Era
E ela era feito o mar... ou tu mergulha intensamente ..ou observa de longe ... tem gente que nasceu pra pilotar o navio , desvendar as belezas que as águas escondem ...e tem quem fica apenas na margem ... observando apenas até onde os olhos alcançam...
Eu que era sério, fechado , meio bobo ...me peguei assim sorrindo atoa denovo ... me peguei pensando demais em você...
*O GATO, OS MORTOS E A ÚLTIMA PÁGINA*
A sala estava do jeito que eu havia deixado.
Não era exatamente bagunça. Bagunça pressupõe algum critério. Aquilo era apenas o resultado de anos deixando as coisas para depois.
Havia caixas de livros encostadas na parede desde a última mudança. Algumas ainda fechadas. Outras abertas. Uma delas tinha o canto rasgado e deixava escapar algumas lombadas, como se os livros estivessem tentando fugir.
No canto da sala havia uma vitrola do final dos anos setenta. Pesada, de madeira escura, com a tampa transparente já marcada pelo tempo. Ao lado dela, uma coleção de vinis que eu vinha carregando de uma casa para outra havia mais tempo do que gostaria de admitir.
Um disco girava.
Eu não estava prestando muita atenção à música.
Talvez fosse esse o motivo de ela ainda estar tocando.
A música servia melhor quando não exigia nada da gente.
Na mesa havia uma xícara de café com whisky irlandês.
Não era um hábito.
Era uma negociação.
O café me mantinha acordado.
O whisky fazia parecer menos estúpido o fato de eu estar acordado.
A televisão permanecia ligada.
Passava um filme antigo.
Muito antigo.
Um daqueles filmes em que as pessoas ainda tinham tempo para ficar em silêncio antes de dizer alguma coisa importante.
Eu gostava disso.
Hoje ninguém tem tempo para silêncio.
Há mensagens.
Notificações.
Contas.
Reuniões.
Senhas.
Aplicativos.
Até a tristeza precisa ser rápida.
Talvez por isso eu ainda gostasse dos livros.
Eles não têm pressa.
Podem deixar um homem sofrer por quatrocentas páginas sem pedir que ele melhore no capítulo seguinte.
Fiquei olhando para as caixas.
Uma delas estava aberta.
Eu não lembrava de ter deixado daquele jeito.
Aproximei-me.
Havia um romance.
Um livro de história.
Um drama.
Um livro que eu tinha comprado e não lembrava por quê.
E outro que eu lembrava perfeitamente por que tinha comprado, mas já não sabia por que ainda conservava.
Foi aí que percebi uma coisa desagradável.
Os livros sobrevivem aos motivos pelos quais foram comprados.
Talvez as pessoas também.
Fiquei algum tempo parado diante daquela caixa.
Depois puxei um dos livros.
A poeira subiu.
E minha memória resolveu trabalhar.
O que foi uma péssima ideia.
Frida Kahlo apareceu primeiro.
Não como retrato.
Como ferida.
Frida.
Ferida.
Uma palavra puxando outra.
Sal.
Salitre.
Saudade.
Uma palavra quase igual a outra, mas com uma letra de diferença.
É curioso como uma letra pode mudar uma vida.
Pensei naquilo e comecei a lembrar de outras coisas.
Pimenta do campo.
Sertão.
Terra seca.
Estrada.
Distância.
Não sei por que certas palavras ficam guardadas enquanto outras desaparecem.
Talvez a memória não seja um arquivo.
Talvez seja um bêbado escolhendo o que levar para casa.
Peguei outro livro.
Jonas.
O Leviatã.
Um homem dentro de um peixe.
Fiquei olhando para a página.
Um homem entra dentro de um peixe e sai de lá com uma missão.
Eu entro dentro de mim mesmo e saio com azia.
Fechei o livro.
Depois pensei em Moisés.
A arca.
Os animais.
Dois de cada.
Ou sete.
A memória não sabe mais.
Ela altera as coisas para poder continuar funcionando.
Pandora apareceu depois.
Sempre a caixa.
Os homens gostam de caixas.
Guardam documentos.
Fotografias.
Cartas.
Remédios.
Armas.
Livros.
Coisas que não querem esquecer.
Coisas que não conseguem jogar fora.
Às vezes guardam mortos.
Eu olhei para as caixas espalhadas pela sala.
Foi quando percebi que talvez tivesse feito a mesma coisa.
Passei anos guardando pessoas dentro de objetos.
Uma fotografia.
Um livro.
Uma música.
Uma rua.
Um cheiro.
Um disco.
Meu pai apareceu assim.
Não numa fotografia.
Num pensamento.
Estava entre os mortos da minha memória como se nunca tivesse saído de lá.
Isso me incomodou.
Não porque eu não quisesse lembrar.
Mas porque algumas lembranças não pedem licença.
Elas simplesmente entram.
E sentam.
Peguei outro livro.
Hamlet.
Depois Hamnet.
A palavra ficou na minha cabeça.
Hamnet.
O menino que morreu cedo demais.
Um nome pequeno para uma ausência enorme.
Pensei nele durante algum tempo.
Talvez todos nós sejamos um pouco Hamnet.
Filhos de alguma coisa que não conseguimos terminar.
Pais de alguma coisa que não conseguimos salvar.
Ou apenas homens que chegaram tarde demais para algumas coisas.
A garganta apertou.
Eu bebi o café.
Ainda estava quente.
O whisky já tinha desaparecido.
Foi então que percebi que eu estava cansado.
Não fisicamente.
Era outro tipo de cansaço.
Aquele que aparece quando a pessoa começa a perceber que passou boa parte da vida tentando compreender coisas que não foram feitas para serem compreendidas.
Peguei outro livro.
Odisseu.
Hades.
Agamenon.
Tirésias.
Os mortos conversando com os vivos.
Aquilo me pareceu familiar.
Meu pai continuava ali.
Não dizia nada.
Talvez soubesse que eu já tinha perguntado demais.
Olhei para ele dentro da minha cabeça.
Queria dizer alguma coisa.
Não disse.
Há conversas que só funcionam depois que uma das pessoas morre.
Talvez porque finalmente desapareça a expectativa de resposta.
Sentei novamente.
A música continuava girando na vitrola.
A agulha fazia aquele ruído pequeno entre uma passagem e outra.
Era um som antigo.
Um som de coisa que ainda precisava de matéria para existir.
Hoje apertamos um botão e a música aparece.
Naquela vitrola, era preciso colocar o disco.
Levantar a tampa.
Baixar a agulha.
Esperar.
Talvez a espera também tenha sido uma tecnologia que perdemos.
A televisão mostrava o filme.
Um homem falava.
Uma mulher chorava.
O homem parecia culpado.
As pessoas daqueles filmes tinham uma quantidade impressionante de tempo para sofrer.
Nós não.
Hoje precisamos sofrer entre uma reunião e outra.
A vida moderna não eliminou a dor.
Apenas organizou a agenda dela.
Ri sozinho.
Foi então que pensei na Casa Verde.
Machado de Assis.
Bacamarte.
A razão tentando medir a loucura.
O homem que decidiu descobrir quem era louco e acabou colocando quase todo mundo dentro da instituição.
Talvez a diferença entre loucura e normalidade seja apenas uma questão de votação.
Alguns recebem diagnóstico.
Outros recebem cargo.
Alguns falam sozinhos.
Outros têm microfone.
A loucura não desapareceu.
Aprendeu a usar gravata.
Olhei para os livros.
Eu já não sabia se estava lendo ou apenas lembrando.
Napoleão apareceu.
Depois Alexandre.
Depois César.
Depois Jesus.
Depois Moisés.
Depois Pandora.
Depois meu pai.
Tudo misturado.
A história inteira parecia ter entrado naquela sala sem pedir autorização.
O problema dos mortos é esse.
Eles não precisam de espaço físico.
Cabem todos dentro de uma cabeça.
Fui até a janela.
Lá fora havia uma noite tranquila.
A casa estava cercada por aquele silêncio de bairro que aparece quando as pessoas finalmente fecham as portas e param de fingir que têm algum controle sobre a própria vida.
Olhei para o céu.
Pensei em Deus.
Nunca tive muita sorte com essa questão.
Há homens que encontram Deus numa igreja.
Outros encontram numa doença.
Alguns encontram no fundo de uma garrafa.
Eu sempre encontrei perguntas.
Talvez Deus seja apenas o nome que damos ao que não conseguimos suportar não compreender.
Voltei para a sala.
O gato entrou pela porta.
Sem cerimônia.
Não perguntou o que eu estava fazendo.
Não perguntou por que havia livros espalhados.
Não quis saber quem era Hamlet.
Passou pela vitrola.
Cheirou uma caixa.
Ignorou um livro.
Parou diante de mim.
Olhou.
Depois continuou andando.
Aquilo me pareceu uma atitude muito inteligente.
Um gato não precisa saber quem foi Napoleão.
Não precisa saber quantos animais entraram na arca.
Não precisa resolver o problema de Deus.
Não precisa compreender a morte.
Precisa de comida.
Água.
Um lugar razoavelmente quente.
E talvez alguma paz.
Nós complicamos tudo.
Inventamos religiões.
Filosofias.
Sistemas.
Teorias.
Construímos universidades para tentar explicar aquilo que um gato resolve dormindo.
Fui até a cozinha.
Coloquei comida no prato.
Chamei.
Ele apareceu.
Comeu.
Sem agradecer.
Como deve ser.
Depois desapareceu.
Procurei pela casa.
Encontrei-o na minha cama.
Já havia tomado posse.
Não discuti.
Naquela altura da vida, eu já tinha perdido discussões mais importantes.
Apaguei a luz.
A sala ficou escura.
A vitrola continuava girando.
A música havia terminado.
O disco permanecia dando voltas.
Fui até ela e desliguei.
O silêncio entrou no lugar da música.
Foi então que tudo pareceu voltar para o lugar.
Os livros voltaram a ser livros.
As caixas voltaram a ser caixas.
Os mortos voltaram para dentro das páginas.
Frida voltou para sua ferida.
Jonas para o Leviatã.
Odisseu para o Hades.
Hamlet para sua dúvida.
Hamnet para sua morte.
Fabiano para a seca.
Severino para sua cova.
Bacamarte para a Casa Verde.
Meu pai voltou para onde quer que os mortos permaneçam quando ninguém está pensando neles.
E eu fiquei ali.
Sentado.
Um homem numa sala.
Nada mais.
Pensei que talvez essa fosse a parte que mais incomodava.
Passamos a vida tentando ser alguma coisa.
Inteligente.
Forte.
Bom.
Importante.
Amado.
Lembrado.
No fim, continuamos sendo apenas um corpo sentado numa sala escura, esperando a próxima coisa acontecer.
O gato se aproximou.
Deitou-se ao meu lado.
Senti a respiração dele.
Regular.
Pequena.
Sem preocupação alguma com o destino da humanidade.
Não perguntou quantos anos eu tinha.
Não quis saber o que eu havia feito da minha vida.
Não perguntou se eu acreditava em Deus.
Não quis saber se eu estava louco.
Não perguntou se eu tinha amado o suficiente.
Apenas ficou.
Foi aí que percebi uma coisa.
Talvez eu tivesse passado tempo demais procurando respostas em homens mortos.
Nos livros.
Nas religiões.
Na filosofia.
Na memória.
E talvez a resposta estivesse naquela coisa simples que eu sempre considerei pequena demais para ser levada a sério.
Uma presença.
Alguém ficando.
Não para resolver.
Não para explicar.
Apenas para não ir embora naquele instante.
Fiquei olhando para o teto.
Pensei que talvez esse fosse o nosso maior erro.
Queremos a resposta inteira.
O livro inteiro.
A história inteira.
Queremos saber o começo antes de começar e o fim antes de continuar.
Queremos compreender o amor antes de amar.
Queremos compreender a morte antes de morrer.
Queremos saber para onde estamos indo antes de dar o próximo passo.
Talvez não exista essa informação.
Talvez exista apenas a próxima página.
O próximo gole.
A próxima noite.
O próximo corpo ao nosso lado.
Senti o gato se aproximar mais.
Fechei os olhos.
Por alguns segundos, não havia Napoleão.
Não havia Moisés.
Não havia Pandora.
Não havia César.
Não havia Jesus.
Não havia Hamlet.
Não havia meu pai.
Não havia Casa Verde.
Não havia Sertão.
Não havia Hades.
Não havia Deus.
Havia apenas o quarto.
O gato.
Meu corpo.
E o silêncio.
Dessa vez, o silêncio não pareceu vazio.
Pareceu suficiente.
Talvez seja isso que a velhice ensina quando finalmente perde a paciência com as próprias perguntas.
Nem tudo precisa de resposta.
Algumas coisas precisam apenas de companhia.
O gato respirava ao meu lado.
A casa permanecia quieta.
As caixas continuavam esperando.
Os livros continuavam fechados.
A vitrola estava parada.
E eu pensei que talvez a última página não fosse o fim.
Talvez fosse apenas o lugar onde finalmente paramos de escrever perguntas.
Então dormi.
Sem descobrir o nome da tristeza.
Sem descobrir o nome de Deus.
Sem descobrir o que seria de mim.
Mas com um gato ao lado.
Para uma vida inteira, talvez isso seja pouco.
Ou talvez seja exatamente o bastante.
Mas eu não me preocupava porque eu sabia
Que era preciso conseguir tudo
O que sempre quis e depois perder
Para saber o que é a verdadeira liberdade
*O HOMEM QUE NÃO QUERIA SER PRESO*
Era final de tarde de domingo e minhas alegres visitas tinham partido.
A casa ficou com aquela aparência de lugar onde alguma coisa aconteceu, mas ninguém teve a educação de limpar depois. Havia copos sobre a mesa, brinquedos espalhados, migalhas no sofá e um cheiro de comida que já começava a perder a batalha para o cheiro de casa fechada.
Não me incomodei.
Algumas bagunças são provas de que a vida esteve ali.
O Sol decidiu Acompanhar as crianças e a chuva veio para o expediente.
O gato ficou.
Estava deitado na janela, olhando para a rua com a seriedade de quem aguardava uma decisão importante. As crianças tinham ido embora fazia pouco tempo e, aparentemente, aquilo tinha sido uma experiência marcante para ele.
Talvez tivesse descoberto que humanos pequenos são mais divertidos do que os grandes.
Ou talvez estivesse esperando que voltassem para continuar o serviço.
Eu sabia que não voltariam naquele dia.
Ele não.
Ficou olhando.
Quanto a mim, era apenas o outro morador da casa. Aquele que compra comida, abre a porta, limpa a caixa de areia e paga as contas.
Ele fazia um trabalho muito mais nobre.
Companhia.
Achei injusto.
Fui até a padaria.
Era uma dessas padarias de bairro que colocam algumas mesas na calçada e fingem que aquilo é uma extensão da sala de estar. Sentei do lado de fora. Dali dava para ver o parque, as árvores e os últimos pedaços de sol tentando atravessar os galhos.
O trânsito de domingo fazia pouco barulho.
Alguns carros passavam sem pressa. Pessoas caminhavam pelas calçadas. Um casal empurrava um carrinho de bebê. Um homem levava um cachorro que parecia mais interessado em qualquer coisa do que nele.
Era um bairro residencial. Não havia grandes lojas, vitrines iluminadas ou aquela necessidade permanente de convencer alguém a comprar alguma coisa de que não precisava.
O parque estava cansado.
Talvez eu também.
As árvores continuavam ali, mas tinham aquela aparência de coisa que sobrevive mais por hábito do que por vontade.
A natureza é muito mais honesta quando ninguém tenta fotografá-la.
Pedi um café.
Na mesa atrás da minha havia três mulheres.
Falavam alto o suficiente para dispensar qualquer esforço de escuta.
Conversavam sobre homens.
Pretendentes.
Ex-namorados.
Homens que sumiram.
Homens que apareceram demais.
Homens que não ligavam.
Homens que ligavam demais.
Uma delas dizia que precisava dar um jeito de prender um homem.
Falou aquilo com a naturalidade de quem estava discutindo uma receita.
As outras riram.
Depois começaram a trocar métodos.
Demonstrar menos interesse.
Depois demonstrar mais.
Fazer ciúmes.
Desaparecer por dois dias.
Voltar como se nada tivesse acontecido.
Não responder imediatamente.
Responder quando ele estivesse começando a desistir.
Fazer com que sentisse falta.
A velha engenharia do afeto.
Pensei que talvez o amor moderno fosse isso.
Um jogo de caça com aplicativos.
Uma espécie de pesca esportiva onde ninguém quer admitir que está segurando a vara.
Uma delas falou que homem gosta de quantidade.
Outra discordou.
Disse que o problema era encontrar um que prestasse.
Elas riram novamente.
Eu fiquei olhando para o café.
Já ouvi aquela história antes.
Em bares.
Quartos.
Mesas de restaurantes.
Às vezes falando de mim.
Às vezes falando de homens que eu conhecia.
Às vezes falando de homens que eu não conhecia e provavelmente não queria conhecer.
Ja houvi que sou um homem de muitas mulheres.
Talvez seja.
Ou talvez eu apenas tenha vivido tempo suficiente para descobrir que os rostos mudam muito mais rápido do que as cicatrizes.
As pessoas chegam.
Fazem barulho.
Deixam alguma coisa sobre a mesa.
Depois vão embora.
Algumas deixam perfume.
Outras deixam contas.
Quase todas deixam alguma história que você prefere não contar inteira.
Nunca fui muito bom em explicar isso.
A verdade é menos interessante do que parece.
Nunca procurei quantidade.
Só não sabia muito bem como procurar outra coisa.
Durante algum tempo, confundi desejo com companhia.
Depois confundi companhia com amor.
Mais tarde descobri que nenhuma das duas coisas servia para preencher uma casa vazia.
Eu queria abrigo.
Só isso.
Um lugar onde não precisasse estar em guarda o tempo inteiro.
E abrigo é uma coisa rara.
Principalmente entre pessoas que passaram a vida aprendendo a partir antes de aprender a ficar.
Talvez eu também tenha feito isso.
Talvez tenha chamado de liberdade aquilo que, em algumas ocasiões, era apenas medo de descobrir o que aconteceria se eu permanecesse.
As mulheres continuavam falando.
Uma delas dizia que o problema era deixar o homem confortável demais.
Eu quase ri.
Conforto virou ameaça.
Imagine isso.
Duas pessoas passam anos procurando alguém com quem possam descansar e, quando encontram, começam a desconfiar porque o outro parece confortável.
Talvez tenhamos aprendido a confundir paz com desinteresse.
Talvez o barulho seja mais fácil de reconhecer como paixão.
Eu já confundi.
Muitas vezes.
Conquistar alguém é fácil.
No começo tudo ajuda.
A novidade ajuda.
O desejo ajuda.
A mentira ajuda.
Até o silêncio parece interessante quando ainda existe mistério.
Depois chegam as contas.
As manias.
Os dias ruins.
O mau humor.
As doenças.
Os parentes.
As mensagens não respondidas.
A roupa jogada no lugar errado.
A mesma história contada pela terceira vez.
O silêncio que não tem nada de sexy.
É aí que começa o trabalho.
E é aí que muita gente vai embora.
Não porque deixou de amar.
Às vezes porque descobriu que amar dá trabalho.
A mulher da mesa atrás falou que ninguém deve deixar um homem completamente livre.
Pensei no gato.
Ele tinha liberdade para sair pela janela.
Não saía.
Tinha comida.
Tinha água.
Tinha um lugar quente para dormir.
E ainda assim ninguém havia colocado uma tela naquela janela.
Talvez fosse esse o segredo que os humanos complicaram.
Não quero possuir ninguém.
Posse é medo fantasiado de amor.
Se alguém ficar ao meu lado, quero que fique porque poderia ir embora.
Quero que a porta esteja aberta.
Quero saber que existe uma rua do outro lado.
Quero que a pessoa possa caminhar para qualquer lugar e, mesmo assim, em algum momento, decida voltar.
Isso é muito diferente de prender alguém.
Prender é fácil.
Até animais sabem fazer isso.
O difícil é ser escolhido quando ninguém é obrigado a escolher você.
Fiquei olhando para o parque.
O sol já tinha descido mais um pouco e a chuva escurecia as ruas.
As sombras das árvores, sob relâmpagos atravessavam a calçada.
Um homem passou empurrando uma bicicleta.
Uma senhora caminhava rapido com duas sacolas de mercado.
Do outro lado da rua, um menino corria atrás de uma bola enquanto alguém gritava seu nome.
A cidade fazia o que sempre faz no domingo.
Tentava parecer tranquila.
Mas havia qualquer coisa de cansado em tudo aquilo.
Talvez porque domingo seja o dia em que as pessoas percebem que segunda-feira existe.
Pedi outro café.
A mesa atrás de mim tinha ficado mais silenciosa.
Por alguns segundos.
Depois uma delas disse que o problema era encontrar alguém que soubesse ficar.
Dessa vez ninguém riu.
Achei curioso.
Talvez aquela fosse a única coisa verdadeira que tinham dito naquela tarde.
Ficar.
É uma palavra pequena.
Mas custa caro.
Eu não me apaixono pela perfeição.
Nunca me interessou.
A perfeição é uma mentira bem vestida.
Gosto de quem sangra.
De quem tropeça.
De quem já perdeu uma guerra e ainda aparece no dia seguinte com a cara amassada para tentar outra vez.
Talvez porque eu conheça esse tipo de gente.
Talvez porque eu seja esse tipo de gente.
Carrego ferrugem na alma.
Algumas rachaduras.
Há coisas que o tempo não consertou.
Apenas ensinou a esconder melhor.
Também erro.
Muito.
E talvez tenha demorado mais do que deveria para entender que continuar presente na vida de alguém pode ser mais difícil do que conquistá-la.
No começo, quase todo mundo sabe ficar.
Depois é que começam os problemas.
Quando o encanto diminui.
Quando o outro deixa de parecer uma descoberta e passa a parecer uma pessoa.
Com seus defeitos.
Suas manias.
Seus medos.
Sua história.
Seu mau humor.
É nesse momento que você descobre se estava apaixonado pela pessoa ou pela versão que inventou dela.
Eu já tive versões.
Algumas bastante convincentes.
Nenhuma durou muito.
A maturidade talvez seja justamente isso.
Parar de procurar alguém que nos faça sentir completos e começar a procurar alguém diante de quem não precisamos fingir que estamos.
Não ofereço salvação.
Não tenho.
Não ofereço uma vida sem problemas.
Seria propaganda enganosa.
Ofereço café.
Silêncio.
Alguma honestidade.
E a possibilidade de continuar aqui quando a novidade acabar.
A conta chegou.
Paguei.
Fiquei alguns minutos olhando o parque antes de levantar.
As mulheres ainda estavam ali.
Agora falavam de outra coisa.
Talvez de homens.
Talvez de outra maneira de prendê-los.
Não importava.
Peguei o caminho de casa.
Quando cheguei, a bagunça continuava exatamente onde eu havia deixado.
Os copos.
Os brinquedos.
As migalhas.
As marcas da visita.
O cheiro de comida.
O gato continuava na janela.
Olhou para mim como quem verifica se o funcionário responsável finalmente voltou ao posto.
Depois voltou a olhar para a rua.
As crianças ainda não tinham voltado.
Talvez estivesse decepcionado.
Talvez apenas gostasse de esperar.
Fiquei pensando nisso.
Esperar também é uma forma de liberdade.
Você não espera alguém porque foi obrigado.
Espera porque quer.
Talvez seja por isso que a maturidade muda a maneira como enxergamos o amor.
Quando somos jovens, queremos ser desejados.
Depois queremos ser escolhidos.
Mais tarde, talvez, queremos apenas encontrar alguém que conheça nossas partes ruins e ainda consiga sentar ao nosso lado sem precisar fingir que elas não existem.
Alguém que poderia ir embora.
E sabe disso.
Mas fica.
Não porque foi convencido.
Não porque foi preso.
Não porque tem medo da rua.
Fica porque, entre todos os lugares possíveis, escolheu aquela mesa.
E talvez seja isso que eu tenha procurado o tempo todo sem saber dar um nome.
Não muitas mulheres.
Não muitas histórias.
Não muitas conquistas.
Só algum lugar onde dois sobreviventes pudessem parar por alguns minutos.
Olhar um para o outro.
Sem algemas.
Sem promessas grandiosas.
Sem precisar provar nada.
A porta continua aberta.
A rua continua ali.
Cada um poderia ir.
Mas ninguém vai.
E, depois de tudo o que já aconteceu, depois de todas as pessoas que passaram, todas as que partiram e todas as que juraram ficar, existe uma frase que ainda vale alguma coisa.
Não precisa ser dita.
Basta que os dois saibam.
Ainda estou aqui.
Quantas memórias...
essa cidade faz parte da minha história!
Eu deixei esse lugar quando eu era ainda muito jovem e demorei muito para voltar. Não porque eu não queria, mas porque a minha cidade natal, na qual passei minha infância e juventude, me traz muitas lembranças de pessoas que já se foram. Então, retornar significa encara todas essas emoções e sentimentos não resolvidos.
Mas, finalmente, estou aprendendo a lidar com isso. Voltar não me traz muita dor, pelo contrário, me traz um certo alívio e conforto. Agora, ao passar por essas ruas, consigo me lembrar com menos aflição de pessoas e momentos que fizeram parte da minha história.
Em breve vou embora novamente, porém, valorizando minhas raízes. Jamais vou esquecer de onde eu vim.
A verdade é que tudo o que mais ansiara era não esboçar fingimentos em meu rosto e finalmente expressar verdade.
Em outro universo eu havia te esquecido a ti e á dor que deixaste ao ires embora, já não pensava em ti e nos teus doces olhos.
Nesse universo eu não oraria a Deus e a todas as entidades que me enchesse com a tua presença.
Eu queria acreditar e nas tuas palavras vazias e fingir costume.
Nós não somos iguais.
O pecado venceu a força do forte — não porque era mais poderoso, mas porque o forte escolheu não resistir.
“Sansão.”
Elias não temia morrer.
Temia que o profético morresse com ele.
Seu lamento não era covardia,
era zelo pelo altar de Deus.
Paulo não era o mais religioso. Era o mais quebrado. A guerra dentro dele era maior que as de fora. Por isso se jogou no evangelho sem freio: era entregar tudo ou ser consumido. _At 9:15-16_
A mata, que era o meu reino
Hoje é cinza e solidão
Onde eu rugia com brio
Resta o som do caminhão
As cercas vão me prendendo
Onde antes era o meu chão
E o homem vai esquecendo
Que somos parte do mesmo quinhão.
Peço que o olhar se transforme
Que o respeito possa voltar
Pois se a selva adormece
A vida vai se apagar
Não quero ser só gravura
Ou um bicho de museu
Quero ser força da natureza
No lugar que Deus me deu.
Ainda há tempo de cura
De plantar o que se perdeu
Para que a onça futura
Não diga o adeus que eu disse ao meu.
Ele era capaz de tudo, mas não salvou a própria vida porque tinha que morrer por nós. Isso não é sobre vida ou morte; é sobre o que você pode fazer pelos outros.
Se Eu Soubesse Que a Vida
Se eu soubesse que a vida
Era um barco à deriva
Mas que nem sempre ela o era
Não ficava lá, parado na esquina que não se dobra
Nem perdia meu tempo a olhar horizonte
Não se deixe iludir pelo tempo, ele não é nosso amigo
Teria dormido menos, teria sonhado mais
Se soubesse que há fases na vida
Cujos sonhos quase sempre são verdade
E há verdades que são só palavras que vão no vento
Elas teriam sido o que são:
Só verdades de momento
Momentos importantes, de mudarem vidas.
Saía da esfera da dúvida
Fecharia as portas do meu coração
Para assim eu nunca sentir saudade
Pois saudade é uma semente
Que precisa antes madurar
Pra depois ser percebida
Eu não sei se é uma falha da vida
Que a espalha aos montes pelos caminhos
A teria sentido menos
E teria sido apenas
Se valesse a pena de ser sentida
Teria direcionado as velas do barco
E mirava um ponto no horizonte
Lhe teria dado outro rumo
Ah, se eu soubesse
Que de vez em quando há sonhos mais reais que a vida
E que há sonhos, de tão parecidos o são
Eles dão sentido às vidas, tão sincronizadas
Que nem as batidas das penas
Nas asas coloridas de um pequeno beija-flor
Me fartava todo dia, de tanta alegria
Se eu soubesse que todo tempo do mundo
Não era tanto tempo assim
Enfim, creio que nem tempo havia.
Edson Ricardo Paiva
o crime contra a mulher é feminicídio
e a pena pode chegar a 40 anos;
se a mulher era flamenguista,
o crime é de FLAMENGUICÍDIO
e a pena pode chegar a 400 anos.
Sustentei teus sonhos, fui cúmplice da tua paixão,
Criei raízes num amor que era só ilusão.
Mas não fui infeliz, não, não me arrependo.
Porque amar você, mesmo em vão, foi o que me fez viver, e ser.
(Saul Beleza)
O amor me ensinou a lição
que a felicidade é só uma estação.
Pensava que era só alegria.
Mas a verdade é outra, a dor também é dia.
Aprendi a suportar o que não vem no cardápio.
A espera, a saudade, o coração vazio,
amar de verdade é aprender a lidar
com as dores que o amor pode causar.
(Saul Beleza)
Assim caminhava João, estrada a fora, sol escaldante, botina apertada, calça larga, e imbira era o curião, camisa remendada com retalhos de um tecido cortado de um velho colchão de capim, na gibeira, algumas palhas para o cigarro, no bornal, uma banda de rapadura e uma lesga de carne seca, o cantil já pelo meio, água por perto não existia, o córrego estava a oito léguas a frente, João pensando na dificulidade da vida que levava, mas no fundo era feliz, pois estava longe dessa guerra que assusta o mundo.
Então, João continuou sua jornada, o sol a pique, a botina apertada, mas o coração leve. Ele sabia que a vida era dura, mas também sabia que a liberdade valia a pena. Ao longe, viu uma sombra, um oásis no deserto. Era uma velha árvore, com um córrego murmurante ao lado. João se aproximou, sentou-se à sombra, e começou a mastigar a rapadura, sentindo a vida simples, mas plena.
(Saul Beleza)
Os tempos eram bem melhores em termos de alimentação, quando a terra não era contaminada com tantos agrotóxicos, pois não existiam tantas doenças e males causados por tantas substâncias que usam para produzir alimentos.
Mas o homem em sua ganância, em querer sempre mais, sem se preocupar com o próximo, faz coisas que provocam alergias, vômitos, diarreias, leucemia, câncer e tantos outros problemas que afetam a humanidade. E nessa guerra silenciosa, muitos estão cada vez mais doentes e os que usam agrotóxicos não se preocupam, pois o que importa realmente é o dinheiro que vão lucrar e não com os malefícios que causam ao povo.
A solução seria usar produtos naturais em vez de agrotóxicos, pois com técnicas naturais daria melhor saúde e alimentos que não causassem tantos males. Existem muitas formas de trocar e usar coisas que existem na natureza e que não contamina os alimentos e que a terra existiria um equilíbrio bem melhor para a humanidade.
Mas enquanto isso não acontece, quem mais lucra com isso é a indústria de remédios, pois quanto mais gente doente, melhor pra quem fábrica remédios.
Espero que algum dia possamos ver realizar a consciência de que o homem será capaz de produzir nossos alimentos sem envenenar nossa terra mãe e que tenham respeito e amor para não trazer tantos males que causam os agrotóxicos. Espero ver a terra sorrir de alegria, quando sentir-se livre dos venenos que fazem mal e destroem tantos que desejam viver em harmonia com o meio ambiente.
