Cronicas de Luiz Fernando Verissimo Pneu Furado
Não trate de política com quem não vê além da própria ideologia, ou de religião com quem se encerra dentro dos seus dogmas; também não fale do mundo a quem pensa saber tudo sobre ele, e nem do universo a quem já acredita conhecer todas as verdades. A sabedoria surge de não se abrir mão da busca, e só alcança os que descobrem não saber nada!
A Lei Natural a que todas as coisas se submetem nos revela quão pretensiosos nos mostramos ao julgar que, em algum momento, estivéramos de posse da Verdade. Se assim fosse o passar do tempo precisaria ser interrompido, de modo a não trazer a evolução que nos distancia dela. O ato de evoluir, por si só, é a prova inequívoca de que a Verdade apenas oferece pistas, mas nunca permite que a alcancemos.
Se você tem um segredo cuja revelação mudaria completamente sua relação com o mundo, pense duas vezes antes de revela-lo até mesmo à pessoa em quem mais confia. Mesmo sendo realmente confiável, não necessariamente o verá como algo a ser levado para o túmulo, já que o impacto do compartilhamento não será percebido por ela como o será por você.
A pessoa que te é fiel agora pode não continuar a sê-lo amanhã, dependendo dos rumos em que a vida os conduza. Também o grau de sigilo que emprestas aos teus segredos pode não ser razoável a ela daqui a algum tempo, para leva-lo tão a sério. Se tens então algum que pensas em levar para o túmulo, o bom senso sugere que o guardes somente para ti.
Qualquer fato começa pelas perguntas, e não por respostas, até que se torne incontestável para a ciência o admitir. Antes disso, afirmar ou negar qualquer coisa é só uma questão de crença e fé, baseadas em razões pessoais. A verdade não depende da ciência para existir: esta apenas a reconhece, o que torna inútil discutir quem tem ou não tem razão. É o bastante entender que nenhuma verdade permanece oculta para sempre, caso contrário o próprio tempo se incumbe de desmenti-la.
O verdadeiro buscador não traz a palavra "nunca" entre os verbetes de seu dicionário. Tem consciência de que descrer do intangível passa atestado de ignorância e imaturidade para a missão que cumpre, já que o termo não se estende ao impossível, mas apenas ao que ainda não se entende.
O naturista, para a sociedade que ainda precisa de regras para exercer o respeito, é esse pioneiro para uma futura geração de cidadãos mais saudáveis, num mundo onde o respeito mútuo está diretamente ligado aos valores que as pessoas desenvolvem, e não aos limites artificiais impostos de fora para dentro.
Naturismo é um ato muito maior do que ficar nu entre pessoas: é uma filosofia de vida que não tem início quando o naturista descobre seu corpo pela primeira vez, mas quando ele descobre a sua mente para um mundo idealizado no qual as pessoas não precisam de limites impostos pelas roupas para se respeitarem entre si.
As pessoas tóxicas são as piores inimigas delas próprias: levam tanto mal aos outros que fecham o cerco em torno de si mesmas, obrigando-se a manter na defensiva o tempo inteiro. Com o retorno que obtêm tornam-se ainda mais tóxicas. E quanto mais tóxicas, mais doentes ficam. É um ciclo negativo em moto-contínuo.
Durante uma pandemia o que está em jogo não é a disputa entre valentes que a enfrentam e covardes que se escondem. Ela acontece é entre irresponsáveis e conscientes, entre os solidários e os indiferentes, os que enxergam o todo e os que olham o próprio umbigo, e entre os que querem e os que não deixam que ela termine.
A lealdade precisa estar presente nos lados que se enfrentam. Assim como o xadrez, toda disputa humana deveria também ser um jogo de reis, para cada lance se mostrar compatível com a dignidade dos adversários. Daí o nome de “vida real” dado a este mundo de batalhas, ainda que tantos não vivam os valores que os remetem à sua natureza superior.
O buscador autêntico não tem a palavra “nunca” entre os verbetes de seu dicionário. Está consciente de que descrer do intangível passa atestado de ignorância e imaturidade para a tarefa que desempenha, já que o termo não é sinônimo de “impossível”, mas apenas do que ainda não se entende.
É assustadora a crise de valores dos dias atuais, amplamente disseminada entre os mais jovens e cristalizada nos mais velhos de formação desvirtuada. As pessoas confundem conceitos que antes tinham fronteiras bem claras, como amor e desejo, liberdade e libertinagem, e colocam coisas superficiais e essenciais, temporárias e permanentes no mesmo saco. Nunca os estados de ser e de estar estiveram tão misturados nas cabeças e nos sentimentos de tão significativa parcela da população, o que leva os mais conscientes a reavaliar, com cada vez mais freqüência, os próprios referenciais de vida para saber se não estamos perdendo os parâmetros de posicionamento perante tais conceitos.
Se as pessoas se limitassem a tentar convencer os outros apenas do que podem comprovar, sem cair na área da interpretação, já conseguiríamos eliminar um sem número de conflitos que dão causa, inclusive, a genocídios sob forma de “guerras santas” em defesa de teses que jamais se mostrarão irrefutáveis.
O problema do radicalismo é que seus defensores encaram suas "verdades" como a única alternativa possível. Acreditam-se tão superiores para ver o que a maioria não consegue enxergar que se distanciam da mais óbvia das realidades: a importância da diversidade para a coerência nas escolhas.
Após 30 anos de carreira, chega um momento na vida em que não se quer mais ficar provando nada pra ninguém. Recentemente descartei duas respeitadas instituições nacionais da minha carteira de clientes pela quantidade de documentação que teria de apresentar para lhes prestar serviços. Numa delas (para quem eu já vinha trabalhando há “apenas” 22 anos!) a cada novo trabalho me cobravam uma lista interminável de comprovações e pré-requisitos que, além de me deixar a sensação de eterno calouro, bastaria uma consulta no cadastro deles para encontrar tudo lá. Decidi então que aqueles que precisarem de mais do que algumas ligações para os clientes, listados às dúzias, no meu site profissional, com certeza não precisam tanto assim de mim... E nem eu deles!
Diante da inexistência do corpo de prova, tanto afirmar quanto negar é tendencioso e desprovido de senso crítico, base de toda conclusão científica, o que transforma qualquer posição incorporada em mera crença pessoal e hipotética. Assumir e se harmonizar com a dúvida, portanto, em vez de firmar posicionamentos, pode se mostrar como a mais honesta e inteligente das posturas.
Tendo no planejamento a base de tudo o que faço, sempre resisto muito a improvisos que, em contrapartida, se apresentam como fontes de satisfação para os que me entrevistam. Quase nenhum texto meu já sai pronto – já que cada frase é revista e passada pelo crivo de inúmeras possibilidades – o que pode transformar substancial ou até totalmente o resultado final. Entender tudo o que penso e submeter tal entendimento a pesada autocrítica é condição sine qua non para preservação do auto-respeito pela redução de erros e coerência com meu esquema de valores.
Por mais libertário que se mostre, você jamais se verá livre da ira dos que irão combater, de todas as formas possíveis e imagináveis, a sua liberdade de escolha. É quando a força de suas crenças e valores precisará provar ser maior que as cadeias nas quais pretendem aprisioná-lo independente de que nomes dêem a elas, entre as de natureza social, moral ou cultural.
A vida começa a atingir seu patamar ideal de qualidade quando reduzimos o espaço físico ao limite em que podemos arrumar e localizar cada objeto à noite sem necessidade de luz, e fora dele apenas ao que permite desfruta-la sem emprego de esforço ou dispêndio de tempo para o gerenciamento, com a certeza de que reunimos tudo o que precisávamos para sermos felizes.
