Nao Gosto do que Vejo
"Eu que não amo você" dos Engenheiros do Hawaii começou a tocar e eu de repente me vi teletransportada para outra época, outro ano, outra cidade. Eu me vi no primeiro ano da faculdade afogando as mágoas de cada uma das minhas dores do amor em cada milímetro de álcool que existia no bar da faculdade enquanto a música invadia o ambiente. Havia risadas, amigos, a juventude, a noite e meu coração sangrando sobre o chão do bar. Minha mesa estava cercada de amigos e risadas. E agora também estava. Era outro ano, outra cidade, outros amigos, a mesma músicas mas eu estava diferente. Meu coração não doía há alguns anos, agora eu ria e flertava por esporte e eu amava a vida, a noite, a música e a liberdade e queria devorar a liberdade como se eu fosse um animal preso em cativeiro por toda uma vida.
Insensatez ou não, pela primeira vez eu senti algo que por muitos anos eu não sentia: segurança. Ele fazia eu me sentir segura e isso era estranho e assustador. Eu sentia vontade de sair correndo pois eu não era boa em relacionamentos, porque isso era novo e assustador e eu não sabia, não sabia lidar com isso. Eu queria dizer para ele se afastar de mim pois, como bem classificou um amigo meu na faculdade, eu era uma gata arisca e eu arranhava e lesionava facilmente quem chegasse perto demais de mim. Mesmo assim, apesar do meu medo e receio eu tinha a sensação estranha de que ele me protegeria e de que eu poderia ser eu mesma com ele. Eu não precisaria aplicar a regra "amar e fugir" e quem sabe eu poderia me permitir ficar... Então eu comecei a olhar para ele. Olhar de verdade como se eu o visse pela primeira vez na minha vida e isso me assustou. Isso me assustou porque eu pela primeira vez em muitos anos cogitei a possibilidade de confiar em alguém, de dar o benefício de dúvida e não agir com desconfiança como se alguém fosse me apunhalar a qualquer momento. Isso me assustou e ainda me assusta quando eu paro para pensar pois eu tenho certeza de que ele vai me machucar mais cedo ou mais tarde.
Eu não sei explicar a paz que me invade quando eu deito no peito dele e ele me abraça e beija o topo de minha cabeça. Eu me sinto protegida, acolhida, amada...sinto o cheiro do mar, o sopro do vento e uma música suave como se Caymmi cantasse ao fundo. Eu sinto como se eu estivesse navegando e ele fosse meu porto seguro.
Eu achei que estivéssemos jogando com paridade de armas, mas não estávamos, porque por muito tempo eu estive armada, eu vesti a armadura completa e segurei facas e espadas como se ele fosse me golpear e ferir a qualquer momento, no entanto, ele não feriu. Ele me abraçou e ensinou que eu não preciso estar armada para uma batalha o tempo todo. Eu não preciso ser Atena o tempo todo e às vezes posso me permitir ser Afrodite em certos momentos. Está tudo bem eu derreter feito geleia quando ele me toca e está tudo bem sentir saudades. Está ok ele quebrar minhas barreiras e me fazer ser frágil e doce e sensível, partes minhas que são bonitas, mas que eu não mostro para todo mundo.
Eu amo os momentos de intimidade prazer, mas não é só isso que importa. Existe o desejo, claro, mas não são esses momentos que definem. O que define são os momentos em que ele é gentil, são os momentos em que ele cuida de mim, em que ele me leva para o hospital porque estou com alergia, os momentos em que ele me abraça, em que ele me acolhe quando o mundo lá fora me assusta. São os momentos em que ele se permitir ser sentimental, é fofo, abre a porta do carro e me beija mão. Nesses momentos eu sou dele e ele nem sabe.
O mundo desapareceu naquele momento. Não havia copa, quinta-feira, processos ou concurso. Só havia nós e naquele instante mais nada importava. Eu era dele ele era meu e o mundo poderia acabar lá fora que eu não iria me importar.
Não é hora de definir o que sou. Não é hora de definir o que somos, mas em breve, eu sinto, quando a neblina se dissipar, quando a lua nova surgir no céu, eu sei que será. Então quando momento chegar você estará pronto para saltar? Porque amar é se atirar de um precipício rezando pra nunca chegar ao chão e quando chega a hora é preciso saltar sem hesitar.
Sei que faz tempo que eu não escrevo- mais de um mês!- é que eu estava devastada, desanimada demais para escrever. Parecia que eu havia secado! Eu me sentia uma árvore seca pelo inverno, maltratada pela geada e com receio e nunca mais florescer. Uma árvore seca ainda como ser considerada uma árvore? Uma escritora que não escreve ainda pode ser considerada uma escritora? Eu não sei responder. Achei que tivesse perdido a poesia. Achei que nunca mais conseguiria parar de chorar. Achei que ficaria paralisada para sempre como alguém que leva um choque e fica em estado catatônico. Mas adivinhe só? Eu não fiquei. Eu sinto que uma parte minha morreu e doeu mais do que cabe em palavras. Nos sete primeiros dias eu vesti-me de luto, nos quinze primeiros e só chorei, mas eu tive uma espécie de epifania e sinto que renasci. Eu renasci, tal qual Perséfone e eu me sinto tão diferente...
Eu vou segurar sua mão para você não cair, eu vou te abraçar na tempestade e te manter de pé. Eu vou ser carinho, compreensão, amor e apoio. Eu não quero ver você desistir de si mesmo. Meu querido, é uma fase! Caótica, louca, complexa, mas uma fase. Os remédios confundem, abalam, paralisam, mas eles curam. Sei como é a sensação de carregar o mundo todo nas costas, mas isso vai passar. Eu sei que vai. Você foi meu porto seguro nos momentos de crise. Agora me deixe ser o seu.
Às vezes, a alma se cala não por ausência de pensamentos, mas por excesso de verdades que o mundo ainda não está pronto para ouvir.
Não sei se estou afundando ou se já alcancei o fundo. Só sei que aqui tudo é preto e branco, e os olhares vêm de cima — frios, distantes, sem mãos estendidas. Estou presa… e sou a própria presa.
Sempre me perguntei qual é o sentido da vida, mesmo sabendo que não existe resposta — talvez porque não exista sentido algum. A única certeza é a morte, e ela não precisa de explicação.
Minhas palavras vestem o humor da minha alma. A filosofia não é uma técnica de escrita — é um grito do coração. Ela deve ser sentida antes de ser dita.
Aquela que sabia mais do que dizia uma vez sussurrou: amigos não existem. Existem apenas presenças passageiras, que se dissipam com o tempo e se tornam sombras difusas em nossas lembranças.
