De Repente Nao mais que Derepente
Acordo de madrugada
Muito cedo despertei
Quando aprendi nas lições da vida
Que quanto mais palavras conhecesse
Menos eu compreenderia
A noite lentamente
Desvenda seu véu
Pra revelar que o Céu
Anda encoberto
Muito cedo compreendi
Que as respostas certas
Estão abaixo das nuvens também
desde que a minha mente
não obstrua a verdade
Escondida
Não pedras do Céu e do chão
Nas quedas que eu não caí
Nos restos de comida
Que o mendigo deixou pela calçada
Nas palavras ditas
Por quem definitivamente
Não tem noção do que diz
Mas segue a dizer
Constante e eternamente
Compreendi
Que não devo exigir
de mim mesmo a aprender
Com quem não aprende
Ouvem, mas não escutam
Falam demais
Fazendo cara de inteligentes
Escondendo a incompreensão
Por trás de um sorriso mudo
A vida me ensinou
Que todo mundo sabe tudo
E dizem que própria sombra
As abandona no escuro
Quando na verdade
A escuridão as persegue
Na mais intensa claridade
O dia prossegue
Vento e Sol de inverno
Eu penso no fogo eterno
Queimando pra eles
Que se deram
Quando pensavam se vender
Mentem
E chegam a crer
nas próprias inverdades
Concluo, então
que do muito que eles sabem
Cada um na própria
Arrogância e prepotência
Me descabe querer
Ser e saber igual a eles
Fico feliz
Em não ser nada
Tampouco melhor que ninguém
Ainda bem!
Edson Ricardo Paiva
Uma brisa mais leve
Um breve pensamento
E talvez eu me lembre
Onde foi que perdeu-se o brinquedo
Da criança que um dia eu fui
Mas o tempo prossegue fluindo
Nesta vida da gente
Pouca coisa existe realmente
Portanto não vale a pena
Carregar lembranças tristes
Quando a fruta apodrece
A semente germina
E assim que termina
Algo mais acontece
Pois nem sempre uma queda
Fatalmente
Vai representar ruína
A gente pode sempre
Não lançar a pedra
Nem dizer palavra
Porém se não o fizer
Morrerá sem descobrir
Por que as coisas estão
Aqui e ali
E mesmo assim
Todos prosseguimos caminhando
A caminho de um fim
Porém
Ninguém afirmou, sem dúvida nenhuma
Que o nada
Realmente represente um nada
Creio
Que talvez seja difícil agora
Compreender a tudo isso
Mas prossiga tentando
Intuitivamente a gente sabe
Que não nos cabem certas perguntas
Pois, nem todas elas
Juntas e mescladas
Poderão um dia
Responder a qualquer coisa
Que seja pouco mais que nada
A paz tão procurada
E aquele brinquedo perdido
Que a lembrança carregou na leve brisa
Continuam sempre lá
Tudo, com toda certeza permanece
Escondido nas dobras do tempo
E o tempo jamais se esquece
Portanto
Se de fato nada existe
Pense que isto traz a conclusão
da impossibilidade
de realmente inexistirem
Afinal, você pensa
E é nisto que tudo consiste
E, se tristeza não há, então
Nada pode ser assim... tão triste
Edson Ricardo Paiva
O gosto do sal
Importa muito mais
que a qualidade
da importância que o conferimos
Nem tudo que a vida traz ou faz
Se percebe exatamente
Na hora em que acontece
Pensamentos vão surgindo
Pra poder ou não ficar
Nisso consiste
Um pouco do que a gente é
Não é tudo que pode ou precisa
Ser vivido, falado ou escrito
O lado bom
e realmente honesto da vida
É ter a consciência que a viveu
Tanto nos bons
Quanto nos maus momentos
Tentando sempre e pelo menos
Se manter em pé quando acabarem
Pois às vezes eles são exatamente inversos
E a vida engana por diversas vezes
Não é tudo que se acaba onde termina
Dai você vai perceber
que as maiores dores nascem
por haver grande alegria
A imaginária linha do tempo existe
e nada permanece
No lugar onde deixamos
viver pode ser
Sentir saudade
De lugares e pessoas
que há muito passaram
Prosseguir caminhando
Sem jamais acompanhar seus passos
pois, enquanto houver vida
Não saberemos
se correram à frente
ou simplesmente deixaram-se
ficar pelo caminho
de vez em quando os sentiremos
No carinho da brisa e no calor do Sol
Sonharemos com isso
Estando a alma acordada
É preciso fé pra prosseguir
Pois caminhamos cegamente
e ninguém sabe onde vai
Aqueles que jamais te olharam de frente
Serão os mesmos a te acusar
de não ter olhado pra trás
A vida é futuro, passado e presente
numa coisa só
Pouca coisa chega ao seu destino
do jeito que saiu do peito
Continue amando
Nesta vida
Nem você, nem as coisas
e nem mesmo a própria vida
Nada
Nunca sairá perfeito
A maior propriedade do ar
está no fato de existir e não ser visto
e é triste, muito triste precisar correr,
Pra perceber a existência
do que existe
E saiba que a forma inversa
Sempre vai estar lá também
Pra maioria das gentes
Muito pouco interessa realmente
Não enxergam nem mesmo
O que lhes vai à frente
O tempo caminha
numa linha, qual se fosse equilibrista
A vida, um malabarismo
O mundo uma fera
Que exige que você
Faça sempre um pouco além
daquilo que ninguém quer
Porém, todo mundo espera
Portanto
A resistência do ar
O gosto do sal
E o pobre domador que ninguém via
Um dia, fatalmente serão sentidos
Seja, no final da vida
Inverossímil, incrível e mirabolante
Enquanto inexistente
E mesmo que seja triste
Não faz mal
Plante flores que não vai colher
e as frutas que não vai ver
Viver
É escrever a poesia que ninguém vai ler
Além de você
as coisas são assim
Num instante e simplesmente
Haverá de ter passado
Acabou-se a vida inteira, só isso
A única pessoa
Que vai prestar contas por tê-la vivido
é você.
Edson Ricardo Paiva
Eu me vejo pensando
Que coisa mais desprezível
Ter nascido na condição Humana
Raça sem jeito
Se olhar direito
Dificilmente alguém se salva
Mas estão todos certos
Nos seus tortos argumentos
Praticamente perfeitos
Se lhes damos ouvidos
Em suas teses e pontos de vista
É uma conquista pessoal
Pra nós mesmos
Qualidades que vão ao longe
dá até pra perdê-las de vista
Pessoas tão desprendidas
Abrem mão de tudo
O tempo todo
Pra logo em seguida
Abarcar a tudo que é seu por direito
E um pouco mais
Usando os dois braços
E mais aquela mão, que estava aberta
Certos das suas convicções
Que quase me convencem
Pois a sua razão
É sempre a razão mais certa
Sabem sempre de tudo
Sempre sabem onde vão
Cobertos de razão
Imbuídos de certeza
Pobre gente
Eternamente perdida!
Edson Ricardo Paiva
Me pego desejando
Que os raios de luz de Sol
Iluminem um pouco mais
As cores desbotadas
dos varais da minha infância
Lençóis de criança
Perdidos no tempo e distancia
Caras alegres de outros dias
Colhendo tristes frutos
Da estupidez semeada
Sol, infância, lençol
Não restou quase nada
Talvez um resto de poesia
Que a força dos ventos
Faz soprar por entre as folhas
Outros dias vem
Nasceres do Sol
Coloridos sem cor
Brilhares sem brilho
Pouca coisa
Quase nada
Nada além
da cor desbotada
Edson Ricardo Paiva
Sol de mês de agosto
Farpas de janeiro
Numa linda manhã de junho
O dia inteiro assim
Por mais que se faça
Vai ficando
Mais sem graça ainda
Alguém procura poesia
Pedindo que alguém as escreva
Talvez um dia ela seja lida
Numa linda manhã de chuva
Durante o velório de alguém
Que viveu e nem viu
E morreu num dia de abril
Pode ser
Que seja eu.
Edson Ricardo Paiva
A vida é uma coisa doida
Difícil de viver, se bem cuidada
E flui mais naturalmente
Quando gente não liga pra nada
Portanto
Os olhos fechados
Nos momentos de profundo pranto
Proporcionam uma visão mais aguçada
Pérfida e sórdida.
Somando-se a isto
A total ausência de ilusão
Muita gente ficaria estarrecida
Ao perceber
Que ela se torna um tanto assim
Menos estúpida
Guardadas as devidas proporções.
Proporciona uma cândida lucidez.
Explêndida!
Repleta da hipocrisia enrustida.
A gente dá voltas ao mundo
Enquanto parado
Ficando estacionado, andando em círculos
Percebe a Humanidade
Praticamente um corpo só
Imbuído de uma mente louca
Investido da rara qualidade
de saber amar
Possuindo pra isto
Um possessivo, enorme e falso
Amor de verdade
Conforme lhes convém
Me perdi
Foi aí que eu encontrei a solução
Se olhar direito, dentro de cada coração
Hoje eu sei:
Não há de se salvar ninguém!
Edson Ricardo Paiva
Havia um poço
Nos fundos de algum quintal
Onde existiu um olhar
Com ar bem mais moço
Existia um varal
Pra pendurar
Esperanças ou promessas
Que pra bem ou pra mal
Nunca mais houve outro igual
Essa pressa apressada em viver
Transforma tudo em lembrança
Enorme saudade
Essa coisa disforme
Sem nome
Do fundo do coração
Envio aos Céus uma oração
desde o começo
A vida correu
Ao avesso
E o poço estava lá
Meu moço olhar envelheceu
Desilusão acima de tudo
E eu me iludo
Hoje, ao nível do Mar
Não sopra o vento
E assim tudo navega
Ou se vive à deriva
Sem lágrimas
de maneira alguma
Não existe uma brisa para secá-las
Hoje, assim como ontem
Quase ninguém escuta
Aquilo que fala o coração
A melhor maneira
de viver como não se quer
Começa em fazer e fazer e fazer
Aquilo que quer
da maneira que convier
Nos fundos de algum quintal
Um poço secou
E se olhar direito
Talvez o olhar que existiu
Jamais tenha sido
do jeito que a gente viu.
Edson Ricardo Paiva.
Numa Tarde Qualquer.
Numa tarde qualquer
de um dia mais qualquer ainda
Talvez um vento no rosto
Um resto de saudade
Pesadas lembranças
Que o peso dos anos
Não suavizou
Uma dor no peito
O manso jeito
de olhar o mundo
Nunca mais foi o mesmo
Aquele tempo leve
Algo levou
Passou
Foi tão breve
Pode ser que hoje
Você reveja os motivos
Por tantos anos se esquivou
de lembranças tão vivas
Não te cabia
Mas sabe
Que um dia
Numa tarde qualquer
de um lindo dia
Ainda assim
Um dia mais qualquer ainda
Acaba
Tudo finda.
Edson Ricardo Paiva
A pensar
na ciência da existência
Me peguei me perguntando
No veneno mais mortal
Que veneno de folha ou de cobra
E o espinho que fere
Inteligência que afere e calibra
O mecanismo
que faz avançar, simulando marasmo
E rodar a cada engrenagem
Que faz doer o que não doía
Enxergar o que não via
E querer que volte
A aquilo que queria
Que fosse e não ia
Será que serão
Exatamente iguais
Nem menos
Nem mais
Todas as horas
Que agora sabemos
Que compõe o dia?
Edson Ricardo Paiva.
Chuva fina
A cara cinzenta do dia
Deseja a todos
Mais uma semana
de qualquer coisa que seja
Alegre ou triste
O dia começa igual a tarde
Parecendo que acaba e escurece
Sem nascer nem por de Sol
Apenas passa
Tão sem graça quanto a vida
Só isso
Chuva cinza
Como tem sido
Cinza e vazia
A cara de cada dia
Que tem nascido
Parece uma canção
Cuja melodia remete
A um tempo que há de nascer
Um tempo que promete
Ser tão cinza e tão frio
Tão vazio
Quanto tem sido
A própria vida
Dividida
Entre cinza e vazia
Embora também
Tenha sido bem fria
Mas isso ninguém viu
Pois já faz tempo demais
Que amanheceu
Chovendo assim
Edson Ricardo Paiva.
Amanhece mais um dia
O tempo passa
O mundo gira
Nasce o Sol
E o Sol se põe
Nuns dias
a gente sabe onde vai
Noutros não
É somente uma questão de tempo
A vida vai correndo como um rio
Os sinos tocam
Mas você não os escuta
Sopra o vento
E vai mudando a cara do mundo
Momento a momento
Corre o rio
Frio e calor
Seu coração se enchendo de amor
Transborda segredos
Pra depois se transformar em ódio
Ódio em medo
E o medo traz saudade
Nesse momento você pensa
Que já possui sabedoria
Mas foi só mais um dia
Um dia na vida que passa
Não há nada que se faça
Ou que se possa fazer
A vida passa
O cansaço te alcança
O teu coração repleto de espaços
Incompletos
Vazio de valor
Amores e abraços
Agora há somente
Espaço e lembrança.
Edson Ricardo Paiva.
Por mais que a verdade doa
Nunca minta pra si mesmo
Como quem mente
Com tanta desenvoltura
Que chega a crer
Na verdade das próprias mentiras
E jura que viu o não visto
Quando nega ter feito o malfeito
Insiste em não ver o que vê
Mas o tempo vai passando
E desvenda o oculto
A verdade mal contada
Um dia destoa na orquestra da vida
A lágrima contida
Com certeza um dia vai rolar
Se quiser, aproveite a hora pra chorar
Todo mundo sabe
Não existe um choro reprimido
Que um dia não doa
E dor, se muito guardada
Quando manda uma notícia
Não costuma ser notícia boa
Nem sempre sorriso é alegria
Assim como rotina
Não precisa ser igual todo dia
Alguma coisa acontece
Não há nada que se faça
Ou se possa fazer, quanto a isso
Existe um compromisso
Selado, assinado e não-escrito
Aproveita o teu tempo bonito e sorria
Mais dia, menos dia
A vida acontece
E quando acontece
O igual não é mais igual
Pra bem ou pra mal
As coisas mudam
São mudanças que se queria
Quando se queria que nada mudasse
Que bom seria
Se o mundo soubesse sonhar
Pois a vida acontece
E às vezes acontece
De um jeito que ninguém
Nem sequer sonhou que aconteceria.
Edson Ricardo Paiva
Mais daquilo que pode ser
Se ao menos valesse a pena
A palavra ouvida
A frase escondida nas entrelinhas
Poderia mudar tanto a vida
Que segue muda
A vida
Longa estrada, distraída
Um dia, lá no final, se percebe
Que a frase despercebida
Não foi lida
Nunca vamos saber
O que é que teria sido
Se tivesse sido
Do jeito que não se fez
Agora não tem mais jeito
Está desfeito
O que podia ser.
Edson Ricardo Paiva
Um pouco mais distante.
Era uma vez um cara
Que viveu num tempo
Um pouco mais distante
E saiu de casa de manhã
Em busca de uma longa espera
Na ânsia, como a conhecemos
Confundindo lágrimas com pérolas
Enxergou como pérolas grandes
As coisas simples e pequenas
Na inexperiência
de quem não se afasta,
Nem guarda a devida distância
Mas ele era apenas um cara
Que viveu num tempo diferente
E saiu pra colher diamantes num campo florido
Se soubesse, que depois do sol à pino
Perderia o rumo (no silêncio há sombras que se arrastam)
Inebriado, pelo falso colorido do desconhecido
Não tivesse ido tão longe
Escolhesse outro destino
Recolheu migalhas, como os próprios pássaros
Que apagaram o rastro na floresta
Só que agora ele não era mais
apenas mais um cara
Que viveu num tempo um pouco mais distante
Era alguém que estava perdido
Tão perdido como todo tolo
Que pensava saber onde estava
Iludido por pensar saber quem era
Perdido desde o dia
Que saiu de casa em busca de uma longa espera
O mundo não era assim
Porém, tinha se tornado, ao fim
Pra alegrar os olhos
de todo aquele que se vê perdido
E que, a partir de agora
Pra sempre ele estaria assim.
Edson Ricardo Paiva.
Cuba é um dos países onde o povo mais estuda:
Estuda um jeito de sair de lá, estuda um jeito de derrubar o regime.
Por mais palavras que você conheça
Existem ocasiões em que a resposta mais contundente é somente o seu silêncio.
O mais belo poema do dia
Nem sempre é aquele que lembra
Que a vida é um problema sem solução
Pois a vida não o é
Porém, muitos poemas que o dizem
São
A mais bela poesia
Nem sempre é aquela que agradece
O nascer de mais um dia
A vida merece que agradeçamos
Por cada momento que se vive
O dia é feito de momentos
Nem sempre há poesia
O mais bonito pensamento já escrito
Nem sempre aponta a solução
Alguns deles romantizam belamente
E apontam as folhas ao vento
Belíssimos de se ler
Quando quem as vai varrer
Não é a gente
O mais belo aforismo
Soneto, sextilha ou canção
Às vezes é aquele que diz
De forma simples e direta
Mesmo que para isso
Use palavras desconhecidas
Mas, mesmo assim, no fim
Todo mundo compreende
Que tudo aquilo que não ensina o amor
Com a dor a gente aprende.
Na paz de mais um dia
Que eu vejo amanhecer assim; sereno
Olho pra Terra, olho pro Céu
Imagino a imensidão deste infinito
Impossível calcular
A vastidão deste Universo, tão bonito
Difícil crêr
Que este Sol tão imponente já nem brilha
Num espaço relativamente curto
Que eu perceberia
Se pudesse seguir esta trilha
Olho pra Terra, olho pro Sol
Instintivamente me sinto
Parte integrante de Algo muito maior
Sou parte do Todo que existe
Daquilo que vejo e que não vejo
Acontece e aconteceu
Disto tudo fazemos parte
Você e eu
Aquele que partiu
e o que ainda não nasceu
De alguma forma estivemos
e estaremos sempre
Tanto lá quanto aqui
Na paz de mais um dia
Dia que há de passar
Pois tudo passa
Hoje o Sol brilha no Céu
Sua Luz me abraça
Eu também haverei de passar
Como passam os dias
Mas outros dias virão
Outras pessoas também
As coisas vem e vão passando
Passaremos eu e o dia
Pra sermos ainda lembrados
Vez em quando
Tudo que existe aqui
haverá de existir mais além
deixo às crianças do futuro
Um "bom dia!", um abraço e um "Amém"
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