Encontro entre Amigos
As palavras de amor que suspiravam entre beijos, quase inaudíveis, longe de aludir a um distanciamento fatal da vida cotidiana, pareciam antes celebrar o fim de uma tortura atroz, a suspensão de uma pena que os tinha mantido separados por uma eternidade.
Estamos entre vocês. Mas tentamos não ser notados. Pode nos ver nas esquinas, embaixo de elevados. A nós foi dada uma segunda chance na vida. E nós a usamos para pôr em prática o plano divino de Deus. Para ajudar os outros.
[ONDAS INTERDISCIPLINARES]
Entre as metáforas muito empregadas para se falar dos diversos impulsos interdisciplinares que, de tempos em tempos, beneficiam determinado campo de saber, está a imagem das ondas. Certo campo de conhecimento está bem posicionado em seu lugar, como se fosse uma bela praia tropical, e de momentos em momentos o oceano lhe entrega uma vaga de ondas, que vêm banhar suas areias e as renova, mais uma vez. Há depois o repuxo. Mas então as águas já deixaram algo de si nas areias, que por isso já não são mais exatamente as mesmas. E as próprias ondas, por outro lado, também levaram consigo um pouco das areias que ajudaram a fertilizar.
A Interdisciplinaridade, entrementes, não envolve propriamente um campo de saber estático (a praia) e outro ativo (a onda). Os diálogos e movimentos interdisciplinares implicam dois campos de saber em movimento. Um atua sobre o outro. Os encontros interdisciplinares são como as águas de dois rios que se encontram, por vezes placidamente como se ensaiassem um abraço amoroso, por vezes defrontando-se com certa violência, como se uma corrente desejasse submeter a outra, absorvê-la dentro de si mesma para depois seguir adiante, fortalecida. Ou, então, um diálogo interdisciplinar pode ser comparado a duas ondas que se abraçam no meio do oceano, o que só poderia se dar se as ondas tivessem movimentos próprios para além daqueles que lhes são ditados pelo próprio mar. A imagem é aceitável?
Quando duas ondas se encontram – em uma operação da natureza que simultaneamente envolve, de cada parte, a suavidade e a violência, o abandono amoroso e o domínio quase belicoso – elas daí por diante levam consigo algo de uma na outra. Um encontro entre duas ondas não pode ocorrer sem que as duas partes efetivamente se transformem; e sem que, de alguma maneira, o próprio oceano, vasta extensão agitada por muitas e muitas ondas, também se transfigure. Fiquemos com essa imagem. A Interdisciplinaridade é um encontro de ondas.
[trecho inicial do livro 'História, Espaço, Geografia'. Petrópolis. Editora Vozes, 2017, p.9].
[DINÂMICA ENTRE FLUXOS E FIXOS]
A relação entre os dois conceitos – fixos e fluxos (Milton Santos) – não é apenas complementar. A rigor, estabelecem-se aqui relações dialéticas: uma série está sempre modificando a outra. A estrutura de um edifício, a organização interna da materialidade de uma instituição, os objetos nela contidos – e outros inúmeros aspectos que configuram a forma de um fixo – podem ser modificados para atender à demanda de uma função voltada para assegurar ou redirecionar determinados tipos de fluxos. Generalizadamente, pode-se dizer que a tecnologia dos fixos, sua forma, seu lugar na estrutura social, adapta-se para atender à necessidade dos fluxos. Não obstante, o inverso também é verdadeiro, pois as modificações nos fixos permitem novos fluxos, modificam as suas possibilidades de circulação, os seus ritmos e velocidades.
Este aspecto nos lembra de mais um ponto importante. Diferentes tipos de fluxos possuem velocidades diferentes. Assim, “a velocidade de uma carta não é a de um telegrama, de um telex, e de um fax” . Hoje, poderíamos acrescentar, nada se compara à velocidade dos fluxos de informações que circulam na rede mundial de computadores.
Os fluxos, enfim, atravessam o espaço, percorrem-no, circulam por toda a sua extensão, conduzem ações, decisões, eletricidade. “O espaço é teatro com fluxos de diferentes níveis, intensidades e orientações. Há fluxos hegemônicos e fluxos hegemonizados, fluxos mais rápidos e eficazes e fluxos mais lentos” . De resto, os fluxos estabelecem ligações entre os fixos, como vimos nos diversos exemplos e como podemos observar por toda parte. Alimentam-nos; suprem-nos de informação, de energia, de produtos diversos. E, em muitos casos, fazem com que esta energia, esta informação, estes produtos – ou o que mais conduzam no seu fluir – passem de um fixo a outro, estejam estes próximos ou distantes. No primeiro caso, temos fluxos locais. Para além deles, os fluxos podem ligar enormes distâncias, constituindo-se em escala nacional ou global.
[extraído de 'História, Espaço, Geografia'. Petrópolis: Editora Vozes, 2017, p.72-73].
A ênfase está na relação entre deficiências físicas e mentais e objetivos.
No entanto, no sentido técnico, em tempo de desenvolvimento, múltiplos registros podem ser definidos como objetos estabelecidos como sujeitos. Para ter uma conexão com um objeto narcísico, o eu com os outros deve ter uma conexão com o objeto narcísico. Ele sabe quais órgãos funcionam na relação narcísica entre ele e os outros, onde o eu é formado. Sua estrutura fictícia é processada em torno de outras imagens. Agora, a relação entre ver e ser visto inclui os órgãos, os olhos, só para citar. Coisas incríveis podem acontecer lá, coisas espantosas.
(LACAN, 2010, p. 134)
A INCONSTÂNCIA DO SILÊNCIO
Tão próximos e em meio de sentir tão distantes.
A oscilação entre amor e ódio, tira o descanso que resta em minha alma.
Te vê assim me dói, pois você também é parte de quem eu sou.
O orgulho invadiu tudo, assim, o silêncio se torna como facadas que invadem o meu ser, várias e várias vezes. Minha única esperança é de que você pare, entre as pausas de cada uma.
É explícito que não posso fazer nada, e isso me quebra em mil pedaços, ou, talvez eu esteja me reprimindo, como um covarde enquanto o mal zomba.
O que me resta é sentar sobre o solo e esperar que tudo mude, no passar da noite pelo dia, mas minha vontade é de sumir sem deixar rastros. Quem sabe assim vocês conheçam o meu silêncio!
Movimento... no mercado, chamamos marketing; nas relações entre cidadãos, política; na influência, poder. A soma desses movimentos e outros mais, chamamos de: vida!
Tenho por convicção existir ignorantes. Contudo, no estádio da vida; o jogo mostra que entre os curiosos e os arrogantes. A Vitória é do bom senso.
Entre brisas e tons divinos cantam os pássaros, enquanto o Sol, em seu esplendor, ergue-se no horizonte para mais uma jornada de luz e cor por este caminho infinito do céu. É a criação artística perfeita...
Enquanto isso, no fundo, entre as colunas colossais, a estátua da deusa Ísis pensativa, cobria o rosto hierático com um véu que ninguém jamais havia levantado.
[EVENTUAIS OPOSIÇÕES ENTRE CAMPOS HISTÓRICOS]
É digno de nota o fato de que algumas das 'dimensões' - os campos históricos que se referem aos enfoques que são trazidos a primeiro plano nos estudos historiográficos - podem começar por ser construídas na história da historiografia por contraste com outras, por vezes gerando certas oposições mais marcantes, até que em seu desenvolvimento posterior certas interfaces possam ser estabelecidas ou retomadas. De certo modo, a História Social e a História Econômica do século XX começaram a ser edificadas a partir de um contraste com a velha História Política que se fazia no século XIX – e isto resultou no provisório abandono de alguns objetos por estas novas sub-especialidades (por longo tempo, declinariam na prática historiográfica profissional do século XX a biografia de personalidades políticas importantes e a história das grandes batalhas, temas que depois retornaram nas últimas décadas do século XX). Em suma: o caleidoscópio historiográfico sofre os seus rearranjos. E estes rearranjos são eles mesmos produtos históricos, derivados das tendências de pensamento de cada época e das suas motivações políticas e sociais. Os paradigmas acabam sendo substituídos uns por outros, por mais que tenham perdurado, e trazem a seu reboque novas tábuas de classificação.
[trecho extraído de 'O Campo da História'. Petrópolis: Editora Vozes, 2004, p.21].
[ASSOCIAÇÕES ENTRE CAMPOS HISTÓRICOS: O EXEMPLO DA HISTÓRIA DA MORTE]
Os campos históricos associam-se uns aos outros, de acordo com os vários temas e recortes de pesquisa histórica. Podemos considerar, como exemplo, a História da Morte. Um historiador que esteja preocupado em coligir informações sistemáticas a respeito de uma determinada população historicamente localizada – ou, ainda mais especificamente, sobre os níveis e tipos de mortalidade desta população – estará realizando uma História Demográfica de caráter ainda descritivo, em que pese a sua importância para estudos posteriores. Poderá dar a perceber – através de gráficos construídos com informações cuidadosamente extraídas de fontes seriadas – aspectos relativos à idade média com que costumavam morrer os indivíduos deste ou daquele grupo social, os tipos de morte que mais freqüentemente sofriam (oriundas de doenças, de envelhecimento ou de violência social), os bens que costumavam testar para seus herdeiros, os valores monetários que eram habitualmente despendidos nos seus enterros, os tipos de destino que tinham seus corpos (cremados, enterrados, engavetados), a qualidade da madeira empregada nos ataúdes, a presença ou não de epitáfios, a ocorrência de extrema unção, ou sabe-se lá quantos outros aspectos que poderiam compor um panorama informativo sobre a morte na sociedade examinada.
Este seria obviamente um grande panorama descritivo, objeto possível de uma História da Mortalidade no sentido em que esta pode ser definida precisamente pela recolha deste tipo de informações. A “Morte” propriamente dita é contudo um fenômeno social. Ela gera representações, comoções, expectativas espirituais para os que irão partir e expectativas materiais para os que vão ficar. A incidência de um determinado número de mortes através da Peste Negra, comprovada para períodos como o do século XIV, pode ter gerado na época um certo imaginário, ter produzido transformações na religiosidade, ter modificado formas de sociabilidade, ter dado origem a novos objetos da cultura material (como as velas de sétimo dia ou os caixões da madeira menos nobre para atender à demanda de um número crescente de mortos). Um enterro pode ser examinado no que se refere a certos usos sociais, como por exemplo a presença de carpideiras ou a ocorrência de determinado tipo de discursos de despedida, ou ainda a forma de luto e resguardo oficialmente aceita que a viúva deverá observar para não correr o risco de transgredir as normas aceitas pelo grupo.
Os ritos, costumes, tabus, sentimentos, carências e representações gerados pelo fenômeno da morte são obviamente objetos de uma História Social, ou podem ser também objetos de uma História Cultural, de uma História Econômica, ou mesmo de uma História Política (dependendo da importância simbólica do morto). O historiador da Morte que pretenda fazer uma história que não seja simplesmente informativa ou descritiva, mas também problematizada, certamente encontrará caminhos para estabelecer conexões entre as informações numéricas ou padronizadas trazidas pelas técnicas da História Demográfica e as inferências sociais e culturais. Dito de outra forma, ele se empenhará em realizar não só uma História da Mortalidade, mas também uma autêntica História da Morte.
[trecho extraído de 'O Campo da História'. Petrópolis: Editora Vozes, 2004, p.23-24].
Entre o desejar e o alcançar, há o árduo trabalho de mergulhar em si, reconhecer virtudes e limitações, acolher tudo isso, ressignificar, e seguir em frente. Seja paciente com você. Acolha-se...
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