Inquietaçao
Há quem olhe de longe
não por saudade,
mas por inquietação.
Curiosidade não é cuidado.
É a pergunta que se faz
sem coragem de escutar a resposta.
Quem observa em silêncio
costuma carregar dúvidas
que não sustenta em voz alta.
Espia para confirmar
se a escolha feita
ainda se justifica.
Mas olhar não é presença.
E visitar não é permanecer.
Há histórias que não aceitam plateia
de quem escolheu não ficar.
Algumas portas seguem visíveis
não por convite,
mas por transparência.
Outras jamais se reabrem,
mesmo quando vistas.
E se alguém entende ao ler,
entende porque sabe.
Curiosidade reconhece
aquilo que não foi resolvido.
**Entre Dois Amigos**
Augusto olhava a noite pela janela com uma inquietação difícil de esconder. Havia em seu silêncio uma espécie de fadiga antiga, como se carregasse pensamentos que já haviam amadurecido demais dentro dele. Depois de alguns instantes, falou em voz baixa:
— Há uma coisa que me inquieta profundamente: a sensação de que nascemos para uma única forma de existência e passamos a vida inteira tentando negá-la.
Miguel não respondeu de imediato. Girava lentamente o copo entre os dedos, como quem mede o peso de uma ideia antes de pronunciá-la.
— Você fala da arte — disse, por fim.
Augusto manteve os olhos voltados para a rua vazia.
— Falo daquilo que somos quando não estamos tentando ser outra coisa.
O silêncio que se instalou não era desconfortável. Havia nele certa reverência, como se ambos reconhecessem que algumas reflexões exigem espaço antes de serem tocadas novamente.
Augusto prosseguiu:
— Talvez o grande problema seja esse desvio constante. Nascemos artistas, não apenas no sentido do ofício, mas na maneira de perceber o mundo. E, no entanto, passamos a vida tentando nos adaptar a papéis: marido, cidadão exemplar, homem comum, figura socialmente aceitável.
Miguel ergueu os olhos com atenção.
— E você acredita que isso seja um erro?
— Não exatamente um erro. Talvez uma incompatibilidade.
— Incompatibilidade com o quê?
— Com a própria essência.
Miguel recostou-se na cadeira.
— Mas ninguém vive completamente fora do mundo, Augusto.
— Vive, sim. Apenas paga o preço por isso.
— Que preço?
— A inadequação.
Miguel sorriu discretamente.
— Isso soa mais como orgulho do que filosofia.
Augusto negou com serenidade.
— Orgulho seria acreditar que somos superiores. Não é isso. Trata-se apenas de reconhecer que não nos encaixamos. E que, quando tentamos nos encaixar à força, alguma coisa em nós acaba se rompendo.
— E você nunca tentou viver como os outros?
Augusto soltou um riso breve, quase cansado.
— Tentei. Com disciplina, inclusive. Acreditei que bastava insistir, repetir hábitos, cumprir funções… como um ator aprendendo um papel.
— E o que aconteceu?
— Percebi que a vida, quando não é verdadeira, transforma-se num teatro sem plateia.
Miguel permaneceu em silêncio por alguns segundos antes de responder:
— Talvez todos estejam representando. Alguns apenas têm mais consciência disso do que outros.
— A diferença — disse Augusto — é que certos homens sabem que jamais poderão sair do palco.
— E você se considera um deles?
Augusto desviou o olhar para a rua escura.
— Sei que não consigo viver longe daquilo que me constitui. Posso assumir compromissos, ocupar funções, simular normalidade… mas, em algum momento, tudo perde sentido.
— Então a arte é uma prisão?
— Não. É a única forma de liberdade que conheço. Mas exige tudo em troca.
Miguel assentiu lentamente, absorvendo aquelas palavras.
— E não existe conciliação possível?
— Existem tentativas.
— E fracassos?
— Quase sempre.
O silêncio voltou, agora mais denso e mais humano.
Depois de algum tempo, Miguel falou novamente:
— É curioso… o mundo espera que sejamos muitas coisas. E talvez sejamos, de fato. Mas você insiste que existe algo essencial que nos define.
Augusto voltou-se para ele com calma.
— Não insisto. Apenas reconheço.
— E quem não reconhece isso?
— Talvez viva melhor.
— E você prefere o quê?
Augusto demorou a responder.
— Prefiro a verdade, mesmo que ela me exclua.
Miguel pousou o copo sobre a mesa.
— Então não se trata de escolha.
— Nunca se tratou.
— Trata-se de condição?
— Exatamente.
Miguel respirou fundo antes de concluir:
— Nesse caso… talvez não sejamos artistas.
Augusto olhou para ele com uma serenidade quase melancólica.
— Somos aquilo que não conseguimos deixar de ser.
E, pela primeira vez naquela conversa, nenhum dos dois sentiu necessidade de acrescentar mais nada.
Quem encontra Deus vive também uma santa inquietação. Descansa n’Ele, mas sente-se chamado a caminhar sempre mais. Cada dia Deus se apresenta como convite, dever e promessa de felicidade maior. Quem encontra Deus percebe também que sempre foi procurado por Ele. Toda a vida ganha sentido nessa busca recíproca: nós procurando a Deus, e Deus nos atraindo para Si.
"Você, brisa suave que me sopra n'alma inspiração e no corpo inquietação...
Desejo em gotas que me torna um oceano!"
Haredita Angel
03.03.26
A Ilusão das Respostas Definitivas
Existe uma inquietação comum aos seres humanos: a necessidade de encontrar respostas finais para tudo.
Queremos compreender o mundo, explicar os acontecimentos, prever o futuro e determinar com segurança o que é certo ou errado.
Talvez seja por isso que a dúvida nos incomode tanto.
Ela nos lembra que a vida é maior do que nossas conclusões.
Grande parte do sofrimento humano nasce da tentativa de controlar aquilo que não pode ser controlado. Queremos acelerar processos, mudar pessoas, corrigir caminhos e antecipar resultados.
Mas a existência raramente obedece às nossas expectativas.
A vida possui ritmos próprios.
As pessoas possuem tempos próprios.
E a verdade, muitas vezes, revela apenas fragmentos de si.
Talvez a sabedoria não esteja em acumular respostas, mas em aprender a conviver com as perguntas.
Porque algumas questões não existem para serem encerradas.
Existem para nos manter despertos.
A inquietação das almas carentes costuma ser muito mais barulhenta do que qualquer diagnóstico.
Há inquietações que gritam, mesmo quando não dizem nada com clareza.
São almas carentes tentando preencher vazios que nenhum laudo consegue medir.
Enquanto o diagnóstico procura nomear a dor, a carência apenas a expõe — sem filtro, sem pudor, sem silêncio.
Por isso, faz barulho: não para ser compreendida, mas para ser percebida.
A inquietação da alma não pede rótulos, pede presença.
Não exige explicações, clama por sentido.
Talvez por isso incomode tanto: porque revela que há dores que não são patológicas,
são existenciais.
E estas, por mais incômodas que sejam, só se aquietam quando alguém aprende a escutar —
não o ruído,
mas o vazio que o produz.
Que o Médico dos médicos tenha misericórdia de todas as almas carentes!
Amém!
Me olhavas com aquele olhar de cobiça inquieta...
me tomavas com tua inquietação visivelmente marcada... a inquietar-me os lábios sequiosos.... me deixando em inquietante tontura ...
(Inquietude)
Procuro uma dose de sossego para essa minha inquietação... vou dar uma volta, quem sabe encontro um chocolate, é quase a mesma coisa.
Uma pequena quantidade de inquietação vai acabar ocupando todo o nosso espaço de inquietação. A sua é tão ruim quanto a dos outros, que têm causas obviamente mais graves.
Melhor é o pouco, havendo o temor do Senhor, do que grande tesouro onde há inquietação. O dinheiro adquirido legalmente, ou seja, sem pecado é precioso quando vem como fruto da bênção de Deus e do trabalho honesto. Porém, de nada vale ter dinheiro mal adquirido e viver inquieto. Não tem proveito algum dormir numa cama macia e não ter paz de espírito, colocar a cabeça num travesseiro de pena de ganso e ser assolado pela inquietação. É melhor viver com o que se tem e que se pode e andar no temor de Deus do que adquirir bens de maneira pecaminosa, viver no luxo, mas com a alma perturbada.
Dos dias de inquietação...
Dois pássaros voando para lados opostos. Um foi em direção ao sol e o outro se foi pra longe. Onde já nem o vejo mais... Espera passarinho, já vou contigo.
Essa inquietação está me irritando, eu posso te sentir por perto e isso me atrapalha. Ter você por aqui faz com que meus pensamentos se tornem você, com que meus dias se tornem você, com que minha vida gire em torno de ficar perto de você. Ruim, terrível, horrível é essa sensação de dependência.
E de repente surge uma incapacidade, uma fraqueza, algo mais forte do que eu poderia imaginar e me faz ficar mais perto, cada vez mais juntos, cada vez mais ligados um ao outro.
Desapareça, suma, morra, faça qualquer coisa que deixe meu coração quieto. Eu não posso continuar com essa loucura.
Eu não tenho medo, tenho uma leve inquietação emocional que faz alusão a uma falsa-realidade de que tudo pode dar errado.
Nostalgia:
A inquietação da alma,
A solicitação da calma.
A solidão entre multidão,
A angustia no coração.
O desejo do que se foi,
O almejo do que se pode ser.
O sonhar em vivenciar.
Insistir em acreditar.
Que o ontem no amanhã se tornará!
Na maioria dos casamentos com filhos há uma inquietação econômica feroz. As necessidades são reiteradas e insciáveis. Igualmente a adversidade. Só Deus pode ajudar.
E ajuda, quando pensamos que estão esgotadas todas as possibilidades.
Então talvez seja isso, sentado, nessa inquietação que não me deixa concentrar em nada, escrevo:
Você faz algum sentido em minha vida? Você faz parte de meus planos e das minhas metas?
A resposta, obviamente, seria "não". Não seria ofensa, nem desgosto, nem mudança de opinião. É tudo tão novo, entenda, que não posso te dizer que você estava em meus planos. Não estava. E aconteceu, não foi? E surgiu, e o sentimento pode-se dizer, se não for ingenuidade de minha (ou de sua) parte, se desenvolveu. Não sei explicar, não sei o que dizer.
Consigo eu, bobo, parar de escrever? clamo ad te domine.
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