Literatura
"forasteiro"
vagando o silêncio
do deserto humano
foi que descobri,
em leves doses
a ausência faz bem.
sei desaparecer
como a nuvem no céu
como a poeira na estrada
eu sei reconstruir minhas frações
de pó espacial, traumas
fotografias e sonhos.
mas se quiser me encontrar
olhe para o céu em noite estrelada,
algumas dessas estrelas
batizei com teu nome,
e tenha certeza, estarei a olhar
teu brilho nelas, sempre a recordar
meu motivo pra voltar.
Quando abro um livro e me deparo com uma dedicatória do autor, à sua mãe, penso logo: pronto, estou novamente diante de um daqueles babacões que acha que as tetas dela ainda são as mais desejáveis do mundo.
NOTÍCIA DE JORNAL
Em uma troca de versos entre poetas desconhecidos, uma poesia perdida atingiu um transeunte bem na cabeça, do lado direito da cabeça.
De acordo com relatos de testemunhas... qualquer um poderia ter sido atingido. Uma vez que, milhares de pessoas passam por dia no local, e quase sempre distraídas.
No entanto, um jovem negro, aparentando ter entre - 12 e 14 anos - com semblante calmo e um pouco acima do peso, foi socorrido pelo serviço móvel de urgência e emergência e encaminhado para o [HGPP] - Hospital Geral de atendimento às vítimas de Poesias Perdidas.
Na cena do ocorrido, além de caneta e papel, foram encontradas dentre outras...várias cápsulas de poesias deflagradas de diversos calibres.
Apesar do grande susto e após ter sido medicado, por apresentar um súbito quadro de delírios racionais com seguidos episódios de contemplação do mundo sensível e falas aparentemente sem sentido e desconexas, o garoto passa bem. Inclusive, já teve alta poética, mas (in)felizmente nunca mais será o mesmo.
Tenho medo das pessoas que temem a volta de Cristo: o que será que elas têm de tão terrível dentro do coração para temer Sua volta?
Sou a rosa do deserto, florescendo no calor,
Forte e delicada, num mundo hostil e intrépido.
Minhas pétalas, escudos contra o sol inclemente,
Minha fragrância, promessa ardente.
No coração árido das dunas, meu esplendor,
Resistindo aos ventos cortantes,
Sou a força oculta no deserto, minha alma é selvagem,
Livro "Entre Pétalas, Desejos e Paixões"
Todos os Registros CBL
As vagas travestidas sob a derme, entranhadas na carne, não se esgotam no engano. Do torpor que obstrui os meus passos, replica-se uma agulha dessecada pela chaga inconsumível, sorrateira como as leoas que não declinam da caça, mas fogem atentas às abnegações que lhe são próximas.
É na rotina que se obtém o atestado da dedicação pura.
De Campos errantes, livro!
Que no meu caminho eu não tenha pedras, mas tenha:
Sempre um livro de amor para me fazer sorrir;
Sempre um livro de drama para me fazer chorar,
E um livro de bolso para me acompanhar.
Que conforme eu siga,
Haja sempre um mistério que eu não perca a pista,
Um terror que me envolva
E um clássico que resista.
Que se inevitável for,
Que eu tenha pedras,
Mas que tenha também Drummond
Para que mesmo na dor
Eu tenha sempre poesia
O ALIENADO
O alienado se sente como um estranho, pois, submetido ao produto de sua própria criação, esquece da verdadeira importância do seu EU criador.
Toda vez que o ser humano se esquece de sua existência e do seu verdadeiro interior e passa agir de maneira despersonalizada, deixando de ser ele mesmo para ser tão somente o que os outros gostariam que ele fosse, está caracterizado o fenômeno da alienação.
O ser humano alienado vive do culto idolátrico a outras pessoas, um artista de TV, um jogador de futebol ou qualquer outra pessoa famosa, ou ainda na supervalorização de objetos materiais, dinheiro, condicionado a obedecer fatores exteriores a si próprio.
O ser humano alienado é aquele que perdeu a sua individualidade e mergulhou num mundo onde todas as suas atitudes são dirigidas segundo consenso da maioria. Sem nunca perguntar o porquê das determinações que lhe são impostas, obedecendo-as sempre, apenas com desejo de obter a aprovação dos demais. O ser alienado destrói a sua capacidade criadora e se acomoda a utilizar os mais diversos produtos, como, modas e objetos, já criados por outros, ou por influência de algum artista do momento.
A liberdade de decidir e optar, de ser diferente e pioneiro não existe no ser alienado. Ele quer apenas se sentir seguro, pensando e agindo como os outros. Ele deseja ficar preso a influencia de alguém, ele tem medo da liberdade, e preguiça de pensar, em ser diferente.
O ser alienado, por exemplo, não reflete sobre suas atitudes. Ele tanto pode aplaudir uma norma inclinando-se para um fanatismo, como discordar com tendências igualmente fanáticas. Ele, portanto, não é capaz de adotar uma visão critica moderadora.
O alienado ou permanece num passado que já não se enquadra a nova realidade ou sonha com mudanças futuras impraticáveis. O que ele nunca faz é olhar o presente com seus próprios olhos.
Ao contrario do alienado, o ser humano consciente de sua existência reflete sobre o sentido de sua existência, obedece às determinações gerais, mas sempre procura aprimorá-las.
Vanderlei Muniz
