Indiretas de amor: demonstre interesse com sutileza đ
â "O que serĂĄ de vocĂȘ, depois d'eu?
Quem hĂĄ de curar-lhe as feridas, quando for-me eu?
Tu me abandonastes, e das feridas que me causara; a saudade, foi a que mais doeu.
Eu sou de ninguém, as vezes sou do mundo, mais eu queria mesmo, era ser seu.
Eu peço, rogo, imploro, por uma eternidade contigo, para Deus.
Essa nossa distĂąncia, me faz ateu.
Depois do fim, o que serĂĄ de ti, o que serĂĄ d'eu?
O nosso inĂcio nunca existiu, e jĂĄ encontrou um fim, infelizmente morreu.
Enterrado no cemitério da esperança, onde aquele nosso sonho, aquela nossa felicidade, jazeu.
Quisera eu, que em meu leito de morte, houvesse a luz de uma outra vida contigo, mas Ă© sĂł breu.
Eu jĂĄ nĂŁo me pergunto o que existe apĂłs o jazer, a minha Ășnica indagação Ă©: O que serĂĄ de vocĂȘ, depois d'eu?"
â "Se a perfeição fosse um pecado, eu seria o mais pecador dos homens; nĂŁo por ser perfeito, mas por venerar-te, seu nome.
Por um beijo seu, eu daria fama, riqueza, renome.
Até a minha vida, e se não bastasse, a vida de qualquer outro homem.
Sou louco por amĂĄ-la, mas da minha insanidade, aquela beleza Ă© a fonte.
O que posso fazer? Se o pĂŽr do Sol, lembra sua beleza, ao longe.
Ăs tu, meu horizonte.
SĂł enxergo vocĂȘ, quando clamo por seu amor na madrugada, Ă© vocĂȘ minha deusa, dona do meu ser, meu coração na sua estante.
Eu queria uma eternidade com vocĂȘ, mas pra mim, jĂĄ basta um Ășnico instante.
Meu coração é um infante.
Lembrar-lhe Ă© um infarto, fulminante.
Os lampejos de nĂłs dois, em minha memĂłria, Ă© algo incessante.
Correrei atrĂĄs de ti, mesmo que me canse.
Por vocĂȘ, abdicaria do paraĂso e rastejaria por todo o inferno de Dante.
Mergulharia no mar das incertezas, velejaria no oceano do tempo, entre o depois e o antes.
Tens a riqueza de ouro, pérolas, do mundo, todos os diamantes.
Eu sou um pecador, nĂŁo pelo pecado em si, mas por venerar-te como divindade, louvar como Deus, o seu nome..."
â "Hoje, em sonho, um estranho me disse algo, que me trouxe uma tristeza desenfreada.
Como em morte, em um outro mundo, eu acordara.
Disse-me ele: 'Que naquele mundo, cada hora, equivalia a um pulsar, do coração da amada.'
Me disse tambĂ©m, que poderia passar ali mil anos, ela e eu, jamais serĂamos uma sĂł alma.
Até então o sonho, transformado em pesadelo, só me fazia querer voltar pra casa.
Voltar pra realidade, para a vĂŁ esperança, de tĂȘ-la em meus braços, embalada.
Me perdi na beleza daquele lugar, entre as ĂĄrvores, o perfume das flores e o verdejar das matas.
Em um piscar de olhos, estava eu, em casa; trĂȘmulo, embebido em suor e os olhos cheios de lĂĄgrimas.
A cama vazia, minha pele fria, e em meu peito, o desespero gritava sua falta.
Percebi que aquele sonho, fora mais real do que eu esperava.
Era verdade; cada batida daquele coração, um dia me confidenciara.
Que poderia eu ser porto, abrigo, contra as mazelas desta vida desgraçada.
Mas nĂŁo importa o que eu fosse, ela jamais seria a minh'amada.
Era certo, nessa vida, jamais serĂamos uma sĂł alma..."
â Chega a ser cĂŽmica a indignação delas.
O que posso eu fazer, se amo Ă© ela?
à ela, ofereço um universo; a estas, fragmentos, quirela.
A vida jĂĄ teve alegria, hoje sĂŁo sĂł mazelas.
Hoje Ă© velĂłrio, o que outro dia fora festa.
Sua ausĂȘncia transformou em gris o que um dia foram cores, aquarela.
Os sonhos da chuva de arroz, o arremesso do seu buquĂȘ, ainda infectam minha mente, como bactĂ©rias.
O branco do vestido antagoniza o negror do meu luto, parece-me, drenou a minha resiliĂȘncia.
Desalento, mau agouro, infelizmente fiz do teu abraço a minha residĂȘncia.
Outros amores? ParcimĂŽnia.
Pinto nosso futuro, como um pintor, em uma tela.
Seu amor Ă© prisĂŁo, frio, como uma cela.
à engraçado, quando me recordo de tudo que jå fiz para ser dela.
Mas cÎmico mesmo é a indignação delas.
O que posso eu fazer, se amo Ă© ela?
â A verdade Ă© que eu odeio o fim de tarde.
Odeio o farfalhar das folhas, o doce e sereno bailar das ĂĄrvores.
Odeio o bafejar do vento, que me assopra a face.
Odeio o pĂŽr do Sol, cuja beleza sublime me remete a ela, minha beldade.
A verdade Ă© que eu odeio o fim de tarde.
Odeio o cantarolar dos pĂĄssaros e a balbĂșrdia da cidade.
Odeio tantas coisas, mas eu odeio mesmo Ă© essa distĂąncia, nossa saudade.
Odeio a mentira, mas, por tantas vezes, também odiei a verdade.
A verdade Ă© que eu odeio o fim de tarde.
Odeio ter que me reencontrar todas as vezes em que me perco no castanho dos seus olhos, meu mar de serenidade.
Odeio sua boca, pois, mesmo estando tão perto da minha, a distùncia que as separa vai daqui até Marte.
Ăs vezes, odeio amar-te.
A verdade Ă© que eu odeio o fim de tarde.
Odeio meu corpo, pois quando estĂĄ deslizando sobre o seu, me queima a pele e an alma arde.
Odeio toda religiĂŁo, pois fiz somente de ti minha divindade.
Odeio as estrelas e a Lua, porque o brilho e a palidez me lembram suas fases.
E por lembrar-me amiĂșde de ti, amada minha, Ă© que eu amo o fim de tardeâŠ
â Como posso eu ter calma?
Sendo que o coração que jurou-me ódio, sei que me ama.
A mesma boca que deveria despir só o corpo também despe a alma.
Ă amor de peito o que deveria ter sido sĂł amor de cama.
Na madrugada não sou eu, é só o lençol, que por ti clama.
Do que me adianta?
Um amor racional e uma paixĂŁo insana?
Perdoe-a, pai, pois ela nĂŁo sabe o que sente, nĂŁo sabe a quem ama.
Ela sabe que, a cada toque, meu nome ela chama.
As labaredas, o ardor dessa paixĂŁo, o meu ser inflama.
AmĂĄ-la transformou-se em blasfĂȘmia.
Nessa cacimba de amarguras, morro e vivo um dilema.
E vivendo tudo isso, como posso eu ter calma?
â O cheiro da noite sĂł me causa dor.
Me lembra teu perfume, relembro o seu ardor.
Era intensidade de alma, intensidade de corpo, intensidade de amor.
Eu sei o que sou.
Posso ser louco, demĂŽnio, sua divindade, herege, pecador.
Olho o céu, quando chuva, sou gris; quando Sol, sem cor.
O peito, que um dia fora sĂł paixĂŁo, hoje parece-me, ser sĂł rancor.
Lembro-me que cada toque, cada beijo, trazia Ă sua face, aquele belo rubor.
Ăbrio de paixĂŁo, o meu ser era sĂł furor.
Ăs a mais bela das flores, mulher, hoje eu invejo cada beija-flor.
Fui escravo de um coração, o qual acreditei ser o senhor.
Nem do império, que fantasio contigo, posso ser o imperador.
SĂł me restaram as vazias palavras, acabou-se meu pundonor.
Das minhas falĂĄcias, eu mesmo sou o trovador.
Vislumbro o horizonte e vejo o Sol se pĂŽr.
Ali eu sei que vai se iniciar o meu torpor.
Pois quando a noite vem, o cheiro dela sĂł me causa dorâŠ
â Sou prisioneiro do que fora dito, escravo do que ficou por dizer.
Sonho com as palavras que ela nĂŁo disse, meu pesadelo Ă© sem ela viver.
Ser feliz sem ela, ilusĂŁo do meu ser.
O ardor que existia naquele olhar, hoje é um todo blasé.
Dor, sofrimento; Ă minha existĂȘncia, jĂĄ nĂŁo existe mais prazer.
Ver para crer.
Crer para ver.
Ăs a mais bela, Ă©s perfeição, Ă©s um coral de anjos, mas o que sou sem vocĂȘ?
Pra um amante da razĂŁo, graças Ă sua ausĂȘncia, atĂ© a loucura estou tentando entender.
Em um quarto escuro, devaneio um futuro impossĂvel e escrevo palavras que sei que ela nĂŁo vai ler.
A cada dia, a cada hora, a todo minuto, eu luto pra aquela lĂĄgrima nĂŁo escorrer.
Enxurrada de emoçÔes, cacimba de desgosto, poço de dor, o que um dia fora o meu bem-querer.
De dentro da cela dessa paixĂŁo, fito a janela e nĂŁo vejo um novo amanhecer.
Longe do fulgor do seu olhar, nĂŁo me existe um alvorecer.
Para o meu desalento, os grilhÔes desse sentimento, sou incapaz de romper.
E por isso fiz-me prisioneiro do que fora dito, quiçå, escravo do que ficou por dizerâŠ
â Ela Ă© vilĂŁ.
Ela Ă© mĂĄ.
Ela levou-me até a culpa.
Levou-me também a chance de me desculpar.
Levou com ela o meu perdĂŁo e tambĂ©m levou a chance dâeu a perdoar.
Cada face que olho, a cada toque em minha tez, a cada beijo recebido, ela estĂĄ lĂĄ.
Mesmo que ela me deixasse a culpa, eu nĂŁo saberia a quem culpar.
Ela Ă© vilĂŁ.
Ela Ă© mĂĄ.
Pois ela se foi, mesmo sabendo que Ă© meu Sol, minha luz, meu ar.
Hoje, a loucura tomou conta do meu eu, pois sou grato a essa dor, por fazer-me dela lembrar.
Embebido em devaneios, aquele abraço deu espaço à solidão, e é nela que hoje faço o meu lar.
Pecador que sou, tomei a liberdade de mais um dos capitais criar.
O oitavo e pior dos pecados do homem Ă© amar.
E por pecar demais, do purgatĂłrio da sua ausĂȘncia, nĂŁo poderei escapar.
Na histĂłria que fantasio entre nĂłs dois, estou sempre perdendo, mas nĂŁo canso de lutar.
E nessas mesmas histĂłrias, ela Ă© a vilĂŁ.
Ela Ă© mĂĄâŠ
â A coisa mais difĂcil que existe Ă© confiar em mim mesmo. Mas tambĂ©m, como posso confiar em alguĂ©m que ama de todo ser alguĂ©m como vocĂȘ?
â Diz ser ousada, mas nĂŁo tem ousadia.
NĂŁo ousarias ser minha felicidade, minha alegria.
Não ousaria agora, como também não ousara aquele dia.
NĂŁo ousarias.
Não ousou um abraço mais forte, um beijo com ardor, aquecer minha alma fria.
NĂŁo ousou, nĂŁo ousas, e sei; nĂŁo ousarias.
Quem te usa, tu amas; quem te ama, tu usas, e Ă© nesse ciclo que a dor se inicia.
A mente jĂĄ nĂŁo sabe o que Ă© memĂłria e o que Ă© fantasia.
Parece-me, tenho as respostas na ponta da lĂngua.
MemĂłria, Ă© seu abandono; fantasia, Ă© contigo uma vida.
Tento roubar o coração de uma mulher com alma de menina.
Sua indiferença é mar; sua gratidão, cacimba.
Tentou ser feliz, mas nĂŁo com sua felicidade, hoje compreendo sua covardia.
O fizestes porque diz ser ousada, mas em seu Ăąmago sabes, nĂŁo tem ousadiaâŠ
â Tudo o que fizemos.
Tudo o que vivemos
Somos tudo, somos um, somos os livros que lemos.
Amnésia é livramento.
Tirar vocĂȘ do pensamento.
Inimiga, saudade; aliado, o tempo.
Em cada beijo, em cada toque, eu te fazia um juramento.
Abdiquei das palavras, pois, de tĂŁo vazias, elas se foram com o vento.
Amor Ă© ambĂguo, prazer e dor, juntos; sofrimento.
Crer em nossa felicidade Ă© o que me torna ingĂȘnuo.
A sua presença queimou-me a alma, e nem as lĂĄgrimas da sua ausĂȘncia foram capazes de apagar o incĂȘndio.
Rogo aos cĂ©us, imploro ao Deus, uma Ășnica chance de poder fazer tudo aquilo que nunca fizemosâŠ
â Recordo-me, minha amiga, que naquele dia, naquele instante, eu a fitei com os olhos de completo desejo. Senti-me um louco por fazĂȘ-lo, mas tambĂ©m, amiga minha, qual homem nessa terra de horripilĂąncias nĂŁo o faria? Ao fitar tal beldade, tal arte desnuda, ela parecia-me ter uma beleza crua, ela parece que nunca fora tocada por essa terra impura. Sei que sou o sal, o pĂł da terra, minha amiga, sei disso. Ăs vezes o sei mais que qualquer outro ser, nessa mundana pintura; mas aquela mulher, minha cara, ela fora esculpida em mĂĄrmore, quiçå em carne, pelas mĂŁos do prĂłprio Deus. Eu sempre acreditei que em seu reino sobre os cĂ©us, Deus nĂŁo tinha nenhum filho preferido, atĂ© vĂȘ-la naquela tarde quente de outubro, minha amiga, onde o mundo ardia, queimava, e ao fitar-lhe, lembro-me, minhâalma gelara, senti um suor congelante, as mĂŁos frias. Eu, que nĂŁo acreditava, hoje creio em Deus e em amor Ă primeira vista e creio nĂŁo por crer, mas sim porque o sentira...
â Infelizmente, ela confundiu calor com torpor.
Achou que era cacimba o que era sĂł ofurĂŽ.
Talvez ela seja louca, pois confundira paixĂŁo com amor.
Confundiu desejo de carne com desejo de alma; realista com sonhador.
Confundira, também, prazer com dor.
Confundira quem lhe fora fiel com traidor.
Ela pensou que eu seria um todo gris, mas, em sua vida, eu fora a Ășnica cor.
Eu sou só lembranças, onde a amnésia se instaurou.
Confundiu comédia com horror.
Até mesmo para as suas feridas confundiu-me com doutor.
Médico da alma, de lågrimas, um curador.
Eu, mudo em meus devaneios, silencioso em minhas mazelas e pensamentos, confundiu-me com orador.
Escravo do que sinto por ela, gritou aos quatro ventos que eu era um tirano, rei daquele sentimento, sanguinĂĄrio imperador.
Como PĂŽncio, lavei minhas mĂŁos do sangue do julgo de meu inquisidor.
NĂŁo fui eu quem matara nosso amor.
Infelizmente, novamente ela confundira, que tristeza; nĂŁo ouvira meu clamor.
Ela confundiu meu calor, com dela, o torporâŠ
â Era uma vez um homem que um dia fora luz, mas hoje Ă© um todo de trevas, por amar atĂ© a sombra de alguĂ©m.
Era uma vez um homem que sempre via aquela doce face no rosto de outrem.
Era uma vez um homem que por ela daria a prĂłpria alma, e se tivesse mais de uma, daria mais de cem.
Era uma vez um homem que amava, mas nĂŁo sabia a quem.
Era uma vez um homem que nĂŁo sabia como fechar as feridas que tĂȘm.
Era uma vez um homem que, por amar demais, jĂĄ nĂŁo distinguia o que lhe fazia mal ou bem.
Era uma vez um homem que descobriu que, para se ter felicidade no amor, é só amando ninguém...
â Eu sinto o desejo em seu olhar, a excitação na sua voz.
Quando novamente me tocar, o que serĂĄ de mim, o que serĂĄ de nĂłs?
Sou a ĂĄgua que lhe mata a sede; do seu rio, eu sou a foz.
Tornei-me presa na sua rede, mate em mim esse animal feroz.
O seu olhar Ă© meu combustĂvel, mas tambĂ©m Ă© meu algoz.
Ăs vezes paro e penso: meu amor por ti, mulher, chega a ser algo atroz.
Queria construir-nos um palĂĄcio, algo mĂĄgico, como a cidade de Oz.
Ou talvez ser um homem de lata, sem coração, a vagar por terras åridas, em completa solidão, com meu albornoz.
Mas vocĂȘ sempre dificulta minha despedida, pois, ao se despedir, eu sempre sinto o desejo em seu olhar e a excitação na sua voz...
â Permita-me, Deus, antes de morrer, a extrema unção do beijo dela.
Rogo-lhe, Pai, sobre os cĂ©us, o paraĂso de uma vida com ela.
Conceda-me, Deus, apenas um Ășnico minuto de sua eternidade ao lado dela.
Entenda-me, Javé, toda eternidade pra mim é pouco quando ao lado dela.
Perdoe meus pecados, Deus, perdoe-me por nĂŁo adorĂĄ-lo como mereces, mas sĂł consigo adorar a ela.
Livrai-me, Pai, de cada lembrança, pois o que era liberdade hoje tornou-se cela.
Somente tu, meu Deus, sabe que a cada dia longe daquela alma a minha morte torna-se certa.
Sabendo disso, rogo-lhe, Pai, para quando o meu eu, em morte, viva um pouco com ela.
Logos, lhe imploro; Cristo, faça-me dela.
Rogo-lhe, meu Deus, antes de morrer, apenas permita-me a extrema unção do beijo dela...
â Ela se estremecia a cada toque.
Lembro-me do ébano da pele, que a cada beijo parecia dar choque.
A boca, que bosquejava meu corpo, parecia-me que ao deslizar pelo meu eu, fazia-me mais forte.
Sou Deus, demĂŽnio; sou pecado, sou bĂȘnção; do seu amor, escravo; da solidĂŁo, consorte.
Azar meu amar vocĂȘ, queria odiar-lhe, mas nĂŁo tenho sorte.
Fiz o que podia, o que posso e vocĂȘ, fazer algo por nĂłs, nunca pode.
Eu atĂ© tentei esquecĂȘ-la, mas ao aceirar minha labuta, recordo-me que ela se estremecia a cada beijo, a cada palavra, a cada toque...
Ăs vezes, o nosso melhor sonho Ă© a nossa pior cela.
Amada minha, eu jĂĄ abri mĂŁo do crucifixo e das preces na capela.
Abri mão da esperança, sei que a vida é só mazela.
Tentei enjaular meu coração, que às vezes é a própria besta; outras, fera.
Meus sentimentos, pensamentos, madrugadas, sĂŁo dela.
SolitĂĄria vida, fria cela.
Amada minha, eu jĂĄ abri mĂŁo dos orixĂĄs e da oferenda.
A razão e a emoção travam uma batalha e é minh'alma que se fere na contenda.
VocĂȘ Ă© meu destino, meu desejo; de outras vidas, minha senda.
Ela nĂŁo sabe o que Ă© amor, nĂŁo sabe o que Ă© amar, e meu eu, parvo, quer que ela entenda.
Rebusquei os rincÔes do coração e percebi que amor e ódio não tem diferença.
O problema Ă© todo dela.
O problema todo Ă© ela.
O problema sĂŁo os olhos, o sorriso, que parecem terem sido pintados por Deus, como em tela.
Talvez tenha sido meus pecados que me afastaram dela.
PerdĂŁo, Pai, mas sĂł consigo adorar a ela.
Amada minha, a Ășnica coisa que me fizera mais crente naquele crucifixo fora a esperança da grinalda e da chuva de arroz, enquanto tu desfilavas de branco, ao sair da capela.
Por isso hoje o meu melhor sonho Ă© a minha pior cela...
â "SĂŁo cartas.
Promessas vazias, conto de fadas.
SĂŁo cartas.
Na noite fria, sem sua companhia, com suas falĂĄcias.
SĂŁo cartas.
Palavras escritas, vida mal resolvida, no fim, sĂł palavras.
SĂŁo cartas.
Cartas escritas, tudo as escondidas, no seu jogo de cartas.
SĂŁo cartas.
Loucuras vividas, os olhos transpiram, enquanto lhe escrevo, minha amada.
SĂŁo cartas.
Cartas cartogrĂĄficas, enquanto eu velejo, pelo turbilhĂŁo de suas ĂĄguas.
SĂŁo cartas.
Quando lancei-lhe minhas fantasias, eu as aprisionei, como cartas em garrafas.
SĂŁo cartas.
No seu jogo, tens toda a minha alma, porquĂȘ pra vocĂȘ, as emoçÔes, no fim das contas.
SĂŁo cartas..."
