Cronicas de Luiz Fernando Verissimo Pneu Furado
Quando seu esquema de crenças responde “Sim” a seu próprio questionamento sobre se ele lhe chegou por seus próprios meios, em vez de absorvido por herança ou decorrente de “osmose”, então você pode ter certeza de que ele é legitimo, e nesse caso o menos importante será em que você acredita.
Pesquisadores e crentes jamais chegarão a um consenso, e a razão para isso é bastante simples: os primeiros são movidos por um desejo visceral de chegar à verdade, e os segundos por uma necessidade irracional de acreditar nas verdades que ouviram dos que os antecederam ou que, sem base alguma, construíram para si mesmos, apavorando-os a idéia de que podem ter estado enganados o tempo inteiro.
Sempre que alguém se referir a mim como “ético” irei receber aquilo como uma expressão de carinho entre duas pessoas que se estimam, mas nunca como elogio. É como esperar ser exaltado por estar dotado de cabeça, tronco e membros já que ética não é qualidade mas, em tese, algo inerente à toda a espécie humana. O dia que todos entendermos isso teremos priorizado a consciência, em lugar de sermos tidos como virtuosos.
Quando me perguntam porque não voltei a me casar fica difícil explicar que isso se deve ao meu senso de justiça. O fato é que adotei para mim uma forma de vida tão simples e austera que não seria justo impô-la a outra pessoa, a menos que eu não gostasse dela. Mas como não conseguiria me unir a quem não gostasse, a única opção que sobra é poupar a nós dois.
Sempre me pergunto sobre o tipo de “fé” que move aquele crente que se recusa a conhecer qualquer coisa fora da crença que traz. Questiono se o que ele acredita é forte mesmo como afirma, ou se é tão frágil que irá desabar como um castelo de cartas se não blindá-la por todos os lados, e é apenas o confronto que o assusta, pois que lhe pode tirar o chão dos pés. Apenas o que é falso depende de muros para sua sobrevivência, enquanto a verdade jamais teme ser exposta. Ao contrário, é dessa forma que ela se impõe.
Nunca me atenderá aquela corrente que troca o questionamento pela fé no que já chegou pronto. Antes de qualquer coisa é preciso esgotar as perguntas, depois esperar pelo momento em que alguma resposta bata forte em nosso interior para, finalmente, nos rendermos à crença decorrente de uma Verdade que se impôs por si mesma.
Há pessoas que com um único gesto conseguem fazer toda a beleza de anos se desmanchar ao primeiro contato com elas; e tudo o que se construiu durante uma vida inteira em minutos ser transformado em cinzas; como pessoas que antes conviviam em harmonia se virem cercadas de inimigos; e até o bem mais precioso que se possua sendo tratado como comida de porcos. Não são pessoas que se costuma falar como tendo um “dedo podre”, mas que carregam a podridão na própria alma e se ocupam em espalhá-la por onde quer que passem.
Indução subliminar é algo que, mesmo permanecendo atentos, nem sempre se conseguirá evitar. Mas a tentativa de convencimento explícito é inaceitável pelo fato de subverter o pensamento alheio por meio de convencimento, que não se distingue em nada de manipulação, e ninguém que respeita a si mesmo pode deixar de lhe impor severa resistência por se ver tanto desrespeitado quanto subestimado em sua inteligência.
As coisas úteis e factíveis que nos esforçamos para tornar acessíveis a outrem correspondem à nobre missão de educar. Mas as subjetivas e controversas - como suas crenças, valores e ideologias - nunca o serão. Daí que subverter a ordem alheia pelo seu uso vem sempre impregnado de interesse próprio e não de preocupação com o bem alheio, revelando-se, portanto, indigno e desrespeitoso quando levado a quem quer que seja.
Se a intenção é chegar à idéia perfeita, o meio mais eficaz é submetendo-a ao maior número possível de cabeças, pois que surgirá do confronto de muitas. Mas se o objetivo é comunicar o que se pensa, não há nada mais idiota do que optar pelo compartilhamento coletivo, pois ganhará mil versões que tornarão vis seus pensamentos mais nobres. Nunca a humanidade universalizou o “besteirol” e gerou tantos conflitos como depois de inventar os famigerados “grupos instantâneos”, onde os minutos de fama são usados para jogar tinta de inteligência sobre os pensamentos mais medíocres, de modo a compartilhar asneiras, inflamar egos e despertar rancores.
Como nos disse Hobbes, “o homem é o lobo do homem”. Uma coisa, pois, que a vida ensina e está sempre nos lembrando é que podemos passar toda a existência nos entregando às pessoas de corpo e alma, mas logo na primeira vez em que se sentem contrariadas elas esquecem tudo o que foi feito, e a única coisa que parecem sentir é de não terem ido com a sua cara desde criancinha.
Qualquer tipo de censura é o caminho mais rápido para o autoritarismo ilegítimo e arbitrário, pois que o estado toma para si o direito de substituir a seu bel prazer as escolhas das pessoas, o que transforma seus cidadãos em fantoches subservientes e manipuláveis. Cabe ao estado garantir a ordem e o princípio de licitude, o que não inclui a decisão sobre assuntos de cunho ideológico, filosófico, moral ou de qualquer outra natureza que não se traduza por crime tipificado pelos dispositivos legais. Moralidade é assunto de natureza essencialmente pessoal, e seu controle atenta contra todo e qualquer sentido de Liberdade. Compete ao indivíduo decidir sobre o que quer ou não quer ver, ou a seus filhos, e cada vez que permitimos que o estado o faça em nosso lugar, aceitamos ser convertidos em seres abjetos e servis, que se confessam incapazes de gerenciar sua própria trajetória. Ter as rédeas dela nas mãos chama-se DEMOCRACIA, que tem como maior missão preservar o que você tem de mais sagrado, que é sua LIBERDADE.
Semear Conhecimento é como jogar sementes da janela de um trem: elas são espalhadas ao acaso, mas é a terra que as recebe a responsável por fazê-las germinar, o que só acontece caso estejam prontas para abriga-las em seu seio e fornecer-lhes a água que as transformará em lindas e perfumadas flores.
A forma de demonstrar que amamos nossos filhos é deixando-os livres para ser como são, com suas idéias, dificuldades e idiossincrasias. O tempo de cobranças é encerrado no momento em que saem do ninho para viver suas vidas, e é quando amor passa a ser sinônimo de respeito, e suas buscas por nós o melhor termômetro de que seguimos cumprindo com nosso papel.
O problema do extremista de esquerda é partir da premissa de que todo político de direita é tirano, e o de direita acreditar que todos os de esquerda são terroristas. O fanatismo não lhes permite entender que tanto pode existir direita moderada quanto esquerda libertária em uma democracia sem que o substantivo esteja obrigatoriamente associado ao mesmo adjetivo. Assim como toda unanimidade é burra, o fanático ideológico só vê seu igual, a exemplo da toupeira que só consegue enxergar no seu próprio ambiente de trevas.
Existem pessoas tão exploradoras e egocêntricas que nos deixam a nítida sensação de que qualquer sacrifício que façamos por elas será sempre inútil, pois que jamais o notarão. Cobram sempre mais e mais, nunca se satisfazem e basta que não se vejam atendidas uma única vez para sermos transformados nos seres mais abjetos, frios e indiferentes que já pisaram o planeta.
Estás descobrindo que ainda não aprendeste nada sobre a vida? Então aprende mais uma coisa: o ato de viver é uma guerra na qual terás que enfrentar gigantescas e dolorosas batalhas – algumas mais fáceis e outras terrivelmente difíceis – e onde não és posto guerreiro; precisarás aprender a sê-lo por ti mesmo se quiseres sobreviver pelo tempo que te foi dado. Mas não te exasperes nas em que amargaste a derrota, pois estas é que te deixarão capaz de enfrentar as que ainda estão por vir. Lembra apenas de que a ira das guerras é combustível apenas enquanto dura a batalha e, depois dela, veneno, para que não a retenhas em ti como medalhas de bravura. Ao fim de cada batalha dedica teu tempo à cura das feridas e deixa a guerra dentro da guerra, caso contrário a perderás para ti mesmo.
Neste século das “modernidades”, que bem poderia ser chamado de “a era das caras e bocas” por substituir o conteúdo pela vaidade concentrada no fútil, a qualidade - que um dia já foi a regra - cedeu espaço quase absoluto à quantidade daquilo que, em muito se peneirando, em muito pouco se distancia do nada.
A vida pública requer ser gerenciada com o máximo de cautela. Por mais que a justiça dos homens se revele complacente e a clemência de Deus ofereça o perdão, a História, nem mesmo com o passar dos séculos, nos brindará com a mesma generosidade. A omissão é um dos crimes mais graves, porque todas as atrocidades são cometidas por conta dela sem que ninguém se sinta culpado.
Já ouviu falar em “persistência de cupim”? Pois saiba que, ao lidar com eles, a única certeza que se terá é que enquanto houver madeira eles não irão desistir da guerra pela sobrevivência. Se há algo de positivo em descobri-lo é que, se os imitássemos com relação ao que precisaríamos trazer para nossas próprias vidas, o mundo que vemos hoje teria deixado para trás a maioria de suas mazelas.
