Coleção pessoal de audreyponganborteze
Depois do tsunami de sentimentos dentro de mim, é até estranho os pássaros cantarem lá fora e a primavera dar seus tímidos sinais, lembrando que depois de um inverno difícil sempre vem a primavera. Eu não sei você, mas eu preciso de um recomeço.
Vai doer, vai deixar um buraco no peito, mas vai passar. Se nenhum amor dura para sempre, nenhuma dor também.
Esses dias, eu fui ao trapiche da beira-mar despachar um adoçamento que fiz para você e, assim que vi o papel desaparecer e afundar no mar, senti paz. Foi como se, simbolicamente, tivesse jogado suas cinzas ao mar. Não entenda mal, eu não quero que você morra, mas, simbolicamente, estou te matando no meu coração. Eu enterro vivo esse amor, tranco-o numa caixa escura e o deixo morrer de fome, sede e falta de luz solar.
Eu te amei, querido, em cada estação, em cada música de amor e em cada momento de nós dois, mas amar não significa engolir todas as frustrações e lutar por tudo sozinha. Relacionamento é um ato bilateral, meu bem, e ninguém aqui é Atlas para carregar o mundo inteiro nas costas.
Eu não consigo viver sempre na corda bamba da incerteza. Eu sou feita de certezas, de pontos de exclamação e de pontos finais quando necessário. Seu excesso de pontos de interrogação foi até fofo no início, mas, com o tempo, esgotou. Com o tempo, me esgotou. Não se pode viver em cima do muro pelo resto da vida, Humpty Dumpty, porque, quando chega a hora, é preciso saltar sem hesitar.
Querido, eu tenho evitado te escrever porque sabia que, quando pegasse na caneta e rabiscasse alguns versos, meu coração começaria a sangrar. Contudo, parece que agora a hora chegou.
Há momentos, lugares, frases, sensações e vivências que são eternas, marcantes, como se tivessem sido escritas com tinta permanente no meu coração.
Era sábado à tarde, primavera e Caetano cantava "Queixa" enquanto ele atravessava a rua de mãos dadas comigo e eu segurava o vestido com a outra mão para o vento não levantá-lo. A música invadia a praça, as pessoas cantavam, riam, bebiam e ele me girava numa dança improvisada. Caetano parecia cantar para nós e eu nem sabia quem tinha arrasado quem nessa nossa atração magnética, hipnótica, apocalíptica...
Meu querido R,
Você disse que eu preciso me comunicar melhor e eu concordo , por isso estou lhe escrevendo de novo. Eu não sei se o fato de escrever significa que mostrarei a você esses versos algum dia ou eles morrerão no meu coração e nestas paginas. Não sei.
Sei que eu ardo em versos. De amor? De ansiedade? De desgosto? Quem é que sabe? Eu acho que é um pouco de tudo. Amor por você. Ansiedade pela vida que corre lépida e atrapalha meus planos. Medo de te perder. Medo de nos perdemos um do outro. Você disse que precisamos melhorar nossa comunicação e é verdade. Precisamos melhorar muita coisa entre nós. Eu preciso dizer o que me abala, sem medo. Você precisa aprender a escutar sem se ofender. Nós precisamos crescer de jeitos diferentes . Você precisa parar de agir como um adolescente em muitos aspectos. Mas eu não pretendo te escrachar nesta carta. Não seria certo, não seria justo pois eu sei que também não sou perfeita. Longe disso. Tenho defeitos terríveis e você sabe.
A dúvida que reside em meu coração é se conseguiremos. Nós conseguiremos fazer isso dar certo a longo prazo? Temos nos equilibrado diante de tantas adversidades, mas até quando? No início de um relacionamento nos apaixonamos pelo brilho nos olhos, o calor dos beijos, a maciez das palavras …mas passado tanto tempo, com as ondas da realidade quebrando na praia, vendo o outro como ele é de verdade, com todos os defeitos , ainda há vontade de continuar? Você ainda quer continuar? Porque eu sou eu. Poética, lírica, telúrica. Jurídica, intensa e por vezes indecifrável… mas eu não posso ser tratada de qualquer maneira. Eu não mereço isso. Eu sou extraordinário e eu tenho certeza que você jamais vai encontrar alguém como eu. Você deveria erguer as mãos para o céu e agradecer todos os dias por eu ter aparecido na sua vida. Eu espero que você entenda isso.
Você errou.. Nós erramos. Um relacionamento é isso: um amontoado de erros e acertos e duas pessoas que estão tentando equilibrar as coisas e permanecer juntas apesar das dificuldades. Haverá muitas coisas que podem abalar nosso caminho. Seria ótimo se pudéssemos afastar todas as dificuldades para amar em paz. Ficar dentro da nossa bolha e esquecer do mundo. Porém, o mundo não vai parar para que isso aconteça. Problemas familiares sempre existirão e concursos e dificuldades da vida. No meio de tudo isso eu ainda escolho você. Eu ainda amo você. Eu ainda te admiro, apesar de muitas vezes você mesmo não se admirar e não se olhar com carinho. Eu sei que você errou em muitos aspectos. Mas eu ainda estou disposta a tentar. Você ainda é a pessoa que eu escolho pra mim. Por isso eu ainda tento. Por isso eu ainda estou disposta a tentar. Porque eu acho que quando se ama é necessário lutar com todas as armas. Hoje eu escolho você. Hoje eu escolho nós. Eu não sei qual será a sua escolha, mas eu estou disposta a tentar.
Amar é sobre acolher o outro em momentos de crise, certo? Amara é segurar alguém em meio à tempestade e não somente nos dias leves e floridos. O amor suporta barreiras, o amor é paciente, é ser âncora nas montanhas russas emocionais do outro. É ter resiliência.
Eu vou segurar sua mão para você não cair, eu vou te abraçar na tempestade e te manter de pé. Eu vou ser carinho, compreensão, amor e apoio. Eu não quero ver você desistir de si mesmo. Meu querido, é uma fase! Caótica, louca, complexa, mas uma fase. Os remédios confundem, abalam, paralisam, mas eles curam. Sei como é a sensação de carregar o mundo todo nas costas, mas isso vai passar. Eu sei que vai. Você foi meu porto seguro nos momentos de crise. Agora me deixe ser o seu.
Construção, desconstrução, reconstrução. Partes de mim foram se modificando com o passar do tempo, outras partes eu nem reconhecia e outras haviam sido quebradas, espalhadas, como louça quebrada cujos cacos se espalham pelo chão. Havia partes de mim que eu procurei e não achei e coisas que eu jurava que eram tão importantes e se mostraram não ser tão importantes assim. Pessoas que eu não achei que me apoiariam nos momentos de crise foram aquelas que me seguraram para não cair. Depois de Samhain vem Yule. Para todo fim há um recomeço e a roda começa de novo a girar. O sul ressurge, fraco, mas anuncia a chegada de um novo tempo.
Segunda-feira pela manhã o caminhão encostou na rua e eu vi, pouco a pouco, meu apartamento começar a esvaziar. As paredes de repente ficaram nuas sem os móveis e com agilidade os móveis eram carregados escada abaixo e colocados no caminhão. O apartamento foi esvaziado e, à medida que isso acontecia, fui ficando aliviada e comecei a chorar. Não eram lágrimas de tristeza, eram lágrimas de alforria. Eu me sentia como se a cidade me sufocasse de fora para dentro. Sem energia, sem vida, sem cor.
Sair dali me trouxe alívio como se eu tirasse as algemas e saísse de uma penitenciária. Foi como se eu tivesse em meu benefício uma medida de habeas corpus e estivesse enfim livre...
Sei que faz tempo que eu não escrevo- mais de um mês!- é que eu estava devastada, desanimada demais para escrever. Parecia que eu havia secado! Eu me sentia uma árvore seca pelo inverno, maltratada pela geada e com receio e nunca mais florescer. Uma árvore seca ainda como ser considerada uma árvore? Uma escritora que não escreve ainda pode ser considerada uma escritora? Eu não sei responder. Achei que tivesse perdido a poesia. Achei que nunca mais conseguiria parar de chorar. Achei que ficaria paralisada para sempre como alguém que leva um choque e fica em estado catatônico. Mas adivinhe só? Eu não fiquei. Eu sinto que uma parte minha morreu e doeu mais do que cabe em palavras. Nos sete primeiros dias eu vesti-me de luto, nos quinze primeiros e só chorei, mas eu tive uma espécie de epifania e sinto que renasci. Eu renasci, tal qual Perséfone e eu me sinto tão diferente...
Meu amor
Meus versos viajam pelos ares, correm estradas, passam pelo mar, atravessa a ponte até alcançar você, até pousar na sua pele com um beijo enviado pelos ares, como sopro de vida.Você tem encantado demais, como na música do Natiruts, desconcertado meu coração e tranquilizando minha alma, envolvendo meu ser uma calmaria que eu nunca tive o privilégio de ter, de viver. Eu estou achando uma delícia ter você, eu estou que nem me reconheço mais, andando por aí toda feliz, desejando bem até pra quem já me fez mal, vendo até beija-flores pousarem na minha janela. Você me incendei, me encharca e me traz paz. Eu não achava que era possível achar alguém assim. Você é meu porto seguro, ouso dizer, e eu quero cuidar de você. Eu quero amar você e eu já amo! Eu te amo em cada detalhe, do dedinho do pé até o último fio de cabelo e eu amo até as partes que você acha feias, sérias ou chatas demais. Eu te amo pelo o que você é. Um dia você saberá disso. Um dia vamos poder ficar sem medo, sem receios e eu vou dizer… As nuvens de chuva estão se afastando, eu sei. É abril, Natiruts canta, sinto paz e peço que aceite meus versos como um beijo que envio por telepatia.
Não é hora de definir o que sou. Não é hora de definir o que somos, mas em breve, eu sinto, quando a neblina se dissipar, quando a lua nova surgir no céu, eu sei que será. Então quando momento chegar você estará pronto para saltar? Porque amar é se atirar de um precipício rezando pra nunca chegar ao chão e quando chega a hora é preciso saltar sem hesitar.
O mundo desapareceu naquele momento. Não havia copa, quinta-feira, processos ou concurso. Só havia nós e naquele instante mais nada importava. Eu era dele ele era meu e o mundo poderia acabar lá fora que eu não iria me importar.
Meu querido,
É final de tarde, é domingo, chove e Djavan invade minha casa, minha alma e de repente estou cheia de palavras, transbordando e derramando versos por aí pois eu simplesmente não caibo mais em mim. Não queria escrever, não queria lhe falar mas foi mais forte do que eu. A poesia foi mais forte do que eu e eu simplesmente vim aqui dizer que meus sentimentos por você são intensos e eu gosto e odeio você com uma intensidade que eu já não sinto há anos. Eu sou intensidade. Odeio os meios termos. Odeio indefinições. Amo certeza. Não gosto de cores opacas, meias palavras ou prontos de interrogação. Eu sou feita de intensidade, de pontos de exclamação. Eu sou doida, eu sou teimosa, eu sou exigente, eu sou workaholic, viciado em café e eu amo você.
Eu amo os momentos de intimidade prazer, mas não é só isso que importa. Existe o desejo, claro, mas não são esses momentos que definem. O que define são os momentos em que ele é gentil, são os momentos em que ele cuida de mim, em que ele me leva para o hospital porque estou com alergia, os momentos em que ele me abraça, em que ele me acolhe quando o mundo lá fora me assusta. São os momentos em que ele se permitir ser sentimental, é fofo, abre a porta do carro e me beija mão. Nesses momentos eu sou dele e ele nem sabe.
