Cronicas de Luiz Fernando Verissimo Pneu Furado
Pessoas manipuladoras se mostram perigosamente nocivas porque adulteram tudo a seu favor no contato com as demais, comprometendo suas reputações por mais íntegras que se mostrem. E isso porque são hábeis em culpar os outros pelo que intencionalmente produzem na tentativa de obter vantagens. Mas o pior vem depois, quando espalham aos quatro ventos que elas é que foram vítimas das artimanhas criadas para manipular aquelas das quais se aproximam. A única forma de proteção é permanecer bem longe de suas teias, por mais sedutoras que se mostrem, já que a sedução também é parte indissociável do processo.
Os descrentes, amargos e agressivos que nos são próximos estão fadados a uma vida triste e solitária, além de bem mais breve que as dos demais, uma vez que afastam de si todos os que poderiam oferecer-lhes auxílio. Quantas vezes temos a solução para o que precisam, mas nos vemos impedidos de ajudá-los, pois que nos constrangem o espírito e, para nos protegermos de suas amarguras, somos obrigados a permanecer à distância, por mais que isso nos entristeça.
Uma encruzilhada apresentará sempre duas direções além daquela de onde você veio: uma à direita e outra à esquerda. Qualquer delas o afastará do caminho do meio, conduzindo-o a um dos extremos. Mantendo-se na que vem seguindo, o risco será reduzido por já conhecer a estrada, além da reta mostrar de longe para onde leva. Extremos nunca se mostram, portanto, como referência de equilíbrio e bom-senso.
Independente de quem esteja certo em um dado momento, é lamentável tentar convencer a nós mesmos que o lado que defendemos nunca comete erros, e o que se combate é o único responsável pelos erros de ambos. A tal atitude não se deve olhar como apreço pela verdade, mas apenas sintoma de extremismo por um dos lados mesmo nos casos em que o doente não se mostre consciente disso.
A verdade nunca será uma questão de crença, mas de lógica. O falso pode existir sem um antes ou um depois; mas a realidade requer várias peças ligadas pela coerência de todo o conjunto, e ela seguirá sendo o que é, quer você acredite ou não. A pergunta a ser feita, portanto, não é se o registro que se tem é verdadeiro ou falso, mas se todos os elementos da sequência conduzem o entendimento até revelar sentido, mesmo quando resistimos em aceitá-lo.
Ingenuidade? Esse não é o refúgio da inteligência. Hermetismo? Menos ainda, pois que revela a limitação própria dos arrogantes. Entre a credulidade e o ceticismo é que as verdades do universo buscam abrigo, pois a lógica cobra análise antes de aceitação, e a rejeição ao improvável não se justifica por crenças instaladas ou pela ausência delas. Ninguém sabe o bastante para transformar seu pensamento unicelular no resumo do Cosmos.
Qualquer modalidade de manipulação é desonesta e indigna, não importa se disfarçada ou feita às claras. Entenda-se por manipulação a indução de outrem a fazer o que não deseja mesmo em nome de um suposto benefício, como a aproximação de pessoas que só é vantajosa para um dos lados. Esse tipo de artifício – conhecido por “armadilha” – não está buscando levar um bem aos envolvidos, mas atender um interesse pessoal onde o manipulador é que se vê desconfortável se mantida a situação vigente, enxergando no resultado de sua ação um duplo ganho: resolver o próprio problema e ainda passar por “bonzinho”!
Revolta gera extremismo. que gera polaridade e esta resulta na idéia irracional de que, para se ver livre de algo ruim, se precisa abraçar outra igualmente péssima. Age-se como se o peso exagerado de um dos extremos só pudesse ser compensado com outro idêntico mas do lado oposto, repetindo a lei de Newton de que a toda ação corresponde uma reação igual e contrária. Só que essa regra se aplica a uma lei da física, e o cérebro dessas pessoas reage exatamente como uma matéria inerte ao invés de um órgão autônomo provido de inteligência.
Trata-se de uma lei natural: seja no âmbito da vida política ou na pessoal, a oposição exerce um papel primordial no equilíbrio de forças que se opõem. Na ausência desta a situação assume todas as prerrogativas da autocracia que a ausência de resistência lhe franqueia, cobrando a ingerência de forças externas para o resgate da sensatez e da ponderação. O problema é o desgaste levado à rotina de quem se propõe a cumprir o papel do interventor, levando-o a questionar se deve comprar uma briga a que não deu causa mesmo sabendo que, direta ou indiretamente, acabará afetado por ela.
Para aquele que crê somente naquilo para onde sua razão o conduziu, é inquestionável o momento de se deparar com algo que seu ceticismo vai negar sem lhe dar argumento para contradizer, sua lógica irá rejeitar sem uma explicação para colocar no lugar, seu modelo do real buscará referência na lista do conhecido e ali não a poderá ver, e o mental buscará a resposta em seu sistema de crenças e nenhuma se encaixará. Restar-lhe-á então a reação da criança que, nada podendo fazer com o que tem à sua frente, tapa os olhos diante do inefável.
Surpreende sempre, aos demais e a ti próprio, colocando-te como um camaleão frente à vida! Se fazes de teus dias uma rotina que não se altera, te transformas em pesado compromisso para os que te cercam, e esvazias o sentido do existir para ti mesmo. O encanto só se instala quando te renovas continuamente. A única coisa que não requer mudares é o teu caráter.
Um país dá início ao seu processo de autodestruição quando troca o sentido de nação pelo de estado, com a massa crítica que brotava de dentro pra fora cedendo lugar ao estabelecido de fora pra dentro. Sabemo-lo quando seu povo abdica de sua visão analítica para integrar hordas de convertidos. O aniquilamento de sua unidade natural extirpa a visão sistêmica que o livra dos extremos, e é quando numa mesma família se vê membros da esquerda radical e da extrema direita se enfrentando sem se dar conta de que cumprem uma agenda onde autorizam seus lideres a fazer qualquer coisa. Nela o conceito de certo ou errado quebra o elo com ações do agente para ser automaticamente encaixado no do “nosso certo” e do “errado deles”.
Duvidar do desconhecido que se mostra improvável é mais do que razoável. Mas duvidar do constatável por meio simples, sendo impedido apenas pelo ceticismo de quem se acredita no domínio do conhecimento, não difere em nada do ignorante absoluto. São apenas duas faces de uma mesma moeda onde uma exibe uma imagem e a outra apenas uma face vazia.
Se você continua figurando entre os contatos com livre acesso ao que publico saiba que não é por acaso. Eles jamais são escolhidos por critério de quantidade, mas de qualidade: ou integram o grupo dos que possuem um espírito tão libertário e combativo quanto o que trago em mim, ou o tem tomado por uma natureza tão íntegra que lhe permitirá um dia transformar-se em alguém que o possua, ou então compõe o grupo dos que não despertaram e até mesmo nunca o farão, e daí precisa saber que existem muitos opondo incansável resistência ao tipo de idéia que você defende!
O que muitos não conseguem entender é o parâmetro que diferencia o libertário dos que nunca chegarão a sê-lo. Por definição, ele não é uma dessas pessoas que aceitará o mundo como o encontrou, principalmente quando agride princípios e valores norteados pelo bem comum, dos quais deve ser parte indissociável. Assim, enquanto seguir buscando pelo lhe dê alguma vantagem sobre seus iguais, não será um deles, pois que a liberdade nunca será privada, e só se faz legítima quando estendida a todos. E não lhe será exigido abrir mão de sua humanidade para sentir-se “a caminho da iluminação”, podendo conviver com seus múltiplos defeitos desde que entre eles não se inclua o de tentar prejudicar outro ser vivente, nem o espaço ocupado por eles para usá-lo em conformidade com o que seja melhor para ele próprio.
Algumas pessoas já nascem sensíveis, ou conseguem desenvolver sua sensibilidade à medida em que se descobrem apaixonadas pela vida. Outras nunca o serão, ainda que gastem suas vidas tentando projetar essa imagem aos outros, ao confundir sensibilidade com a natureza meramente biológica da inteligência. Estas quase sempre verão nas primeiras apenas figuras “esquisitas”, o que não altera nada em suas essências pois que – como já sabia Giordano Bruno em sua época – a verdade não muda porque se acredita ou não se acredita nela.
Passei décadas de minha vida tentando levar meu melhor a todos à minha volta até constatar que só viam meu lado pior para poder criticá-lo como se aquilo fosse o que eu realmente era. Até que parei de tentar convencê-los do contrário ao descobrir que esse contrário ao que eles queriam sempre havia sido como eu deveria ser.
Passei muito tempo me culpando por não conseguir devolver o gostar de alguém que demonstrava me colocar acima de qualquer outra pessoa, até me perceber preferindo aquelas que estendiam seu amor a todas as outras, pois quando o direcionam apenas a mim não é porque sejam realmente boas, mas por querer exercer egoisticamente o seu direito de preferência.
Toda tecnologia à frente de seu tempo é retratada como milagre e, com muita frequência, até fantasias e mitos do folclore popular recebem mais credibilidade que fatos reais apenas por se mostrarem mais conhecidos ou comuns. Não raro escolhe-se aceitar a existência de fantasmas e negar o que é possível provar por simples aplicação da lógica.
A resistência automática a todo tipo de “ismo” está baseada no entendimento de que os únicos direcionamentos de que precisamos é Consciência e Ética. Todos os demais se prestam a realizar algum tipo de lavagem cerebral, e entre eles se incluem as crenças que passam de geração a geração, com exceção apenas das que brotam, espontânea e livremente, de dentro do próprio indivíduo.
