Fui
lápide de açucar
atravessando a rua, fui atravessado.
caminhão de sorvete me deixou gelado.
almíscar e sangue, doce e amargo.
rosa, azul e um branco pálido.
dançando junto
em cima do asfalto,
corpo fechado,
pé numerado.
meu túmulo
caramelizado,
que jeito melado
de morrer.
e apesar da dor, virei sabor:
sorvete derretido,
perdeu o valor.
agora sou história,
verso travado,
epitáfio doce
e congelado.
E de toda a vida que me resta, dos dias em que fui o que não escolhi ser, em que a liberdade se me impôs como uma condenação, percebo agora, no fim de tudo, que não vivi. Fui, apenas fui – e o ser que fui não foi senão um vagabundo, como um trapo sujo em que o mendigo dorme. O que me resta, afinal, senão um nome e um sobrenome na certidão de nascimento, e uma data e uma hora no obituário? Talvez a cova rasa seja mais profunda do que a minha miserável vida, que agora, afortunadamente, encontra seu único propósito: ser adubo. A terra, fria e indiferente, me receberá calorosamente como alimento para os vermes, que se banquetearão de minha carne, sem julgar o que sou, o que fui. E os vermes, esses mesmos que consomem minha decadência, não saberão, porque nada sabem, da angústia de ser.
Hoje, fui até a janela...
E lá estava ela,
tão perto, mas tão distante,
entre o vidro e a luz que entra pela fresta.
A vi. Jovem, bonita,
como quem não quer ser vista,
mas é vista.
Sorriu. Acenou.
Acenou para mim, ou talvez para alguém
que eu não sou,
alguém que ela inventou,
ou apenas imaginou
do outro lado da rua,
junto a tantos outros que não significam nada.
Quantas janelas existem, e quantas são abertas?
E por um momento, me vi em outra vida:
um homem com coragem,
um homem que caminha até ela,
que diz o que nunca sei dizer.
Talvez um "como vai?",
ou apenas um olhar —
silencioso, sem palavras, sem promessas.
Mas não sei.
Nunca soube.
Eu sou só o homem do outro lado da rua,
um qualquer, um ninguém.
Quantos outros existem,
em cada janela, em cada lado, em cada rua?
E ela, tão real quanto o impossível,
como o céu, como as estrelas,
como esta metafísica que nos envolve,
que permeia o que somos e o que vemos,
mas que jamais entenderemos.
Como o mistério das coisas,
que olhamos e pensamos entender,
mas que nunca saberemos.
E eu, o estranho do outro lado da rua,
sem coragem de atravessar,
sem palavras, sem ousadia de ser:
um ninguém.
E ela, com aquele sorriso,
me vê por um segundo.
Mas será que me vê de verdade?
Ou será que me inventa,
como todos inventam a si mesmos,
como eu invento o que sou?
Então ela se vira.
Ela se vira e vai embora.
E com ela, meus pensamentos,
meus sonhos, minha vida.
E eu, aqui,
do lado de cá da rua,
vendo a vida passar —
a vida vivida e sonhada —
sabendo que nunca farei parte de nada disso.
Nunca farei parte de nada disso,
nem daquilo outro.
Nunca farei parte.
Eu não vivo de trabalho.
Vivo do dinheiro.
O meu trabalho já passou.
Fui roubado.
O meu trabalho de hoje é de outra pessoa.
Heus Amor
Por que fui não ser eu, como antes?
Por que mudaste tanto, amor?
Me entreguei de corpo e alma
E de brinde ganhei horror
Vê se esquece meu nome
Vê se morre pra mim
Eu já estou tão triste
Não me machuque assim
Veja nos meus olhos
A imensa melancolia
Veja no fundo dos castanhos meus
E mude sua vida
Volte a voltar, mude ao mudar
Ensine a ensinar, e nada mudará
Vem, segue o meu querer
Vieste a me esquecer?
Vieres sempre a andar a rua,
Ao meio-dia, na sua
Nunca olho a lua
Pois me lembro de você
Nunca vejo o seu brilho
Por que não me concedes me esquecer?
Fantasia
Já me senti um anjo
Com meiguice de criança
Já fui pássaro
Criei asas e voei
Fui a esperança.
Fui até sereia
E nesse mar te encantei
Fui tempestade
Arrancaram minhas asas
E não desanimei.
Fui chuva
Só para te molhar
Fui sombra
A te proteger do sol
Fui a força de um girassol.
Fui tanta coisa
Agora sou a serenidade
De uma noite calma
Sonhos flutuantes
Tranquilidade.
Dormir com cheiro de paz
Acordei na hora certa
Coisa boba
Apenas fantasia de poeta
A porta do coração está aberta.
A Área Cinzenta
Nunca fui daqueles que se apaixonam pelo brilho imaculado das virtudes. Tampouco daqueles que abandonam ao primeiro sinal de falha. O que me move, o que verdadeiramente me atrai, é outra coisa — algo menos visível, mais sutil, quase indizível.
Aprendi — talvez a duras penas — que ninguém ama só o que é belo. Que ninguém desiste só do que é torto. O amor real, aquele que sobrevive às estações, não floresce apenas no jardim das qualidades, nem morre no pântano dos defeitos. Ele nasce ali, entre um e outro, em um terreno silencioso e inquieto: a área cinzenta.
Essa terra estranha, onde não há garantias nem perfeições, onde convivem a luz que aquece e a sombra que assusta. Um lugar onde o olhar não se detém apenas no encantamento — mas ousa seguir adiante, até encontrar aquilo que dói, que desafia, que expõe.
Ali, os olhos não brilham apenas pelo que fascina, mas pela coragem de ver o que é humano demais.
É nessa zona imprecisa que o amor se revela como ele realmente é: imperfeito, sim, mas imensamente verdadeiro. Porque ali o outro não precisa performar, não precisa provar, nem esconder. Ele apenas é. E isso basta.
Não me interessam os amores de vitrine — polidos, artificiais, à prova de mágoas. Nem os romances descartáveis, que se desfazem diante do primeiro tropeço. O que eu procuro — mesmo sem saber exatamente como chamar — é esse tipo de vínculo que se assenta entre a admiração e o desconforto, entre o que me eleva e o que me testa.
Na área cinzenta, o amor é trabalho e escolha. É entrega que não exige perfeição, mas inteireza. É quando olho o outro, cheio de falhas, e ainda assim digo: "sim, eu fico." Não por cegueira, mas por compreensão. Não por carência, mas por coragem.E ali, nesse ponto onde o ideal cede lugar ao real, que mora o amor que me interessa: aquele que vê tudo — e ainda assim, permanece.
Eu fui faxineira uma vez. Todo emprego que eu arrumei depois só foi faxina ou serviços domésticos. Que ironia, não é? Fiquei a vida toda fadada a faxina. Se meu primeiro serviço fosse em loja, estaria fadada a vida toda em loja. Se fosse telefonista, seria o resto da vida...
Não fui eu que criei expectativas sozinha.
Foi você que acendeu a esperança, falou bonito, me procurou, me envolveu.
Foi você que plantou a dúvida e depois fugiu da responsabilidade.
O meu erro não foi sentir, foi confiar.
E mesmo assim, sigo em paz — porque quem é inteiro não precisa de migalhas.
Eu sempre fui sonhadora e nunca vou deixar de ser, embora tenho os pés no chão,mas sonhar pra mim,é uma sensação única..
Fui contaminado pela razão, fui contaminado pelo conhecimento, pela responsabilidade, pela consciência, não de um jeito ruim, mas libertador.. E desde então só consigo resolver as coisas de forma racional, e quanto mais eu busco a consciência mais simples e robusto a verdade profere da minha boca, causando frustração e dor nas mentes fracas..
Eu vivo em um abismo entre três ações, me lamentar por quem eu já fui, me frustar com quem eu sou e sonhar com quem eu quero ser.
Mileuma e Nenhuma.
Eu, já fui eu mesma,
Em centenas de pedaços de vezes,
Como porcelana quebrada,
Refeita em mosaicos,
Pronta a me reconstruir,
Mais de cem,
Menos de mil,
Mais de mim,
Talvez um pouco menos viril,
Mas, num tempo,
Nem um pouco vil.
Sigo calada em esperança,
Da boca cerrada,
Um concerto para a alma,
Um afago para a mente.
Mais um ciclo fechado.
18/06/2025.
O deserto que me cerca não me intimida como antes, me vejo agora entre quem fui e quem estou buscando me tornar, velhos hábitos me cercam para me afastar dos novos hábitos. Não pude extinguir meu apego a ela, mas não a amo mais e nem tenho todo apego antigo, já me encontro me abrindo para uma nova paixão.
De todas as versões que já fui, a que sou hoje é a que mais me inspira. Não porque tudo esteja no lugar, mas porque finalmente estou. Aprendi que os recomeços nem sempre fazem barulho. Às vezes, eles surgem em momentos corajosos, como dizer "não" quando antes me anulava. Como não mendigar o que mereço receber por inteiro. Vamos aprendendo a permanecer somente onde nossa presença é valorizada, nos sentindo em casa, onde nos acolhem com boas intenções. E perdendo a necessidade de impressionar quem não enxerga a nossa essência. Hoje, sou o meu próprio abrigo. Sou a calma depois do vendaval, a certeza da minha força depois de tudo que passei. E não é que tudo esteja perfeito. Mas agora não fujo das imperfeições, eu as acolho, pois sei que fazem parte da vida. Eu me olho com honestidade. Me cuido com intenção. Posso dizer que a minha versão atual é a mais resiliente depois de tudo que aconteceu.
O show continua
Recaídas em recaídas fui levando a vida sufocado pelos desejos que eram incontroláveis,
sem paz andei a noite pelos bares alucinado tentando te esquecer, mas nos bares só tocavam aquelas músicas que me levavam até você,
não da para bater de frente com as vontades do universo, alguns ciclos não se fecham com facilidade principalmente quando estamos no centro dele,
em transe ou vulnerável demais, amanhece mais um dia e eu perdido em tudo que envolve você, a força das nossas lembranças juntos tem me levado pra longe, não sei se estou vivendo ou se estou vagando,
o show ainda não acabou, as cortinas estão apenas fechadas temporariamente,
pela manhã, não tem preço olhar você dormindo com minha mão nas tuas costas, seu cabelo preto e alisado jogados no travesseiro, teu perfume espalhado pelo quarto, esse é o desejo surreal que mora na minha cabeça,
te liguei, foi por engano mas se quiser retornar estarei aqui.
em tão poucos dias me apaixonei por vc, ao passa do tempo eu fui me apaixonando mas ainda por vc, e no final eu me apaixonei pela sua alma.
Desde que cheguei em São Paulo, tudo parece um sonho elétrico — um glitch entre o que fui e o que estou virando. As luzes de neon cortam o céu cinza como cicatrizes brilhantes, e o concreto pulsa sob meus pés como se a cidade tivesse um coração cansado. Tem um sentimento estranho em mim — não sei se é liberdade ou abandono. Talvez os dois.
Ando por entre sombras digitais, reflexos distorcidos em vitrines vazias, procurando algo que nem sei nomear. Carrego memórias como códigos antigos, corroídos pelo tempo, mas sigo. Sou jovem. Sou livre. Tenho coragem pra encarar a escuridão com os olhos bem abertos.
Aqui, ninguém diz tudo. As palavras somem entre o ruído das máquinas e os sussurros do vazio. Mas mesmo sem sono, mesmo me perdendo, eu caminho — porque mudar é preciso, e o recomeço às vezes nasce do colapso.
Entre sobreviver e viver, escolho me arriscar. Escolho existir.
E nessa cidade que nunca dorme…
eu também nunca desligo.
Eu gostei de você
Amei você
Fui gentil para você
Me arrumei por você
Me apaixonei por você
Eu era louca por você
Mas você...
Era apenas louco.
-Nandinha13
