tinha um cartão de barca na algibeira; dirigiu-se para a ponte das barcas de Niterói. Mais de um olhou para ele; ninguém podia ter idéia de que ali estava um homem em véspera de morrer.

Aproximou-se a barca, entraram os passageiros, e com eles André Soares, que foi sentarse primeiro num dos bancos interiores, à espera que a barca chegasse ao meio da baía; então procuraria a popa ou a proa e atirar-se-ia ao mar.

A barca seguiu caminho; os passageiros conhecidos conversavam, os desconhecidos aborreciam-se, e neste número incluo André Soares (compreende-se) e uma moça que lhe ficava a dois palmos de distância no mesmo banco.

7. A Causa Secreta

Também publicado na Gazeta de Notícias, em 1885 , e incluído na coletânea Várias Histórias, este conto de inspiração naturalista é um dos mais sinistros do autor. A narrativa segue os passos de Garcia e Fortunato, dois médicos, e também de Maria Luísa, a esposa do segundo.

Garcia começa a estudar a mente do companheiro, um homem sádico que faz experiências bizarras com animais. Tudo se complica quando ele desenvolve sentimentos por Maria Luísa, formando um triângulo amoroso arriscado.

Tinham falado também de outra coisa, além daquelas três, coisa tão feia e grave, que não lhes deixou muito gosto para tratar do dia, do bairro e da casa de saúde. Toda a conversação a este respeito foi constrangida. Agora mesmo, os dedos de Maria Luísa parecem ainda trêmulos, ao passo que há no rosto de Garcia uma expressão de severidade, que lhe não é habitual. Em verdade, o que se passou foi de tal natureza, que para fazê-lo entender é preciso remontar à origem da situação.

8. Pai contra Mãe

Pai contra Mãe

Incluído no livro Relíquias da Casa Velha (1906), lançado mais de uma década depois da abolição, o conto reflete sobre a barbárie da escravatura nacional. Passada durante o Segundo Império, a narrativa se centra na figura de Cândido Neves, um caçador de escravos fugitivos que se encontrava em situação de pobreza devido à falta de trabalho.

Quando vai abandonar o filho recém-nascido na Roda dos Enjeitados, por não ter como sustentá-los, o homem encontra uma mulher grávida, que percebe ser uma escrava que tinha conseguido escapar. A mãe implora clemência, lutando pela liberdade do bebê que carrega, mas Cândido precisa fazer uma escolha: capturá-la para ganhar dinheiro ou abandonar o filho.

Ora, pegar escravos fugidios era um ofício do tempo. Não seria nobre, mas por ser instrumento da força com que se mantêm a lei e a propriedade, trazia esta outra nobreza implícita das ações reivindicadoras. Ninguém se metia em tal ofício por desfastio ou estudo; a pobreza, a necessidade de uma achega, a inaptidão para outros trabalhos, o acaso, e alguma vez o gosto de servir também, ainda que por outra via, davam o impulso ao homem que se sentia bastante rijo para pôr ordem à desordem.

9. Capítulo dos Chapéus

Escrita em 1883, e lançada na Gazeta de Notícias, a história reflete sobre as transformações sociais que estavam em curso na segunda metade do século XIX e, mais especificamente, no papel da mulher nesse novo mundo que surgia. A protagonista é Mariana, uma jovem esposa que começa a implicar com o chapéu do marido e pede que ele o troque.

Quando o seu apelo é ridicularizado e recebido com desdém, a moça é levada a repensar o relacionamento e até o modo como vive dedicada ao espaço doméstico. Estas questões se intensificam quando conhece Sofia, figura que representa as mulheres à frente do seu tempo, que estavam trilhando caminhos de independência.

A irritação da dama tinha afrouxado muito; mas, o sentimento de humilhação subsistia. Mariana não chorou, não clamou, como supunha que ia fazer; mas, consigo mesma, recordou a simplicidade do pedido, os sarcasmos de Conrado, e, posto reconhecesse que fora um pouco exigente, não achava justificação para tais excessos. Ia de um lado para outro, sem poder parar; foi à sala de visitas, chegou à janela meio aberta, viu ainda o marido, na rua, à espera do bond, de costas para casa, com o eterno e torpíssimo chapéu na cabeça. Mariana sentiu-se tomada de ódio contra essa peça ridícula; não compreendia como pudera suportá-la por tantos anos. E relembrava os anos, pensava na docilidade dos seus modos, na aquiescência a todas as vontades e caprichos do marido, e perguntava a si mesma se não seria essa justamente a causa do excesso daquela manhã.

10. O Alienista

O Alienista

Lançada inicialmente na revista A Estação, entre os anos de 1881 e 1882, a história foi incluída em Papéis Avulsos. Embora muitos especialistas defendam que o texto se trata de um conto, outros tantos acreditam que a sua estrutura o aproxima de uma novela.

Aqui, a ação é protagonizada por Simão Bacamarte, um alienista que decide criar um hospital psiquiátrico chamado Casa Verde. Casado com Evarista, ele acredita que a infertilidade da esposa pode estar relacionada à saúde mental e começa a desenvolver estudos sobre o tema.

Contudo, quanto mais Simão se debruça sobre a loucura, mais vai se afastando da própria sanidade.

De todas as vilas e arraiais vizinhos afluíam loucos à Casa Verde. Eram furiosos, eram mansos, eram monomaníacos, era toda a família dos deserdados do espírito. Ao cabo de quatro meses, a Casa Verde era uma povoação. Não bastaram os primeiros cubículos; mandou-se anexar uma galeria de mais trinta e sete. O Padre Lopes confessou que não imaginara a existência de tantos doidos no mundo, e menos ainda o inexplicável de alguns casos. Um, por exemplo, um rapaz bronco e vilão, que todos os dias, depois do almoço, fazia regularmente um discurso acadêmico, ornado de tropos, de antíteses, de apóstrofes, com seus recamos de grego e latim, e suas borlas de Cícero, Apuleio e Tertuliano. O vigário não queria acabar de crer. Quê! um rapaz que ele vira, três meses antes, jogando peteca na rua.