Nao Gosto do que Vejo
A tragédia de algumas vidas não está no abandono que sofreram, mas na incapacidade de acreditar que ainda podem ser escolhidas.
Existem feridas que não querem ser curadas; querem apenas que alguém reconheça que elas existiram e que doeram mais do que as palavras conseguem contar.
A maior prova de existência não é ser visto, mas continuar íntegro quando ninguém se dispõe a compreender.
Não desperdiço energia discutindo com o inevitável. Transformo cada golpe da existência em matéria-prima para construir uma versão mais sólida de mim mesmo.
A negligência que encontrei na infância não terminou quando deixei de ser criança. Ela aprendeu a crescer comigo. Mudou de rosto, de voz, de silêncio, mas nunca deixou de caminhar ao meu lado.
Há dores que não gritam; elas se infiltram na arquitetura da alma e passam a sustentar tudo o que somos. A minha fez do afeto um território estrangeiro. Nunca aprendi a reconhecê-lo sem antes procurar a ausência que costuma vir depois.
Por isso, amar, para mim, nunca foi um gesto espontâneo. É uma travessia sobre uma ponte construída com tábuas podres. Cada passo parece anunciar uma queda.
Mas existe algo ainda mais difícil do que amar.
É permitir que alguém me ame.
Há uma parte de mim que permanece escondida, como se tivesse sido convencida, ainda menino, de que carinho sempre cobra um preço e de que toda permanência é apenas um atraso para o abandono. Quando alguém tenta atravessar essa distância, meu primeiro impulso não é abrir a porta. É procurar a saída.
Talvez a pior herança da negligência não seja a solidão.
Seja a incapacidade de acreditar que um dia alguém possa olhar para todas as minhas ruínas e, ainda assim, decidir ficar.
Porque existem infâncias que não acabam. Apenas aprendem a respirar dentro do adulto que sobreviveu.
- Tiago Scheimann
A espiritualidade me interessa justamente porque não elimina a ferida, ela a converte em altar de paciência.
Não busco um Deus que me tire da luta, mas um que me devolva a coragem de atravessá-la sem me desmanchar.
Há um amparo que desafia qualquer explicação. Ele não dissolve a inquietação; apenas repousa sobre ela, silenciosamente, como um cobertor que encontra um corpo exausto e, sem pedir licença, lhe devolve a permissão para existir mais uma noite.
Quando a alma se dobra, a fé não a endireita à força, ela a sustenta até que o peso deixe de ser sentença.
Em dias de ruína, minha crença não é fogueira, é brasa escondida, suficiente para não permitir que eu me torne noite inteira.
Há uma estranha paz em não amar profundamente. Nada falta, porque nada realmente importa. Mas basta um único amor verdadeiro para que a existência deixe de ser tranquila e passe a ser infinita, entre o medo da perda e a certeza de que jamais se volta a ser o mesmo."
A esperança é curiosa: costuma escolher como morada exatamente os corações que já não acreditam merecê-la.
O vazio não é a ausência de tudo, é a presença esmagadora daquilo que já não pode voltar, mas também nunca consegue partir completamente.
O vazio não é o nada, é a arquitetura invisível de tudo o que nos falta. Uma presença que nos habita pelo avesso, ocupando espaço justamente por sua recusa em terminar de partir.
O tempo não cicatriza, ele apenas sofistica o abismo. Sua função não é curar a dor, mas domesticar o grito, transformando o sofrimento crônico na melodia de fundo que a nossa normalidade exige para continuar fingindo que avança.
Meu passado é pesado demais. Por isso, não permito que ninguém entre. Sei que dividir esse fardo seria condenar outra alma a carregar um peso insuportável, imensurável, impossível de compreender por inteiro. Nunca permitirei que alguém sofra o que carrego em silêncio, ainda que, para isso, eu precise assistir à felicidade partir mais uma vez. Há dores que preferem a solidão, porque amam o outro mais do que a própria possibilidade de serem salvas.
- Tiago Scheimann
A maior crueldade da existência talvez não seja a morte, mas conceder ao homem a lucidez apenas quando já não existe ninguém capaz de receber o amor que ele finalmente aprendeu a oferecer.
