Na política do espetáculo, fingir... Alessandro Teodoro

Na política do espetáculo, fingir preocupação é o único ofício que os políticos-influencers dominam com maestria; o curioso é o povo acreditar.
Talvez porque, em tempos de carência coletiva, qualquer encenação minimamente convincente pareça acolhimento.
Há quem já não consiga distinguir empatia de performance, compromisso de marketing e indignação de roteiro.
E assim, pouco a pouco, a política vai deixando de ser espaço de construção pública para se tornar palco de monetização emocional.
Os antigos coronéis precisavam controlar territórios; os novos aprenderam a controlar narrativas.
Não precisam resolver problemas — basta reagir a eles diante das câmeras.
Não precisam ter coerência — basta ter alcance.
Não precisam sustentar a verdade — basta sustentar o engajamento.
Enquanto isso, parte do povo, cansada, ferida e desacreditada, consome políticos como quem escolhe personagens favoritos numa série interminável de conflitos fabricados.
A lógica deixa de ser “quem governa melhor?” para se tornar “quem lacra melhor?”.
E, quando a política vira entretenimento, a realidade sempre paga a conta.
Porque hospitais continuam lotados mesmo depois dos vídeos emocionados.
A fome não diminui com cortes bem editados.
A violência não recua diante de discursos performáticos.
E o desemprego não se impressiona com milhões de seguidores.
O mais perigoso não é o político aprender a fingir.
O teatro do poder sempre existiu.
O mais grave é quando a sociedade desaprende a reconhecer sinceridade, coerência e responsabilidade porque se acostuma a ser seduzida pelo barulho, pela estética e pela histeria calculada.
Há líderes preocupados de verdade, sim.
Mas estes quase sempre parecem menos interessantes ao público acostumado ao exagero.
Quem trabalha raramente viraliza tanto quanto quem grita.
Quem constrói dificilmente compete com quem provoca.
E quem assume responsabilidades costuma perder espaço para quem apenas terceiriza culpas.
No fim, o espetáculo só continua porque existe plateia disposta a confundir representação com caráter.
E talvez a maturidade política de um povo comece exatamente no dia em que ele parar de se preocupar com as falas, sobretudo as mais bonitas — e voltar a observar as ações.
